Os crimes da Rua do Arvoredo ocorreram entre 1863 e 1864, na cidade de Porto Alegre, capital de estado brasileiro do Rio Grande do Sul. A prática insólita dos crimes era feita da seguinte forma: os acusados atraiam vítimas para matá-las e, provavelmente, se desfaziam de partes dos corpos produzindo linguiças de carne humana pra serem vendidas em um açougue da cidade. Três pessoas estariam envolvidas na execução dos crimes: o brasileiro José Ramos, sua esposa húngara Catarina Palse e o açougueiro alemão Carlos Claussner. Apesar de ser um caso real, ele ainda está presente no imaginário popular local, tendo se tornado uma espécie de lenda urbana da cidade.
Antecedentes José Ramos José Ramos foi o filho mais velho de Manoel Ramos e Maria da Conceição. Seu pai fez parte de cavalaria de Bento Gonçalves durante a Revolução Farroupilha, da qual desertou e se refugiou em Santa Catarina. Durante uma discussão familiar, seu pai agride sua mãe; em seguida, José Ramos fere gravemente o pai com uma faca, levando-o à morte poucos dias depois.
Daí, José Ramos vai para o Rio Grande do Sul e torna-se inspetor de polícia na cidade de Porto Alegre, onde teria comprado (ou alugado) uma casa na antiga Rua do Arvoredo (atual Rua Coronel Fernando Machado, 707), que pertencia ao açougueiro Carlos Claussner.Site da Prefeitura de Porto Alegre - Rua Coronel Fernando Machado
Mais tarde, José Ramos é expulso da polícia ao ser flagrado tentando degolar o preso Domingos José da Costa — criminoso famoso conhecido como Campara, uma espécie de Robin Hood gaúcho, visto que roubava dos ricos e distribuía o produto do roubo aos pobres, preso em Vacaria em 1862 — argumentando de que esse tentava escapar. O ex-inspetor passa a servir, então, como informante da Polícia.
Ramos frequentava a elite da sociedade porto alegrense. Apaixonado por música lírica e por poesia, assistia espetáculos do recém-inaugurado Theatro São Pedro, onde conheceu Catarina Palse e com quem passou a viver e a praticar os tais crimes.
Catarina Palse Catarina foi cúmplice de José Ramos, atraindo vítimas para sua residência e acobertando os crimes do marido.
De uma família alemã pobre, Catarina nasceu na parte húngara da Transilvânia e cresceu em uma pequena aldeia com seus pais e dois irmãos. Durante a Revolução húngara de 1848, foi estuprada por soldados e teve sua família assassinada. Aos 15 anos, se casa com Peter Palse por interesse para conseguir fugir do país, já que passava por pobreza extrema, mas durante a viagem, seu casamento acaba, pois seu marido se suicida
Ela chega em Porto Alegre em 1857, com 20 anos. Acaba se envolvendo com José Ramos em 1863 e vão morar juntos na então Rua do Arvoredo, perto do cemitério que ficava atrás da Catedral Metropolitana de Porto Alegre.
Carlos Claussner Carlos Claussner era um imigrante alemão que possuía um açougue atrás da Igreja de Nossa Senhora das Dores; na Rua da Ponte (atual Rua Riachuelo), também na cidade de Porto Alegre.
Ele chega ao Brasil em 1859 e abre o seu negócio, conseguindo sucesso financeiro em pouco tempo devido à localização de seu empreendimento. Solitário, Claussner desenvolve uma amizade com José Ramos e o transforma em seu ajudante no açougue, visto que Ramos falava alemão.
Os crimes Ao que tudo indica, a sequência de assassinatos começou em 1863. José Ramos e Catarina Palse se conheceram em locais públicos frequentados pela elite da cidade e analisavam quais seriam as potenciais vítimas. A preferência era por imigrantes alemães, visto que Catarina não dominava a língua portuguesa.
Depois da escolha da vítima, Catarina Palse as seduzia e marcava um encontro no Beco da Ópera (atual Rua Uruguai) e as levava para a casa do casal, onde as vítimas tinham seus pertences roubados e eram degoladas, esquartejadas e carneadas. A carne era transformada em linguiça e vendida no açougue de Carlos Claussner. Segundo depoimentos da época, Claussner havia sugerido a Ramos a fabricação de linguiças com a carne dos assassinados, como uma forma de encobertar qualquer evidência dos crimes; os ossos seriam dissolvidos em ácido ou incinerados no seu açougue. Embora o número exato de vítimas permaneça um mistério, existem provas de que pelo menos seis pessoas foram vítimas do casal.
Em agosto de 1863, uma sequência de desaparecimentos começou a acontecer e repercurtir na cidade. Ao mesmo tempo, isso começou a despertar a curiosidade da opinião pública local, e as autoridades começaram a ser pressionadas por respostas. A repercussão dessa sequência de crimes começou a assustar Claussner, que decidiu ir para o Uruguai alegando estar infeliz em Porto Alegre. Dessa forma, José Ramos, temendo perder seu parceiro nos crimes, o matou e escondeu seu corpo no quintal de sua casa. O casal eventualmente assumiu as posses de Classner e ao ser perguntado pela ausência do açougueiro, alegava que a loja e a casa haviam sido vendidas para ele. Entretanto, o negócio desandou devido ao desconhecimento de Palse e Ramos na fabricação de embutidos.
A elucidação dos crimes começou no ano seguinte, em 1864, com o desaparecimento do caixeiro-viajante José Ignacio de Souza Ávila e do comerciante português Januário Martins Ramos da Silva; vistos no dia anterior na casa de José Ramos, na Rua do Arvoredo. Convocado a prestar esclarecimentos na delegacia, José disse que eles pernoitaram na casa e durante a manhã foram para São Sebastião do Caí. O delegado, não satisfeito com as explicações, no dia seguinte ao depoimento foi revistar a residência, encontrando evidências de diversos crimes. Foram achados vários indícios dos assassinatos cometidos ali ao serem encontrados pertences pessoais das vítimas, conservados por Ramos como souvenires.
Durante a revista, ainda foram descobertos vários pedaços de um corpo humano em decomposição enterrados no porão da residência, identificados como partes do alemão Carlos Claussner, dono de um açougue na Rua da Ponte. No poço da casa, foram encontrados os corpos mutilados de Januário, José Ignácio e, também, de um cachorro com o ventre rasgado. O cão era de José Ignácio, que permaneceu na porta da casa de José Ramos latindo, como se esperasse o dono por alguns dias, misteriosamente também desaparecendo. Catarina, que havia sido presa por outros crimes e havia se tornado uma mucker, decidiu confessar que naquela casa foram cometidos seis assassinatos, e que dos corpos das vítimas foram feitas linguiças pelo açougueiro Carlos Classner. O diário de Catarina foi o ponto de partida para a investigação das demais mortes.
Conclusão
José Ramos e Catarina Palse mataram para se apossar dos bens de suas vítimas, com exceção do caixeiro José Ignacio, assassinado por ser uma testemunha que poderia denunciá-los. O delegado Dario Rafael Callado acumulava as funções de Chefe de Polícia e juiz na época. Ramos era um de seus informantes e para lhe evitar constrangimentos, decidiu dar celeridade ao processo. Dario já havia sido atacado publicamente pelo deputado Silveira Martins por uma série de prisões ilegais.
Já na condição de Juiz de Direito, Dario Callado sentenciou José Ramos nas penas de crime de latrocínio, condenado à pena de morte por enforcamento por seus crimes (a pena depois foi comutada como prisão perpétua); Ramos negou os crimes até morrer internado na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, em 1893. Catarina Palse foi presa novamente, agora como cúmplice, condenada a 13 anos de prisão.
A edição 107 do jornal "A Federação", noticiou na página 2 que Catarina foi libertada em 6 de maio de 1891.
alt=nota policial|centro|miniaturadaimagem|Nota policial da soltura de Catharina Palse no jornal A Federação|270x270px
O caso teve pouca repercussão na imprensa de Porto Alegre na época, ganhando mais destaque em jornais internacionais, mas ganhou um registro oficial no Relatório dos Presidentes das Províncias Brasileiras na edição de 1864 pelo então presidente da província do Rio Grande do Sul, o senhor Dr. Esperidião Elói de Barros Pimentel.
As linguiças fabricadas, vendidas no comércio de Porto Alegre, tinham boa aceitação e foi com a divulgação desta história que nasceu a lenda urbana sobre o caso. O processo dos crimes da Rua do Arvoredo está depositado no Arquivo Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. Segundo o historiador Décio Freitas, autor do livro O Maior Crime da Terra, faltaram diversas informações no processo, bem como documentos desaparecidos ou em português arcaico e manuscritos: "O fato é que o crime realmente existiu, mas as provas sobre as linguiças fabricadas com carne humana foram inviabilizadas no decorrer do processo e o passar do tempo. Portanto, nunca se saberá se a história é completamente verdadeira".
Repercussão do caso
O caso foi relatado no Relatório do Presidente da Província do Rio Grande do Sul, na edição de 1864 pelo então presidente da província, o senhor Dr. Esperidião Elói de Barros Pimentel, para o seu sucessor o sr. Vice-presidente Comendador Patrício Correia da Câmara. Na página 4, parágrafo 4, foi descrito o fato:"Continua inalterada a tranquilidade pública. Cumpre-me entretanto registrar aqui um fato, ocorrido nesta cidade, e que esteve prestes a perturbá-la.
Tendo desaparecido o taberneiro Januário Martins, e seu caixeiro, e procedendo a policia á minuciosas indagações, descobriu em um fosso do quintal da casa em que habitava José Ramos os cadáveres mutilados daqueles infelizes (Januário e o seu caixeiro); descobriu-se também na mesma ocasião os ossos completos de um esqueleto humano. As veementes presunções condenavam a Ramos e sua amasia Catharina Palse.
Os interrogatórios, que as 3 horas da tarde começaram na Secretaria de Policia, e que continuaram a noite, atraíram curiosos em grande número, e alguns deles ousaram exigir que os presos lhes fossem entregues para serem por suas mãos justiçados. Os crimes horrorosos, e acompanhados de circunstancias das mais graves: mas tal pretensão, em todo o caso inadmissível em pais civilizado, era tando mais desarrazoada quanto tinha sido pronta e eficaz a ação da justiça. Os presos foram recolhidos a cadeia, sendo porém de lamentar os ferimentos em pessoas que, surdas ás admoestações da autoridade, conservavão-se diante da força, atirando-lhe pedras, pedaços de garrafas, e apupando-a".Neste relato breve, fica claro que os crimes praticados por Ramos e Catarina se resumiram a 3 assassinatos apenas: o de Januário, o do seu caixeiro e o último, descrito apenas como "com os ossos completos", o do alemão Carlos Claussner.
Relatórios dos Presidentes das Provincias Brasileiras: Império (RS) - 1830 a 1889
centro|466x466px|miniaturadaimagem|Detalhe do Relatório do Presidente da Província do Rio Grande do Sul do ano de 1864.
Na Europa, a repercussão do crime foi tão grande, que quando Charles Darwin teve conhecimento escreveu em seu caderno de anotações um curto comentário sobre o caso em Porto Alegre se questionando: "Se existe um chacal adormecido em cada homem?".
Na cultura
Em 1987, o caso inspirou a publicação do livro Cães da província, de Luiz Antônio de Assis Brasil. O livro conta a biografia do escritor dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Corpo Santo. Junto com esta narrativa, Assis Brasil também incluiu paralelamente em sua história os crimes da Rua do Arvoredo. O livro foi republicado em 2010 pela editora L&PM Editores.
Em 1996, o historiador Décio Freitas publicou o livro O Maior Crime da Terra - O Açougue Humano da Rua do Arvoredo, pela Editora Sulina, após uma pesquisa aprofundada sobre o assunto.
Posteriormente, em 2005, a história dos crimes da Rua do Arvoredo inspiraria também o romance do escritor David Coimbra, Canibais: Paixão e Morte na Rua do Arvoredo, publicado pela editora L&PM Editores.
No Rio Grande do Sul, o grupo RBS - afiliado da Rede Globo no estado - produziu um documentário sobre o caso. Um outro trabalho, feito de forma independente foi produzido.