Hatshepsut (também aportuguesado como Hatexepsute) ( – ) foi uma princesa, grande esposa real, regente e rainha-faraó do Antigo Egito. Viveu no começo do , pertencendo à XVIII Dinastia do Reino Novo. O seu reinado, de cerca de vinte e dois anos, corresponde a uma era de prosperidade econômica e relativo clima de paz.Tooth May Have Solved Mummy Mystery nytimes.com
Origens familiares Hatshepsut nasceu em Tebas. Era a filha mais velha do rei Tutemés I e da rainha Amósis.
Quando o seu pai morreu Hatshepsut teria cerca de vinte e quatro anos. Casou com seu meio-irmão, Tutemés II, seguindo um costume que existia no Antigo Egito que consistia em membros da família real se casarem entre si. Após a morte de Tutemés II, cujo reinado é pouco conhecido, o enteado de Hatshepsut, Tutemés III, era ainda uma criança que não estava apta a governar. Por esta razão Hatshepsut, na qualidade de grande esposa real do rei Tutemés II, assumiu o poder como regente na menoridade de Tutemés III. Mais tarde, Hatshepsut decidiu assumir a dignidade de faraó e governar em seu direito."Agora, meu coração se revira, enquanto penso no que as pessoas vão dizer. Os que vão ver meus monumentos nos anos que virão e os que vão falar do que eu fiz."SCHATZ, Kate. Mulheres incríveis: artistas e atletas, piratas e punks, militantes e outras revolucionárias que moldaram a história do mundo. Bauru: Altral Cultural, 2017.
Hatshepsut
Conforme vê-se em Maruéjol (2007), Hatshepsut tomava as decisões por Tutemés III, mas o pequeno faraó era responsável pela realização dos cultos às divindades. No sétimo ano do reinado de seu meio-irmão, Hatshepsut adota o nome Maatkare e considera-se soberana do Egito, adotando os atributos e faraônicos como títulos, nomes, cetros, barba postiça, tanga curta e cauda de touro, além de unificar as duas coroas. Segundo Mokhtar (2010:57), Hatshepsut "declarou publicamente ser filha do deus nacional Amom-Rá, que se apresentara à sua mãe como Tutemés I.” Nos templos de Deir Elbari e de Amom-Rá ela consolidou seu poder real através de sua paternidade espiritual diante das pessoas mais importantes do Egito, pois Amom-Rá lhe teria confiado o Egito pelo consentimento dos deuses, assim como seu pai carnal lhe teria escolhido herdeira do trono.
Hatshepsut passa a governar o Egito, deixando de ser regente para transformar-se em faraó. Contudo, ela não substituiu Tutemés III, havendo na época algo inédito: o poder nas mãos de dois reis. Muitos escritores atuais a chamam de usurpadora por causa da tomada do poder. Porém, ao contrário do que se pensa, Hatshepsut não excluiu o rei da história, e em quase todas as imagens produzidas em monumentos o mesmo aparece junto com ela. O calendário egípcio, não obstante, atualizado desde a ascensão de Tutemés III (no antigo Egito iniciava-se a contagem do calendário a partir do zero a cada novo reinado), não foi anulado, prosseguindo a contagem com o reinado dos dois faraós conjuntamente. Maruéjol (2007) acredita que ela estivesse preparando o futuro rei para assumir o trono sozinho no futuro. Não se pode descartar, no entanto, o fato de que após sua morte, Tutemés III procurou apagar seu nome da história, possivelmente por vingança.
“A Tutemés II (1492-1497), cujo reinado deixou poucos vestígios, sucedeu o seu jovem filho, de uma das esposas secundárias, Tutemés III (1479-1425), tendo Hatshepsut, viúva de Tutemés II, tido, a princípio, o cargo de regente. Durante os primeiros 20 anos do reinado de Tutemés III a atividade militar foi mínima e o Egito parece ter perdido bastante terreno na Ásia. No sétimo ano de reinado de Tutemés III, Hatshepsut proclamou-se <<rei>> feminino (na ideologia egípcia não havia lugar para uma rainha reinante) e governou como parceiro e personalidade dominante até sua morte, por volta do ano 22, numa corregência com o sobrinho. É evidente que Tutemés III concordou, de certo modo, com tal situação, já que durante a maior parte do tempo tinha idade para organizar uma resistência contra a sua tia, se assim o desejasse.” (BAINES E MÁLEK, 1996:43)
É interessante observar a última afirmação de Baines e Málek (1996), pois Tutemés III poderia realizar uma revolta contra sua tia, mas não o faz. E fica claro o poder da interferência da religião no poder político pela ascensão de Hatshepsut. Ela teve o apoio dos sacerdotes de Amom, divindade mais importante da época, e proclamou-se faraó conforme a vontade do mesmo para governar num processo chamado teogamia, ou seja, processo em que o deus Amom tem uma relação com outra rainha (portanto, humana) para gerar um novo faraó. No caso, ele encontrou-se, na forma de Tutemés I, com Ahmés, que teria acordado com seu aroma e concebido Hatshepsut. Amom teria consultado doze divindades para decidir sobre a geração desse novo faraó. Cenas de tal criação podem ser vistas em seu templo funerário em Deir Elbari. O clero de Amom é o autor desse mito, e ela foi a primeira a utilizar- da teogamia para legitimar seu poder como faraó. Não era comum no Egito um faraó virar divindade antes de sua morte, pois quando o mesmo falecia entreva para o mundo dos mortos, governado pelo deus Osíris para, então, entrar para o conjunto de deuses egípcios a ser cultuado.
A princípio, os sacerdotes não estavam de acordo com a proclamação de Hatshepsut como faraó, mas logo aceitaram a ideia. Provavelmente, o teriam feito pelo temor ao deus Amom e devido às riquezas que recebiam da coroa. A rainha realizava muitas doações ao clero, o que alimentava suas mordomias. Além disso, eles acreditavam que as decisões de dela satisfaziam ao deus venerado e, caso não fossem cumpridas, ele jogaria pragas no Egito e acabaria com as colheitas. O período de prosperidade e tranquilidade da época fortaleceu o pensamento de que a rainha decidia corretamente.
É interessante observar que, diferentemente como ocorria em outras civilizações, as mulheres no Egito tinham direitos e autonomia na sociedade, podendo ter posses e participar de tribunais. De acordo com Amodio (2006), nas sociedades ocidentais, as mulheres eram imputadas em um âmbito privado, ao contrário dos homens, que incumbiam-se da vida pública. A casa e os filhos era o mundo fechado delas, enquanto seus maridos trabalhavam para levar o sustento à família, o que incita a considerar que os homens detinham uma condição de poder. Durante a história, a mulher carregava a maldição do mito de Eva, considerada socialmente inferior social e intelectualmente, dependendo a proteção masculina.
Para Lopes (2009), em determinados períodos a mulher podia ser equiparada com os homens, podendo ser, juridicamente, considerada detentora de iguais direitos, prerrogativas e responsabilidade dos homens. Poderiam possuir terras, serem herdeiras, redigir testamentos, participar de transações comerciais; não perdiam seus direitos após o casamento e nem mesmo em casos de divórcio; cumpriam seu papel em tribunais como acusadoras, defensoras ou testemunhas, e poderiam ser penalizadas.
Lopes (2009) também lembra que elas normalmente apareciam na história desfrutando-se de prestígio social pelo título de mulher casada. Muito casais com seus filhos eram representados testemunhando a importância da mulher e da estrutura familiar. Não obstante possuírem uma vida política e religiosa (como sacerdotisas), cada uma poderia ter a sua profissão, registradas até em escritos antigos. Neferica-Rá, da 5ª dinastia durante o reinado de Sahurá, e Peseshet, durante o reinado de Amenhotep III, da 18ª dinastia, são dois exemplos do espaço conquistado pela mulher na sociedade egípcia. Podiam exercer também cargos de chefia, e as que viviam na realeza desfrutavam de maior prestígio social. Eram conhecidas como adoradoras ou cantoras de Amom, esposas reais, mães do faraó-deus.
“No Egito, as inscrições e monumentos em geral levam a crer que as mulheres gozavam de grande consideração. As esposas dos faraós partilhavam, ao que tudo indica, de sua autoridade, e esse soberanos, a fim de manter todo o prestígio dentro da família, desposavam freqüentemente as próprias irmãs. Esse costume perpetuou-se na grega dos Ptolomeus, sendo geralmente conhecido que a famosa Cleópatra teve por marido um irmão. Várias inscrições, por outro lado, recomendavam aos maridos que tratassem bem as esposas” [sic]. (LOBO, 1979:61)
Sabe-se por González (2010) que durante a 2ª dinastia, no 15º ano de reinado de Nineter, foi decidido que as mulheres poderiam reinar no trono do Egito. Merneite, que viveu na dinastia anterior a Nineter, também havia determinado essa liberdade anteriormente.
O período de paz e riquezas no Egito enquanto Hatshepsut reina é atestado pelas obras do templo de Amom em Carnaque e pelo templo funerário em Tebas. Segundo González (2010) e Costa (2011), ela dedicou-se à administração interna do país e nas construções de grandes obras. Baines e Málek (1996) trabalham com a hipótese de que sua filha estivesse sendo preparada para a corregência no futuro juntamente com Tutemés III. Senenmut, um plebeu camareiro e professor de sua filha, torna-se uma das pessoas mais importantes da plebe. Segundo Baines e Málek (1996:43), “foram recuperadas, em escavações na zona de Tebas, cerca de 20 estátuas de Senenmut, tendo este o privilégio único de ser retratado nos relevos do templo de Deir Elbari.” (grifo nosso) A menina, no entanto, falece pouco tempo após a posse do futuro faraó.
A arte teve grande repercussão e, para a glória de Amom-Rá, foram erguidos dois obeliscos no templo de Carnaque, além de ter realizado uma expedição para Punt. González (2010) acredita que antes dela nenhum outro rei tenha utilizado tanto a escultura quanto Hatshepsut usou em templo. A expedição ordenada por ela, retratada em Deir Elbari durante o nono ano de reinado, teve uma duração de aproximadamente três anos. A expedição tinha por finalidade comercializar através do Mar Vermelho com o país Punt, conhecido desde o Império Antigo como terra de ouro.
Hatshepsut é considerada uma das pessoas mais importantes que governou o antigo Egito, tendo uma influência que ultrapassou os limites nacionais, mesmo que, posteriormente, seu sucessor tenha desprendido ações para apagar seu nome da lista de faraós. Faleceu em , e foi a quinta governanta egípcia de sua dinastia. Seu corpo está sepultado no Vale das Rainhas e seus monumentos foram derrubados após sua morte. Segundo Vasques (2005), após o Império Novo, Hator continuou a ser cultuado, assim como outras divindades relacionadas à cura, como Imhotep e Amenhotep.
Tutemés III, quando sobe ao trono como sucessor, procura retirar Hatshepsut da história do Egito como vingança do acontecimento em sua infância. Mokhtar (2010) relata a história contada pelo próprio faraó quando, aos trinta anos de idade, descobriu sua vocação para o reinado. O faraó diz que durante uma participação como sacerdote em uma cerimônia em Carnaque juntamente com seu pai, o oficiante, a estátua de Amom lhe escolheu como rei do Egito através de um oráculo.
Tutemés III é considerado um dos faraós guerreiros mais importante do antigo Egito. Vale lembrar que ele descende de uma linhagem de guerreiros, visto que há um século e meio aproximadamente os mesmos haviam expulsado ancestrais do próprio príncipe de Kadesh, desencadeando a luta entre Egito e Síria. Uma de suas primeiras campanhas foi contra Megido. Conforme Mokhtar (2010) várias cidades-Estado das regiões da Síria, Palestina e Líbia haviam feito uma forma de aliança e reuniram-se em Megido para tomar o Egito. O príncipe de Cadexe, apoiado por outros 150 príncipes começa a planejar uma invasão ao Egito.