Francisca Edviges Neves "Chiquinha" Gonzaga (Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1847 – Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1935), foi uma compositora, instrumentista, maestrina e abolicionista brasileira.
Pioneira musicista, Chiquinha foi a primeira pianista chorona (musicista de choro), autora da primeira marcha carnavalesca ("Ó Abre Alas", 1899) e também a primeira mulher a reger uma orquestra popular no Brasil. Em uma época em que imperavam as valsas, polcas e tangos no cenário musical de elite no Brasil, Chiquinha incorporava em suas composições a diversidade encontrada na música das classes mais baixas. Foi também pioneira na defesa dos direitos autorais de músicos e autores teatrais. Neta de escravizados, Chiquinha foi uma militante abolicionista, usando o dinheiro que ganhava na música para ajudar movimentos abolicionistas e comprar alforria de escravizados. A necessidade de adaptar o som do piano ao gosto popular rendeu-lhe o reconhecimento como primeira compositora popular do Brasil.
No Passeio Público do Rio de Janeiro há uma herma em sua homenagem, obra do escultor Honório Peçanha. Em maio de 2012 foi sancionada a Lei , que instituiu o Dia da Música Popular Brasileira, comemorado no dia de seu aniversário.
Biografia Família e primeiros anos Chiquinha nasceu no Rio de Janeiro, em 1847. Era filha de José Basileu Neves Gonzaga (1817 - 1891), então major do Exército Imperial Brasileiro, e de Rosa de Lima MariaEm algumas fontes, referida como Rosa Maria de Lima.Chiquinha Gonzaga, almanaque.folha.uol.com.br — esta, filha de Tomásia, uma mulher preta escravizada.De acordo com Magalhães (2019), p. 17, a mãe de Chiquinha "fora alforriada na pia batismal". Segundo Rafael Cesar (A composição de uma pioneira - De Francisca a Chiquinha, Unicamp, 2015), no seu assentamento de batismo, datado de 30 de agosto de 1827, consta que era "filha natural de Tomásia, parda escrava de dona Josefa Maria de Jesus, viúva, a qual disse em minha presença, e das testemunhas abaixo assinadas, que dava liberdade gratuita à dita inocente Rosa, que de hoje em diante ficaria gozando como se nascesse de ventre livre" ( p. 43, apud Edinha DINIZ, Chiquinha Gonzaga uma História de Vida, Zahar, 2009, p.277). No mesmo documento consta seu nome completo – Rosa de Lima Maria – indicando a ausência de sobrenome, o qual ela viria a adquirir somente após o casamento com José Basileu Neves Gonzaga. Ainda muito nova, Rosa começou a se relacionar com José Basileu, proveniente de uma ilustre e rica família. Ela engravidou de Basileu pela primeira vez aos 15 anos e aos 16 já era mãe de Mamede. Basileu reconhecia os filhos apenas durante ou depois do batismo. Em seguida nasceria Joana.
Chiquinha, além dos dois irmãos mais velhos, tinha também mais quatro irmãos mais novos: Juca (José Basileu Filho), com nove anos, José Carlos, com dois anos, e o recém-nascido Feliciano. Os irmãos Mamede e Joana, nascidos antes, e Tomásia, nascida em 1853, parecem não ter vingado, pois não se tem mais notícias deles nas memórias da família. O casal ainda teria mais tarde Rosa, Joana e Nicolau Tolentino.
Figuras ilustres do Império pertenciam à família de origem de José Basileu. Seu pai, Feliciano José Neves Gonzaga, se casou com Joana Perpétua da Costa Barros, de alta linhagem, em 1814, Joana era prima de Joana Maria da Fonseca Costa, avó de Luís Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias, e irmã de Maria Balbina da Costa Barros, de quem descendiam Manuel Antônio da Fonseca Costa, Marquês da Gávea, e João de Sousa da Fonseca Costa, Visconde da Penha.
José Basileu entrou para o Exército Imperial aos 17 anos. Fez o curso completo na Escola Militar, tornando-se bacharel em matemática e ciências físicas. Falava e escrevia em latim, francês e inglês e teve uma carreira militar sem maiores problemas, chegando ao posto de marechal de campo, condecorado com as comendas das ordens do Cruzeiro e da Rosa,Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos. José Basileu Neves Gonzaga além de medalhas alusivas às campanhas da Cisplatina e do Paraguai.
Contrariando a própria família, José Basileu casou-se com Rosa Maria após o nascimento de Francisca, o terceiro parto de Rosa e mais uma menina que nasceu desta relação. O parto de Chiquinha foi difícil, deixando a mãe, a avó, dona Tomásia e a parteira aflitas. Temendo que Francisca não sobrevivesse, chamaram o reverendo Jerônimo, da igreja de Santana, para batizar o bebê. Ela foi chamada de Francisca Edviges, como a santa. Basileu, que desde os 22 anos já era oficial do Imperial Corpo de Engenheiros do Exército, estava fora do Rio de Janeiro nessa época. Regressou com uma licença de três meses para tratamento de saúde concedida pelo presidente da Província de Pernambuco, para onde fora enviado em comissão ativa.
A família se opunha à relação de Basileu e Rosa, mas dois irmãos seus participaram dos batismos de seus filhos: José Feliciano Filho foi sua testemunha no batismo do primogênito Mamede, e Antonio Eliseu foi padrinho de Francisca. Com três filhos e uma esposa, Basileu precisava se garantir na corporação militar. Assim, solicitou vencimento do soldo integral logo após seu retorno ao Rio de Janeiro, já que sua licença lhe permitia apenas meio soldo, o que julgava insuficiente.
Porém, o brigadeiro rejeitou o requerimento e exigiu uma inspeção de saúde do oficial, para verificar se seu estado requeria realmente a licença. Assim, Basileu recorreu ao general Duque de Caxias, seu parente e protetor, que lhe assegurou os vencimentos integrais e ainda o dispensou da inspeção. Um mês depois, Basileu foi nomeado como desenhista do arquivo militar, conseguindo assim uma permanência remunerada na corte imperial.
Chiquinha cresceu em uma família de pretensões aristocráticas e teve uma educação que obedecia rigorosamente aos padrões impostos pela estrutura familiar patriarcal da sociedade escravocrata. Mas essa educação aconteceu em um período de intensa transição e transformação social. O Rio de Janeiro começava a ganhar contornos cosmopolitas e sofisticados desde a chegada da família real em 1808, trazendo uma corte e intelectuais estrangeiros que introduziram novos hábitos na cidade. Era uma época em que mulheres (aristocratas e cortesãs) passavam a fazer parte do cenário carioca, extrapolando os tradicionais papéis femininos de mãe e esposa.
Apesar das dificuldades de inserção da família Gonzaga no pequeno círculo da alta sociedade carioca — sobretudo em razão das origens de Rosa —, Basileu, um homem culto e bem instruído,MAGALHÃES, Maristela R. A.. Chiquinha Gonzaga: de outsider ao reconhecimento perante o domínio masculino. UFJF, 2019, p.21. esforçava-se para dar aos filhos a melhor educação, em especial às meninas, de modo que pudessem fazer bons casamentos. Para o ensino das primeiras letras a Chiquinha, contratou um clérigo, o cônego Trindade. Além da escrita, da leitura, do cálculo e do catecismo, a jovem aprendeu também alguns idiomas. Para completar a formação da filha, José Basileu também contratou o maestro Elias Álvares Lobo para dar aulas de piano à menina.
O ambiente musical na casa dos Gonzaga era farto e animado. Eram comuns as visitas de seu tio paterno e padrinho de batismo, o flautista Antonio Eliseu. Sob sua coordenação, na festa de Natal de 1858, Chiquinha apresentou sua primeira composição, "Canção dos pastores", uma loa ao Menino Jesus com versos do irmão Juca. Uma produção infantil, com melodia singela e versos ingênuos, mas que marcou sua estreia na música, ainda que em casa.
Além das aulas repletas de composições clássicas, Chiquinha também tinha acesso à moda musical da época e ao repertório popular. Provavelmente teve contato com as músicas populares, que influenciariam sua carreira no futuro, como as rodas de lundu, umbigada e outros ritmos oriundos da África.
Quando Chiquinha tinha 12 anos, José Basileu decidiu legalizar sua união com Rosa e assim legitimar o nascimento dos filhos, apelando à Câmara Eclesiástica para obter um “casamento oculto”.
O casamento aconteceu na igreja de São Gonçalo Garcia, à rua da Alfândega, hoje mais conhecida como igreja de São Jorge, em 6 de fevereiro de 1860, tendo como testemunhas o conselheiro doutor Antonio Felix Martins, o mesmo que serviu de testemunha ao batismo de Chiquinha, e o doutor João Emílio Neves Gonzaga, irmão do major e mais tarde testemunha, junto ao marquês de Caxias, da sobrinha Chiquinha.
Casamento Desde pequena, Chiquinha revelara temperamento firme, personalidade decidida e espírito inquieto e é provável que seus familiares alimentassem a ideia de que o casamento daria jeito na moça inquieta. Não se sabe quem escolheu o marido de Chiquinha, mas sabe-se que ela não teve qualquer participação na escolha. Jacinto Ribeiro do Amaral, nascido no Rio de Janeiro em 11 de setembro de 1839, era filho de Miguel Ribeiro do Amaral, português, e de Maria Isabel da Rosa Amaral, carioca, sendo oito anos mais velho que ela. Na ocasião do casamento, o pai do rapaz, comendador e proprietário de terras na Ilha do Governador, já era falecido.
A cerimônia ocorreu às cinco horas da tarde do dia 5 de novembro de 1863, com solenidade na Igreja de Sant'Ana, no centro do Rio de Janeiro. Chiquinha agora se chamava Francisca Edviges Gonzaga do Amaral. O dote de seu pai foi um piano. Chiquinha levava uma vida de conforto, cercada de escravos, mas a vida doméstica não lhe aprazia. Era apenas ao piano que Chiquinha se sentia confortável e Jacinto logo começou a exigir que ela deixasse a música de lado.
Aos 16 anos, Chiquinha tornou-se mãe. João Gualberto nasceu em 12 de julho de 1864 e foi batizado pelo bisavô materno, o brigadeiro Feliciano José Neves Gonzaga, e a avó paterna dona Maria Isabel da Rosa Amaral. No ano seguinte, em 12 de novembro de 1865, nasceu Maria do Patrocínio, batizada pelos avós maternos, José Basileu e Rosa. Para o desespero do marido, Chiquinha continuava sua dedicação ao piano, mesmo após o nascimento dos filhos, e as discussões eram constantes.
Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai eclodiu em 1864, mas apenas no ano seguinte o Brasil se envolveu. Sem contar com uma reserva regular de soldados, o governo passou a simpatizar com a ideia da alforria aos escravos. Senhores das províncias, ordens religiosas, comendadores e outros libertaram milhares de escravos que se tornaram "voluntários da pátria" e foram para o Paraguai.
Jacinto tornou-se coproprietário de um navio mercante, o São Paulo, e em junho de 1865 o navio foi fretado pelo governo para auxiliar no transporte. Como comandante da Marinha Mercante, Jacinto começou a realizar viagens ao sul. Na esperança de corrigir o comportamento de Chiquinha, ele decidiu levá-la em tais viagens, de maneira a afastá-la do piano. Em 1866, o São Paulo fez duas expedições para o acampamento do Passo da Pátria, na foz do rio Paraguai. Transportava parte do II Corpo do Exército, como armas, soldados e escravos, e também levava Chiquinha e seu filho João Gualberto.
José Basileu, então tenente-coronel, foi nomeado secretário do comando em chefe de todas as Forças brasileiras em operações e, a serviço do general Duque de Caxias (ainda marquês na época), comandante-chefe, embarcou também para a luta contra o governo do Paraguai. Rosa permaneceu no Rio de Janeiro a cuidar dos filhos e netos. Tendo-lhe nascido uma filha 14 dias após o nascimento da neta Maria, ela passou a amamentar as duas ao mesmo tempo.
Chiquinha testemunhou absurdos e cenas cruéis contra os negros alforriados. Era comum que nas tempestades o mar arrastasse os soldados nas embarcações rasas. As discussões com o marido eram frequentes e, pensando em amenizar a situação, Jacinto conseguiu um violão com alguém a bordo do São Paulo. Mesmo assim, ele relutava em ceder à intransigência da esposa e lhe deu um ultimato: a música ou ele.