O cerco de Ciudad Rodrigo, ou, na sua forma portuguesa, de Cidade Rodrigo, e a sua consequente captura pelas tropas do Tenente-General Sir Arthur Wellesley foi uma operação militar que decorreu entre 8 e 19 de Janeiro de 1812, no âmbito da Guerra Peninsular (1807-1814). A guarnição francesa, sob comando do Brigadeiro-Geneneral Baron Barrié, resistiu até à noite do dia 19 daquele mês.

O Campo De Batalha Ciudad Rodrigo situa-se na margem direita (Leste) do Rio Águeda (que desagua no Douro; existe um outro Rio Águeda, afluente do Vouga) e ocupa todo o topo de uma colina, cerca de 30 metros acima do nível normal do rio. A muralha principal é antiga, construída no século XVIII e tem quase 10 metros de altura e era construída em alvenaria de má qualidade. No século XVIII foram feitos alguns melhoramentos acrescentando um conjunto de obras que, devido à morfologia do terreno, apenas proporcionavam uma protecção parcial. Não existia uma cidadela mas sim um castelo que se erguia na parte da cidade mais próxima do rio. thumb|esquerda|400px|Muralha interior de Ciudad Rodrigo, da porta de Amayuelas para oeste.

A fortaleza era dominada a partir do Téson Grande, uma colina situada a 550 metros para Norte e cerca de 4 metros acima do nível das muralhas. Entre o Téson Grande e as muralhas existe uma segunda colina, mais baixa e de menor extensão chamada Téson Pequeno. Quando Massena capturou Ciudad Rodrigo em 1810, ele colocou a sua artilharia de cerco, destinada a abrir as brechas nas muralhas, no Téson Grande. Para evitar que Wellington fizesse o mesmo, os franceses construíram ali um reduto (Reduto ReynaudRAWSON, p. 172.) que dispunha de três bocas de fogo de artilharia e estava preparado para uma guarnição de 70 homens. A guarnição francesa de Ciudad Rodrigo contava com esta fortificação para ganhar tempo suficiente para receber apoio de Marmont (comandante do Exército de Portugal) e Dorsenne (comandante do Exército do Norte)WELLER, pp. 192 a 194; GLOVER, p. 177.

thumb|direita|400px|Antiga ponte romana sobre o Águeda, onde passaram as tropas de O'Toole no dia 19 de Janeiro.

O Convento de São Francisco, fora das muralhas e a Norte da cidade, foi fortificado pelos franceses e ali foram instaladas quatro bocas de fogo de artilharia. As bocas de fogo instaladas na parte Norte de muralha tornavam difícil a aproximação ao Convento. Na região a Nordeste da praça situava-se uma área urbana fortificada conhecida como o subúrbio de São Francisco. No extremo Sul desta área (frente às muralhas da zona Leste da praça) encontrava-se o Convento de São Domingos e do outro lado da cidade, no exterior, frente às muralhas da zona Oeste, situava-se o Convento de Santa Cruz.

Antecedentes As últimas forças francesas que participaram na Terceira Invasão de Portugal tinham conseguido escapar ao cerco que as tropas de Wellington mantinham sobre a praça de Almeida, na noite de 10 para 11 de Maio de 1811 - ver o artigo Cerco de Almeida (1811). Ficava criada uma situação de impasse: no eixo Norte os Aliados dominavam Almeida e os franceses Ciudad Rodrigo; no eixo Sul os Aliados dominavam Elvas e os franceses Badajoz. Se Wellington pretendia tomar uma atitude ofensiva e entrar em Espanha teria de capturar Ciudad Rodrigo e Badajoz. Ciudad Rodrigo ficou sujeita a um bloqueio mas não foram iniciadas operações de cerco.

Wellington não dispunha de tropas suficientes para pôr cerco a Ciudad Rodrigo e, simultaneamente, repelir um provável ataque do Marechal Marmont que tinha substituído Massena no comando do Exército de Portugal. Wellington tinha cerca de 16.000 homens no sul, sob comando do General Rowland Hill, em vigilância do eixo sul de invasão (Badajoz-Elvas). Restavam-lhe 46.000 homens. Marmont dispunha de uma força de 40.000 homens que poderia ser reforçada por mais 30.000 do Exército do Norte do Marechal Bessières. Wellington podia apenas manter um bloqueio que não impedia Ciudad Rodrigo de ser abastecida, mas apenas obrigava os franceses a um esforço suplementar para o conseguir. Seria necessário esperar por uma oportunidade que fosse favorável para tentar capturar aquela praça.

O bloqueio da praça não impediu os franceses de ali introduzirem abastecimentos mas impediu-os de retirarem de lá o trem de cerco do Exército de Portugal que, em Setembro de 1811, tinha sido armazenado por Massena no interior das muralhasGLOVER, p. 177; OMAN, p. 165. A 13 de Dezembro, Marmont recebeu ordens para destacar 10.000 homens em apoio das tropas que tinham a missão de capturar Valência e 4.000 para cobrir a linha de comunicações que aquela expedição exigia. Desta forma, Marmont ficava sem 1/3 dos seus efectivos. No dia 24 de Dezembro, Wellington teve conhecimento de que uma parte do Exército de Portugal estava em marcha para Leste. Quatro dias depois soube que os franceses se dirigiam para Valência. Não perdeu a oportunidade e deu ordens para ser iniciado o cerco de Ciudad Rodrigo.

As forças em presença As forças francesas A guarnição francesa em Ciudad Rodrigo estava sob comando do General de Brigada Jean Léonard Barrié e tinha um efectivo de 2.000 homens mas um décimo estavam doentesGLOVER, p. 177. Era constituída pelas seguintes tropasSMITH, p. 375:

1 batalhão do 34º Regimento de Infantaria Ligeira 1 batalhão do 113º Regimento de Infantaria de Linha 2 companhias de artilheiros 1/2 companhia de sapadores.

Dispunham de abundante artilharia com não menos que 153 peças pesadas, com as correspondentes dotações de munições e 167 artilheirosOMAN, p. 165..

As forças anglo-lusas As forças anglo-lusas, com um efectivo total de 10.700 homens, eram comandadas pelo Tenente-General Sir Arthur Wellesley e tinham a seguinte organizaçãoSMITH, p. 375.:

Divisão Ligeira — Major-General Robert Craufurd — formada por quatro batalhões britânicos e dois batalhões portugueses, agrupados em duas brigadas: Brigada de Barnard — 1/43rdDeve ler-se «1º batalhão do 43º Regimento de Infantaria», 1/95th (4 companhias), 2/95th (2 companhias), e Caçadores 1Esta é a forma abreviada de designar o Batalhão de Caçadores nº 1. Brigada de Vandeleur - 1/52nd, 2/52nd, 1/95th (4 companhias) e Caçadores 3. 3ª Divisão de Infantaria — Tenente-General Sir Thomas Picton — formada por oito batalhões britânicos e dois batalhões portugueses, agrupados em três brigadas: Brigada de Mackinnon - 1/45th, 1/74th, 1/88th, 5/60th (3 companhias); Brigada de J. Campbell - 2/5th, 1/77th, 2/83th, 1/94th Brigada portuguesa de Champalimaud, temporariamente sob o comando do tenente-Coronel Palmeirim - RI 9 (1 batalhão) e RI 21 (1 batalhão). Brigada Independente Portuguesa — Brigadeiro Dennis Pack — formada por cinco batalhões portugueses:1/RI 1Deve ler-se «1º Batalhão do Regimento de Infantaria nº 1», 2/RI 1, 1/RI 16, 2/RI 16 e Caçadores 4 36 bocas de fogo de artilharia de cerco.

Para além destas unidades, Wellington dispunha ainda das 1ª e 4ª Divisões que chegaram a tomar parte nos trabalhos de preparação das trincheiras mas não no assalto à praça de Ciudad Rodrigo.

O cerco O exército de Wellington estava acantonado nas proximidades da praça de Almeida (excepto a Divisão Ligeira que se mantinha próxima de Ciudad Rodrigo). A 2 e 3 de Janeiro foram distribuídas ordens para avançar para a linha do Águeda e as suas divisões começaram a atravessar a fronteira no dia 4, com neve e chuva intensa. No dia 5, as tropas que iam participar no cerco estavam dentro de Espanha, apesar das más condições climatéricas que tornaram as estradas difíceis de transitar. Os carros com abastecimentos e munições que saíram de Almeida demoraram dois dias a percorrer quase 10 Km até GallegosOMAN, pp. 163 e 164.. No dia 6 de Janeiro, o quartel-general foi transferido para Gallegos e Wellington com o seu estado-maior fez um reconhecimento à praça de Ciudad Rodrigo. thumb|direita|400px|Mapa do cerco e assalto à praça de Ciudad Rodrigo em 1812

Wellington estabeleceu um plano: ocupar a o Téson Grande, estabelecer ali uma primeira paralelaA expressão paralela significa, neste âmbito, uma trincheira que é construída paralelamente às muralhas da praça que se pretende capturar e que tem a finalidade de proporcionar protecção para as forças atacantes., ligar-se ao Téson Pequeno com as trincheiras necessárias e construir nesta colina mais pequena uma segunda paralela onde seriam instaladas as baterias destinadas a abrir as brechas nas muralhas.

A primeira tarefa seria capturar a fortificação existente no Téson Grande. Para isso, a Divisão Ligeira recebeu ordem para o fazer por escalada, sem preparação da artilhariaOMAN, pp. 166 e 167.. No dia 8 de Janeiro, depois de escurecer, o reduto no Téson Grande foi atacado por dez companhias da Divisão Ligeira (Duas companhias de cada um dos regimentos 1/43rd, 1/52nd, 2/52nd e 1/95th e duas companhias de Caçadores 1 e 3)OMAN, p. 167., sob o comando do Coronel Colborne. Estas tropas só foram detectadas pelos franceses quando já se encontravam a menos de 50 metros de distância. O reduto foi cercado, as tropas foram instaladas por forma a fazerem fogo sobre quem aparecesse nas muralhas e uma parte das forças assaltou o forte sendo este capturado ao fim de 20 minutos. Colborne perdeu 25 homens (seis mortos e dezanove feridos), e a guarnição francesa, que tinha cerca de 60 homens, foi morta ou capturada WELLER, p. 194.. Só quatro dos defensores conseguiram escapar para a praça de Ciudad Rodrigo.

Assim que se apoderaram do reduto, os Aliados começaram os trabalhos de entrincheiramento e instalação das baterias de cerco. No dia 9 começaram a construir a primeira paralela a 700 metros das muralhasBOTELHO, p. 553.. O tempo estava muito frio e era rara a manhã em que não se encontravam mortas de frio, nos seus postos, sentinelas portuguesas!BOTELHO, p. 553 e a terra até à profundidade de 2 a 3 cm tinha gelado. No entanto o solo era macio e trabalhava-se bem. Já o fogo vindo da praça de Ciudad Rodrigo era contínuo e intenso pois os franceses dispunham de artilharia e munições com abundância. As tropas fizeram o seu trabalho com entusiasmo, cada divisão durante vinte e quatro horas, tendo de acautelar a defesa contra possíveis saídas, abrir as trincheiras sob a direcção dos oficiais de engenharia, construir gáveas e faxinas e reparar os danos provocados pelo fogo intenso dos francesesWELLER, pp. 194 a 195..

No dia 13 de Janeiro, às 16H30, a artilharia aliada iniciou o fogo e, após uma noite de bombardeamento, os franceses foram expulsos dos subúrbios fortificados da praça de Ciudad RodrigoWELLER, p. 195. Três companhias capturaram o Convento de São Francisco que os franceses estavam a utilizar como posto de observaçãoRAWSON, p. 175.. Na tarde do dia 14 de Janeiro, as baterias abriram fogo sobre as muralhas. Neste mesmo dia de manhã, uma força francesa saiu da praça e dirigiu-se às trincheiras recém-abertas no Téson Pequeno. Os grupos de soldados britânicos e portugueses que aí trabalhavam foram facilmente afastados e os franceses causaram muitos estragos, enchendo novamente várias secções das trincheiras, antes de voltarem para a fortaleza. No regresso, os franceses levaram consigo todas as ferramentas que conseguiram carregar. As tropas aliadas voltaram ao trabalho e, após algumas horas, os danos tinham sido reparadosRAWSON, pp. 174 e 175..

No dia 16, tanto da parte das tropas aliadas como das francesas, o fogo foi interrompido durante 24 horas devido a um denso nevoeiro e a construção das trincheiras fez um considerável progresso. Foi depois retomado o bombardeamento das muralhas e a 19, as muralhas tinham cedido. Vinte e três peças de 24 libras e quatro de 8 libras fizeram fogo sobre o local onde os franceses tinham aberto uma brecha em 1810 e a alvenaria estava fraca. Durante cinco dias, foram feitos 9.515 disparos de artilharia e consumidos 834 barris de pólvora - cada barril continha 90 libras (40,82 Kg) de pólvora. Cerca de 230 metros à esquerda, foi aberta outra brecha, mais pequenaGLOVER, p. 180..

O ataque à praça de Ciudad Rodrigo