Histórias e Bicicletas (Reflexões, Encontros e Esperança), ou simplesmente Histórias e Bicicletas, é o nono álbum de estúdio da banda brasileira de rock cristão Oficina G3. Lançado em 30 de abril de 2013 pela gravadora MK Music, o projeto é o segundo e último trabalho inédito do grupo com o vocalista Mauro Henrique e o único a trazer o baterista Alexandre Aposan como integrante.
Gravado em 2012 com produção musical e arranjos da própria banda no RAK Studios, em Londres, Histórias e Bicicletas contou com a colaboração do cantor e compositor Leonardo Gonçalves nas sessões de gravação e seu repertório, em grande parte, foi inspirado pela morte de Jaky Dantas, primeira esposa de Mauro Henrique, após um tratamento de câncer. Desta forma, o disco abordou temas como morte, saudade e eternidade. Musicalmente, o álbum mescla as influências do metal progressivo exploradas pelo Oficina G3 em projetos anteriores, mas também outros gêneros, como rock e metal alternativo.
Histórias e Bicicletas foi bem recebido pela crítica, sobretudo pela gravação no exterior e a abordagem poética das composições. Do ponto de vista comercial, esteve entre os lançamentos brasileiros mais vendidos no iTunes e recebeu certificação de disco de ouro por mais de 40 mil cópias físicas comercializadas. Em 2013, a obra foi premiada no Troféu Promessas na categoria Melhor CD de Rock. As sessões de gravação do projeto e o contexto de gravação do trabalho também foram lançadas como parte do DVD Histórias e Bicicletas - O Filme (2015), com depoimentos dos integrantes e a participação de Gonçalves nos vocais de "Lágrimas".
Antecedentes thumb|esquerda|Show da banda Oficina G3 em Novo Hamburgo, em 2010. Desde 2008, quando Mauro Henrique ingressou na banda Oficina G3, o grupo viveu um período de estabilidade em sua formação enquanto quarteto e com a participação de Celso Machado (guitarra) e Alexandre Aposan (bateria). Sob esta configuração, foram lançados Depois da Guerra (2008) e D.D.G. Experience (2010). O prêmio de Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa dado a Depois da Guerra também foi um dos pontos altos desta fase.
Em 2011, a banda encerra a turnê relacionada a Depois da Guerra e anuncia a YourTourG3. O repertório, dessa vez, foi escolhido pelo público em votação da internet e consequentemente trouxe várias canções da banda, incluindo antigas. Em agosto, o grupo foi indicado em algumas categorias do Troféu Promessas: Melhor DVD, da qual foi finalista, e Melhor Banda, também finalista. Nesse mesmo ano, em 16 de agosto, o Oficina G3 anunciou a oficialização de Alexandre Aposan como baterista do conjunto.
Ao mesmo tempo que o grupo vivia momentos de êxito comercial e de crítica, a vida pessoal dos integrantes era afetada por diferentes acontecimentos. O baixista Duca Tambasco se viu em polêmicas com o divórcio de seu primeiro casamento tornando-se público na mídia evangélica. Na época, a causa da separação foi creditada a uma traição de sua ex-esposa com um pastor da igreja a qual frequentavam. Duca lamentou em suas redes o fato de sua filha ter ido morar junto com a ex-esposa. Jean Carllos, já num contexto mais discreto, também passou por um divórcio e namorou por um tempo a cantora Israela Claro, filha de Cláudio Claro, mas o relacionamento foi encerrado tempos depois. Num sentido contrário, Aposan vivia um tempo positivo com o nascimento de seu primeiro filho. E o vocalista Mauro Henrique, por sua vez, viveu uma das principais situações que inspiraram Histórias e Bicicletas: sua primeira esposa, Jakylene Dantas, morreu em 2012 após um diagnóstico de sarcoma nos ossos no final de 2010. Composição thumb|Histórias e Bicicletas foi dedicado à esposa do vocalista Mauro Henrique, que morreu de câncer em 2012. As canções de Histórias e Bicicletas são, em grande maioria, composições da própria banda, com exceção de dois covers e uma composição de co-autoria de Jaky, esposa de Mauro. Jakylene Dantas, que morreu em 2 de março de 2012, esteve em tratamento de câncer por cerca de dois anos e o seu caso, já em metástase e sem expectativa dos médicos de cura, era público. Em julho de 2011, fãs seguraram papéis em apoio a Jaky em um show ocorrido em Fortaleza, enquanto a banda tocava "Incondicional". A ação se deu pelo fato de ter sido, em Fortaleza, a cidade em que Mauro recebeu uma ligação de sua esposa para comunicar sobre a doença. A situação de Dantas foi se agravando ao longo do tempo, e Jaky chegou a passar o Natal de 2011 internada com Mauro no hospital. Na ocasião, os dois chegaram a gravar um vídeo e cantaram a música "Vim para Adorar-Te", do Vineyard Music Brasil. Menos de um mês antes da morte de sua esposa, Mauro chegou a escrever em seu Twitter que Jaky estava sem andar, respirando com a ajuda de oxigênio, sentindo dores e que tinha dificuldade para se alimentar. Ao mesmo tempo, o cantor disse, em várias ocasiões, que Dantas estava tranquila e encarou o processo com sobriedade e coragem.
A música deixada por Jaky foi "Descanso". Anos depois, Mauro disse que os dois trabalhavam juntos em várias composições e Jaky tinha o sonho de gravar um álbum, o que foi tentado sem sucesso durante o tratamento, quando Dantas já estava no hospital. O cantor também chegou a dizer que o repertório de Histórias e Bicicletas estava praticamente pronto quando "Descanso" foi apresentada para os demais integrantes, que desejaram gravá-la.
Em relação ao repertório autoral, maioria das composições foram feitas entre Mauro, o guitarrista Juninho Afram, o baixista Duca Tambasco e o tecladista Jean Carllos, embora Alexandre Aposan também seja creditado como compositor em "Água Viva", "Não Ser" e "Sou Eu". Mauro Henrique disse, em 2024, que apresentou a banda esboços de cerca de 50 músicas, e que todos trabalharam juntos nas faixas definitivas do álbum. Dessa forma, o vocalista acabou desempenhando um papel criativo inicial em todas as músicas do projeto. Em entrevista dada em 2015, Jean chegou a abordar que as dificuldades envolvidas na vida pessoal dos integrantes influenciou as letras do álbum. Na ocasião, ele argumentou que era necessário que a banda fosse transparente sobre suas dores e alegrias, o que segundo ele foi feito em outros projetos. Juninho Afram, por sua vez, disse que a primeira música feita para o álbum foi "Confiar". O guitarrista disse que a canção abordava sobre a possibilidade de momentos bons e ruins na vida e a dificuldade de aceitar a vontade divina. Mauro se lembra que os versos de "Confiar" foram inspirados nos sentimentos confusos que teve ao retornar do hospital, já no contexto do câncer de sua primeira esposa. O ambiente hospitalar, ainda, inspirou a letra de "Compartilhar", que foi elaborada por Henrique e Tambasco a partir de uma experiência de sofrimento vivida pelo cantor em uma das internações de Jaky e, ao mesmo tempo, a passagem de um casal feliz com o nascimento de uma criança no mesmo local.
Nos anos antecedentes a Histórias e Bicicletas, a banda tocar alguns covers em alguns shows e apresentações, tanto de artistas religiosos quanto não-religiosos, como "I Still Haven't Found What I'm Looking For" (U2) e "My Hero" (Foo Fighters). Para o álbum, a banda escolheu regravar um dos maiores sucessos de Kleber Lucas, "Aos Pés da Cruz", que tinha sido lançada originalmente em 2001 no álbum homônimo, também distribuído pela MK, e que já tinha sido tocada ao vivo pela banda. Em uma apresentação ao vivo, Mauro chegou a dizer que "Aos Pés da Cruz" era uma das canções cantadas por ele e Jaky no hospital. A banda também optou por gravar uma música em inglês, "Save Me From Myself", composição original da banda Carpark North e também regravada pelo cantor Michael W. Smith.
Gravação thumb|esquerda|Leonardo Gonçalves (em foto de 2015) convenceu a banda de gravar o álbum em Londres e coordenou as sessões de estúdio. Os integrantes do Oficina G3 viajaram para Londres juntamente com o cantor e compositor Leonardo Gonçalves, que também tinha gravado tempos antes o álbum Princípio e Fim (2012) no exterior e, por isso, atuou como coordenador da gravação. Gravar o disco no exterior foi uma sugestão dada por Gonçalves. A banda, especialmente o líder Juninho Afram, inicialmente relutou com a ideia, sobretudo por questões financeiras. Mas Leonardo, que viveu parte de sua vida na Alemanha, convenceu os integrantes que não era impossível e a banda fez orçamentos de vários estúdios. Em entrevista dada ao Guia-me em 2015, Jean Carllos falou que o maior desafio era a hospedagem, mas que o grupo conseguiu encontrar soluções que coubessem nas finanças do Oficina G3. Além de Gonçalves, também viajou o diretor Hugo Pessoa, que tinha trabalhado no álbum D.D.G. Experience (2010), com uma equipe. Pela primeira vez, o grupo ficou completamente responsável pela produção musical e arranjos de um álbum, uma decisão que foi tomada pelos músicos após fazerem a pré-produção do projeto e ficarem satisfeitos com o resultado geral.
A banda gravou o álbum em cerca de 15 dias juntamente com o engenheiro de som Richard Woodcraft, que até aquele ano já tinha conduzido gravações de artistas e bandas como The Coral, Kylie Minogue, Placebo, The Tears, e a engenharia de som de álbuns notáveis como In Rainbows (Radiohead) e The Age of the Understatement (The Last Shadow Puppets). Mauro Henrique e Duca Tambasco eram fãs do trabalho de Woodcraft feito especificamente em In Rainbows, o que motivou a escolha. Tanto os músicos, Gonçalves, Hugo Pessoa e Woodcraft, iam para o estúdio e voltavam dirigindo bicicletas, um recurso que foi adotado pelo Oficina G3 para viabilizar o deslocamento entre o hotel e o local de gravação, já que o grupo estava com apenas um carro e vários equipamentos de som para carregar. Enquanto os músicos andavam de bicicleta, o carro era usado para carregar instrumentos e também era utilizado para as filmagens de arquivo do álbum. A banda fez poucas aparições nas redes sociais, com a publicação de algumas fotos ainda em agosto de 2012. Leonardo Gonçalves, no Twitter, disse: "Estou profundamente impressionado e emocionado com o que vi da gravação do Oficina G3 hoje. Cada vez mais admiro esses caras!".
Alexandre Aposan contou, anos mais tarde, que a participação de Leonardo Gonçalves foi fundamental durante a gravação, sobretudo em relação ao fato do cantor ter um inglês fluente. Além disso, segundo ele, Gonçalves conhecia bem o RAK Studios e a rotina dos funcionários. Aposan também afirmou que a bateria foi montada por Woodcraft e Helen Atkinson, sua assistente, e que nenhum integrante do grupo poderia ver o processo. A banda gravou as músicas do álbum ao vivo no estúdio, ou seja, com todos tocando com conjunto, com o objetivo de ser o mais orgânico possível. O baterista ainda lembra que Leonardo fez o Oficina G3 gravar as mesmas músicas de Histórias e Bicicletas cerca de 10 a 15 vezes, até encontrar um take que fosse considerado o ideal.