thumb|direita|200px|Planta da antiga Abadia de Claraval. A Abadia de Claraval (Clara Vallis em latim, Clairvaux em francês), que foi um mosteiro cisterciense , está localizado em Ville-sous-la-Ferté, no departamento de Aube, na França.

O mosteiro foi fundado em 1115 por Bernardo de Claraval (futuro São Bernardo), à época com apenas 25 anos, e alguns monges vindos da Abadia de Cister (Citeaux), com dinheiro e terreno oferecido por Hugo de Champanhe.

Claraval foi, assim, uma das quatro fundações derivadas da Abadia principal de Cister, junto com Abadia de La Ferté, Abadia de Pontigny e Abadia de Morimond.

Por sua vez, a partir de Claraval foram fundadas um total de 350 abadias por toda a Europa, incluindo mosteiros célebres como a Abadia de Fontenay (França), a Abadia de Fossanova (Itália), o Mosteiro de Poblet, Mosteiro de Santes Creus (Catalunha) e o Mosteiro de Alcobaça (Portugal).

Tendo sido suprimido, após a Revolução Francesa (1789), os seus edifícios foram convertidos em prisão em 1808, transformando-se no maior estabelecimento penitenciário francês do seu tempo. A partir de 1970, uma parte da histórica abadia deixou de abrigar presos e passou a ser visitável, recebendo também eventos culturais.

História Surgiu em 1115 simultaneamente à abadia de Morimond, e, tal como esta, como filiação da abadia de Cîteaux, nas terras e com a contribuição de Hugo I de Champagne, na diocese de Langres.

O local escolhido situava-se numa clareira isolada, o Val d'Absinthe, onde abundavam a água e a madeira, elementos indispensáveis à organização de uma abadia cisterciense: a autossuficiência, juntamente com o isolamento do mundo, estavam de facto previstas pela Regra de São Bento, e a própria arquitetura cisterciense, tanto em Claraval como em Fontenay, por exemplo, respondia a essas necessidades. Junto dos edifícios destinados à habitação (para monges e conversos), surgiram edifícios de serviço (moinhos, cozinhas, etc.) e a igreja abacial dedicada à oração; todos os edifícios se agrupavam em torno de um claustro. A igreja abacial original parece ter tido três altares, dos quais um dedicado à Virgem e os outros dois a São Lourenço e a São Bento, e situava-se — juntamente com os outros edifícios antigos — cerca de dois quilómetros a oeste da abadia atual, numa colina no interior da floresta. Em 1135, Bernardo decidiu transferir a sede abacial para um local mais plano, mais adequado para acolher a comunidade monástica, que havia aumentado, e hoje compreendido dentro da parte ocidental das muralhas de recinto; a igreja do segundo mosteiro era um edifício quadrado de 16 metros de lado, com nove altares..

Superados os primeiros anos após a fundação, marcados por dificuldades de todo o tipo, Claraval encaminhou-se — também graças à fama de santidade de Bernardo — para se tornar um dos mais importantes e ricos centros da ordem cisterciense: em 1145, um dos seus monges fora eleito papa com o nome de Eugénio III, e, em 1201, já se contabilizavam mais de mil atos de doação à abadia por parte de fiéis mais ou menos ilustres (no século seguinte, as doações começaram, contudo, a diminuir, sinal do peso crescente em França das ordens mendicantes). Graças às doações em dinheiro, a abadia investia em aquisições imobiliárias e noutras fontes de rendimento, que seguiram ao longo do tempo a mesma tendência acima descrita.

Na época da morte de Bernardo, em 1153, a abadia contava 700 religiosos entre as suas muralhas, e mais de 150 conventos afiliados, em França e no estrangeiro,. pelo que a igreja se tornou insuficiente: o monge Lourenço, enviado para a Sicília durante a vacância que se seguiu à morte de Bernardo, recebeu de Guilherme I da Sicília a quantia necessária para construir uma basílica maior, que foi consagrada em 1174. Em 1178, Henrique II de Inglaterra doou os fundos necessários para realizar uma cobertura de chumbo, e o abade, como sinal de reconhecimento, retribuiu com uma relíquia: um dedo de Bernardo, recentemente canonizado.

A igreja, que tal como descrita ainda existia no século XVIII, tinha três naves, um tran­­septo com algumas capelas e uma abside semicircular igualmente rodeada de capelas. O seu comprimento era de 106 metros, a largura de 54 no transepto e de 25 nas naves, metade dos quais correspondia à nave central. Contavam-se 32 altares: no centro da abside encontrava-se o altar-mor, atrás do qual havia outros três altares erguidos sobre o túmulo de Bernardo (ao centro), sobre as relíquias dos mártires Eutrópio, Zósimo e Bonoso (à direita), e sobre o túmulo de São Malaquias (à esquerda). A igreja acolhia 805 cadeiras de coro para os monges.

Diversamente de muitas outras igrejas de fundação medieval, a de Claraval, em conformidade com as disposições da abadia-mãe de Cîteaux, acolhia relativamente poucos sepultamentos: além dos santos Bernardo e Malaquias, estavam ali sepultados quatro cardeais e dezasseis arcebispos e bispos; os próprios abades eram enterrados no grande claustro ou num dos três cemitérios da abadia: mesmo personalidades ilustres como Filipe da Alsácia e a sua esposa Teresa de Portugal não puderam obter sepultura na igreja, tendo de mandar construir uma capela no cemitério dos abades estrangeiros.

Em setembro de 1587, a abadia sofreu o saque das tropas suíças recrutadas por Henrique, rei de Navarra, contra a Liga Católica..

No início do século XVII, durante o seu período de máxima expansão, a abadia possuía serrarias, forjas, moinhos, quintas, lagares de azeite, tecelagens, curtumes, e abastecia as principais feiras de França, com receitas anuais de seiscentas mil libras tornesas.

Em 1708, a abadia foi completamente reconstruída, mas o edifício dos conversos (do século XII) foi conservado, por ter sido convertido em celeiro: exemplo característico da arquitetura cisterciense e ainda hoje existente, tem 70 metros de comprimento e 15 de largura, com três naves e doze tramos; no primeiro andar compreende uma adega e um refeitório perfeitamente reconhecível nos nossos dias; o segundo andar era ocupado pelo dormitório. O conjunto respeita perfeitamente o conceito de arte cisterciense definido por São Bernardo, assente na sobriedade, em oposição ao que então era praticado em Cluny. É classificado como monumento histórico desde 1981, pertence ao Ministério da Cultura desde 2003 e encontra-se em restauro. Entre os outros edifícios visitáveis podem citar-se o grande claustro de arquitetura clássica, igualmente pertencente ao Ministério da Cultura.

Em 1789, permaneciam em Claraval 40 monges e cerca de vinte conversos; mas os rendimentos da abadia, embora reduzidos em relação ao século anterior, eram ainda assim consideráveis: mais de libras anuais em bens e dinheiro.

Com a Revolução, Claraval tornou-se património da nação, na sequência do decreto de 2 de novembro de 1789 que colocava os bens eclesiásticos à disposição do Estado. Foi então posta à venda e, em 1792, alguns industriais compraram-na para nela instalar algumas manufaturas, entre as quais uma vidraria. Poucos anos depois, em 1808, foi o Estado que adquiriu o local para o transformar numa prisão.

A transformação de complexos abaciais em prisões, durante o século XIX, era uma prática comum em França (aconteceu no Monte Saint-Michel, em Fontevraud, etc.) e estava ligada à reforma do sistema penal: o edifício dos conversos tornou-se assim uma prisão feminina com oficinas, enquanto o grande claustro foi destinado à detenção masculina. Em 1812, a igreja abacial foi vendida como fonte de material de construção para saldar as dívidas; o diretor da prisão foi, contudo, demitido, uma vez que a venda havia privado os detidos de um local de culto.

Hoje, a prisão está instalada nos edifícios do século XVIII e, em parte, em construções dos anos sessenta.

Ligações externas

Claraval Claraval Categoria:Ruínas da França