A capacidade encefálica refere-se ao volume encerrado no interior do crânio, ocupado pelo encéfalo. Nos vertebrados, o aumento dessa capacidade, observado ao longo da evolução, tem relação com o aumento da inteligência e complexidade psico-comportamental. O aumento da capacidade encefálica atingiu o seu máximo através de um aumento massivo do córtex cerebral, que devido ao volume não expansível da caixa craniana, enrugou-se fazendo sulcos profundos chamados circunvoluções. A área do córtex chega a atingir mais de 0,22 m² e parece haver uma relação entre o grau de enrugamento e a inteligência.a 11-01-2012
O aumento massivo do córtex cerebral levou ao surgimento de áreas corticais bastante especializadas nos primatas, sobretudo no Homo sapiens. Tais áreas apresentam acentuada especialização para a audição, a visão, a motricidade, a percepção do próprio corpo e as funções cognitivas complexas (como é o caso da linguagem na espécie humana).
A característica, de fato, mais importante entre o homem e os antropóides (chimpanzés e gorilas) é o aumento colossal no tamanho do cérebro acompanhado pelas faculdade adquiridas com essa nova massa encefálica.
Aspectos gerais Falar sobre inteligência é delicado, e traçar comparações entre ela e qualquer caráter exige alguns detalhes. Para possibilitar essa abordagem, deve-se levar em consideração o quociente de encefalização e os princípios da alometria negativa.
Quociente de encefalização é a razão entre o tamanho cerebral real e o tamanho esperado em função do tamanho do corpo. Valores de quociente de encefalização inferiores a 1,0 indicam cérebros menores que o esperado; valores superiores a 1,0 indicam cérebros maiores que o esperadoRidley, M. Evolução; tradução Henrique Ferreira, Liciane Passaglia, Rivo Fisher. 3.ed. Porto Alegre: Artmed (2006). Humanos e macacos-pregos têm valores de quociente de encefalização muito altos para primatas, e Catarrhines e Platyrrhines (antropóides) têm valores apreciavelmente mais altos. Entretanto, é interessante perceber que grandes primatas não apresentam cérebros notavelmente maiores do que os de macacos e, em particular, que do macaco-prego (Cebus apella): vencedor do prêmio para o quociente de encefalização mais elevado dentre primatas não-humanos.
A alometria negativa postula que animais maiores possuem, proporcionalmente, encéfalos menores para o seu tamanho que animais pequenos. Os porquês das medidas negativas neste parâmetro não são exatamente conhecidos, mas podem estar relacionados ao fato de que corpos maiores não precisam necessariamente de um aumento de massa cerebral equivalente às suas dimensões para desempenhar as mesmas funções quando comparados a corpos menoresPough, F. H., Janis, C. N., Heiser, J.B. A Vida dos Vertebrados; tradução Ana Maria de Souza, Paulo Auricchio. 4.ed. São Paulo: Atheneu (2008). Inúmeros outros fatores também podem ser utilizados para uma análise comparativa sobre a inteligência, como os tamanhos relativos do telencéfalo e do córtex pré-frontal no cérebro, a profundidade dos sulcos do córtex cerebral, a quantidade de neurônios corticais e sequências moleculares de genes sem, contudo, ser algum deles mais correto ou completamente preponderante sobre os outros.thumb|direita|260px|Crânio humano. Há um padrão em vertebrados: mamíferos e aves apresentam tamanhos de cérebros maiores em relação ao corpo que outros grupos (evidência de que são mentalmente bem equipados). Uma comparação entre os cérebros nessas duas classes permite constatar uma grande divergência organizacional dos centros de cognição, apesar de apresentarem capacidades cognitivas comuns. A proporção média do cérebro dos mamíferos em relação ao corpo é um pouco maior que o das aves e, ambos, são significativamente maiores do que o de répteis não-aves.
Com o aumento do cérebro, as regiões cerebrais tendem a mudar ocorrendo uma reorganização interna das subestruturas, levando a uma complexidade e especialização maiores de suas subdivisões para melhor desempenho em determinadas tarefas. Para adaptar-se à essa ampliação do cérebro, ocorre o que é chamado de laminação, isto é, os neurônios formam camadas ou lâminas especializadas. A maneira como o isocórtex evoluiu nos mamíferos é o melhor exemplo de laminação como reorganização devido ao aumento absoluto do cérebro, possibilitando uma melhor otimização do espaço e da energia despendida, bem como a amplificação da funcionalidade do sistema.
Em mamíferos Apesar de possuírem cérebros grandes como característica, os mamíferos apresentam uma variação substancial de quocientes de encefalização, o que revela uma certa amplitude nos tamanhos relativos do cérebro dentro da classe. Roedores têm esses valores por volta de 0,4. Cães e gatos, um pouco acima do que 1,0. Elefantes e baleias, próximo de 2,0. Já nos seres humanos, Homo sapiens sapiens, o valor do quociente de encefalização supera 7,0Oakley, D. A., Plotkin, H. C. ‘’’Brain, Behaviour and Evolution’’’ http://books.google.com.br/books?id=DJsOAAAAQAAJ&pg=PA137&lpg=PA137&dq=jerison+encephalization+quotient+fish&source=bl&ots=F6AoJJV3_y&sig=7q_O3Vrd34mpnker33vqJJ7oB0k&hl=pt-BR&ei=2crNTrnzMcjx0gG5tNk9&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=3&ved=0CDEQ6AEwAg#v=onepage&q=jerison%20encephalization%20quotient%20fish&f=false. thumb|esquerda|238px|Encéfalo de um camundongo. Duas ordens se destacam por um tamanho cerebral ainda mais acentuado: os cetáceos e os primatasLewin, R. Evolução Humana; tradução Danusa Munford. São Paulo: Atheneu (1999). Entretanto, acreditar em uma tendência para a evolução de uma maior capacidade encefálica, como um caminho natural na evolução dos mamíferos não é coerente; muito menos seria acreditar que esse fator determinaria, por si só, o nível de inteligência de um ser vivo. Predadores que vivem em grupo, em geral, apresentam cérebros proporcionalmente maiores que os solitários. Muitos animais de encéfalo reduzido apresentam substancial complexidade de comportamento e capacidade de aprendizado. O dragão de Komodo e algumas serpentes, por exemplo, possuem métodos de caça bastante similares aos empregados pelos mamíferos carnívoros, utilizando-se de eficientes estratégias em que são empregados conhecimentos de hábitos das presas em emboscadas.
Em cetáceos direita|thumb|317x317px|Orca (Orcinus orca). Baleias e golfinhos possuem cérebros avantajados e complexos, sendo animais bastante visados para experimentos comportamentais. Esses estudos, frequentemente, apontam excepcionais habilidades cognitivas, comunicacionais e de memória, além de grande complexidade social em grupos. Talvez, esse último fator tenha uma ligação direta com o advento de maior grau de encefalização e inteligência.
O nível de complexidade social pode ser considerado pela quantidade e os tipos de interação entre os indivíduos de um grupo, e o quão importantes e úteis são essas interações para a melhoria das condições de vida e sobrevivência desse grupo e de cada membro individualmente. Falar disso também requer cuidado, pois para outras linhagens, pode ser que essas interações não sejam necessariamente vantajosasKellen, C. Evolução do Encéfalo nos Seres Vivos: http://www.hc.ufg.br/uploads/files/100/diss_kellenChristina.pdfSCIENTIFIC AMERICAN BRASIL .ed.48. Maio, (2006): http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/por_que_alguns_animais_sao_tao_inteligentes__imprimir.htmlScience Week, Cognitive Science: Dolphin Cognition: http://scienceweek.com/2004/sc041224-5.htm. Algumas espécies de golfinho apresentam quocientes de encefalização maiores que 5,0; esses valores são apenas inferiores aos de seres humanos, entre as espécies viventes. Uma prova do que esses animais são capazes aparece em trecho do documentário Life, da BBC (1999)BBC.Life(1999).esquerda|thumb|206x206px|Um golfinho-nariz-de-garrafa da Marinha dos Estados Unidos. Golfinhos nariz-de-garrafa da costa da Flórida desenvolveram uma forma bastante incomum e eficiente de caçar. Em grupo, eles se aproximam de regiões mais rasas e se revezam na aplicação de uma técnica inovadora: enquanto um nada em espiral, batendo a cauda no fundo, levantando sedimentos e confundindo cardumes, os outros ficam estrategicamente posicionados para abocanhar os peixes que saltam para fora da água na tentativa de escapar. Esse comportamento foi observado apenas nesses golfinhos, o que pode corroborar a hipótese acima. A criação e propagação dessa nova estratégia podem ser explicadas por um alto grau de complexidade nas interações entre os membros do grupo, o que é possível graças à notável inteligência desses animais, que pelo menos em parte, é atribuída aos seus altos níveis de encefalização.
Em primatas