El Haj T'hami el Mezouari el Glaoui, T'hami el Mezouari El Glaoui ou T'hami el Mezouari Aglaou' (Télouet, — Télouet, ), também conhecido simplesmente como Thami El Glaoui, El Glaoui, O Glaoui ou Senhor do Atlas, foi um dos mais célebres e destacados líderes políticos de Marrocos da primeira metade do . Foi chefe tribal dos berbere Glaoua e paxá de Marraquexe com o apoio das autoridades coloniais do Protetorado Francês de Marrocos entre 1912 e 1956.
Os seu nome de família El Mezouari refere-se a um título outorgado pelo sultão Mulei Ismail a um dos seus antepassados em 1700, enquanto que El Glaoui se refere à sua condição de chefe dos Glaoua, a tribo berbere do Alto Atlas baseada em Télouet, a sul de Marraquexe. Thami El Glaoui tornou-se o líder dos Glaoua após a morte do seu irmão mais velho, Si el Madani e conspirou com os franceses, a quem se aliou, para destronar o sultão .
Líder feudal Até à segunda metade do , a sociedade marroquina era praticamente feudal, assemelhando-se muito em diversos aspetos às sociedades europeias da Idade Média. No topo da estrutura social e política encontrava-se o sultão, que era simultaneamente o rei (líder temporal) e o imame (líder espiritual). A sua corte, ou governo central (designado Makhzen), era chefiada por um grão-vizir. O nível seguinte do governo era preenchido por um grande número de paxás (do padxá cujo significado literal é vice-rei) e caides, equivalentes aos duques e condes na Europa. Este segundo nível de governo era responsável por cobrar impostos e manter a ordem, o que implicava que era frequente que os paxás e caides mantivessem exércitos privados. As responsabilidades das pessoas comuns, na base da pirâmide social eram pagar impostos, obedecer ao governante local e servir nas suas tropas quando necessário.
thumb|left|Télouet, a capital da tribo berbere de El Glaoui, os Glaoua
Thami era filho do caide de Télouet, Si Maomé ibne Hamu e da sua concubina etíope, Zora. Quando Si Maomé morreu em 1888, o irmão mais velho de Thami sucedeu ao pai e o jovem tornou-se seu assistente. No outono de 1893, o sultão Mulei Haçane atravessava as montanhas do Alto Atlas com o seu exército após uma expedição de coleta de impostos quando foram apanhados por uma tempestade de neve. Si Madani e Thami foram em seu auxílio e como recompensa desse acto, o sultão concedeu a Si Madani os caïdats desde o Tafilete até ao Suz, correspondente a uma parte considerável faixa do território marroquino a sul de Marraquexe. Além disso ofereceu aos Glaoua um canhão Krupp de 77 mm, que passou a ser a única arma do seu tipo em Marrocos que não pertencia ao exército imperial. Este canhão seria depois usado para subjugar os senhores da guerra rivais.
Em 1902, Madani, Thami e as suas tropas Glaoua juntaram-se ao exército imperial de Mulei Abdelaziz quando este marchou contra o pretendente ao trono . As tropas do sultão foram desbaratadas pelos rebeldes, uma derrota de que Madani se tornou o bode expiatório, valendo-lhe vários meses de humilhação na corte antes de ser autorizado a voltar a casa. Em consequência disso, Madani começou a movimentar-se ativamente para depôr Mulei Abdelaziz, o que acabou por concretizar-se em 1907, com a subida ao trono de Mulei Abd al-Hafid, que recompensou Si Madani nomeando-o o seu grão-vizir e Thami com o título de paxá de Marraquexe.
Influência dos franceses thumb|upright=0.85|O general francês Lyautey condecora os irmãos El Glaoui em Marraquexe em 1912
Os reinados ruinosos de Mulei Abdelaziz e Mulei Hafid levaram Marrocos à bancarrota, o que originou motins e, posteriormente, uma intervenção armada dos franceses para proteger os cidadãos e os seus interesses financeiros. Com a degradação da situação política, houve necessidade de encontrar novamente um bode expiatório e esse papel coube novamente aos Glaoua. Mulei Hafid acusou Madani de reter para si dinheiro dos impostos e em 1911 retirou todos os cargos da família Glaoui.
Em 1912, o sultão foi forçado a assinar o Tratado de Fez, o qual deu aos franceses um imenso controlo sobre o sultão, os seus paxás e caides. No final desse ano, o pretendente ao trono Ahmed al-Hiba (o "sultão azul") entrou em Marraquexe com o seu exército e exigiu ao novo paxá, Driss Mennou, que tinha substituído Thami, que lhe entregasse todos os estrangeiros cristãos como reféns. Estes tinham procurado refúgio junto do antigo paxá, Thami, que tinha tentado levá-los para fora da região sem sucesso. Thami entregou todos os reféns exceto um sargento, que escondeu e a quem forneceu uma linha de comunicações com o exército francês que ia a caminho. Os franceses dispersaram os guerreiros de El Hiba em debandada e Driss Mennou ordenou aos seus homens que subjugassem os guardas de El Hiba e libertassem os reféns. Após serem libertados, os reféns dirigiram-se a casa de Thami para recolherem os seus pertences, onde foram encontrados pelas tropas francesas que julgaram que tinha sido Thami sozinho que tinha salvo os reféns. Thami foi imediatamente reposto como paxá e, constatando que os franceses eram então o único poder efetivo, aliou-se a eles.
Senhor do Atlas Madani morreu em 1918. Como recompensa do seu apoio, os franceses nomearam imediatamente Thami líder dos Glaoua, preterindo os filhos de Madani. Só Si Hammou, o genro de Madani, conseguiu manter o seu cargo de caide dos Glaoua de Télouet, o que lhe dava também o controlo do seu arsenal. Só com a morte de Hammou em 1934 é que Thami obteve o controlo total da sua herança.
esquerda|thumb|upright=0.85|Vista de Télouet desde o Casbá de Télouet, o palácio de Thami El Glaoui
O poder e riqueza de Thami cresceram. A sua posição como paxá possibilitou-lhe adquirir grande riqueza, por meios frequentemente dúbios, explorando a agricultura e recursos minerais. O seu estilo e charme pessoal, bem como a prodigalidade com a sua riqueza, granjeou-lhe muitos amigos entre a alta sociedade internacional. Visitou frequentemente várias capitais europeias e os seus convidados em Marraquexe incluíam personalidades como Winston Churchill, Colette, Maurice Ravel e Charlie Chaplin.
Thami assistiu à coroação de como convidado particular de Churchill, mas o seus presentes, uma coroa com joias e um punhal decorado, foram recusados porque não era costume receber presentes de indivíduos que não representassem um governo nacional.
Segundo o seu filho Abdessadeq, uma das razões para Thami ter adquirido tantos terrenos foi tê-los comprado a baixo preço durante os tempos de seca. Durante uma dessas secas, mandou construir um campo de golfe privado irrigado em Marraquexe, no qual Churchill jogou muitas vezes. Quando os franceses protestaram por tal desperdício de água, foram facilmente silenciados concedendo direito para uso do campo de golfe aos oficiais superiores.
Thami tinha duas esposas: Lalla Zineb, viúva do seu irmão Si Madani e mãe dos seus filhos Hassan e Abdessadeq; e Lalla Fadna, mãe do seu filho Mehdi e da filha Khaddouj. Mehdi foi morto na Batalha de Monte Cassino, quando combatia com os franceses. Além das esposas, Thami tinha várias concubinas, tendo filhos de três: Lalla Kamar, mãe de Brahim, Abdellah, Ahmed and Madani; Lalla Nadida, mãe de Maomé e de Fattouma; e Lalla Zoubida, mãe de Saadia. As duas primeiras entraram para o harém inicialmente como músicas, vindas da Turquia.
Relações com os nacionalistas Como parte da resistência contra a ocupação francesa, o Partido Istiqlal adotou uma política nacionalista (isto é: anti-colonialista). Thami e o seu filho Brahim eram apoiantes dos franceses, mas vários filhos eram nacionalistas. Como isso podia ser arriscado, chegou a prender um dos filhos nacionalistas numa masmorra.
Thami tinha crescido e vivido a maior parte da sua vida como um senhor feudal, à semelhança de muitos dos restantes paxás e caides. A sua oposição aos nacionalistas era sobretudo uma atitude conservadorista. A única linha de comunicação entre o povo e o sultão eram os paxás e os caides. Esta era igualmente o caminho por onde os impostos chegavam ao Makhzen. Ninguém, a começar pelos nacionalistas, que eram sobretudo gente comum, deveriam quebrar este protocolo. Para os paxás e caides, esta ordem social tinha benefícios tanto para eles como para os seus subordinados. Em certa medida, havia alguma verdade nessa nisso, pois o mais provável era que qualquer paxá ou caide que manifestasse simpatia pelos nacionalistas fossem removido do seu cargo pelos franceses para ser substituído por uma fantoche, quando não por um oficial francês.
Além de porem em causa o poder político tradicional, os nacionalistas eram também acusados de porem em perigo a liderança espiritual. As sensibilidades religiosas tradicionais dos paxás e caides faziam-nos escandalizar-se com as fotografias na imprensa mostrando as princesas reais em fato de banho na praia ou na piscina. Considerava-se que os nacionalistas eram os culpados por apresentarem ao sultão tais modas anti-islâmicas.
Rutura com o sultão thumb|upright|Retrato de Thami El Galoui da autoria de André Suréda anterior a 1923
Dois eventos marcaram o início da rota de colisão entre Thami e :
Incidente de Mesfioua — A 18 de novembro de 1950, os nacionalistas organizaram uma manifestação num túmulo nas ruínas de Agmate, a qual foi brutalmente reprimida pela polícia às ordens do caide da tribo local Mesfioua. Ao saber do ocorrido, o sultão ordenou ao caide que se lhe apresentasse para lhe dar explicações. Normalmente, a ordem deveria ter seguido através do superior do caïd, Thami, mas este encontrava-se em Paris, pelo que a ordem foi transmitida ao seu substituto, o filho Brahim. Este, em vez de obedecer, decidiu consultar o pai, mas como não obteve deste uma resposta definitiva, a ordem do sultão acabou por não ser cumprida. Devido a este incidente, Maomé V ficou com a sensação de que a família Glaoui o tinha ignorado deliberadamente.
Incidente de Lagzaui — Os franceses tinham criado um "Conselho do Trono", alegadamente para aconselhar o sultão, mas na prática queriam impor-lhe as suas políticas. Numa reunião do Conselho realizada a 6 de dezembro de 1950, Maomé Lagzaui, um nacionalista, foi expulso da sala pela pessoas que efetivamente controlava o Conselho, o "Residente" (administrador colonial do protetorado) francês. Os restantes nacionalistas do Conselho abandonaram também a reunião, acompanhando Lagzaui, e foram prontamente recebidos em audiência privada pelo sultão. Este incidente levou Thami a concluir que os nacionalistas e o sultão estavam a quebrar os protocolos estabelecidos para comunicação.