Chemtou ou Chimtou () é um sítio arqueológico no noroeste da Tunísia onde se encontram as ruínas da antiga cidade de Simitthu (ou Simithu ou Simitthus), parte da província romana da África Proconsular.
A povação foi fundada no pelos Númidas, foi depois romanizada, tendo-se extinguido no século IX ou X. Situada a cerca de 20 km a oeste da cidade de Jendouba, perto da fronteira com a Argélia, encontra-se no cruzamento de duas rotas importantes: a que ligava Cartago a Hipona (atual Annaba) e que ligava Thabraca (atual Tabarka) a Sicca Veneria (atual El Kef). A cidade é conhecida principalmente pelas suas pedreiras, de onde era extraído mármore amarelo (marmor numidicum ou giallo antico), um dos mais preciosos do Império Romano.
As ruínas representam um período de ocupação de anos e ocupam mais de 80 hectares que não estão completamente escavados. A primeira escavação foi levada a cabo no final do . No final dos anos 1960 uma equipa tunisino-alemã realizou várias escavações, que puseram à vista alguns elementos da cidade e uma via que ligava a Thabraca e permitia encaminhar o mármore para o Mediterrâneo. Os vestígios encontrados são típicos das cidades romanas: templos, termas, aqueduto, anfiteatro, além de alojamentos para os operários das pedreiras, cujo número era superior a mil.
Em 2012, o governo da Tunísia propôs a inclusão de dois elementos do sítio para uma futura inclusão na lista do Património Mundial da UNESCO: a necrópole númida, como parte dos mausoléus reais da Numídia, da Mauritânia e monumentos funerários pré-islâmicos, bem como as antigas pedreiras de mármore númida.
Simitthu é uma sé titular da Igreja Católica.
Localização e geologia Chemtou situa-se no extremo noroeste da Tunísia, a cerca de 23 km a oeste da capital da província, Jendouba, no curso médio do rio Medjerda, o curso de água mais importante do país. O vale superior do Medjerda, que ainda hoje é a região agrícola mais importante da Tunísia, é limitado a oeste e a norte por altas montanhas que na sua parte sul apresentam tergos pouco elevados.
O Djebel Chemtou (monte Chemtou), um tergo com dois quilómetros de extensão, situa-se a menos de 15 km da vertente ocidental do vale, longe do limite das montanhas, situado a noroeste da cidade. Trata-se de um maciço calcário acidentado, cuja superfície se torna vermelha devido à presença de óxido de ferro. A sua extremidade sudoeste é formada por altas falésias que dominam o Medjerda. O esporão do tergo rochoso forma um planalto protegido das inundações, que se eleva 85 metros acima do nível do rio ao longo de 400 metros e constitui um ponto de referência no vale.
thumb|esquerda|O monte do Templo (Tempelberg), o cume oriental do Djebel Chemtou
O Djebel Chemtou é constituído, ao longo de mais de um quilómetro, por calcário conhecido desde a Antiguidade como "mármore amarelo antigo" (giallo antico). Esta pedra foi descoberta e explorada antes do período romano, desde o reinado de Micipsa . O mármore foi utilizado em Roma desde a segunda metade do para a coluna erigida em honra do defunto Júlio César pela plebe.
Muitas das zonas de fratura do tergo rochoso formam, na sua totalidade, as maiores pedreiras de mármore antigo do Norte de África, apesar de se estenderem por menos de 400 metros quadrados, bastante menos que outras pedreiras imperiais romanas. O mármore está disponível em todas as variantes de amarelo, rosa e vermelho e carateriza-se pelos seus veios, pelas suas camadas estratificadas e a sua estrutura de brechas em movimento. No que toca à gama de cores, não tem comparação com outras pedras antigas. Um édito do imperador Diocleciano do final do refere o giallo antico em terceiro lugar entre 18 variedades de mármore, com um preço de 200 denários por pé cúbico (25,46 decímetros cúbicos). Os dois tipos de mármore que o ultrapassavam era o pórfiro vermeho do Egito e o pórfiro verde grego.
O Djebel Chemtou está dividido em três partes: o cume oriental é chamado "monte do Templo" (), o do centro "montanha amarela" e o cume ocidental "montanha da cidade" (Stadtberg). Foi no primeiro que foi descoberto pela primeira vez mármore e materiais de construção do , mas a maior parte da atividade de extração até ao teve lugar na "montanha amarela". A colónia númida-púnica, cuja dimensão ainda é desconhecida, situou-se na "montanha da cidade". Mais tarde, a colónia romana Colonia Iulia Augusta Numidica Simitthensium estendeu-se em redor do esporão ocidental da montanha.
História thumb|upright|O chamado "mármore amarelo antigo" ou giallo antico, a que Simittu deveu a sua prosperidade
thumb|upright|Mapa com as cidades romanas do que é hoje a Tunísia
Chemtou é conhecida principalmente pela extração de mármore, que era um monopólio imperial na época romana. A região foi habitada em permanência desde a Pré-história e deve a sua riqueza à grande fertilidade agrícola do vale do Medjerda. No período romano, assiste a uma intensa exploração de recursos na região: mármore negro e calcário são extraídos em Aim Alcácer (Ain el Ksair), calcário verde nas vizinhanças do sítio bizantino de Borje Helal e arenito amarelo em Tubúrnica
Colónia númida-púnica Após a conquista do vale do Medjerda pelos Númidas foi estabelecida uma colónia, a qual se supõe que existia já no Pouco a pouco, a pequena cidade desenvolve-se graças à sua posição num local de travessia do Medjerda e no cruzamento de duas rotas importantes, que ligavam Cartago a Hipona passando por Bula Régia e Tabraca a Sica Venéria. O rei númida Micipsa erigiu um santuário para o seu pai defunto Massinissa graças às pedreiras de mármore que ali eram exploradas no Com efeito, desde a sua fundação que a colónia teve contactos comerciais importantes com a bacia do Mediterrâneo que possibilitam a exportação sistemática do giallo antico. Sofre também influências da cultura púnica, o que é atestado, por exemplo pelas construções e pela utilização do sistema de unidades cartaginês.
A colónia é descoberta, com as suas estradas, canais e zonas residenciais, nos anos 1980 na vizinhança do fórum romano. Ela inclui uma necrópole pré-romana, preservada sob o fórum, usada entre os séculos IV e , com túmulos monumentais que foram parcialmente reconstruídos.
Cidade romana A conquista romana teve lugar em No início do período imperial, a cidade era um município, antes de se tornar uma colónia em sob o nome de Colônia Júlia Augusta Numídica Simitênsio (Colonia Iulia Augusta Numidica Simitthensium). No , durante o reinado de Augusto, foi iniciada a escavação da rocha em grande escala; a exploração foi entregue a veteranos, que dirigiam condenados a trabalhos forçados. O mármore amarelo antigo passa então a ser visto pela alta sociedade romana como um material de luxo muito apreciado (mais tarde teve uma reputação excelente entre os italianos sob a designação de giallo antico). É usado em Roma em faustosas construções imperiais; também teria sido usado na construção de edifícios locais de prestígio — sobretudo templos e villae — bem como em diferentes províncias romanas e bizantinas. O mármore está presente nas colunas das palestras das em Cartago.
A cidade desenvolveu-se em paralelo com o crescimento das pedreiras. Prosperou durante o Alto Império e atingiu o seu apogeu durante a dinastia dos Severos . Durante este período, transformou-se e monumentalizou-se, à semelhança do que aconteceu com outras cidades da África Romana. Em 411 a cidade era conhecida como sé de uma diocese. Seguiu-se a ocupação dos vândalos e depois dos bizantinos. A extinção da vida urbana ocorreu o mais tardar durante o , um fenómeno que é também visível em outras cidades da região. Os povoamentos em larga escala mais recentes são árabes e remontam ao início do reino dos Aglábidas e dos Fatímidas, nos séculos IX e X.
Sé titular Simitthu ( é um sé titular da Igreja Católica Romana, um título formal sem jurisdição territorial efetiva. Esta diocese fictícia recorda a diocese da antiga cidade, desaparecida depois da conquista árabe no e que pertencia à província eclesiástica de Cartago. + Bispos titulares de Simittu Nº Nome Função Início Fim1Joseph Arthur PapineauBispo emérito de Joliette (Canadá)3 de janeiro de 196815 de fevereiro de 19702Joseph Maximilian MuellerBispo emérito de (Estados Unidos)20 de outubro de 197013 de janeiro de 19713Antonio Sahagún LópezBispo auxiliar de (México)31 de outubro de 197331 de outubro de 20054Meron MazurBispo auxiliar da Eparquia de São João Batista em Curitiba dos Ucranianos (Brasil)21 de outubro de 2005 — Elementos do sítio arqueológico thumb|Relevos no santuário romano dos dos Dii Mauri
As provas da longa história de Chemtou encontram-se conservadas em parte no tergo e nas suas vertentes sul, oeste e norte. A cidade conserva todos os edifícios típicos das cidades romanas: um anfiteatro, um teatro, um fórum com uma basílica e uma fonte, um macelo (mercado coberto), um ninfeu, pelo menos três complexos de termas, alguns arcos de triunfo e pelo menos cinco igrejas paleocristãs. Há ainda um edifício na parte noroeste da cidade que se pensa ter sido dedicado ao culto imperial ou, mais provavelmente, o que usualmente se chama "templo itálico".
Além disso, no Djebel Bou Rfifa, uma colina vizinha, encontram-se outros santuários romanos, o dos Dii Mauri na encosta oriental e o de Caelestis na encosta ocidental. O sítio tem monumentos que são específicos ou raros, o que constitui um testemunho do seu caráter excecional, não apenas no espaço da Tunísia atual mas também em todo o Norte de África.
Santuário númida thumb|esquerda|Reconstituição da fachada do santuário númida, em exposição no Museu de Chemtou
No cimo do monte do Templo encontra-se um santuário númida, atribuído ao rei Micipsa. O pai deste, Massinissa, um aliado de Roma a partir da Segunda Guerra Púnica, apossou-se do vale superior do Medjerda em Depois da sua morte, o seu filho e sucessor dedicou-lhe cerca de um altar com dez metros de altura no cume da montanha. A utilização do mármore como material de construção marca a descoberta do mármore amarelo antigo. O santuário é um retângulo com aproximadamente doze metros de comprimento por cinco metros e meio de largura. Foi modelado a partir de uma rocha aplanada onde as depressões e outras irregularidades foram preenchidos com empedrado plano de blocos paralelepipédicos. A construção é composta por blocos maciços de mármore, ligados por buchas e não tem interior. Só alguns blocos das fundações se conservam in situ.
O monumento é constituído por uma base elevada orientada a leste, em direção ao sol nascente. Num dos lados existe uma porta falsa que conduz a um pedestal com três níveis. Sobre a base ergue-se um segundo andar com a forma de um pavilhão de colunas dóricas. A construção foi ornamentada com ricas decorações, nomeadamente por um troféu em relevo. Os fragmentos da decoração estão entre os exemplos mais preciosos da arquitetura real númida, dos raros que chegaram até nós, e apresentam influências egípcias, mais precisamente alexandrinas. Essas influências parecem ser seletivas, o que segundo Hédi Slim demonstraria uma «certa autonomia do helenismo númida».
Alguns vestígios podem ser vistos na reconstituição do santuário no Museu de Chemtou. Na época romana, o santuário continuou a funcionar como um templo dedicado ao deus Saturno. No final do foi levada a cabo uma ampliação, que envolveu diversos trabalhos de renovação, uma iniciativa do liberto e promagistrado Amyrus. Foram então adicionadas duas alas, uma rampa de acesso e uma escadaria talhada no rochedo. Há mais dois santuários construídos na colina: na vertente ocidental, encontra-se um templo de Juno Caelestis, ampliado na segunda metade do , durante a dinastia flaviana; na vertente oriental há um santuário dos Dii Mauri construído durante a dinastia dos Severos .
No o local foi ocupado por uma pequena igreja com três naves, em cuja construção foram usados elementos arquitetónicos do santuário destruído.
Relevo