O Pajubá ou Bajubá, originalmente, é um criptoleto constituído de termos oriundos de diversas línguas da África Ocidental (iorubá, umbundo, quicongo, jeje, fon), usados por descendentes de africanos escravizados praticantes de cultos afro-brasileiros, e de palavras da língua portuguesa alteradas e ressignificadas. A partir do século XX, os terreiros tornaram-se espaços de acolhimento para a comunidade LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgênero/travestis, queer, intersexual, assexual, pansexual), que também passou a se utilizar de vocábulos de origem africana, adaptando-os a outros contextos.

Segundo Beniste,Beniste, José. Dicionário Yorubá – Português. São Paulo: Bertrand, 2011, apud Renato Regis Barroso, Pajubá: o código linguístico da comunidade LGBT. Manaus: UEA, 2017. 'Pajubá' (ou sua forma variante 'Bajubá') é uma palavra da língua iorubá que significa 'mistério' ou 'segredo'. Falar em Pajubá corresponde a "falar na língua do santo" ou "enrolar a língua" - locuções muito usadas pelo povo do santo quando se quer dizer alguma coisa de modo que outras pessoas não entendam. E quando a comunidade Queer ressemantiza os termos na passagem das línguas africanas para o português brasileiro, cria novos usos, segundo o professor e pesquisador em Linguística queer, Renato Régis. A exemplo disso, tem-se o termo “okó” - lembrando que no alfabeto da língua yorubá não existe letra C -, cujo significado seria o órgão sexual masculino, mas quando passado para o português brasileiro assume a escrita numa versão abrasileirada “ocó”, assumindo o sentido de “homem”, ou seja, passa por um processo metonímico (a parte pelo todo) e a expressão passa a ocupar lugar de identidade como uma tecnologia de sobrevivência LGBTQIAPN+, falada principalmente pelas travestis, que são as que se encontram na linha de frente na luta por direitos civis

História Criado de forma espontânea em regiões de forte presença africana no Brasil, o Pajubá é produto da assimilação de africanismos de uso corrente, bem como de derivações, entrecruzamentos e ressignificação de palavras da língua portuguesa. Sendo incompreensível para forasteiros, passou a ser usado fora do ambiente dos terreiros, constituindo um código de comunicação entre travestis que posteriormente foi adotado por toda a comunidade LGBTQIA+. Durante o período da ditadura militar, falar Pajubá tornou-se parte da estratégia de enfrentamento da repressão policial a que esses grupos eram submetidos e um recurso para despistar pessoas potencialmente hostis.

O Pajubá pode ser considerado como um criptoleto, um sistema linguístico usado pela população de travestis e pessoas transgênero, que foi - e ainda é - essencial como língua de resistência e enfrentamento à opressão social da repressão estatal, mas também como elemento constitutivo da identidade e sociabilidade desses grupos.

Polêmica no Enem Em 2018, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) utilizou o Pajubá como tema de uma das questões da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. A situação provocou diversas críticas nos meios de comunicação, tendo um reforço maior com o comentário do então presidente eleito Jair Bolsonaro, que em entrevistas e nas suas redes sociais (Facebook e Twitter), disse que o atual ENEM não funciona e que não deveria incluir questões de gênero na pauta da prova. Em resposta, Maria Inês Fini, presidente do INEP, autarquia federal vinculada ao Ministério da Educação que prepara e realiza o ENEM, criticou a declaração e a interferência de Bolsonaro no exame, declarando que lamentava leituras equivocadas e que não é o Governo que manda no Enem. Uma das primeiras medidas do presidente, depois de tomar posse, foi exonerar Maria Inês do cargo, em janeiro de 2019.

Exemplos de termos do Pajubá O Diálogo de Bonecas, o primeiro dicionário de Pajubá/Bajubá, foi idealizado e lançado no Brasil em 1992. Com o tempo e a partir da repercussão no cenário cultural nacional de artistas travestis e transgênero, como MC Xuxu, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, Majur e Mulher Pepita, entre outras, incluíram o criptoleto em suas canções.

A seguir, alguns exemplos de palavras em Pajubá:

Adéfuntó - Homem homossexual que ainda não assumiu sua orientação sexual. Ajé - Pessoas falsas ou más. Alibã - Policial. Amapô - Mulher. Aqué/acué - Dinheiro. Aquendar - Pegar; entrar; não perder a oportunidade. Atender - Ficar com alguém. Babado - Fofoca; novidade; acontecimento. Bafão - Alguma forma de confusão. Barbie - Homem homossexual com físico "malhado" e aparência afeminada. Bofe - Homem. Cacura - Homem homossexual acima dos 40 anos de idade. Caminhoneira - Mulher homossexual com aparência mais masculinizada. Desaquendar - Parar; desistir; deixar de lado; ir embora. Destruidora - Gíria para dizer que a pessoa "arrasa" muito, que está fazendo algo muito bem. Equê - Mentira; enganação. Fazer a Alice - Ato de ser sonhadora. Fazer a egípcia - Ato de não expressar emoções no rosto; ato de fingir. Gongar - Falar mal. Neca - Pênis. Ocó - Homem. Picumã - Cabelo; peruca. Xoxar - Caçoar.

Ligações externas

Cartilha Diálogo de Bonecas

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