Os Thénardier são dois personagens do romance Os Miseráveis de Victor Hugo. Ao longo da história, o ganancioso casal sem escrúpulos deixa a sua marca negativa na sociedade não olhando a meios para atingir os seus fins. Passando por cima de tudo e todos, não respeitando quaisquer regras morais e sem demostrar o mínimo interesse pela condição humana que os rodeia, os Thénardier são frequentemente tidos como os principais vilões da narrativa.
Os Thénardier no Romance
Caracterização e vida anterior à narrativa
Victor Hugo começa por descrever o casal como um par de seres pertencentes a essa classe de gente grosseira de inteligência decaída, "que está entre a classe chamada média e a chamada inferior, e que combina alguns defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira." s:Os Miseráveis/Primeira Parte/Quarto Livro/Segundo Capítulo
Thénardier (nascido em c. 1773) é caracterizado como um medonho e tenebroso homem desse género que inspira desconfiança só de olhar a sua figura. Ruivo, baixo, magro, pálido, com aspecto de doente mas gozando de perfeita saúde, assim era a fisionomia deste vigarista. O narrador sugere que talvez tenha origens flamengas da região da Flandres e não mais menciona sobre o seu passado do que uma passagem pela Holanda onde, contrariamente ao que alega, não mais fez do que ser estalajadeiro. Observador matreiro, amante da boa vida e hostil a tudo o que não lhe permita aumentar a sua fortuna pessoal, Thénardier é que o narrador apresenta como o mau pobre: miserável que nas cores da sua miséria não encontra senão rancor, inveja e ódio à humanidade.s:Os Miseráveis/Segunda Parte/Terceiro Livro/Segundo Capítulo
Já a madame Thénardier (c. 1788-1832) é apresentada como uma besta odiosa, alta loira, vermelha, encorpada, fornecida de carnes, criatura quadrada, enorme e ágil. A sua inteligência permitira-lhe na sua juventude pouco mais do que a leitura de romances de fraca qualidade o que, por sua vez, nada estimulou o seu intelecto. Quando dormia saía-lhe da boca um dente e devido aos seus modos, à postura face à bebida, à proeminente barba e ao porte colossal, qualquer um a tomaria, nas palavras do narrador, por um carreteiro num vestido de mulher. A nível sentimental venera o marido, adora as duas filhas, despreza os três filhos e odeia o resto do mundo.
Primeira Parte: Fantine
Numa normal tarde da Primavera de 1818, estava a madame Thénardier à porta da sua estalagem assistindo às brincadeiras das suas duas pequenas filhas, Éponine e Azelma, quando por ela passa Fantine com uma criança ao colo. A Thénardier encontrava-se, portanto, num daqueles raros momentos de expressão de felicidade, deliciada com a imagem das duas pequenas a brincar. Rendida aos encantos daquele cenário, a jovem mãe mete conversa com a estalajadeira e, julgando que tal acordo seria o mais proveitoso para a sua filha, pergunta à madame Thénardier se, mediante pagamento, seria possível deixar sobre a sua guarda a pequena criança até chegar à sua terra natal e ter as condições económicas para lhe dar uma vida decente.
Percebendo aqui uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil, depressa o marido entra na conversa e, aplicando todos os seus métodos de persuasão, consegue extorquir à jovem cinquenta e sete francos mais a garantia de que todos os meses receberá sete francos. Ingénua e sem conseguir pensar em melhor remédio para a sua situação, Fantine, a jovem mãe, parte então para a sua terra convicta de que cedo tornará a ver a sua pequena Cosette.s:Os Miseráveis/Primeira Parte/Quarto Livro/Primeiro Capítulo Os Thénardiers, porém, tinham outros planos.
Segunda Parte: Cosette
A segunda parte começa com a célebre descrição da batalha de Waterloo por Victor Hugo. Após algumas páginas de pura História, o narrador torna à ficção apresentado-nos as pilhagens feitas por salteadores no campo de batalha após a derrota francesa. Entre estes marginais encontramos Thénardier que no meio de toda a confusão de cadáveres encontra um oficial ainda vivo de seu nome Pontmercy. Pontmercy julga ter sido salvo pelo vagabundo e por isso jura que nunca esquecerá o seu nome. Thénardier, no entanto, não fizera senão roubá-lo.
De regresso à data original da história, o narrador traz-nos de volta a Montfermeil e à taberna do vil casal. É a véspera de natal de 1823 e a estalagem está repleta de clientes. O marido bebe com a clientela, a mulher serve toda a gente, as filhas do casal brincam alegremente e Cosette remenda roupas, tremendo com a ideia de ter de ir à rua buscar água. Apesar de toda a gente preferir qualquer bebida alcoólica, a determinada altura alguém reclama água para os cavalos e, constatando que esta escasseia, a Thénardier obriga Cosette a ir à fonte.
A regressar, a Thénardier percebe que a pequena encontrara um homem pelo caminho e que esta pretende passar a noite na estalagem. Observando a roupa gasta do estranho, o casal toma-o por um mero pobre e requisita uma extravagância por um quarto sem quaisquer condições. Pois tais pessoas, segundo Thénardier, não davam bom nome à casa.
O estranho no entanto aceita. Sozinho a um canto, permanece sentado a observar Cosette e por duas ou três vezes mostra-se bondoso para com a pobre criança. Thénardier, sempre atento a qualquer oportunidade para fazer dinheiro, repara neste estranho comportamento e decide ficar de olho no homem. Até mesmo depois de todos se terem recolhido, o viajante fica sentado no seu canto a meditar, o que muito intriga o estalajadeiro.
No dia seguinte, Thénardier prepara uma surpresa para o viajante. Tomando-o agora por um rico excêntrico, o ex-salteador auto-intitulado "Sargento de Waterloo" apresenta-lhe uma conta de vinte e três francos, um autêntico roubo face às pobres condições de toda a estalagem. No entanto, não querendo confusões, o homem paga. Não só paga como expõe o verdadeiro motivo que o trouxe a Montfermeil: levar Cosette para longe daquele antro de abusos e maus tratos. Após uma negociação recheada de cinismos e mentiras, Thénardier consegue cobrar 1500 francos ao estranho para que este possa levar Cosette. o viajente aceita e leva a pequena.
Porém, momentos após a negociação, Thénardier cai em si e convence-se de que poderia ter pedido muito mais dinheiro. Agitado, sai da taberna a correr atrás do estranho e Cosette. Ao conseguir alcançá-los começa por dizer que após melhor pensar não poderá deixar Cosette partir com uma pessoa que não possui um bilhete assinado por Fantine, pois não lhe cabe a ele decidir o destino da pequena. Antes de conseguir conduzir a conversa para a parte em que dava a entender que estava disponível a ser pago para ir contra os seus "príncipios", o homem apresenta-lhe um papel com a assinatura de Fantine, no qual se lia que o portador de tal nota deveria ficar com a sua filha. Thénardier não consegue mais argumentar contra tais factos e deixa-os partir. Virando costas, arrepende-se de não ter trazido uma espingarda.
Terceira Parte: Marius
Com o passar dos anos a taberna dos Thénardier acaba por ir à falência. De Montfermeil a família muda-se para Paris onde aluga um quarto no miserável casebre Gorbeau. Se na taberna "O Sargento de Waterloo" já pouco deviam à honestidade, em Paris os Thénardier abandonam por completo todas e quaisquer intenções de ingressar em trabalhos honrados. Sobre o falso nome de Jondrette, a família passa a dedicar-se à mendigagem profissional, ao roubo e à extorsão através da mentira, filiando-se aos locais grupos criminosos.
Certo dia passeam as agora adolescentes Éponine e Azelma pela rua, esfarrapadas e descalças como se havia tornado costume, quando sem dar conta perdem um maço de envelopes. As cartas que estes continham haviam sido escritas por Thénardier no intuito de serem entregues a possíveis benfeitores, gente que o ex-estalajadeiro estuda de longe e suspeitava serem capazes de providenciar esmolas consideráveis. Ainda nesse dia, Thénardier manda Éponine pedir dinheiro ao vizinho do casebre, o jovem Marius, que previamente já demonstrara ser uma pessoa caridosa. Este havia, por acaso, encontrado o maço de envelopes caído e entrega-os a Éponine que depressa os vai dar aos respectivos destinatários.
A filha mais velha do casal regressa a casa, assegurando que um dos benfeitores viria visitá-los dentro de pouco tempo. Thénardier apressa-se a destruir ainda mais o quarto e inventa um cenário familiar que toda a família terá de representar no momento em que o filantropo entrar. Assim que este chega tudo está pronto para o receber. Thénardier desfaz-se em lamentos e histórias mirabolantes sobre a sua triste condição ao que o idoso benfeitor lhe responde que voltará ainda nesse dia com algum dinheiro para as necessidades mais urgentes.
Thénardier, contudo, reconhece este homem - esta era a mesma pessoa que há nove anos havia levado Cosette. O "sargento de Waterloo" não só lhe tinha um especial ódio, como o julgava ainda fabulosamente rico. Era hora de agir. Depressa reúne membros da sua perigosa quadrilha de criminosos, os Patron-Minette, e antes do regresso do filantropo já haviam os marginais montado uma emboscada no casebre. Marido e mulher ficariam no quarto, as duas filhas na rua atentas a qualquer eventualidade e os seus colaboradores escondidos num dos quartos vazios da casa.
Não estavam, porém, os criminosos cientes de que o vizinho Marius havia observado toda a cena, desde a chegada do pai adoptivo de Cosette até ao planear de todo o golpe. Na janela de tempo que sucedera estes acontecimentos, correra o jovem estudante à esquadra mais próxima onde contou tudo o que havia ouvido a Javert, um inspector da polícia parisience. A guarda estava, portanto, na rua à espera de um tiro de pistola de Marius, que de novo retomara o seu posto de vigia, para apanhar toda a quadrilha em flagrante.
Quando o benfeitor regressa, Thénardier mantém durante algum tempo a encenação começada horas antes mas cedo manda os seus homens prendê-lo à cama. Ordena-lhe então que escreva uma carta a Cosette na qual requisita que acompanhe a portadora do bilhete, Mme. Thénardier. Esta, após conseguir que a pequena entre numa carruagem deveria, no entanto, mantê-la refém até que o filantropo se prestasse a dar 200.000 francos a Thénardier. O benfeitor, contudo, alega residir numa morada falsa de modo a ganhar tempo suficiente para se soltar o mais que pode e, quando a terrível mulher regressa com a verdade, volta a colocar-se em posição defensiva. Ainda preso por uma perna, pega num dos ferros em brasa aquecidos pelos vilões para fins duvidosos e assim se prepara para resistir. Thénardier perante o presente cenário decreta que não haverá nada a fazer senão matá-lo.
Seria este o momento ideal para Marius disparar. Contudo, após ouvir a conversa entre o protector de Cosette e Thénardier, ficou a conhecer o verdadeiro nome do ex-estalajadeiro, um nome que seu pai lhe havia mencionado como o do homem que o "salvara" em Waterloo. Não querendo causar a prisão de Thénardier mas também não procurando a morte do pressuposto pai da rapariga por quem estava apaixonado, Marius lembra-se de atirar para o quarto um papel previamente deixado por Éponine onde se lia "Aí vêm os partazanas (polícia)". Assustado, o grupo de criminosos prepara-se para fugir, mas no último instante aparece Javert. O casal ainda tenta matar o polícia, primeiro com um tiro e depois arremessando-lhe uma pedra mas nada parece atingir este que era o inspector mais temído dos criminosos de Paris. O dia termina então com todos os Thénardier e quase todos os membros da quadrilha Patron-Minette a caminho da cadeia.
Quarta Parte: O Idílio da Rua Plumet e a Epopeia da Rua S. Dinis