Os helvécios () eram os habitantes pertencentes à denominada cultura celta, ocupantes da maior parte do planalto suíço à época de seu contato com Roma no Sua mais ampla descrição que chegou aos dias atuais é a de Júlio César no primeiro livro de seu De Bello Gallico, que descreve a guerra empreendida contra estes enquanto tentavam migrar para o sudoeste da Gália.

Etimologia O endônimo Helvetii pode ser derivado da raiz protoindo-europeia *pelh1u- "muitos", céltico elu-, que é visto no galês elw, significando "ganho" ou "lucro", e o prefixo irlandês antigo il-, significando "muitos" ou "múltiplos". A segunda parte do nome foi por vezes interpretada como *etu-, "terreno, campina", assim interpretando o nome tribal como "rico em terras".Xavier Delamarre, (, 2003), pp. 162 and 168.

O nome da personificação nacional da Suíça, Helvécia, e o nome neolatino do país, Confoederatio Helvetica, são ambos derivados do nome Helvetii e do seu território, Helvécia ().

Organização Tribal Das quatro pagi ou sub-tribos helvécias, César nomeia apenas os Verbigenos (Bell. Gall. 1.27) e os Tigurinos (1.12), Posidônio os Tigurinos e os Tōygenoi (Τωυγενοί). O último pode ou não ser idêntico aos Teutões nomeados por Tito Lívio.Um erro de transmissão pode ter ocorrido, transformando o nome Τουτονοί em Τουγενοί, levando então à tradicional forma de Estrabão Τωυγενοί. Um marcador de pedra com as inscrições INTER TOVTONOS CAH(F?) achado em Miltenberg no rio Meno (que teria sido a fronteira nortenha no antigo território helvécio de acordo com Tácito, Germânia, 28) é às vezes citado para afirmar essa teoria. Veja Staehelin, 1948, p. 59; Estrabão 4.1.8, 7.2.2. Escritores antigos normalmente classificam os Teutônicos como "germanos" e os Helvécios como "gauleses", mas essas atribuições étnicas são debatíveis.A fluidez desses termos é bem ilustrada por Ludwig Rübekeil, , Vienna 2002.

De acordo com César, o território abandonado pelos Helvécios comprimia 400 vilas e 12 ópidos (assentamentos fortificados).César, De Bello Gallico, I, 5 Sua contagem da população total tomada de registros helvécios capturados escritos em grego é de pessoas, incluindo guerreiros, idosos, mulheres e crianças.César, De Bello Gallico, I, 29 Entretanto, essa imagem é dispensada como alta demais para estudiosos atuais, já que escritores militares antigos tendem a exagerar grandemente nos contingentes.Cf. G Walser, Caesar und die Germanen. Studien zur polit. Tendenz römischer Feldzubgerichte.” Historia, Einzelschrifen, Vol. 1, 1956.

Como muitas outras tribos, os Helvécios não possuíam reis à época de seu embate com Roma, ao invés disso parecem ter sido governados por uma classe de nobres (Lat. equites).Outras aristocracias tribais eram os éduos (César, De Bello Gallico, I, 3), osArvernos (Bell. Gall. 7.4) e os Remos (César, De Bello Gallico, I, 3). Quando Orgetórix, um de seus mais proeminentes e ambiciosos nobres, fez planos para se tornar o seu rei, enfrentou a execução por queima quando declarado culpado. César não nomeia explicitamente as autoridades tribais processando o caso e reunindo homens para apreender Orgetorix, mas se refere a eles pelos termos latinos civitas ("estado" ou "tribo") e magistratus ("oficiais").César, De Bello Gallico, I, 4.

História Primeiras fontes históricas e assentamentos O nome dos Helvécios é mencionado pela primeira vez em um graffito em uma embarcação de Mântua (ca. 300 a.C).Reprodução em R.C. De Marinis, Gli Etruschi a Nord del Po, Mantova, 1986. Na inscrição em letras etruscaslê-se eluveitie, o que foi interpretado como a forma etrusca do céltico (h)elu̯eti̯os (“o Helvécio”), presumidamente referindo-se a um homem de descendência helvécia vivendo em Mântua.

Em sua História Natural (ca. 77 AD), Plínio apresenta um mito fundador para o assentamento celta na Gália Cisalpina, no qual um Helvécio chamado Hélico tem o papel de herói cultural. Hélico trabalhou em Roma como artesão e então retornou para sua casa ao norte dos Alpes com um figo seco, uma uva e um pouco de óleo e vinho, sendo o desejo por esses a causa de seus conterrâneos invadirem o norte da Itália.Plínio, o Velho, Naturalis Historia 12.2.

O historiador grego Posidônio (ca. 135–50 BC), cujo trabalho está preservado apenas em fragmentos por outros escritores, oferece o mais antigo registro histórico dos Helvécios. Posidônio descreveu os Helvécios do fim do como "ricos em ouro mas pacíficos", sem dar uma indicação clara da localização de seu território.Estrabão 7.2.2. Sua referência ao garimpo de ouro em rios foi tomada como evidência para uma presença anterior dos Helvécios no planalto suiço, com o Rio Emme sendo um dos principais mencionados por Posidônio. Essa interpretação agora é comumente descartada,SPM IV Eisenzeit, Basel 1999, p. 31f. já que a narrativa de Posidônio torna mais provável que o país deixado por alguns do Helvécios para se unir aos saques dos Teutões, Cimbros e Ambrones fosse na verdade no sul da Alemanha e não a Suíça.

O geógrafo alexandrino Ptolemeu (ca. 90–168 AD), que nos conta de Ἐλουητίων ἔρημος (i.e. "terras helvécias abandonadas") ao norte do Reno, confirma que os Helvécios originalmente viviam no sul da Alemanha.Ptol. 2.11.6.Tácito sabe que os Helvécios já se estabeleceram entre o Reno, Meno, e a floresta Hercínia.Germ. 28.2. O abandono desse território ao norte é normalmente colocado no fim do século II a.C, em torno da época das primeiras incursões germânicas no mundo romano, quando os Tigurinos e Toygenoi/Toutonoi são mencionados como participantes nos grandes ataques.

Primeiro contato com os Romanos

As tribos germânicas dos Cimbros e Ambrones provavelmente alcançaram o sul da Alemanha em torno do ano , onde eles se uniram aos Tigurinos e, provavelmente, Teutoni-Toutonoi-Toygenoi. (A identidade exata desses últimos não é clara.Posidônio via os Toutonoi/Teutoni como um subgrupo dos Helvécios. Cf. Furger-Gunti, p. 76f.)

As tribos começaram uma invasão conjunta à Gália, incluindo à romana Gália Narbonense, o que levou à vitoria dos Tigurinos sobre um exército romano sob o comando de L. Cássio Longino próximo a Agedinco em , na qual o cônsul foi morto. De acordo com César, os soldados romanos capturados foram ordenados a marchar sob um jugo montado pelos Gauleses triunfantes, uma desonra que pedia por vingança tanto pública quanto privada.César, De Bello Gallico, I, 12. César é a única fonte narrativa para este evento, já que os livros correspondentes de Tito Lívio estão preservados apenas nos Periochae, curtas listas resumindo os eventos, nos quais os reféns entregues pelos romanos, porém nenhum jugo, são citados.L. Cassius cos. a Tigurinos Gallis, pago Heluetiorum, qui a ciuitate secesserant, in finibus Nitiobrogum cum exercitu caesus est. / Milites, qui ex ea caede superauerant, obsidibus datis et dimidia rerum omnium parte, ut incolumes dimitterentur, cum hostibus pacti sunt. (Periochae LXV)

Em , os aliados aniquilaram outro exército romano próximo a Aráusio, e seguiram saqueando Espanha, Gália, Nórica e o norte da Itália. Dividiram-se em dois grupos em , com os Teutões e Ambrones marchando por uma rota a oeste através da Gália Narbonense e os Cimbros e Tigurinos cruzando os Alpes pelo leste (provavelmente pelo Passo do Brennero). Enquanto que os Teutões e Ambrones foram exterminados em por Caio Mário, os Cimbros e os Tigurinos passaram o inverno na Planície do Pó. No ano seguinte, Mário destruiu os Cimbros na batalha de Vercelas. Os Tigurinos, que haviam planejado seguir os Cimbros, retornaram através dos Alpes com seu saque e se juntaram àqueles Helvécios que não haviam participado dos ataques.

De Bello Gallico A participação dos Helvécios no De Bello Gallico é por vezes apresentada como a justificativa e pretexto para a conquista da Gália, mas deve-se lembrar também a provável utilização política de seus argumentos, logo talvez a história apresentada por ele não seja diretamente correspondente à realidade. Para mais informações, ver RIGGSBY, Andrew M. Caesar in Gaul and Rome: War in Words. University of Texas Press, 2006 e BELTRÃO, C. Campos de Batalha, Espaços de Guerra: Os Comentarii de Bello Gallico de Caio Júlio César.Brathair Edição Especial, nº1, p. 38-45,2007.

Orgetórix e a preparação para migração

A primeira menção aos Helvécios ocorre já no primeiro parágrafo, onde César afirma que eles excedem todos os outros povos gauleses em valor, por estarem praticamente todos os dias em guerra contra os Germanos, tanto defendendo seu território quanto adentrando em território germano.César, De Bello Gallico, I, 1. Devido a sua terra, continua César, compreendida entre os rios Reno (separando seu território do dos povos germânicos) e Ródano (que, em conjunto com o Lago de Genebra separava-os do território romano) e o Jura (separando-os dos Sequanos),César, De Bello Gallico, I, 2. ser confinada entre barreiras geográficas e pelos Helvécios serem um povo que ansiava pela guerra, Orgetórix (descrito por César como o mais nobre e mais rico dentre os Helvécios), facilmente convenceu a comunidade a marchar de seu território com toda força, já que, por excederem em valor, facilmente poderiam assegurar a soberania sobre toda a Gália. Ibidem. Começaram então a se esforçar para reunir o máximo que podiam de gado de carga e carro, semear o quanto podiam de milho para ter suprimento suficiente para a marcha e estabelecer paz e amizade com as comunidades mais próximas, no prazo máximo de dois anos, tomando marcha no terceiro, e sendo Orgetórix o responsável por atingir esses objetivos.César, De Bello Gallico, I, 3. Orgetórix então convenceu a Cástico, filho de Catamantaledes, dos Sequanos, considerado "amigo do povo Romano", a tomar a coroa de seu povo, que seu pai tivera antes dele; e também a Dumnórix, irmão de Divicíaco, dos Éduos, a quem, além disso, deu a mão de sua própria filha em casamento, para que os três, através do esforço das três tribos mais poderosas e inabaláveis, pudessem juntos conquistar toda a Gália.Ibidem.

Entretanto, informantes revelaram esse complô aos Helvécios que, de acordo com seu costume, convocaram Orgetórix a um julgamento no qual caso você condenado seria queimado vivo.César, De Bello Gallico, I, 4. No dia de seu julgamento, Orgetórix reuniu no local todos os seus retentores, chegando a dez mil homens, além de seus clientes e devedores, também em grande número, e através deles escapou do julgamento. Os que seriam seus juízes, entretanto, querendo fazer valer a justiça, começaram a reunir de todas as partes um exército para afrontá-lo, quando chegou a eles a notícia de seu suicídio, do que os Helvécios suspeitaram. Ainda assim, o plano de marchar para além de seu território prosseguiu e, quando julgaram-se preparados para partir, queimaram todas as suas fortalezas (em torno de doze), aldeias (em torno de quatrocentas), todos os outros prédios públicos e todo o milho que não puderam carregar, com o intuito de, ao remover toda e qualquer esperança de retornar para casa, estivessem mais preparados para qualquer perigo de sua jornada.César, De Bello Gallico, I, 5. Convenceram então seus vizinhos, os Raurácios, os Tulíngios e os Latobrígios, a adotar o mesmo plano, carregando cada homem provisões para três meses; e se juntaram a esta "aliança" os Boios, que haviam sido habitantes além do Reno, mas que haviam invadido o Reino Nórico e atacado Noreia.

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