Zaíde ibne Harita Alcalbi (; – ) foi um dos companheiros de Maomé, seu escravo libertado, maula e filho adotivo antes da abolição da adoção jurídica pelo Alcorão. Pertencente à tribo dos calbitas, foi capturado ainda na infância e vendido como escravo, chegando posteriormente à casa de Cadija, que o presenteou a Maomé após seu casamento. Embora seu pai e outros familiares tenham conseguido localizá-lo em Meca e oferecido resgate por sua liberdade, Zaíde preferiu permanecer ao lado de Maomé, que o libertou e o adotou publicamente, passando ele a ser conhecido durante algum tempo como Zaíde ibne Maomé. Entre os primeiros convertidos ao islão, participou da maioria das campanhas conduzidas por Maomé e comandou diversas expedições durante o período medinense.

Casou-se com Ume Aimane, de quem teve Uçama ibne Zaíde, e posteriormente com Zainabe binte Jaxe, cujo divórcio e subsequente casamento com Maomé motivaram a revelação de versículos que extinguiram os efeitos jurídicos da adoção e restabeleceram sua filiação ao pai biológico. É o único companheiro de Maomé mencionado nominalmente no Alcorão. Reconhecido como um dos mais hábeis comandantes militares do início do islão, liderou numerosas expedições e recebeu o comando do exército enviado contra o Império Bizantino na Batalha de Muta, em 8 A.H. (629), onde morreu em combate após ter sido designado por Maomé como o primeiro comandante da força expedicionária. Sua estreita relação com o profeta valeu-lhe o epíteto de Hibe Raçul Alá ("o amado do Mensageiro de Deus"), enquanto seu filho Uçama ficou conhecido como Hibe ibne Hibe.

Vida

Origens e infância

Zaíde nasceu cerca de trinta e cinco anos antes do início da missão profética de Maomé, por volta de 588, pertencendo aos calbitas, tribo de origem iemenita estabelecida no norte da Arábia. Era filho de Harita e de Suada, e tinha pelo menos um irmão, Jabala ibne Harita, igualmente considerado um companheiro segundo as tradições biográficas posteriores. As fontes islâmicas preservam diferentes relatos sobre a forma como Zaíde foi separado de sua família ainda na infância. A tradição mais difundida afirma que, enquanto acompanhava sua mãe em uma visita a parentes dos , foi capturado por integrantes dos alcainitas, que o venderam como escravo na feira de Ucaz. Segundo outra versão, preservada por Aluaquidi, seu pai já havia falecido entre os parentes maternos, deixando-lhe alguns camelos como herança. Beduínos que haviam alugado esses animais teriam traído o jovem e o vendido na mesma feira. Já um relato atribuído a Hixame ibne Alcalbi afirma que Zaíde foi capturado durante uma incursão dos Banu Caim contra o grupo de sua mãe, enquanto uma tradição transmitida por seus próprios descendentes sustenta que ele permaneceu com a família materna após a morte da mãe e, posteriormente, do avô, sendo então levado por cavaleiros dos fazaraítas e vendido em Ucaz. Apesar das divergências quanto às circunstâncias de sua captura, as tradições concordam que Zaíde foi adquirido em Ucaz por Haquime ibne Hizame, sobrinho ou primo paterno de Cadija, agindo em favor desta. Segundo a versão predominante, Haquime levou o menino para Meca e o entregou à tia, que, após casar-se com Maomé, o presenteou ao marido. Outra tradição relata que o próprio Maomé viu Zaíde sendo oferecido à venda em Meca, aconselhou Cadija a comprá-lo e, depois disso, recebeu-o como presente.

Algum tempo depois de sua chegada a Meca, peregrinos dos calbitas reconheceram Zaíde e informaram sua família sobre seu paradeiro. Ao receber a notícia, seu pai, Harita, acompanhado do irmão Cabe — ou, segundo algumas tradições, do filho mais velho, Jabala ibne Harita —, dirigiu-se a Meca levando consigo recursos para pagar seu resgate. Ao encontrar Maomé, pediu que o jovem lhe fosse devolvido em troca da quantia que julgasse conveniente. Maomé, porém, recusou-se a receber qualquer pagamento e propôs que a decisão fosse deixada ao próprio Zaíde, afirmando que, caso ele preferisse regressar com a família, partiria livremente. Chamado à presença do pai e do tio, Zaíde reconheceu ambos, mas declarou que não desejava deixar Maomé. Segundo a tradição, afirmou que conhecia plenamente o caráter daquele que o acolhera e que não escolheria outra pessoa em seu lugar. A decisão surpreendeu seus parentes, que tentaram convencê-lo a retornar ao convívio familiar, sem sucesso. Diante dessa escolha, Maomé conduziu Zaíde ao recinto da Caaba, junto ao , onde proclamou perante os coraixitas que o tomava como filho, declarando que ambos passariam a herdar um ao outro. Em seguida, concedeu-lhe a liberdade. Após esse episódio, Zaíde passou a ser conhecido em Meca como Zaíde ibne Maomé. Zaíde jamais voltou a separar-se de Maomé. Quando este iniciou sua missão profética, esteve entre os primeiros membros de sua casa a aceitar o islão. Algumas tradições chegam a considerá-lo o primeiro homem a converter-se à nova religião, embora outras atribuam essa primazia a Ali ibne Abi Talibe ou Abu Becre. A condição de filho adotivo permaneceu até o período medinense. Após o divórcio entre Zaíde e Zainabe binte Jaxe e o posterior casamento desta com Maomé, foi revelado o versículo que determinou que os filhos adotivos fossem chamados pelos nomes de seus pais biológicos (), extinguindo os efeitos jurídicos da adoção praticada na Arábia pré-islâmica. Pouco depois, outro versículo mencionou nominalmente Zaíde ao tratar desse mesmo episódio (), tornando-o o único companheiro de Maomé citado pelo nome no Alcorão. Em consequência da nova legislação, ele voltou a ser identificado como Zaíde ibne Harita, retomando sua filiação aos calbitas.

Casamentos

O primeiro casamento de Zaíde ocorreu ainda em Meca, pouco depois do início da missão profética de Maomé. Sua esposa foi Ume Aimane, ama e escrava libertada do profeta, de origem abissínia. Dessa união nasceu Uçama ibne Zaíde, cerca de oito ou dez anos antes da Hégira. Embora Zaíde tivesse pele clara e Uçama herdasse da mãe uma compleição muito mais escura, as dúvidas levantadas por algumas pessoas acerca de sua paternidade foram afastadas quando um especialista em examinou pai e filho e concluiu, sem saber quem eram, que ambos possuíam inequívoca relação de parentesco. O episódio teria causado grande satisfação a Maomé. Após a Hégira, Zaíde contraiu novos matrimônios. Depois da Batalha de Badre, casou-se com Zainabe binte Jaxe, prima de Maomé e filha de . Segundo as tradições, o casamento foi promovido pelo próprio profeta, que desejava reduzir as distinções sociais entre livres e libertos. A união, entretanto, revelou-se conturbada e terminou em divórcio, apesar das tentativas de Maomé para reconciliar o casal.

Posteriormente, Maomé desposou Zainabe. O casamento suscitou críticas de alguns contemporâneos, por Zaíde ainda ser considerado, aos olhos de muitos, filho adotivo do profeta. Em resposta a esse contexto, foi revelado o versículo , enquanto o versículo já havia determinado que os filhos adotivos fossem identificados pelos nomes de seus pais biológicos. Bünyamin Erul observa que o objetivo principal dessas revelações foi abolir o costume pré-islâmico que equiparava juridicamente a adoção à filiação consanguínea, rejeitando como pouco confiáveis as narrativas segundo as quais Maomé teria provocado deliberadamente o divórcio de Zaíde ou se apaixonado por Zainabe ao vê-la em sua residência. As fontes mencionam ainda outros casamentos de Zaíde durante o período medinense. Entre suas esposas figuram Ume Cultume binte Uqueba, Durra binte Abi Laabe, Hinde binte Alauame e, segundo algumas tradições, . A Encyclopaedia of Islam acrescenta que, em determinado momento, Zaíde também foi casado com uma mulher dos cazerajitas. Além de Uçama, as fontes lhe atribuem outros dois filhos, chamados Zaíde e Rucaia.

Campanhas militares

thumb|Ruínas da mesquita construída no local da batalha de Muta, onde morreu Zaíde ibne Harita

Zaíde participou da maior parte das campanhas conduzidas por Maomé durante os períodos mecano e medinense. Ainda antes da Hégira, acompanhou o profeta em sua viagem a Taife. Quando os habitantes da cidade rejeitaram a pregação de Maomé e o expulsaram sob uma chuva de pedras, Zaíde procurou protegê-lo com o próprio corpo, sofrendo diversos ferimentos para impedir que os projéteis atingissem o profeta. Após a instalação da comunidade muçulmana em Medina, participou das batalhas de Badre, Uude e da Trincheira, da expedição de Hudaibia e da conquista de Caibar. Depois da vitória em Badre, recebeu a missão de regressar rapidamente a Medina montado na camela Caçuá para anunciar o resultado da batalha aos habitantes da cidade. Durante a Batalha da Trincheira exerceu a função de porta-estandarte dos emigrantes. Além de participar das principais campanhas de Maomé, Zaíde recebeu repetidas vezes o comando de expedições independentes. As fontes lhe atribuem a liderança das expedições de , , Alis, , , , a , e a .

O conjunto de comandos faz de Zaíde um dos oficiais em quem Maomé mais frequentemente confiou a condução de operações militares. Uma dessas expedições ocorreu no início de 6 A.H., quando Maomé o enviou contra os soleimitas em Aljamume, tribo aliada dos coraixitas que participara da Batalha da Trincheira com um contingente de cerca de setecentos homens. O ataque resultou na captura de numerosos prisioneiros e de grande quantidade de despojos. Segundo a tradição, ao regressar da campanha contra Ume Quirfa, Maomé recebeu Zaíde com um abraço e um beijo, gesto citado nas fontes como demonstração do apreço que lhe dedicava. A confiança de Maomé em Zaíde foi destacada também por Aixa, que afirmou que, sempre que o profeta destacava um exército sob seu comando, fazia dele o comandante da expedição. Segundo ela, caso Zaíde tivesse sobrevivido a Maomé, provavelmente teria sido designado seu sucessor na administração da comunidade. Embora essa avaliação reflita a opinião transmitida por Aixa, ela ilustra o elevado prestígio desfrutado por Zaíde entre os primeiros muçulmanos.

Batalha de Muta e morte

Em 8 A.H., quando Maomé organizou a expedição contra as forças do Império Bizantino e de seus aliados árabes na Batalha de Muta, confiou a Zaíde o comando supremo do exército. Antes da partida, entregou-lhe o estandarte e estabeleceu a ordem de sucessão caso os comandantes tombassem em combate: se Zaíde morresse, o comando deveria passar a Jafar ibne Abi Talibe; caso este também fosse morto, seria assumido por Abedalá ibne Rauá. A batalha terminou com a morte sucessiva dos três comandantes designados por Maomé. Zaíde foi o primeiro a cair em combate, aos cinquenta ou cinquenta e cinco anos de idade, sendo sucedido por Jafar e, em seguida, por Abedalá ibne Rauá, que igualmente morreram durante os confrontos. Segundo a tradição islâmica, Maomé encontrava-se em Medina quando recebeu, por revelação, a notícia da batalha. Profundamente comovido, comunicou aos companheiros a morte dos três comandantes e orou repetidamente pelo perdão de Zaíde, de Jafar e de Abedalá. Quando Sade ibne Ubada estranhou vê-lo chorar, lembrando que ele próprio desaconselhava lamentações excessivas pelos mortos, Maomé respondeu que aquelas lágrimas eram expressão da saudade de um ente querido.

Bibliografia

Categoria:Mortos em combate Categoria:Árabes do século VI Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes Categoria:Calbitas Categoria:Árabes do século VII Categoria:Muajiritas Categoria:Tratado de Hudaibia