Tabu é um filme de 2012 do género drama romântico. Co-produzido internacionalmente (entre Portugal, Alemanha, Brasil e França), é realizado por Miguel Gomes a partir de um argumento de Gomes com Mariana Ricardo, que invoca, em homenagem cinéfila, a obra homónima de F. W. Murnau de 1931, tal como Sunrise, de 1927. A longa-metragem divide-se entre presente e passado e acompanha Aurora (interpretada por Laura Soveral e Ana Moreira), uma mulher atormentada por um estranho episódio de amor e crime que marcou a sua juventude numa colónia portuguesa em África.

O filme teve estreia mundial na 62.ª Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim), onde foi contemplado com o ,Artigo na revista online Aesthetica (en) destinado a obras inovadoras, e com o prémio FIPRESCI da crítica internacional para o melhor filme em competição.Notícia no Diário digital (Sapo) Com a sua apresentação em Berlim, Tabu garantiu distribuição em dezassete países, como o Canadá e o Reino Unido.Estreias em nove salas e dezassete países (notícia em PAM)Tabu estreia no Canadá – Notícia do ICATabu estreia no Reino Unido a 7 de setembro – Notícia do produtor Na sua estreia comercial em Portugal, a 5 de abril de 2012, a longa-metragem foi exibida em nove salas de cinema nos distritos de Lisboa, Coimbra e Porto.

Sinopse «Uma história passada (…) pouco antes do início da Guerra Colonial Portuguesa», «…um filme sobre a passagem do tempo, acerca de coisas que desaparecem e só podem existir como memória, fantasmagoria, imaginário».Tabu – Referência em European Film Awards

Prólogo Um narrador, Miguel Gomes, em voz over, lê um texto poético e algo filosófico que invoca uma lenda em que o Criador ordena, mas em que o coração comanda: o suicídio de um intrépido explorador que, em terras de África, noutros tempos, se suicida, lançando-se para as águas turvas de um rio onde será devorado por um crocodilo. O motivo que o leva a um ato tão desesperado é uma desilusão amorosa. Jura-se, dando veracidade ao relato, que uma linda dama por vezes se avista no meio da selva acompanhada de um triste crocodilo, sendo garantido existir entre ambas as criaturas uma misteriosa empatia.

Parte 1: Paraíso Perdido Três mulheres, Aurora, Santa e Pilar, moram no mesmo andar de um complexo antigo de apartamentos de Lisboa. Aurora, uma octogenária vivendo da reforma, faladora, supersticiosa e excêntrica, vive na mesma casa que Santa, a sua soturna criada caboverdiana, meio analfabeta, mas ilustrada nas artes divinatórias do vodu, prática bem africana. A Pilar, vizinha e amiga, católica e militante em grupos de solidariedade social, ocupa o que sobra dos seus lazeres enredando-se no psicodrama das outras duas.

A Pilar tem um apaixonado, um pintor romântico frustrado, que lhe oferece quadros foleiros. Mas mais do que ele, é a sua boa amiga Aurora que não lhe sai do seu pensamento consternado pela solidão e frequentes escapadelas até ao casino da idosa. Preocupa-a tanto, ou mais ainda, a criada, de quem desconfia, pelo que ela cala e pelo que ela faz relacionado com a sua religião. Empaticamente, entende a pobre Santa e prefere manter as suas ralações para si.

Aurora adoece, mas há algo mais que a atormenta. Sente-se às portas da morte e há alguém que lhe falta. Trata-se de uma pessoa de quem as outras senhoras nunca tinham ouvido falar. A idosa pede-lhes que o procurem: Gian-Luca Ventura. Surge assim o homem, um velho colono africano que parece estar perturbado. A partir dele, outra história se revela: "Aurora tinha uma fazenda em África no sopé do monte Tabu..."

Parte 2: Paraíso Inicia o flashback da vida de Aurora no território africano colonizado por Portugal. É Gian-Luca Ventura quem faz o relato, numa voz over textual, monocórdica e arrastada.

Aurora é nesta altura uma exímia caçadora, que não falha um tiro. Vive perto da montanha Tabu com o seu marido. Tem um pequeno crocodilo por ele oferecido, que faz parte da família e se passeia pela opulenta casa como um banal animal doméstico.

O dia, o animal foge. Aurora acaba por o descobrir em casa de Gian-Luca e assim travam conhecimento. Depressa se envolvem numa relação intensa e apaixonada. Deste envolvimento nasce um bebé, que precipita o confronto entre marido e amante de Aurora. Será talvez por isso que a jovem perde a pontaria. Até que chega o momento de agarrar um revólver e friamente cometer um crime que implique Gian-Luca.

Ficha artística

Laura Soveral, como Aurora (idosa); Ana Moreira, como Aurora (jovem). Henrique Espírito Santo, como Gian-Luca Ventura (idoso); Carloto Cotta, como Gian-Luca Ventura (jovem). Teresa Madruga, como Pilar; Isabel Cardoso, como Santa; Cândido Ferreira, como Pintor. Ivo Müller, como Marido de Aurora; Telmo Churro, como Intrépido explorador. Luís Gaspar, como Pele.

Equipa técnica

Realização: Miguel Gomes Argumento: Miguel Gomes e Mariana Ricardo Diretor de fotografia: Rui Poças Som: Vasco Pimentel Primeiro assistente de realização: Bruno Lourenço Anotação: Telmo Churro Consultora artística: P&B Silke Fischer Decoração: Bruno Duarte Guarda-roupa: Silvia Grabowski Maquilhagem e cabelos: Araceli Fuente e Donna Meirelles Montagem: Telmo Churro, Miguel Gomes Montagem de som: Miguel Martins e António Lopes Diretor de produção: Joaquim Carvalho Produtor associado: Alexander Bohr (ZDF/Arte) Co-produtores: Janine Jackowski, Jonas Dornbach, Maren Ade, Fabiano Gullane, Caio Gullane, Thomas Ordonneau Produtores: Luís Urbano e Sandro Aguilar

Produção Tabu é uma co-produção internacional, liderada pela "O Som e a Fúria" (Portugal), em associação com Gullane Entretenimento (Brasil), Shellac Sud (França), ZDF/Arte (Alemanha) e Rádiotelevisão de Portugal. Contou com o apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual, Centre National du Cinéma et de l'Image Animée, Film Fund Hamburg Schleswig-Holstein e Agência Nacional do Cinema. A parte Paraíso Perdido da longa-metragem foi gravada em formato 35mm e as partes Prólogo e Paraíso em 16mm.

Desenvolvimento A ideia original do argumento começou a formar-se em torno da personagem de Pilar, que partilha características com uma tia de Miguel Gomes, também ela solteira, católica e ativista. Segundo o realizador, essa tia "contou-me sobre a sua vizinha senil e paranóica, que regularmente (...) dizia que a sua governanta a trancava no quarto à noite e a tratava mal, mas ela não tinha provas disso. Comecei a interessar-me por esses três personagens, três mulheres (...) sobre as quais normalmente não se fazem filmes". O argumento começou a desenvolver-se com o objetivo de dar espaço à banalidade desse tipo de personagens que geralmente assumem papeis unicamente secundários sem um enredo acentuadamente romanesco. Esta inspiração serviu de base para a parte Paraíso Perdido.

Quanto às restantes partes do filme Prólogo e Paraíso, Gomes admite: "não sei como acabei em África". Ainda assim, revela em entrevista que na fase de preparação do filme, o realizador conheceu membros de uma banda de música em Moçambique que demonstravam um apurado pensamento político acerca do país, mas que era regulado por um lado muito afetivo associado à sua juventude no país. Este episódio terá incitado a escrita da parte Paraíso, a mais ambiciosa do filme, que na sua versão original contava com uma grande quantidade de sequências em dez décors diferentes, para além de uma cena de casamento com cem figurantes, coreografia e um elefante e sequências retratando o início da guerra pela independência e da descolonização.

Rodagem A produção iniciou-se com a rodagem de Paraíso Perdido em Lisboa. Houve uma preparação com fotos de teste aos cenários e adereços, para definir os tons de cinzento. O trabalho com os atores decorreu também de uma forma mais convencional, com a rodagem a seguir-se a meses de ensaios a partir do guião.Miguel Gomes, um cineasta sem tabus – Artigo de José Vieira Mendes, Visão, 31 de março de 2012

Após esta fase, os produtores informaram a equipa de que o orçamento não iria permitir a deslocação a África para rodar Paraíso e seria necessário esperar entre um e dois anos por financiamento adicional. Miguel Gomes e a restante equipa técnica de Tabu reuniram e foi decidido abdicar do guião e partir para Moçambique, independentemente da escassez de meios. Segundo o realizador: "Basicamente, tive de revisitar o meu guião, que já não era filmável. Portanto, decidimos criar um 'comité central' no local, consistindo da co-argumentista, o assistente de realização, do editor e de mim mesmo, com a tarefa de ir inventando uma história conforme íamos avançando. Anotávamos ideias para locais e cenas em pedaços de papel e post-it, que tentávamos unir num todo coerente". Houve muita improvisação também ao nível de trabalho com os atores. Esta secção da história foi filmada na região montanhosa do Gurué zambeziano, próximo da fronteira de Moçambique com o Malawi.

Temas e estilo Em Tabu, o realizador dialoga diretamente com a estética e elementos característicos dos melodramas da primeira metade do século XX, utilizando película em preto e branco, um enquadramento quase quadrado (numa proporção de 1,37: 1) e lente de 16 mm. Paraíso, em particular, recorre à expressividade dos filmes mudos, demonstrando uma imagem mais granulada. No entanto, para além da banda sonora e da narração de Gian-Luca, esta parte do filme apresenta uma camada adicional de sons da natureza. Em Paraíso Perdido, o segmento contemporâneo, o chiaroscuro mantém-se, mas o som surge sincronizado, a câmera aproxima-se dos rostos dos atores e captura detalhes de fumo ou chuva.miniaturadaimagem|Tabu invoca, em homenagem cinéfila, a obra homónima de F. W. Murnau.A obra Tabu (1931) de F. W. Murnau, é a referência mais direta do filme, algo que não se restringe apenas ao título e subtítulos. Desde logo, Prólogo invoca este trabalho clássico. O filme de Murnau foi realizado no período de transição entre o cinema mudo e o sonoro, e Gomes tenta recriar essas características transitórias com diferentes abordagens entre as partes da longa-metragem. Há outras comunalidades evidentes, como o facto de ambas obras estarem divididas em dois capítulos (um ambientado numa versão de paraíso e o outro após sua perda); ambas abordam temáticas de colonialismo, impulsividade e fuga; e ambas exploram um exotismo que derrapa por vezes para o kitsch. O Tabu de Murnau acompanha os amantes protagonistas a fugir de um ambiente hostil, refugiando-se num território governado por colonos ocidentais. Gomes inverte esta história, não só iniciando o filme pelo Paraíso Perdido, mas também fazendo com que os seus amantes brancos escapem da civilização colonial para um ambiente mais primitivo. Ainda que assuma estas influências e o expressionismo de Murnau, Gomes não quis realizar um filme de referências, considerando esse género "um tanto superficial e pouco generoso com o público. Na verdade, acho que a maioria das minhas referências não é consciente". De facto, detalhes de outras obras inspiraram aspetos de Tabu, tal como o facto de os protagonistas começarem Paraíso a andar de bicicleta como o triângulo amoroso em Jules et Jim, de François Truffaut e, por oposição, no seu momento de fuga e infração, caminharem entre árvores num campo acidentado, como o casal protagonista de Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard.