miniaturadaimagem|350x350px|Vendendo uma esposa (1812–1814), de Thomas Rowlandson. Esta ilustração dá ao espectador a impressão de que a venda era uma prática divertida, mas na realidade ela era inerentemente humilhante para os envolvidos. Na Inglaterra, a venda de esposas era uma maneira de acabar com um casamento insatisfatório, normalmente de maneira consensual. Esse costume provavelmente se originou no final do , época em que o divórcio era uma impossibilidade prática para todos, exceto os mais ricos. Na visão de um casal que desejava separar-se de maneira moralmente aceitável, a venda apresentava-se como um processo vexatório, mas que permitia tornar legítimo, e, portanto, socialmente satisfatório, o rearranjo da sua relação conjugal.

Em sua forma típica esse costume assumiu uma forma ritualizada, que buscava assegurar a pretensa legalidade das transações. A venda era anunciada publicamente, e em seguida o marido levava sua esposa por um cabresto até o local onde ela ocorreria, normalmente um mercado. Ali, a esposa era leiloada diante de espectadores, e, como sinal de realização do negócio, dinheiro era trocado e a esposa era entregue pelo cabresto ao comprador. As vendas também podiam incluir os filhos, e por vezes os valores em dinheiro eram completados com outros bens, notadamente bebidas alcoólicas e animais. O valor da venda não parece ter sido a principal consideração durante as vendas, mas existem registros de maridos e outros interessados comprando e revendendo esposas em busca de lucro.

Embora relatos da época buscassem salientar aspectos cômicos das vendas, a situação era inerentemente humilhante e podia ser degradante para os envolvidos, sobretudo a esposa. Contudo, muitos relatos contemporâneos sugerem a independência e a vitalidade sexual das mulheres, e afirmam que o consentimento da esposa era essencial para o sucesso de cada transação. Embora esposas tenham se negado a serem vendidas durante o , não existem registros de resistência à venda no . Com efeito, são conhecidos casos de esposas que insistiram em ser vendidas, que foram vendidas para seus familiares, e que arranjaram suas próprias vendas a agentes contratados. A venda de esposas parece ter sido difundida por toda a Inglaterra, e cerca de quatrocentas ocorrências foram documentadas, um número pequeno em comparação com os casos de abandono conjugal do mesmo período.

Embora o costume não tivesse fundamento legal e, notadamente a partir de meados do , frequentemente resultasse em processos judiciais, em geral, a atitude das autoridades públicas e religiosas era ambígua em relação a ele. Pelo menos um magistrado declarou não acreditar que tivesse o direito de impedir a venda de esposas, e houve casos de clérigos e comissários das Poor Laws forçando maridos a venderem suas esposas para evitar seu envio para workhouses. A crescente exposição de vendas de esposas nos jornais aumentou gradualmente a oposição a esse costume e, como consequência, o número de vendas documentadas diminuiu a partir da segunda metade do . A prática persistiu até às primeiras décadas do , quando vendas menos públicas ainda ocorriam ocasionalmente, e o último caso de que se tem notícia foi reportado em Leeds, em 1926. Contexto jurídico e social

Origens Embora desde a Baixa Idade Média a Inglaterra tenha visto surgirem práticas assemelhadas à venda de esposas, como aquela relatada em um documento do ano de 1302 que registra o caso de um homem que "cedeu a sua esposa por escritura a outro homem”, a venda de esposas em sua forma ritual parece ter se originado como um costume no final do , época em que referências a vendas começaram a surgir de maneira mais consistente. Entre 1690 e 1750 cerca de uma dezena de casos foram documentados no país, dentre os quais o de um certo John, de Tipton, que, em novembro de 1692, “vendeu a sua esposa” a um homem de nome Bracegirdle; e o de Thomas Heath Maultster, que, em 1696, foi punido por “coabitar de maneira ilegal com a esposa de George […] tendo-a comprado de seu marido”. Contudo, o costume se firmaria sobretudo nas décadas seguintes, e em um caso ocorrido em Oxford, em 1789, a venda de esposas é descrita como “a forma vulgar do divórcio, recentemente adotada”, sugerindo que essa ainda não era uma prática consolidada, embora estivesse consideravelmente difundida pelo país.

Com o aumento da popularidade dos jornais, e mudanças nos temas reportados por esses veículos de comunicação, que passaram a incluir curiosidades e fatos inusitados, notícias sobre essa prática se tornam mais frequentes na segunda metade do e isso foi acompanhado de críticas e de um endurecimento da atitude das autoridades públicas a seu respeito. O costume persistiu até o início do , e, por essa época, um escritor notou que a venda de esposas era "um costume suficientemente enraizado” e, portanto, ainda existente. Da mesma forma, o jurista e historiador James Bryce, escrevendo em 1901 sobre a venda de uma esposa, afirmou que “todo mundo já ouviu falar do estranho hábito de venda de esposas, que ainda ocasionalmente se repete entre as classes mais humildes da Inglaterra”.

Métodos de separação Embora no início da Idade Moderna existissem métodos juridicamente válidos para romper um casamento na Inglaterra, as opções disponíveis eram inacessíveis à maioria da sociedade. A maneira mais comum consistia em peticionar a um tribunal eclesiástico por uma separação de corpos (; lit.: separação de mesa e cama), em razão de adultério ou crueldade extrema. Esse método, contudo, dependia de comprovação do adultério ou tratamento cruel, e, além disso, não permitia aos cônjuges casar-se novamente.

A partir da década de 1550 e até que a Lei de Causas Matrimoniais fosse promulgada em 1857, o divórcio (; lit.: dissolução do vínculo matrimonial) tornou-se possível, mas devia ser precedido da separação a mensa et thoro e exigia o procedimento complexo e extremamente custoso de aprovação de uma lei privada do Parlamento. Como já se colocou a respeito, embora a Inglaterra e depois o Reino Unido fossem países de maioria protestante, em termos práticos essa era uma "sociedade sem divórcio”, à imagem dos países católicos: devido aos seus custos, em cerca de três séculos apenas duzentas pessoas tentaram esse tipo de procedimento, das quais apenas seis eram mulheres. Ainda, embora os tribunais de divórcio estabelecidos na sequência da lei de 1857 tenham tornado seu procedimento consideravelmente mais barato, o divórcio permaneceu proibitivamente caro para a imensa maioria da sociedade.

Também excessivamente custosa, a anulação do casamento buscava invalidar retroativamente o enlace, mas exigia acesso a tribunais eclesiásticos e a presença de certos pressupostos que a restringia a poucos. Uma alternativa menos cara era obter uma separação privada, um acordo negociado entre os dois cônjuges e celebrado em um ato de separação elaborado por um jurista especializado em operações de compra e venda, o conveyancer. Mas também esse método era uma impossibilidade para a maioria e, além disso, não permitia aos cônjuges casarem-se novamente. A deserção ou fuga conjugal era muito comum, e nesse caso um dos cônjuges evadia-se, a esposa era forçada a deixar a casa da família ou o marido estabelecia uma nova casa com sua nova companheira. Contudo, os cônjuges permaneciam impossibilitados de contrair novas núpcias, e a esposa permanecia responsabilidade de seu marido, que legalmente continuava a responder por seu sustento.

Por fim, a noção da venda da esposa era um método alternativo, embora desprovido de reconhecimento jurídico formal, de terminar um casamento. Um manual jurídico de 1777, intitulado The Laws Respecting Women, As They Regard Their Natural Rights, observava que, para os pobres, a venda de esposas era vista como um "método de dissolver o casamento”, quando “o marido e a mulher encontram-se vivamente cansados uns dos outros e concordam em separar-se, se o homem tiver a intenção de validar a separação pretendida, tornando-a uma questão de conhecimento público”.

Casamento e estatuto da mulher esquerda|miniaturadaimagem|upright=1.2|A pintura The Outcast, de Richard Redgrave, mostra um pai expulsando sua filha mãe-solteira de casa, diante de uma esposa resignada. Ela tem sido interpretada como uma crítica contemporânea à moralidade puritana e à submissão da mulher na era vitoriana Em função da Lei sobre casamentos pré-contratuais e relativa a questões de consanguinidade, de 1540, que foi aplicada até a entrada em vigor da Lei de casamento de 1753, casamentos na Inglaterra não careciam de uma cerimônia formal perante um clérigo, desde que não fossem "não proibidos pela Lei Divina". Isso impunha que os noivos concordassem com a união e tivessem a idade legal de consentimento, que era de doze anos para meninas e quatorze anos para meninos, e como consequência seus muitos casamentos não eram registrados. Contudo, esses casamentos eram reconhecidos de fato e de direito pelas autoridades e pelas comunidades em que viviam os nubentes.

Nesse período, para uma mulher era social e materialmente difícil encontrar maneiras de garantir seu próprio sustento independentemente de um casamento, e a integridade sexual e o reconhecimento como uma pessoa casada forneciam-lhe respeitabilidade e prestígio social. Uma vez casadas, as mulheres eram subordinadas aos seus esposos, incluindo os seus direitos e obrigações, que eram incorporados aos de seus maridos conforme o instituto legal da cobertura (). Nas palavras do eminente juiz inglês William Blackstone, em um texto de 1753, “o próprio ser, ou existência legal da mulher, é suspenso durante o casamento, ou pelo menos é consolidado e incorporado ao do marido: sob cujas asas, proteção e cobertura, ela realiza todas as suas ações”. Como consequência de terem suas personalidades jurídicas absorvidas pelas dos seus maridos, mulheres casadas não podiam possuir propriedades por direito próprio, e eram popularmente consideradas propriedade de seus maridos. Essa concepção era fruto de uma sociedade patriarcal, que como norma colocava a mulher em uma “posição inferior ou (formalmente) desprovida de poder”. Como comentou o próprio Blackstone, em um comentário posterior a respeito do estatuto jurídico da mulher casada, “até mesmo as limitações que a esposa encontra são, na maior parte, destinadas à sua proteção e benefício. Tão grande favorito é o sexo feminino, das leis da Inglaterra”.

Embora historiadores da primeira metade do tenham retratado a venda de esposas como parte de uma cultura de informalidade e desrespeito às normas sociais, essa visão encontra-se desacreditada pelo fato de a deserção ou fuga conjugal, essa sim efetivamente informal e muito mais comum à época, ter sido uma alternativa consideravelmente mais simples e que não acarretava a humilhação da venda da esposa. Além disso, diversos elementos nos relatos que sobreviveram mostram que de fato o costume de vendas de esposas “foi inventado em uma cultura plebéia, por vezes crédula e supersticiosa, mas com grande preocupação com rituais e formas”. Devido ao seu significado social, o casamento era considerado uma questão de interesse da comunidade, e não apenas do casal. Isso era particularmente real em comunidades proto-industriais onde a religião e os costumes impunham mais firmemente normas de comportamento, e que reprovavam e escandalizavam-se com cônjuges que se separavam ou buscavam novos parceiros de maneira informal. Assim, na visão de um casal que desejava separar-se de maneira moralmente aceitável, a venda apresentava-se como um processo vexatório, mas que pretensamente permitia tornar legal, e, portanto, socialmente satisfatório, o rearranjo de sua relação conjugal.

Motivos para a venda