O povoamento das Américas diz sobre a forma como o homem chegou a esse continente, há milhares de anos. É uma questão arduamente discutida no meio científico, e várias teorias foram elaboradas para explicar a chegada do homem ao continente.

Em 1590, o frei espanhol José de Acosta propôs que o homem chegou à América vindo da Ásia, antes mesmo da descoberta do Estreito de Bering pelos europeus, em 1724. No início do século XIX, naturalistas e cientistas dos Estados Unidos, precursores da arqueologia moderna, propuseram que o homem não surgiu nas Américas, mas sim em outro continente.

Apenas na década de 1920 que os estudiosos admitiram presença humana nas Américas há mais de três mil anos. Em 1926, após descoberto pelo vaqueiro George McJunkin, o sítio arqueológico de Folsom, no Novo México (Estados Unidos), começou a ser escavado. Anos mais tarde, no final da década de 1920 e início da década de 1930, com as escavações no sítio arqueológico de Clovis, também no Novo México, formulou-se a teoria de que o homem chegou às Américas vindo da Ásia pelo Estreito de Bering (na época uma língua de terra, a Beríngia) há 13 mil anos, expandindo-se em direção ao sul. A teoria de que o povo Clovis foi o primeiro a alcançar o continente americano não é mais aceita, pois foram encontrados vestígios arqueológicos mais antigos que estes na década de 1970, como Monte Verde, no sul do Chile, datado de 15 mil anos. Existem sítios arqueológicos mais antigos que estes, como as pegadas de White Sands, datadas de 21 mil a 23 mil anos (embora haja quem questione essas datações), e outros ainda mais antigos e controversos, como a Pedra Furada, no estado brasileiro do Piauí. thumb|300px|O estreito de Bering, indicado pelo retângulo, separa a Ásia da América. Segundo a teoria mais aceita, por ali passaram os primeiros homens que chegaram à América.

A teoria contemporânea No século XXI, o avanço da Genética, em especial da Arqueogenética, permitiu uma melhor compreensão acerca da chegada do homem à América.

Há 30 mil anos, uma população antiga do Leste Asiático se mesclou com os Antigos Eurasiáticos do Norte, uma população caçador-coletora da Sibéria relacionada aos povos da Eurásia Ocidental, assim originando os ancestrais diretos dos paleossiberianos e dos ameríndios.

Por volta de 25 mil anos atrás, os paleoíndios (grupo ancestral dos povos indígenas da América) migraram do leste da Sibéria para a região da Beríngia, uma língua de terra no atual Estreito de Bering, ali permanecendo por milênios, até o avanço do nível do mar cobrir a região. thumb|esquerda|Uma das possíveis rotas de entrada do homem na América através da BeríngiaHá duas hipóteses de como os paleoíndios migraram para a América do Norte e, consequentemente, para o resto do continente. A primeira argumenta que chegaram por meio de um corredor descongelado no atual Canadá. A segunda teoria diz que, como o manto de gelo bloqueava o avanço rumo ao sul, os caçadores-coletores navegaram por pequenos barcos próximos à costa.

Foi detectado em algumas populações indígenas da América do Sul (xavantes, suruís, karitianas e guaranis-kaiowás e aparaís do Brasil, chotunas do Peru e quéchuas da Amazônia do Equador), em uma amostra de mil anos do Panamá e em um indivíduo paleoíndio da Lapa do Santo (Minas Gerais) um pequeno sinal (de 1 a 3%) de ancestralidade compartilhada com o homem de Tianyuan (fóssil da China de 40 mil anos atrás, ancestral dos asiáticos orientais modernos) e com os modernos aborígenes australianos e melanésios. Esse sinal foi denominado de “população Y” e indica que uma das populações que migraram da Sibéria para as Américas o possuía.

Por volta de 15 mil anos atrás, o homem cruzou o Istmo do Panamá e iniciou o povoamento da América do Sul, que se prolongaria pelos milênios seguintes.

As ilhas do Caribe foram povoadas posteriormente pelos ameríndios, por volta de seis mil anos atrás, por migrações vindas da América do Sul e Central. Por volta de dois mil anos atrás, as Antilhas foram ocupadas por povos aruaques e caraíbas, vindos da América do Sul, substituindo os habitantes anteriores.

Teorias descartadas ou questionadas Sítios com artefatos líticos e ossos modificados acima de 25 mil anos são encontrados nas Américas, mas não são majoritariamente aceitos pela comunidade científica, o que se deve sobretudo à falta de fósseis tão antigos.

No Brasil, no estado de Mato Grosso, no Abrigo Santa Elina, a 82 km de Cuiabá, foram encontrados ossos cortados de preguiça-gigante datados de 25 mil anos, que podem ter sido modificados por humanos. Na caverna de Chiquihuite, no estado mexicano de Zacatecas, foram encontrados vestígios líticos de 30 mil anos atrás, mas ainda questionados pela ciência. Ainda mais controversos são os sítios arqueológicos da Serra da Capivara, no sudoeste do estado brasileiro do Piauí, como o sítio da Pedra Furada, onde foram encontrados pela arqueóloga Niède Guidon vestígios que sugerem a presença humana há 50 mil anos ou até mais, mas não são aceitos pela comunidade científica, que alega que os restos de carvão ali encontrados são resultados de fenômenos naturais e as ferramentas de pedra foram feitas por macacos-pregos.

Na década de 1990, Walter Neves formulou a teoria de que a América foi povoada por duas ondas migratórias: a primeira, de feições similares aos aborígenes australianos e melanésios, e a segunda, de feições asiáticas, ancestral dos indígenas atuais. Essa hipótese foi formulada porque o crânio de Luzia, encontrado na década de 1970 no município brasileiro de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e datado de 11,5 mil anos, e de outros crânios humanos encontrados na região possuem um formato que lembra os povos da Oceania. A análise genética dos crânios do Povo de Lagoa Santa (a que Luzia pertenceu) descartou essa teoria, pois os fósseis tinham DNA ameríndio, com um deles possuindo o pequeno sinal compartilhado de ancestralidade com o homem de Tianyuan e os povos da Australásia.

A análise genética do fóssil Anzick-1, encontrado em Montana (Estados Unidos) em 1968 e datado de 12,5 a 12,7 mil anos atrás, enterrou de vez a hipótese solutreana, que dizia que os primeiros humanos na América chegaram vindos da Europa.

Pedras descritas como prováveis ​​ferramentas, martelos e bigornas, foram encontradas no sul da Califórnia, no sítio arqueológico de Cerutti, associadas a um esqueleto de mastodonte que aparentava ter sido processado por humanos. O esqueleto do mastodonte foi datado por análise radiométrica de tório-230/urânio, utilizando modelos de datação por difusão-adsorção-decaimento, em cerca de 130 mil anos atrás. Não foram encontrados ossos humanos e as reações dos especialistas foram diversas; as alegações de uso de ferramentas e processamento de ossos foram consideradas "implausíveis" pelo Prof. Tom Dillehay.

Ver também Paleoamericanos Beríngia Arqueologia da América Arqueologia brasileira

Ligações externas

ADN de esqueleto com dez mil anos muda a história antiga do continente americano, ZAP, 1 de Agosto de 2023

Categoria:História da América