thumb|300px|Em detalhe, território reivindicado na rebelião no norte do Mali. O Golpe de Estado no Mali em 2012 teve início no dia 21 de março de 2012, quando militares rebelados atacaram diversos locais da capital do país, Bamako, incluindo o palácio presidencial, a televisão estatal e quartéis militares. Os militares, que afirmam ter formado um "Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado" (CNRDE), declararam no dia seguinte que eles tinham derrubado o regime de Amadou Toumani Touré, que renunciou ao cargo formalmente no dia 8 de abril, após um acordo entre as facções golpistas e lideranças da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).Junta militar toma poder no Mali. G1. 22 de março de 2012. A revolta dos militares foi resultado da insatisfação dos oficiais de baixa patente com as medidas do governo para conter a insurgência tuaregue no norte do Mali. O golpe foi seguido de condenação internacional virtualmente unânime. No dia primeiro de abril, o "Comitê Nacional para Restauração da Democracia e do Estado" declarou que a constituição voltava a vigorar e convocou eleições das quais, segundo o grupo, não tomaria parte.
O conflito se insere no contexto de uma rebelião tuaregue separatista no norte do país (comandada pelo Movimento Nacional de Libertação do Azauade), amparada em alguma medida por apoio armado de ex-combatentes líbios. O golpe do CNRDE enfraqueceu a posição do governo e favoreceu o avanço das forças separatistas, revoltadas desde fevereiro. As cidades de Gao, Tombuctu e Kidal foram rapidamente tomadas pelos separatistas após a confusão institucional que se seguiu ao golpe de estado. Ao mesmo tempo, o Ansar Dine, um grupo extremista islâmico acusado de vínculos com a Al-Qaeda e liderado por um ex-combatente separatista tuaregue Iyad Ag Ghaly, aproveita-se do vazio de poder criado pela guerra civil apoderando-se de cidades liberadas para estabelecer a xaria (lei islâmica) no Mali. No começo do conflito, o Ansar Dine e o Movimento Nacional de Liberação do Azauade (MNLA) lutaram juntos pela separação. No entanto, houve uma cisão entre esses grupos após a tomada a Tombuctu, com o Ansar Dine abdicando da proposta separatista em favor da xaria e o MNLA reivindicando um estado independente secular. Nos últimos dias, o conflito tem se tornado cada vez mais complexo, com quatro frentes de luta: governo civil constitucional (apoiado pela Comunidade Econômica dos Estados Africanos Ocidentais, que ameaçou interferir militarmente na região, e pela ONU), militares golpistas (apoiados, sobretudo, por militares de baixa patente insatisfeitos com o governo), separatistas tuaregues (MNLA) e tuaregues islâmicos (Ansar Dine). Mais dois grupos extremistas islâmicos atuam na região, dissidências do Ansar Dine e, por conseguinte, da Alcaida no Magrebe Islâmico (AQMI): o Movimento para a União e a Jihad na África Ocidental (MUJAO), envolvido no tráfico de drogas e alegadamente responsável pelo sequestro de diplomatas argelinos no começo de abril, e o Boko Haram (traduzido por "a educação ocidental é pecaminosa"), grupo terrorista.
No dia 7 de abril, rebeldes tuaregues declararam a independência do Azauade, região de instabilidade no norte do país. A declaração foi repudiada pela União Europeia e pela CEDEAO. No dia 8 de abril, após a reunúncia do presidente Touré, negociada pela CEDEAO e os golpistas, o poder foi entregue à Assembleia Nacional do Mali.
Antecedentes
No dia 6 de fevereiro, rebeldes tuaregues lançaram uma grande ofensiva contra as forças armadas do Mali em uma tentativa de tomar a cidade de Kidal, ao norte do país. Alguns tuaregues legalistas fugiram para a cidade de Bamako, temendo represálias após manifestações violentas na primeira semana de fevereiro. Os rebeldes tuaregues receberam auxílio de militares e revoltosos líbios, fortemente armados após a guerra civil. No dia 8 de fevereiro, o Movimento Nacional de Liberação de Azawa (MNLA) tomou a cidade de Tinzaouaten, na fronteira do Mali com a Argélia. Ao contrário do movimento islâmico Ansar Dine, que propõe a imposição da lei islâmica no norte do Mali, o grupo nacionalista tuaregue é secular e reivindica um país autônomo ou completamente independente na região de Azawa.
A tentativa de golpe tuaregue foi seguida de semanas de protestos civis contra as débeis medidas governamentais tomadas para solucionar o caso, levando a popularidade do presidente Amadou Toumani Touré a uma queda vertiginosa. Os soldados do exército malinense pediram mais armas e recursos para amparar o combate às forças separatistas do norte, mas acabaram decepcionados com o parco amparo material fornecido pelo governo central. Alguns soldados alegam ter sido enviados para o campo de batalha sem comida suficiente. Conhecido como o "soldado da democracia" devido ao proeminente papel que assumiu no processo de democratização do Mali, Amadou Toumani Touré foi eleito para a presidência em 2002 e reeleito (para um segundo e último mandato) em 2007. O golpe de estado ocorreu apenas alguns meses antes da sua já prevista saída do poder.Mali Soldiers Attack Palace in Coup Bid. Reuters. 22 de março de 2012.
Linha do tempo 21 de março thumbnail|direita|Amadou Toumani Touré, presidente de Mali. No dia 21 de março, o ministro da defesa e general-brigadeiro Sadio Gassama foi para a base militar de Kati, 15 quilômetros ao norte de Bamako, para tentar impedir um protesto planejado para o dia seguinte pelos soldados em campo contra a suposta incompetência do governo central em lidar com a rebelião tuaregue no norte do país. Ele foi atacado e pedras foram lançadas contra seu carro.Coup d'Etat au Mali: l'évolution de la situation en temps réel - Mali - RFI. Rfi.fr. 22 de março de 2012. O ministro foi, então, forçado a fugir do local.Sortie musclée des militaires de Kati dans la journée d’hier: Une mutinerie aux allures de coup d’Etat . maliweb.net. 2012-03-22. Dois militares ficaram feridos, mas a presidência disse que Gassama não foi ferido nem preso.Démenti formel: Le Ministre de la Défense n'est ni blessé ni arrêté. Il est à son bureau où il poursuit calmement sa journée de travail (Formal denial: The Defense Minister is neither injured nor arrested. He is at his office where he continues to work quietly.). 21 de março de 2012.UN Chief Following Mali Events With Deep Concern. Voice of America. 21 de março de 2012.
Mais tarde no mesmo dia, veículos blindados isolados o palácio presidencial e repórteres escutaram 10 minutos de disparos de armas automáticas perto da sede da emissora estatal do Mali, cujos programas saíram do ar. Militares então bloquearam o acesso até os prédios.Mali's state broadcaster back on air. RTE. 21 de março de 2012.
À noite, depois de várias horas, a emissora do Mali voltou ao ar com uma breve mensagem exibida em um cenário mostrando músicas e danças tradicionais do Mali. "Em um momento, haverá uma declaração dos militares", dizia a mensagem. Revoltas também eclodiram em uma guarnição militar perto da cidade de Gao, no norte, e um jovem Militar teria dito que jovens recrutas tinham começado a atirar para o ar e levaram vários de seus comandantes oficiais como reféns.
22 de março Na parte da manhã, o militar Amadou Konaré foi à televisão estatal, que o identificou como o porta-voz do "Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado" (CNRDR), aparentemente formado por soldados renegados. Konaré declarou que militares haviam tomado o poder do "regime incompetente de Amadou Toumani Touré" e disse que iria governar até a chegada de um novo governo democraticamente eleito.Renegade Mali soldiers say seize power, depose Toure. Reuters. 22 de março de 2012.
Mais tarde, o capitão Amadou Konaré - identificado como presidente da CNRDR - também foi à televisão estatal para declarar um toque de recolher imediato "até novo aviso".
Ele também pediu calma e condenou qualquer saque.Renegade Mali soldiers declare immediate curfew. Reuters. 22 de março de 2012. Disse que os militares têm sido incapazes de encontrar Toure, que estaria escondido.Soldiers overthrow government in Mali. Associated Press. 22 de março de 2012. Na manhã seguinte, o ministro das Relações Exteriores do Quênia, que estava visitando o Mali na época, informou que o aeroporto de Bamako tinha sido fechado e que ele podia ouvir tiros.Ndonga, Wambui (2008-11-26). Africa: Wetangula - Situation in Mali Worsening. allAfrica.com. 22 de março de 2012.
Um oficial militar que permaneceu leal ao presidente afirmou que o presidente estava em boa saúde, e que o ministro da defesa também estava seguro - ao contrário de informações anteriores divulgadas de que o ministro de defesa haviam sido preso.Mali president 'safe' after fleeing from overnight rebel coup. English.alarabiya.net. 22 de março de 2012.
O ministro das Relações Exteriores estava entre vários ministros presos depois que rebeldes tomaram o palácio presidencial e outras partes do capital.
Mais tarde no dia, foi revelado que o presidente se refugiou em uma base militar não divulgada com os militares que permaneceram leais a ele.Martin Vogl (2009-09-17). Associated Press. Hosted2.ap.org. 22 de março de 2012.
O líder do golpe, disse que as fronteiras do Mali foram fechadas e pediu calma na televisão estatal. A BBC informou que a força de elite do exército do Mali, os Boinas Vermelhas, podem ainda ser leais ao presidente deposto, Amadou Toumani Toure.David Zounmenou Institute for Security Studies. BBC News - Mali soldiers loot presidential palace after coup. Bbc.co.uk. 22 de março de 2012.
23 de março A União Africana suspendeu o Mali, suspensão essa que duraria até que "a efetiva restauração da ordem constitucional seja obtida". Vários líderes africados disseram ter conversado com o presidente deposto e alegaram que ele estava em segurança, sob proteção de forças legalistas.
Durante o dia 23 de março, as tropas rebeldes preparam um contra-ataque para uma possível ofensiva das forças legalistas, amparadas sobretudo pela força de elite malinense.
De acordo com o correspondente da BBC para a África Ocidental, uma grande quantidade de soldados de baixa patente, possivelmente a maioria, apoiava o golpe, enquanto a maioria da oficialidade do exército não havia aparecido publicamente para defendê-lo. O Capitão Sonogo disse em uma entrevista à BBC que "nós não estamos aqui para confiscar o poder, mas estamos aqui para ter um exército e uma força de segurança capazes de assumir a segurança nacional... Portanto, assim que isso seja realizado, eu poderei dizer "Ok, eleições" em breve. Eu prometo." Um grupo de importantes políticos do Mali fizeram um anúncio condenando o golpe como um retrocesso, inclusive o candidato presidencial da oposição, Ibrahim Boubacar Keita. Um total de 14 oficiais do governo e ministro estavam sendo mantidos como reféns em Kati.
Nesse dia, os rebeldes tuaregues e os radicais islâmicos do grupo Ansar Dine disseram ter cercado Kidal. Um relato oficial do grupo dizia "Graças ao poderoso Allah, logo tomaremos Kidal."
24 de março Sanogo alegou que não restava nenhum soldado do exército ue fosse leal a Touré, dizendo ter "controle total" da situação. No entanto, uma fonte anônima da equipe de Sanogo disse que Touré continuava a ser protegido por membros do batalhão de paraquedistas que formava sua guarda presidencial. Um jornalista do New York Times informou que a situação era instável e que rumores de um contra golpe continuavam fortes ao longo do dia, exacerbadas pelo longo período de tempo em que a emissora estatal ficou fora do ar.