Amaury Kruel GCA (Santa Maria, – Rio de Janeiro, ) foi um militar e político brasileiro, tendo servido como oficial de Estado-Maior da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em 1944–1945, chefe do Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP) em 1957–1959 e ministro da Guerra em 1962–1963. À frente do II Exército de 1963 a 1966, foi um dos principais participantes do golpe de Estado no Brasil em 1964. Atingiu a patente de general-de-exército, sendo promovido a marechal ao passar para a reserva. Em seguida foi deputado federal pela Guanabara de 1967 a 1971.

Amigo de Humberto de Alencar Castelo Branco desde a adolescência no Colégio Militar de Porto Alegre, participou da Revolução de 1930 e combateu na FEB como chefe da 2ª Seção (Informações) do seu Estado-Maior. Rompeu sua ligação com Castelo Branco (também oficial do Estado-Maior) no final de 1944 por desentendimentos na Batalha de Monte Castello. No início dos anos 50, apoiou a direita na disputa política no Clube Militar e em 1954 contribuiu para a queda de João Goulart, ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, mas no ano seguinte tornaram-se amigos pessoais. De 1957 a 1959 foi encarregado pelo presidente Juscelino Kubitschek das forças policiais da capital (o Rio de Janeiro) através do DFSP. Suas medidas contra a criminalidade levaram à primeira iteração do que seria chamado de “Esquadrão da Morte”. Teve algumas atribuições diplomáticas na carreira, quase sendo um embaixador em 1961, possuía terras e trabalhou no setor empresarial.

Em 1961 apoiou a posse de Goulart como presidente na Campanha da Legalidade. Até 1963, como chefe do Gabinete Militar e ministro da Guerra, foi o homem forte do presidente no Exército, montando um dispositivo militar para evitar um golpe e aplicar pressão política. Era uma figura à direita em seu governo e conflitos com a esquerda levaram à sua queda do cargo. No seu comando seguinte, o II Exército, responsável por São Paulo e Mato Grosso, já estava em contato com os conspiradores contrários ao presidente. Ainda assim, após a deflagração do golpe em 1964 ofereceu seu apoio a Goulart se rompesse com a esquerda. Com a recusa, deslocou tropas a Brasília, ao Paraná e ao Vale do Paraíba. Sua conferência com o general Âncora em Resende marcou o fim da resistência legalista no I Exército.

Após o golpe foi pré-candidato na eleição indireta vencida pelo presidente Castelo Branco, representando uma tendência ao centro, associada ao governo deposto. Teve responsabilidade pela repressão política sob sua autoridade na ditadura militar. Participou da conspiração do governador paulista Ademar de Barros com vários setores descontentes, até mesmo o Partido Comunista, para um “contragolpe” contra Castelo, mas ela foi infrutífera. Ademar foi cassado sem resistência em 1966 e Kruel passou à reserva quando o governo quis transferi-lo do comando. Em seus últimos anos na vida pública foi deputado federal oposicionista.

Família e posses Descendente de imigrantes alemães,, VII/10. Amaury era filho do fazendeiro José Carlos Kruel e de Ana Weber Kruel., KRUEL, Amauri. Seu irmão Riograndino (1898–1989) e sobrinho Vinícius também foram generais. Riograndino Kruel participou do tenentismo, liderando a revolta no 10º Regimento de Cavalaria Independente em Bela Vista, atual Mato Grosso do Sul, à época da Revolta Paulista de 1924. Terminou a carreira chefiando o Departamento de Polícia Federal em 1964–1966., KRUEL, Riograndino. Vinícius Kruel era major em 1964, servindo no QG do II Exército, e general-de-brigada em 1981, quando dispôs-se a comandar a investigação do Atentado do Riocentro com a condição de que não aceitaria pressões. A investigação não ficou com ele e sua carreira terminou naquela patente.

Casou-se com Cândida Cezimbra Kruel, com quem teve um filho (Nei Kruel), e posteriormente com Maria Helena Kruel. Quando Jango (João Goulart) era presidente, conseguiu um emprego no Lloyd Brasileiro em Nova Orléans para o filho de Kruel. Conforme depoimentos de Ernesto Geisel e do general Rubens Restell ao jornalista Elio Gaspari, Jango também conseguiu financiamento público para uma fazenda de café no Espírito Santo. Kruel possuía a fazenda Piraquê em Linhares, às margens do rio Doce, onde plantava cacau. Em 2014, seus herdeiros indenizaram um trabalhador mantido em condições análogas à escravidão na fazenda de 1949 a 1963, quando a ação foi ajuizada. O processo arrastou-se por 50 anos. Kruel também teria duas fazendas na Bahia. Trabalhou no setor empresarial, fazendo parte da Eletrônica Kruel S.A.

Carreira político-militar Décadas de 1910 a 1930 miniaturadaimagem|Castelo Branco (esq.) e Kruel (dir.) no Colégio Militar de Porto Alegre|esquerda Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre a partir de quando tinha ao redor de 11–12 anos. Amaury e Riograndino estavam entre os melhores amigos de Humberto Castelo Branco no Colégio, onde também conheceram Arthur da Costa e Silva. Castelo e os irmãos Kruel integravam a diretoria da Sociedade Cívica Literária, agremiação de alunos que promovia saraus e uma tendência política moralizadora, contrária ao continuísmo e mandonismo associados ao governo de Borges de Medeiros. Nas folgas, Amaury e Castelo frequentavam a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, onde vaiavam os governistas e aplaudiam a oposição. Nas ruas, juntavam-se a protestos de operários e estudantes, num dos quais Kruel foi baleado na perna pela Brigada Militar, deixando uma cicatriz para o resto da vida.

Ambos prosseguiram à Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro, em 1918, e Kruel permaneceu o melhor amigo de Castelo. Eles estavam na mesma turma de outros oficiais de grande relevância nacional nas décadas seguintes, como Olímpio Mourão Filho. O cadete Kruel ingressou na arma da Cavalaria, ficando em 18º lugar entre seus pares. Ele saiu como aspirante-a-oficial em 1921.

Em 1923, quando era primeiro-tenente no 7º Regimento de Cavalaria, em Santana do Livramento, participou com outros militares de manifestações de apoio à Revolução Federalista, condenando a quinta reeleição consecutiva de Borges de Medeiros. Durante a Revolução de 1930 ainda era tenente, servindo como ajudante-de-ordens do subchefe do Estado-Maior do Exército no Rio de Janeiro. Nessa posição, participou do golpe que alçou Getúlio Vargas ao poder. Posteriormente ingressou no Clube 3 de Outubro, organização de tenentistas defensores das reformas instituídas pela Revolução. Em 1931–1933 cursou a Escola de Estado-Maior. Em 1936–1937, já como major, comandou a Polícia Municipal do Rio de Janeiro.

Segunda Guerra Mundial miniaturadaimagem|Estado-Maior da FEB. Kruel é o segundo da direita para a esquerda, entre Brayner (à sua dir.) e Castelo (à esq.) O Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial em 1942 e iniciou o preparo da Força Expedicionária Brasileira. Kruel foi um de onze oficiais brasileiros enviados em 1943 a um estágio de três meses em Fort Leavenworth, nos Estados Unidos. Enquanto estava no exterior, foi promovido a tenente-coronel. Os brasileiros aprenderam a substituir a doutrina francesa pela guerra de movimento americana, e Kruel também participou de debates com agentes americanos sobre a reforma da polícia.

O general Mascarenhas de Morais, comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), designou os integrantes de seu Estado-Maior (EM) para participar da Campanha da Itália: Aguinaldo José Sena Campos à 1ª Seção (Pessoal), Kruel à 2ª (Informações), Castelo Branco à 3ª (Operações) e Thales Ribeiro da Costa à 4ª (Logística). O chefe do EM era o coronel Floriano de Lima Brayner. Desembarcando em 1944, Kruel participou da ofensiva contra a Linha Gótica. Os primeiros ataques na Batalha de Monte Castello, de novembro a dezembro, foram derrotas custosas. A operação, planejada por Castelo, havia sido anteriormente criticada por Brayner e Kruel. Baseado em depoimentos de prisioneiros alemães, a Seção de Informações havia advertido sobre as fortificações inimigas, mas Castelo conseguiu convencer Mascarenhas. O plano usou uma estimativa da reação inimiga feita pela Seção de Operações, não da de Informações; Kruel atacou Castelo por invadir suas atribuições, e Castelo respondeu que Kruel havia se omitido a fazer a estimativa.

A guerra pôs fim à sua amizade de trinta anos com Castelo. Kruel foi ainda ofendido quando a Seção de Operações passou por cima da alçada da sua para enviar um telegrama ao Brasil, mentindo sobre a tranquilidade na frente. Para sua frustração, Castelo tornou-se braço direito de Mascarenhas. Segundo Flávio Tavares, Kruel foi também ofendido quando Castelo associou-o ao inimigo por descender de imigrantes alemães. Lira Neto cita tal associação como feita reservadamente entre Castelo e Mascarenhas. Com o final da campanha em 1945, Kruel foi elogiado por Mascarenhas de Morais e condecorado por Mark W. Clark, comandante do V Exército americano.

Décadas de 1940 a 1950 miniaturadaimagem|esquerda|No comando da Após a guerra, serviu como adido militar em Londres até sua promoção a coronel em 1947. A posição de adido era prestigiosa e oferecia uma vida mais cosmopolita e isolada da caserna e burocracia. Na diplomacia, Kruel foi também assessor militar do Brasil na Organização das Nações Unidas em 1960. Em 1958 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis de Portugal.

Responsável em janeiro de 1949 pela 2ª Seção da 1ª Subchefia do Estado-Maior do Exército, fez um curso especial de informações e foi encarregado de um inquérito sobre atividades comunistas no Exército. Nelson Werneck Sodré acusa Kruel como um dos oficiais que abusaram de suas posições na eleição da direção do Clube Militar em 1952, perseguindo os partidários da Chapa Amarela. Kruel apoiava a Chapa Azul, da direita militar (a “Cruzada Democrática”), contra os autodenominados “nacionalistas”. Em julho um dos promotores, Amador Cisneiros de Amaral, protestou que prisioneiros eram mantidos incomunicados por mais do que o período legal máximo de três dias. Kruel chamou Amaral de comunista e ordenou sua prisão, uma decisão revertida pelo juiz Adalberto Barreto. Alguns dos presos eram febianos, e seu prestígio poderia ter fortalecido o lado “nacionalista”. Muitos dos oficiais foram absolvidos em julho, mas suas carreiras foram arruinadas e os internacionalistas da “Cruzada Democrática” ganharam o domínio do Exército.

Em fevereiro de 1954, quando comandava o 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (Dragões da Independência) no Rio de Janeiro, foi o primeiro de 82 signatários do “Manifesto dos Coronéis” e o responsável por entregá-lo ao ministro da Guerra. O documento criticava a administração de Getúlio Vargas, a falta de recursos para o Exército, a condição de vida com que as praças eram deixadas e o aumento de 100% no salário mínimo proposto pelo ministro do Trabalho João Goulart. O ministro caiu. Todavia, pouco depois Kruel e Goulart tornaram-se amigos em São Borja, no Rio Grande do Sul. Kruel havia se tornado o mais jovem general-de-brigada em março. Comandou a Artilharia Divisionária da 1ª Divisão de Infantaria no período de 28 de abril de 1954 a 25 de setembro de 1954. Em seguida, comandou a 1ª Divisão de Cavalaria e, após julho de 1955 foi chefe do Estado-Maior da Zona Militar Sul. Nesse período que conheceu Goulart. Em outubro o responsável por falsificar a “carta Brandi”, com a qual o jornalista Carlos Lacerda acusava Goulart de contrabandear armas, confessou sua responsabilidade a Kruel no Rio Grande do Sul. O general foi padrinho de João Vicente, filho de Goulart nascido em 1956.

Segurança Pública (1957–1959)