O vazamento de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos teve início no final de novembro de 2010 quando o site WikiLeaks e cinco grandes jornais publicaram uma quantidade de documentos oficiais que detalhavam correspondências entre o Departamento de Estado dos Estados Unidos e embaixadas estadunidenses ao redor do mundo. O vazamento dos telegramas é o terceiro em uma série de conjuntos de documentos sigilosos publicados pelo WikiLeaks, precedido pelo vazamento de documentos da Guerra no Afeganistão (em julho) e pelo vazamento de documentos da Guerra do Iraque (em outubro).
Os primeiros 200 de 251.287 documentos foram publicados em 28 de novembro através do WikiLeaks, do espanhol El País, do alemão Der Spiegel, do francês Le Monde, do britânico The Guardian e do estadunidense The New York Times.1,796 memos from US embassy in Manila in WikiLeaks 'Cablegate'. ABS CBN News. 29-11-2010. Cerca de 130 mil documentos não são sigilosos e nenhum é "top secret"; cerca de 100 mil são "confidenciais" e 15 mil são do mais alto nível "secreto".Leaked Cables Offer Raw Look at U.S. Diplomacy. The New York Times. 28-11-2010. O vazamento inicial focava-se nas relações diplomáticas dos Estados Unidos e países do Oriente Médio. Os planos do WikiLeaks são de divulgar todos os telegramas em lotes no decorrer de vários meses.Australia on Wikileaks 'cablegate'. News.com.au. 29-11-2010.
Reações
As reações ao vazamento foram, de certa forma, uniformes: a maioria dos governos ocidentais expressou condenação. Analistas da mídia demonstraram interesse pelo conteúdo e defenderam o WikiLeaks das críticas. Em resposta ao vazamento, o Secretário de Imprensa da Casa Branca Robert Gibbs disse que "um governo transparente é algo que o Presidente acredita ser importante, mas o roubo e divulgação de informação secreta é um crime."Press Briefing by Press Secretary Robert Gibbs. Página oficial da Casa Branca. 29-11-2010.
Em Londres, o porta-voz do WikiLeaks, Kristin Hrafnsson, ex-jornalista televisivo da Islândia, negou que o vazamento de documentos secretos seja uma violação da lei. "Estamos fazendo isso pelo bem do público (...). Não acho que tenhamos violado lei alguma", disse ele, acrescentando que a transparência é a base de qualquer democracia saudável. "Um mundo sem segredos é um mundo melhor", afirmou Hrafnsson.EUA apertam cerco contra WikiLeaks e seu fundador. Terra, 1-12-2010.
O governo alemão, porém, já planeja criar uma nova lei de controle da Internet, prevendo multas de vários milhares de euros para punir a divulgação de informações não liberadas. A ministra da justiça, Sabine Leutheusser-Schanarrenberger, lembrou que um controle maior da Internet só seria possível com uma cooperação internacional.Correspondentes e colaboradores comentam a repercussão do vazamento do WikiLeaks pelo mundo. O Globo. 1-12-2010.
Em 9 de dezembro, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu publicamente Julian Assange num discurso em defesa da liberdade de expressão.Lula defende WikiLeaks: 'quem divulga não é culpado'. Globo G1. 9-12-2010.
Represálias e ameaças Desde o dia 28 de novembro, quando começou o vazamento dos documentos diplomáticos, o WikiLeaks tem sido alvo de ataques sistemáticos, o que obrigou o site a trocar o servidor sueco, Bahnhof, pelos servidores da Amazon.com. Entretanto, por pressão de congressistas americanos,Amazon expulsa WikiLeaks de seus servidores. iG. 1-12-2010. a Amazon acabou por "expulsar" WikiLeaks, o que resultou na interrupção do acesso ao site, por várias horas, no dia 1º de dezembro, até que este voltou a se hospedar no servidor sueco. Pelo Twitter, WikiLeaks sugeriu que "se a Amazon está tão incomodada com a Primeira Emenda,A Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos defende a liberdade de expressão, de imprensa e de religião, bem como o direito à reunião. deveria deixar o negócio de venda de livros".
No dia 30 de novembro, a Interpol, a pedido da Justiça sueca, enviou a 188 países, uma "notificação vermelha" para descobrir o paradeiro de Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, visando a sua extradição.Alerta da Interpol é 'incomum', diz advogado de Julian Assange. iG. 1-12-2010. Assange, processado por violência sexual na Suécia, refugiou-se no sudoeste da Inglaterra e estaria recebendo ameaças de morte.Fundador do WikiLeaks está escondido no R.Unido, diz jornal. Terra. 2-12-2010.
História Aquisição dos telegramas Foi divulgado em junho que o Departamento de Estado e funcionários de embaixadas dos EUA estavam preocupados que Bradley Manning, que havia sido processado por divulgação de documentos sigilosos enquanto estava no Iraque, pudesse ter tido acesso a telegramas diplomáticos. A reportagem da Wired foi rejeitada como sendo inverossímil pelo próprio WikiLeaks. Manning estava sob suspeita de ter enviado tudo o que havia conseguido para o WikiLeaks, que havia decidido publicar o material aos poucos, para obter o maior impacto possível.State Department Anxious About Possible Leak of Cables to Wikileaks. Wired. 8-6-2010.
Anúncio Em 22 de novembro, um anúncio feito pelo WikiLeaks via Twitter dizia que a próxima publicação teria 7 vezes o tamanho dos recém-publicados relatórios de guerra do Iraque.WikiLeaks promises leak "seven times bigger than Iraq". TechEye, 22-11-2010. Autoridades estadunidenses e a mídia especularam, na época, que eles poderiam conter telegramas diplomáticos. Antes do vazamento, o governo da Grã-Bretanha havia enviado um aviso aos jornais britânicos, alertando-os de que não os publicassem.
O The Guardian depois revelou ter sido a fonte da cópia dos documentos enviada ao The New York Times, de forma a prevenir a total censura dos documentos.
Em 9 de dezembro os maiores jornais paquistaneses — como o The News International, o The Express Tribune e o Daily Jang — divulgaram que certos telegramas de diplomatas estadunidenses possuíam conteúdo agressivo acerca do governo indiano. Mais tarde, admitiu-se que a história "era dúbia e poderia ter sido inventada", e alguns jornais pediram desculpas aos seus leitores. De fato, nenhum conteúdo agressivo ao governo da Índia apareceu entre os telegramas publicados.WikiLeaks fake cables – Pakistani newspapers admit they were hoaxed. Guardian. 10-12-2010.
Em 26 de novembro, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, enviou uma carta ao Departamento de Estado dos EUA através de sua advogada, Jennifer Robinson, convidando-os para, de forma privada, identificar possíveis documentos cuja publicação poderia colocar vidas em risco. Harold Koh, conselheiro legal do Departamento, rejeitou a proposta dizendo que não negociaria documentos obtidos ilegalmente. Assange respondeu que, assim sendo, os riscos não pareciam ser tão grandes, e que eles estariam, desta forma, mais preocupados em encobrir os abusos cometidos por eles próprios.Letters between Wikileaks and the U.S. Government. The New York Times. 28-11-2010.
Conteúdo por região As informações nos telegramas divulgados pelo WikiLeaks em 28 de novembro de 2010 e dias subsequentes incluem as seguintes:
Afeganistão
De acordo com um telegrama da embaixada estadunidense em Cabul, o Vice-Presidente do Afeganistão, Ahmad Zia Massoud, foi descoberto carregando US$ 52 milhões em dinheiro que ele "teve permissão de levar sem precisar revelar a origem ou o destino". A descoberta foi feita nos Emirados Árabes Unidos pelas autoridades locais que trabalhavam para o Drug Enforcement Administration.
Hamid Karzai, Presidente do Afeganistão, foi descrito em um telegrama como tendo "uma visão de mundo paranóica".Wikileaks: US allies unruffled by embassy cable leaks. CNN. 29-11-2010.
Brasil
O Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, é descrito como um "oponente" que adota um discurso "contra os estadunidenses".Documentos confidenciais revelam que, para EUA, Itamaraty é adversário. Folha de S.Paulo. 30-11-2010.
De acordo com um telegrama da embaixada estadunidense em Brasília, o Brasil abriga suspeitos de terrorismo entre os traficantes de drogas. Altos oficiais brasileiros "rejeitam vigorosamente qualquer insinuação" de que há presença terrorista no Brasil.WikiLeaks: Brazil tried to distance itself from U.S. war on terror. CNN. 30-11-2010.
Segundo os telegramas, a Polícia Federal e a ABIN monitoram a presença de suspeitos de terrorismo no território nacional, desde pelo menos o ano de 2005. Conforme relatou o ex-embaixador dos Estados Unidos, Clifford Sobel, num telegrama enviado em 8 de janeiro de 2008, "a Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo". “No ano passado (2007) a Polícia Federal prendeu vários indivíduos envolvidos em atividades suspeitas de financiamento de terrorismo mas baseou essas prisões em acusações de tráfico de drogas ou evasão fiscal". A Polícia Federal e a ABIN sempre compartilham essas informações com as agências estadunidenses, diz o relato. Segundo os telegramas, estes suspeitos de terrorismo se tratam principalmente de imigrantes libaneses ligados ao Hezbollah, além de extremistas sunitas, que se encontram localizados principalmente na Grande São Paulo, na Tríplice Fronteira (ou oeste do Paraná) e em outras regiões do sul do país. Em um almoço com o ex-embaixador John Danilovich na residência da embaixada em 2006, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Jorge Armando Felix disse que é importante que as operações de contraterrorismo sejam "maquiadas" da maneira apropriada para não afetar negativamente a "orgulhosa" e "bem-sucedida" comunidade árabe no Brasil. Pouco antes, Felix havia agradecido o apoio dos estadunidenses através do Regional Movement Alert System (RMAS), que é um sistema que detecta passaportes inválidos, perdidos ou falsificados. A partir de informações do RMAS, a ABIN e a Polícia Federal estariam monitorando "indivíduos de interesse" no Brasil. Segundo o telegrama que descreve o almoço entre Felix e Danilovich, "além das operações conjuntas com o governo dos Estados Unidos, o governo brasileiro também está pedindo que filhos de árabes, muitos deles empresários de sucesso, vigiem árabes que possam ser influenciados por extremistas ou grupos terroristas". Logo após, Felix afirma que é de total interesse da comunidade árabe no Brasil "manter potenciais extremistas na linha", evitando assim chamar a atenção mundial para os árabes brasileiros. No telegrama enviado em 8 de janeiro de 2008, Clifford Sobel também afirmou que "a sensibilidade ao assunto (por parte do governo brasileiro) resulta devido ao medo da estigmatização da grande comunidade islâmica no Brasil ou de que haja prejuízo para a imagem da região (da Tríplice Fronteira) como destino turístico. Também é uma postura pública que visa evitar associação à guerra ao terror dos EUA, vista como demasiado agressiva". Em outro telegrama de dezembro de 2009, a ministra conselheira da embaixada, Lisa Kubiske, disse que "enquanto o governo nega (o terrorismo), a polícia monitora e colabora em operações de contraterrorismo". Neste telegrama, ela também citou a prisão de um integrante da Al-Qaeda em São Paulo, conhecido como "senhor K", em maio de 2009. Ele foi preso sob a acusação de racismo numa pretensa investigação sobre células nazistas, mas segundo o que está escrito no telegrama, para a Polícia Federal, ele coordenava uma célula de comunicação e recrutamento da Al-Qaeda em São Paulo. Além disso, Lisa Kubiske também elogiou o Ministério das Relações Exteriores por ter admitido que terroristas podem se interessar no Brasil por causa dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016.Brazil - Em segredo, Brasil monitora e prende suspeitos de terrorismo. Wikileaks. 29-11-2010.