A invasão eslava dos Bálcãs durou do século VI ao século VIII. Como resultado da invasão, todo o quadro étnico da península, que foi despovoado pela praga de Justiniano, mudou radicalmente.Barbarians in the Balkans
Tribos eslavas habitavam compactamente toda a península, até as ilhas do Mar Egeu e o Peloponeso. Até grupos compactos de eslavos se mudaram para a Anatólia e ficaram conhecidos como eslavos da Ásia Menor.Historische Angaben über das Eindringen von Slaven in Griechenland.
Antecedentes thumb|direita|Situação histórica em c. 560 d.C., antes da invasão dos ávaros panônicos, segundo Francis Dvornik (1949–1956) Antes do período das grandes migrações, a população do Sudeste da Europa compunha-se de gregos antigos, ilírios e trácios que haviam sido romanizados e helenizados, bem como de cidadãos e súditos do Império Romano. Comunidades de bastarnas, ésciros, hérulos, gépidas e lombardos também se faziam presentes em meados do século VI. Após as campanhas devastadoras de Átila e dos godos (outrora federados, foederati), que culminaram na queda do Império Romano do Ocidente (c. 476 d.C.), o imperador romano oriental Justiniano I iniciou um amplo programa de reconstrução de fortalezas, cidades e templos. Contudo, a Praga de Justiniano (estendendo-se de 541–549 até meados do século VIII) dizimou a população autóctone, enfraquecendo as guarnições do limes panônico e danubiano. Diversos fatores, entre os quais a Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia e a pressão demográfica, impulsionaram a migração dos primeiros eslavos, parte dos quais passou a ser liderada a partir de meados do século VI pelos ávaros panônicos (ao passo que outros encabeçaram a ofensiva contra os próprios ávaros). A assimilação de novas práticas agrícolas e costumes materiais medievais europeus também estimulou o crescimento demográfico entre as populações eslavas.
Os primeiros eslavos podem ter marcado presença esporádica na Bacia dos Cárpatos já na época dos sármatas jazígos (estando possivelmente associados aos limigantes). É possível que tenham participado das campanhas dos hunos e de diversas tribos germânicas a partir do final do século V, conquanto inexista confirmação expressa nas fontes documentais coevas, servindo de indício linguístico o registro dos termos medos, kamos, strava em um acampamento militar huno.
História
thumb|direita|Situação histórica em c. 560 d.C., antes da invasão dos ávaros panônicos, ilustrando a localização de esclavenos, antes, gépidas, lombardos e hérulos (segundo Pavlovič 2017; Filipec 2020). Os eslavos que se estabeleceram no Sudeste da Europa dividiam-se em dois grandes grupos: os antes e os esclavenos. As primeiras incursões eslavas atestadas com segurança datam do início do século VI, durante o reinado do imperador romano oriental Justino I (r. 518–527), coincidindo com o desfecho da Revolta de Vitaliano de 511–518. Procópio registrou que, em 518, um volumoso exército de antes, «que habitam próximo aos esclavenos», transpôs o rio Danúbio adentrando o território romano, sendo severamente derrotado pelo magister militum per Thraciam Germano. Em 536, cerca de 1.600 cavaleiros eslavos, «hunos» e antes chegaram à península Itálica como reforço bizantino em socorro a Belisário, atuando também como arqueiros montados. Os saques prosseguiram com investidas sucessivas e de intensidade crescente durante o principado de Justiniano I (r. 527–565); Procópio relata que a totalidade do Ilírico e da Trácia (onde pereceu em combate o magister militum Quilbúdio) era pilhada quase anualmente por hunos, esclavenos e antes, que causavam enorme destruição às populações provinciais romanas, reduzindo as regiões fronteiriças a um verdadeiro «deserto cita». Jordanes encarava a devastação promovida pelos eslavos como uma punição divina pelos pecados do Império. É plausível também sua participação na incursão hibernal dos «hunos» em 539–540, que assolou as províncias desde a costa do mar Adriático até as muralhas de Constantinopla. Por volta da década de 540, os esclavenos acolheram o príncipe lombardo no exílio Ildígis (filho de Risiulfo), que fugia da contenda entre Auduíno e Turisindo, auxiliando-o a reunir um contingente militar de 6.000 guerreiros gépidas e esclavenos que apoiou temporariamente Turisindo e, na península Itálica, a causa do rei ostrogodo Tótila, embora a localização geográfica exata desses grupos eslavos permaneça objeto de debate acadêmico (situando-se muito provavelmente na Bacia dos Cárpatos, junto à fronteira danubiana).
No final da década de 530 ou início dos anos 540, esclavenos e antes «tornaram-se hostis entre si e travaram batalha, na qual os antes acabaram derrotados por seus oponentes». Em 545, Justiniano I conseguiu firmar aliança com os antes para conter as incursões húnicas na região do Baixo Danúbio, o que estimulou novas invasões de esclavenos a partir do Médio Danúbio. Segundo Procópio, por volta do verão de 550, uma massa sem precedentes de esclavenos «como jamais se vira cruzou o rio Íster e chegou às vizinhanças de Naísso» (atual Niš), com o objetivo de sitiar Tessalônica e as cidades vizinhas. Ao saberem que Germano reunia tropas substanciais em Sérdica (atual Sófia), a sudeste de Naísso (originalmente destinadas à campanha na península Itálica contra os godos de Tótila, mas redirecionadas para conter a invasão eslava; enquanto Narses combatia os cutrigures em torno de Filipópolis), os esclavenos abandonaram o plano de ataque inicial, transpuseram os desfiladeiros dos Alpes Dináricos no Ilírico e penetraram na província da Dalmácia. Germano faleceu subitamente pouco tempo depois, e o comando do exército passou para seu genro João e seu filho Justiniano, que receberam ordens para marchar à Dalmácia, passar o inverno em Salona e dali seguir rumo a Ravena. Quando as forças imperiais alcançaram a Dalmácia, a primeira coluna esclaveno-bárbara havia se fundido a uma segunda leva que acabara de cruzar o Danúbio, «assolando os domínios romanos com plena liberdade... dividindo-se em três colunas e infligindo destruição irreparável... não apenas saqueando a região com ataques rápidos, mas invernando como se estivessem em sua própria terra, sem receio algum do inimigo», imobilizando o avanço bizantino para Ravena sem, contudo, travar combate campal. Procópio relata suspeitas de que os chefes esclavenos teriam sido subornados com somas vultosas por Tótila para atrair as forças imperiais e inviabilizar a ofensiva terrestre bizantina contra os godos na Itália.
Por fim, o imperador Justiniano reuniu um grande exército comandado pelos generais João, Narses, Constantiano, Arácio, Justino (filho primogênito de Germano) e pelo eunuco Escolástico como comandante supremo. Na primavera de 551, essas forças confrontaram uma das três divisões eslavas perto de Adrianópolis (na Trácia), onde «os romanos foram derrotados de forma decisiva. Naquela batalha tombaram muitos dos melhores soldados, e os generais escaparam por pouco de cair prisioneiros, salvando-se com dificuldade com os remanescentes do exército, cada qual como pôde»; os esclavenos capturaram o estandarte militar de Constantiano, saquearam a Ástica e alcançaram as Muralhas de Anastácio, onde guarnições romanas conseguiram repelir parte dos invasores, recuperar o estandarte e libertar cativos, partindo os bárbaros, contudo, com vultoso botim. No mesmo ano ou no início de 552, outra leva de esclavenos acompanhada por 12.000 cutrigures assolou o Ilírico, auxiliada duas vezes pelos gépidas na travessia fluvial (como os gépidas controlavam as passagens no Médio Danúbio, Sava e Drava, incluindo a região de Sírmio, facultavam uma rota que contornava as fortalezas do limes e permitia atingir a Mésia Superior, o Ilírico, a Trácia e as cercanias de Constantinopla):
thumb|direita|Área de povoamento da elite dos ávaros panônicos entre os séculos VI e IX. O Canato Ávaro, estruturado nos territórios outrora ocupados por gépidas, lombardos e esclavenos, configurou uma sociedade multiétnica. thumb|direita|Localização presumida e rotas migratórias das tribos dos dulebes e croatas brancos, segundo V. V. Sedov (1979) thumb|direita|Rota migratória dos sérvios no século VII. Em retaliação às investidas de esclavenos e cutrigures, Justiniano financiou os utigures para atacarem a retaguarda dos cutrigures, debelando temporariamente o perigo.Kaldellis, The New Roman Empire, 2024, capítulo 13. Como contramedida adicional, os bizantinos apoiaram os lombardos contra os gépidas, culminando na derrota destes na Batalha de Asfeld, o que forçou os gépidas a restabelecerem a aliança com Constantinopla e a suspenderem a travessia de incursores em suas barcas. Paralelamente, Justiniano I executou um extenso programa arquitetônico-militar com a edificação e restauração de mais de 600 praças fortificadas dispostas em três cordões defensivos nos Bálcãs, razão pela qual não se registraram invasões autônomas de esclavenos entre 552 e 577. Em 558–559, bandos esclavenos uniram-se aos cutrigures chefiados por Zabergano em uma incursão pelos Bálcãs (repelida pelas forças de Belisário na Batalha de Melâncias), e em 568 os cutrigures assolaram também a Dalmácia.
O quadro geopolítico transformou-se com a chegada dos ávaros panônicos (após o colapso dos gépidas em 567 e a partida dos lombardos para a Itália em 568). Os ávaros enfrentaram os antes e subjugaram parcelas de antes (em 562, embora estes mantivessem autonomia como aliados de Bizâncio até 602) e de esclavenos (os eslavos panônico-danubianos perderam sua autonomia entre 571 e 578, enquanto os grupos do Baixo Danúbio e da Valáquia operavam de forma independente, associando-se aos ávaros como aliados a partir de 585). Considera-se improvável que os ávaros tenham exercido autoridade direta e simultânea sobre a totalidade dos povos eslavos do Danúbio, e, «quer de forma autônoma, quer a soldo dos ávaros», as incursões contra as províncias romanas continuaram frequentes.
Com a morte de Justiniano I, o imperador Justino II (r. 565–574) suspendeu o pagamento de tributos aos ávaros, desencadeando as guerras ávaro-bizantinas (568–626). Com o exército imperial ocupado na Ásia pelas guerras contra o Império Sassânida (572–591 e 602–628), ávaros e eslavos intensificaram seus ataques ao longo da fronteira balcânica, desde o norte da península Itálica até o sul da Grécia; por volta de meados do século VII, os eslavos haviam se assentado por praticamente todos os Bálcãs e no Peloponeso. Menandro Protetor assinala que, no quarto ano do reinado conjunto de Justino II e Tibério II (578), cerca de 100.000 esclavenos do Baixo Danúbio e da Valáquia saquearam a província da Trácia. João de Biclaro acrescenta que as pilhagens esclavenas alcançaram as cercanias das muralhas de Constantinopla. Diante da crise, Tibério articulou uma aliança com o cã ávaro Baiano I; após a delegação enviada ao chefe eslavo Daurencio ter sido assassinada, cerca de 60.000 cavaleiros ávaros apoiados pela questura do exército bizantina e pelo general João atacaram os assentamentos esclavenos, forçando suas populações a se refugiarem nos bosques. A ofensiva resgatou cativos e praças fortificadas, mas não estabilizou a região: no ano seguinte, nova embaixada ávaro-romana no Ilírico caiu em emboscada esclaveno-bárbara enquanto o cã planejava desmantelar o sistema defensivo bizantino. Com base em escavações arqueológicas em fortificações, a devastação eslavo-ávara da Dalmácia ocorreu no final dos anos 560 e início dos anos 570, verificando-se povoamento residual até fins do século VI.