thumb|right|253x253px|O uapé é a "estrela das águas", a vitória-régia da Amazônia A lenda da vitória-régia é um clássico conto folclórico de origem amazônica, na região Norte do Brasil, que explica a criação do uapé, famosa planta aquática e símbolo da região. A narrativa gira em torno de uma jovem indígena que, querendo se tornar estrela, afoga-se ao tentar alcançar o reflexo da Lua e é transformada pelo astro na majestosa "estrela das águas".
A lenda apresenta diversas variações, e uma diferente versão pode ser encontrada também na bacia do rio da Prata, onde é conhecida como irupé.
Lenda amazônica Na mitologia tupi-guarani, Jaci é o deus da Lua, considerado um belo e poderoso guerreiro que, frequentemente, desce à Terra durante a noite. Uma bela cunhatã, jovem moça indígena, admirava Jaci profundamente e passava as noites em claro, sonhando em um dia ser escolhida e transformada em uma estrela brilhante no céu por ele, como dizia a tradição contada pelos pajés da sua tribo.FALEIRO, Angelita. Desbravando nosso folclore. São Paulo: Biblioteca24Horas, 2010. p. 171-174.
Certa noite, ao caminhar pelas margens do rio, a cunhatã viu o reflexo luminoso e brilhante da Lua refletido nas águas calmas. Acreditando que o guerreiro celestial havia descido para encontrá-la, ela atirou-se nas águas profundas na tentativa de abraçá-lo e acabou morrendo afogada, sem forças para voltar quando percebeu que aquilo fora apenas uma ilusão.
Comovido com a devoção e a pureza do amor da jovem, Jaci decidiu homenageá-la: em vez de transformá-la em mais uma estrela do céu, a Lua a transformou na "estrela das águas", uma planta aquática grandiosa e única, a vitória-régia ou “uapé” (do tupi ywa-pé, “o que está na água”), cujas flores desabrocham exclusivamente durante a noite, exalando um intenso perfume, e, ao nascer do sol, quando a luz do dia surge, as pétalas, que antes eram brancas, assumem uma tonalidade rosada, representando o rosto da bela cunhatã.
Identidade da cunhatã Diversos nomes têm sido apresentados para identificar a moça indígena desta lenda, mas todos são, aparentemente, criações literárias sem uma clara origem indígena identificável.
Jaciara: De îasy iara, “senhora da lua”. No livro A Serpente de Bronze (1921) do escritor Humberto de Campos, a vitória-régia é descrita como a alma de Jaciara, a Senhora da Lua, que transfundia a beleza da paisagem e os encantos da natureza local.IBGE | Biblioteca. Jaciara—Mato Grosso. Rio de Janeiro: IBGE. Filha de Tauí, um velho indígena, Jaciara era considerada a moça mais formosa da região. Um dia seu pai a surpreendeu sozinha com um homem em casa; o homem fugiu, então Tauí vingou-se da filha, matando-a e arrancando seu coração com as próprias mãos, e o jogou no rio, onde se transformou na vitória-régia.CAMPOS, Humberto de. Vitória-Régia. In: CAMPOS, Humberto de. A serpente de bronze. Rio de Janeiro: Annuario do Brasil; Arnaldo Quintella, 1921.
Jaçanã: No desfile da Portela no Carnaval do Rio de Janeiro de 1970, o samba-enredo apresentava, entre outras lendas amazônicas, o amor proibido de uma jovem de nome “Jaçanã” apaixonada por um valente guerreiro que fora sacrificado pela ira de um pajé, sendo posteriormente transformada na vitória-régia. Apesar de a Lua ser mencionada na letra, ela não foi associada à lenda de Jaçanã.PORTELA. Samba-Enredo 1970. Letras.mus.br, [s.d.]. A escola repetiu o samba-enredo em 2004, mas com leves alterações, informando que a pessoa sacrificada não foi o guerreiro, mas a própria Jaçanã, antes de ser transformada na flor.PORTELA. Samba-Enredo 2004. Letras.mus.br, [s.d.]. “Jaçanã” é um dos nomes populares da planta aquática,VITÓRIA-RÉGIA. In: Michaelis: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, [s.d.]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/vit%C3%B3ria-r%C3%A9gia/. Acesso em: 22 jun. 2026. vindo da ave jaçanã (do tupi îasanã ou îahãnã, "pássaro muito alerta" ou "pássaro barulhento"), que faz seus ninhos em plantas aquáticas, como as vitórias-régias.
Naiá: A menção mais antiga do nome “Naiá”, o mais popular hoje em dia na descrição da lenda, talvez seja a encontrada no livro infantil Vitória Régia - Lenda Brasileira (1974) de Célio Barroso, aparentemente também a primeira a mencionar o papel da Lua na sua transformação, mas sem mencionar que a moça se apaixona pelo astro. Naiá sonhava em se transformar em uma estrela para alcançar a Lua. Fascinada pelo reflexo do astro na água, ela se atira em um lago e acaba sendo acolhida pela Lua, que a transforma na magnífica flor vitória-régia.BARROSO, Célio. Vitória-régia: lenda brasileira. Ilustrações de Mirte Moésia Rolim Barroso. Rio de Janeiro: Conquista; Instituto Nacional do Livro, 1974. 26 p. Em 1997 a escritora Terezinha Éboli reapresentou a lenda, alterando levemente o nome de “Naiá” para “Naia” (paroxítona e sem acento), e talvez tenha sido a primeira a chamar a Lua pelo nome do deus lunar tupi-guarani, Jaci, também adicionando o elemento amoroso à narrativa. Aqui, Naia, uma bela indígena de uma tribo amazônica, se apaixonou perdidamente por Jaci, que é mais do que um belo rapaz; segundo as lendas indígenas, ele se transforma em Lua, e este misterioso romance deu origem à lenda da planta vitória-régia.ÉBOLI, Terezinha. A lenda da vitória-régia. Ilustrações de Graça Lima. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. (Lendas brasileiras). Esse nome, que não possui etimologia indígena conhecida, talvez venha de “naia”, uma forma variante de “náiade” (do grego naiás), ninfa das águas doces na mitologia grega.NAIA. In: Michaelis: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, [s.d.]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/naia/. Acesso em: 22 jun. 2026.
Maraí: Walde-Mar de Andrade e Silva apresentou Maraí como a protagonista da lenda, numa história publicada em 1998 muito similar à de Naiá contada por Célio Barroso. Nela, a jovem Maraí deseja se tornar uma estrela no céu após ouvir que a Lua (Jacy) transforma moças em estrelas. Após tentar alcançar o reflexo da Lua no lago e afundar, ela é transformada por Jacy na planta “mumuru”, conhecida como vitória-régia.SILVA, Walde-Mar de Andrade e. Lendas e mitos dos índios brasileiros. Texto e adaptação de Walde-Mar de Andrade e Silva; ilustrado com 25 pinturas do autor. São Paulo: FTD, 1998. 63 p. O dicionário Michaelis desconhece a palavra “mumuru”, apresentando, em vez disso, “mururé” como um dos nomes populares da vitória-régia.
Na versão contada por Angelita Faleiro em seu livro Desbravando nosso folclore (2010) a moça apaixonada não tem nome, assim como o deus da Lua, que é referido apenas como um belo e poderoso guerreiro indígena que desafiou os deuses e foi exilado sozinho na Lua, onde se tornou “uma espécie de deus”, montado num cavalo branco e portando uma lança, numa clara alusão a São Jorge, que, no Brasil, é associado à Lua.
Lenda platina Na região da bacia do rio da Prata, onde também pode ser encontrada uma espécie de vitória-régia conhecida na região pelo nome guarani “irupé” (“prato na água”), há uma história bem diferente da lenda dessa planta aquática contada pelo folclorista argentino Ernesto Morales em 1929.MORALES, Ernesto. Leyendas guaraníes. Buenos Aires: El Ateneo, Pedro Garcia Editor, 1929.
thumb|right|253x253px|O irupé, a vitória-régia do Prata: a combinação de pétalas brancas e vermelhas representa a união eterna de Morotí e Pitá No conto “El Irupé”, Morotí (“Branca”) e Pitá (“Vermelho”) eram jovens guaranis apaixonados, mas a inveja de Ñandé-Yara (“Nosso Senhor”) levou o Gênio Infernal a despertar o orgulho e a vaidade de Morotí. Para provar o amor e a coragem de Pitá, ela jogou sua pulseira no rio Paraná e pediu que ele a recuperasse. O guerreiro mergulhou nas águas e não voltou, tornando-se prisioneiro da feiticeira I-Cuñá-Payé (“Mulher Pajé das Águas”), que o fez esquecer sua vida e seu amor por Morotí.
Aconselhada pelo pajé Pégcoé, Morotí descobriu que apenas seu amor poderia libertar Pitá do encantamento da feiticeira. Movida pelo arrependimento e pelo desejo de salvar o amado, ela amarrou uma pedra aos pés e mergulhou no rio para encontrá-lo. A tribo esperou pelo retorno dos dois jovens, enquanto realizava cantos e rituais para vencer o mal.
Ao amanhecer, surgiu nas águas uma nova flor, o irupé (vitória-régia), com pétalas vermelhas no centro e brancas nas bordas, representando Pitá e Morotí unidos pelo amor. O pajé explicou que o amor havia vencido o encantamento da feiticeira e que a flor nascera como símbolo do sacrifício, do arrependimento e da união eterna dos dois amantes.
Curiosamente, em outro conto do livro narrado pelo mesmo Morales, “La Azucena del Bosque”, Pitá e Morotí são dois homens, os primeiros criados por Tupã, para os quais o deus menor I-Yara (“Senhor das Águas”) criou esposas para povoarem o mundo. Contudo, a rivalidade entre os irmãos, depois entre as esposas e os filhos, levou-os a brigar e se separar, para desgosto de Tupã, que enviou uma tempestade para puni-los. Assustados, Pitá e Morotí foram advertidos por I-Yara a se reconciliarem, e eles então se abraçaram, e seus corpos se fundiram em um só, transformando-se na arvorezinha chamada “açucena-do-mato”, cujas flores, ao nascer na primavera, são avermelhadas (“pitá”) e sua cor muda gradualmente até ficarem brancas (“morotí”) no outono, antes de morrerem, símbolo da união fraternal entre os homens.
Influência cultural O nome da cidade de Jaciara, no Mato Grosso, foi atribuído em 1953, tendo sido extraído do livro de Humberto de Campos, A Serpente de Bronze (1921), que traz a trágica história de Jaciara, a bela indígena cujo coração fora transformado na vitória-régia. A bandeiraPREFEITURA MUNICIPAL DE JACIARA. Bandeira. Jaciara: Prefeitura Municipal de Jaciara, [s. d.]. e o brasão de armasPREFEITURA MUNICIPAL DE JACIARA. Brasão. Jaciara: Prefeitura Municipal de Jaciara, [s. d.]. do município trazem representada essa história, com a cunhatã dentro de uma planta boiando no rio sob o crescente da Lua voltado para ela rodeado de estrelas.
Como já referido acima, nos anos de 1970 e 2004 a escola de samba carioca Portela apresentou, como tema destes desfiles, aspectos culturais da Amazônia, e nos dois anos o título do enredo foi: "Lendas e Mistérios da Amazônia". Com isso, a lenda da transformação de Jaçanã na vitória-régia foi apresentada e encenada pela escola.STELZER, Vanessa; LUNA, Denise. Portela fecha desfile no Rio como uma das favoritas da 1ª noite. UOL Notícias, São Paulo, 23 fev. 2004. Acesso em: 16 jul. 2026.
Ver também Antusas Lenda do boto Náiade Nixe
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