A habilidade para escolher e agir diferente nas mesmas circunstâncias é um dos dois critérios considerados essenciais para o livre arbítrio libertariano e para a responsabilidade moral. O outro é a existência de possibilidades alternativas para a ação.David Widerker and Michael McKenna, Moral Responsibility and Alternative Possibilities, Ashgate, 2006
O Passado Fixo e as Leis da Natureza
A ideia de que um agente livre "poderia ter agido diferente" nas "exatas mesmas circunstâncias" é um elemento chave no argumento libertariano do livre-arbítrio.
Porque "poderia ter feito" é uma condição modal, o argumento é sutil. Uma vez concluída a ação, ela cai no "passado fixo", o qual a maioria dos filósofos concordam é agora imutável. Assim, a fim de "ter agido diferente", algo deveria ter sido diferente nos momentos que levaram à decisão e ação.
O argumento gira em torno das condições e tempo para reproduzir "exatamente as mesmas circunstâncias". Alguns filósofos têm defendido que reproduzir as mesmas condições é impossível, no mínimo pelo fato de que o agente teria a memória de estar na situação anterior. Mas por causa do argumento, podemos assumir exatamente as mesmas condições para exibir a liberdade de agir diferente a qualquer momento e não liberdade menor - "agir diferente se o agente decidiu agir diferente", o que requer um passado diferente.
Dadas as "leis da natureza" e o "passado fixo" apenas um instante antes de uma decisão, os filósofos se perguntam como um agente livre pode ter qualquer alternativa possível. Isto é parcialmente devido a que eles imaginam uma linha do tempo para a decisão que reduz o processo de decisão a um único momento.
Colapsando a decisão a um único momento entre o passado fechado e fixo e o futuro aberto e ambíguo torna difícil ver os pensamentos livres da mente seguidos pelas voluntárias e adequadamente determinadas ações do corpo.
Esta ilustração ainda traça uma separação artificial entre a geração criativa e parcialmente aleatória de possibilidades alternativas e a avaliação deliberativa. Estas duas capacidades da mente podem acontecer ao mesmo tempo. Podem ser visualizadas pela decisão ocasional, permitindo o tempo, de voltar e pensar de novo, quando as alternativas disponíveis não são boas o bastante para satisfazer as demandas do caráter e valores do agente.
Este diagrama mostra como dadas "exatamente as mesmas circunstâncias" no final do intervalo do "passado fixo", o agente pode gerar possibilidades alternativas, algumas das quais são geradas indeterministicamente.
Se o agente pode consciente e claramente lembrar as alternativas, ele pode corretamente dizer "eu poderia ter agido diferente". E, mesmo se o processo descrito no diagrama é em grande parte inconsciente e extremamente rápido, se em circunstâncias passadas similares o agente lembra agir diferente, ele pode dizer o mesmo. Por exemplo, Keith Lehrer observou que se existe alguma coisa que ele tenha feito muitas vezes e não feito em outras, pode refletir num instante específico e dizer "nesse caso eu poderia ter agido diferente".
Criatividade, evolução e agir diferente
Argumentos defensores do livre-arbítrio defendem que se fosse impossível gerar novas possibilidades alternativas para pensamentos e ações, não haveria "nada novo" sob o sol. Logo, todos os artefatos humanos produzidos já estariam implícitos em estágios anteriores do "criador".
Outros destacam a similaridade com a evolução biológica alegando que, caso não houvesse possibilidades alternativas, todas as espécies estariam implícitas nas espécies anteriores em qualquer estágio da evolução. No entanto, alegam eles, existe novidade na evolução, dirigida em parte pelas variações aleatórias no pool de genes, algumas das quais reproduzem espécies existentes e são naturalmente selecionadas.
O argumento acima pode ser resumido ao afirmar que a habilidade para agir diferente é necessária para criar surpreendentes novos comportamentos nos animais e humanos.E. O. Wilson, Consilience
Argumentos dos filósofos
Para apreciar os sutis argumentos dos filósofos ao longo dos séculos sobre esta capacidade no coração do problema do livre arbítrio e determinismo, é crítico estudar suas palavras exatas.
Thomas Hobbes
No século XVII, Thomas Hobbes disse que a ideia de que alguém poderia alguma vez fazer diferente do que foi realmente feito era uma contradição e nonsense.
John Bramhall
Contemporâneo de Hobbes, John Bramhall debateu com ele sobre liberdade, negando a necessidade e não vendo contradição alguma que alguém poderia agir ou não nas mesmas circunstâncias.
David Hume
O entendimento compatibilista de David Hume da liberdade e necessidade é similar ao de Hobbes. A liberdade para agir diferente era "ininteligível", palavra muito comum nos debates modernos entre compatibilistas e libertarianos.
"Creio que podemos dar três razões para a prevalência da doutrina da liberdade, por mais absurda que ela possa ser em um sentido, e ininteligível em outro. Primeira razão. Após termos realizado uma ação, mesmo que reconheçamos ter sido influenciados por considerações e motivos particulares, é difícil persuadirmos a nós mesmos de que fomos governados pela necessidade e de que nos teria sido inteiramente impossível agir de forma diferente - pois a ideia de necessidade parece implicar algo de força, violência e constrangimento, coisas de que não temos consciência ao agir. Poucos são capazes de fazer uma distinção entre a liberdade de espontaneidade, como é chamada na escolástica, e a liberdade de indiferença, ou seja, entre aquilo que se opõe à violência e aquilo que significa uma negação da necessidade e das causas."HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Livro II, Parte III, Seções I-II, p.443. Tradução: Débora Danowski. 2ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009. Acessado em: 28 de novembro de 2011, Google Books.
G. E. Moore
G. E. Moore argumentou em 1912, em sua Ética que se poderia agir diferente, mas apenas se se escolhesse agir diferente. Muitos filósofos posteriores acharam esta ideia vazia, já que sob sob o determinismo não se poderia escolher, a menos que o "passado fixo" e/ou as "leis da natureza" fossem diferentes.John Martin Fischer, "Introduction:Responsibility and Freedom," In J. Fischer, ed., Moral Responsibility. Ithaca, NY: Cornell, pp.60-1
Moritz Schlick
Em "When Is a Man Responsible?", capítulo 6 de seu livro Ethics, Moritz Schlick seguiu Moore na ideia de que ele poderia agir diferente havido a vontade de agir diferente.
C. A. Campbell
Em 1951, C. A. Campbell atacou a afirmação de Moritz Schlick de que o livre-arbítrio era um pseudo-problema, já que não poderia ser logicamente verificável. Ele rejeitou a afirmação de Schlick de que a liberdade implicada pela responsabilidade moral não é mais do que "ausência de coerção" (Liberdade de ação não é liberdade de vontade).
Campbell afirma que se alguém deve fazer algo, então implica que poderíamos ter feito algo diferente do que fizemos.
R. E. Hobart
R. E. Hobart (pseudônimo de Dickinson S. Miller) afirmou em 1934 que o livre arbítrio envolvia a habilidade de agir diferente. Seu ensaio é considerado uma das delcarações definitivas de determinismo e compatibilismo. O compatibilismo de Hobart seguiu pontos de referência anteriores definidas por Thomas Hobbes e David Hume, e refinou as visões compatibilistas novecentistas de John Stuart Mill, Henry Sidgwick, e F. H. Bradley.
Escrevendo cerca de seis anos após a descoberta da indeterminância quântica, Hobart não endorsa explicitamente um determinismo estritamente lógico ou físico. Endorsa, sim, a existência de possibilidades alternativas, as quais podem depender de absolutos acasos.
"Não estou defendendo que o determinos é verdadeiro; apenas que ele é verdadeiro na medida em que temos livre-arbítrio. Que somos livre em decidir, grosso modo, é um fato da experiência. Este amplo fato é mais garantido que qualquer outra análise filosófica. É, portanto, mais seguro que a sua análise determinística, inteiramente adequado do que parece ser no final. Mas não se afirma aqui que não há pequenas exceções, nenhum leve desvio indeterminado, nenhum ingrediente de absoluto acaso. Tudo o que é dito aqui é que tal falta de determinação, se e na medida em que isto exista, não é ganho de liberdade, mas a absoluta perda dela; nenhuma vantagem à vida moral, mas a vazia subtração de si. Assim, é verdade que, após o ato de vontade, eu poderia ter desejado agir diferente. É mais natural adicionar, 'se eu quisesse'; mas a adição não é necessária. O ponto é o significado de 'poderia'. Eu poderia querer o que fosse. Eu tinha o poder de querer diferente, não havia nada a impedir de o fazer e deveria tê-lo feito se assim o quisesse. Se alguém disser que o desejo que de fato tive impediu minha vontade do diferente e então não poderia assim agir, está meramente patinando no uso da palavra 'poderia'.R. E. Hobart, "Free Will as Requiring Determination, and Inconceivable Without It," Mind, Vol XLIII, 169 (1934) p.2
A. J. Ayer
A. J. Ayer discutiu se o livre-arbítrio requer a habilidade de agir diferente, em seusPhilosophical Essays de 1954.
J. J. C. Smart
J. J. C. Smart tentou refutar a ideia de livre-arbítrio em seu artigo "Livre-arbítrio, Louvor e Culpa", do livro Mind de 1961. Ele explicou que o "puro acaso" (pelo qual quer dizer indeterminância quântica) existe em certa medida no universo. Mas ele não o utiliza para gerar possibilidades alternativas que permitiriam alguém de fazer diferente. Ao invés disso, ele procura por múltiplos sentidos de "poderia ter agido diferente".
Roderick Chisholm
Roderick Chisholm, em seu artigo de 1964 "Liberdade Humana e o Self" (adaptado de seu ensaio Liberdade e Ação, "poderia ter agido diferente se ele tivesse escolhido diferente" é um estratagema usado, entre outros, por Jonathan Edwards no início da século XVIII. Chisholm diz que lhe falta um terceiro passo para justificar a responsabilidade moral:
Chisholm defende que não poderíamos fazer um inferência para (a) de (b) a menos que possamos também afirmar:
Chisholm conclui que este estratagema para atribuir responsabilidade conflitua com o determinismo.Roderick Chisholm, "Freedom and Action", in Freedom and Determinism, ed. Keith Lehrer
Keith Lehrer
Keith Lehrer pensou que poderia provar que alguém que mostrasse que poderia fazer algo (por fazê-lo) poderia igualmente se abster e, portanto, concluir que ele poderia sempre agir diferente. Lehrer considerou este argumento forte o suficiente para constituir uma refutação empírica do determinismo.
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