thumb|300px|Porto de Barcelona, gravura do

A história de Barcelona estende-se ao longo de mais de 4000 anos, desde finais do período neolítico, com os primeiros restos encontrados no território da cidade, até à época actual. A zona de Barcelona foi habitada por povos iberos (laietanos), cartagineses, romanos, judeus, visigodos, muçulmanos e cristãos. Apesar dos vestígios de povoados iberos e cartagineses, o verdadeiro nascimento da cidade produziu-se na época romana. Esse povoado foi evoluindo até se converter num dos principais portos do mar Mediterrâneo ocidental, alcançando na Idade Média a primazia sobre o resto dos condados catalães e convertendo-se na capital do Principado da Catalunha e da Coroa de Aragão. Após a união de Castela e Aragão, e pese ter deixado de ser capital de um estado independente, Barcelona sempre gozou de uma posição de grande relevância no desenvolvimento político, social e económico do estado espanhol. Mais recentemente, acontecimentos como os Jogos Olímpicos de 1992 e o Forum Universal das Culturas colocaram Barcelona como uma cidade mundialmente reconhecida e celebrada, importante foco turístico e cultural, bem como centro financeiro e de congressos de reconhecido prestígio.

Origens thumb|300px|Território dos laietanos. As origens da cidade de Barcelona são confusas. Antes da conquista romana da Península Ibérica, a zona de Barcelona e territórios próximos conserva restos de finais do Neolítico e princípios do Calcolítico. Posteriormente desenvolveu-se a cultura dos laietanos, um povo ibero. Sabe-se da existência de duas povoações próximas, Barceno, situada sobre o monte Táber (Ciutat Vella) e Laie (ou Laiesken), cuja localização se crê ter sido nas encostas da montanha de Montjuïc (séculos III e ), com certa actividade comercial.Roig (1995), p. 2-3. É provável também que tenha havido um pequeno povoado grego, de nome Καλλίπολις (Calípolis, “cidade bela”) embora não seja clara a sua localização. Encontraram-se dois locais de cunhagem de moeda desse período. Entre os séculos III e circularam dracmas ao estilo de Ampúrias, com a inscrição ibera Barceno. Laiesken cunhou também moedas que prevaleceram durante o primeiro período romano.

Durante a Segunda Guerra Púnica (218-), Cartago, liderado por Aníbal Barca, ocupou a povoação no decurso da sua marcha até aos Pirenéus, tendo passado o rio Ebro, que era até então o limite do domínio cartaginês. Em muitos casos, esta ocupação () é assinalada como a data de fundação da cidade.

Lendas sobre a fundação Duas lendas principais contam a origem de Barcelona:

A lenda de origem romana atribui a fundação a Hércules (Héracles na versão grega), 400 anos antes da fundação de Roma. Nesta versão, Hércules, depois de completar quarto trabalho, une-se aos argonautas liderados por Jasão em busca do velo de ouro, cruzando o Mediterrâneo em nove navios. Uma tormenta dispersa a frota perto da costa da Catalunha, mas todos os navios conseguem reagrupar-se, excepto um. Jasão encarrega então Hércules da busca pelo nono navio. Encontrou o naufrágio da Barca Nona junto de uma suave colina (Montjuïc). Aos tripulantes agradou-lhes tanto o lugar que com a ajuda de Hércules e Hermes fundaram uma cidade com o nome de Barca Nona, Barcanona. Esta história representa uma variação do mito original em que o velo se encontrava na Cólquida, território situado no Cáucaso e actualmente parte da Geórgia. De acordo com a adaptação mitológica romana de Héracles a Hércules, relocalizou-se esta história mitológica na vertente ocidental do Mediterrâneo.

A lenda de origem cartaginesa outorga a Amílcar Barca, pai de Aníbal, a fundação da cidade, até com o nome de Barceno, Barcelino ou Nova Barci Nova em relação à sua linhagem da família Barca. Esta etimologia também é referida frequentemente em relação a Aníbal Barca. Outra versão relaciona ambas as lendas através da fundação de Hércules e de uma reconstrução posterior feita por Amílcar.

De qualquer modo, estas origens são baseadas em conjecturas sem bases arqueológicas nem históricas, propostas por crédulos historiadores medievais do como Pere Tomic ou Jeroni Pau. A origem etimológica está bem fundamentada no topónimo laietano e ibérico, e é defendida por linguistas e etimólogos de renome como Joan Coromines.

Barcelona romana

Entre 218 e o a informação sobre Barcelona é escassa. Quando a República Romana decidiu entrar na Península Ibérica para se contrapor ao poder dos cartagineses, acabou por se tornar uma conquista territorial que duraria até , ano em que Augusto daria por concluído o controlo da Península. O prolongamento desta conquista deveu-se à forte resistência que exibiram os povos do interior e do norte (Guerras Cantábricas). As cidades já dominadas do noroeste peninsular serviram de base para levar a caboesta empresa. Barcino beneficiou discretamente destes feitos sob a superioridade de outras cidades como Tarraco (Tarragona) ou César Augusta (Saragoça).

Durante o controlo de Roma por Augusto (r. - ), que converteu os seus domínios em império, formalizou-se o nome de Barcino (entre 15 e ), forma reduzida da oficial "Colônia Favência Júlia Augusta Pia Barcino" (Colonia Faventia Iulia Augusta Pia Barcino), ou, por extenso, "Colônia Júlia Augusta Favência Paterna Barcino" (Colonia Iulia Augusta Faventia Paterna Barcino; Inscr. ap. Gruter, p. 426, nos. 5, 6).Hernàndez (2001), p. 40. É com o nome de Barcino que surge no célebre mapa-múndi de Ptolomeu. A menção de Colônia faz referência a uma cidade fundada para distribuir terras entre os soldados romanos retirados do exército, neste caso após as Guerras Cantábricas. Era também conhecida na forma reduzida como Colônia Favência (Plínio, o Velho, iii. 3. s. 4). O geógrafo romano Pompônio Mela (ii. 6) faz referência à povoação – entre outros pequenos povoados da zona – sob a sombra de Tarraco. O papel estratégico de Barcino, ponto de chegada dos grandes eixos do norte (ramal da Via Augusta) e mediterrânico, conferiu à cidade desde muito cedo um activo desenvolvimento comercial e económico (Avieno, Or. Mar. 520: Et Barcilonum amoena sedes ditium). Desde cedo também desfrutou de isenção de impostos.

Uma parte importante dos restos da Barcelona romana, paleocrista e visigoda podem ser visitados no subsolo arqueológico do Museu de História de Barcelona

Barcino thumb|esquerda|200px|Plano de Barcino sobreposto ao plano do Bairro Gótico do presente

Na refundação de Augusto, Barcino tomou inicialmente a forma urbana de castro (acampamento) e depois de ópido, com os habituais eixos organizadores Cardo Máximo e Decúmano Máximo e um espaço central ou fórum, assente sobre o outeiro denominado Monte Tabro (25 m de altitude), já ocupado pela presença laietana. O conjunto era amuralhado, com um perímetro de 1,5 km e protegia um recinto de 12 ha.

O máximo esplendor da época romana dar-se-ia durante o , com uma população que deveria oscilar entre os e habitantes. Uma personagem de destaque desta época foi Lúcio Minício Natal, que, juntamente com seu pai, mandou construir as termas da cidade. A população ascendia a entre 4000 e 8000 habitantes durante o . A principal actividade económica era o cultivo de terras circundantes (especialmente viticultura), que tinha boa fama e se exportava para outras regiões do império como a Gália, a Península Itálica, o Norte de África e a fronteira germânica. Pelo valor dos restos arqueológicos (tamanho do templo, abundância de esculturas, mosaicos e ânforas) determinou-se que os habitantes gozaram de um bom nível de vida. Porém, a cidade não dispunha de teatro, anfiteatro nem circo.

Sistema de governo O governo da cidade seguia as formas que o império e a província outorgavam às colónias da mesma época, que era um poder bastante autónomo. O município tinha jurisdição sobre a cidade em si (urbs), e a área rural que a rodeava (territorium). As classes sociais, tão arreigadas na Antiga Roma, podiam dividi-se entre cidadãos (cives), aqueles nascidos na cidade ou que tinham obtido a cidadania; domiciliados sem cidadania (incolae), residentes transitórios (hospites) e escravos sem direitos. Cidadãos e domiciliados pagavam impostos municipais, embora só os plenos cidadãos podiam exercer postos de governo. Só a partir de 212, com a aprovação da Constitutio antoniniana de Caracala, os domiciliados e o resto dos homens livres das províncias passaram a poder exercer direitos de cidadania.

A cúria municipal (ordo decuriorum), formada por um centena de membros (curiales), era uma assembleia que tratava todos os aspectos de poder da cidade (políticos, administrativos, judiciais). A cúria renovava-se a cada cinco anos, embora para a poder exercer fosse exigido ser um homem livre e deter património. Dois representantes presidiam à cúria por um ano, e dispunham de poder civil, criminal e mesmo militar. Os edis (ædiles) vigiavam as ruas e instituições públicas. Outros funcionários, elegíveis a cada cinco anos, encarregavam-se do censo, patrimónios, finanças e cultos ordinários (sacerdotes ou pontífices) ou imperiais (sevires augustales), entre outras tarefas.

Muralhas

Como cidade de origem castrense, a fortificação da praça tinha uma muralha. A primeira muralha de Barcino, de fabrico simples, começou a construir-se sob o nome de Colônia no . Tinha poucas torres, e só nos cantos e nas portas do perímetro amuralhado. As primeiras incursões dos francos e alamanos a partir da década de 2509 suscitaram a necessidade de reforço das muralhas. Sob o mandato imperial de Cláudio II, e já em decadência, Barcino inicia a construção de melhores fortificações entre os anos de 270 e 300. A nova muralha foi construída sobre as bases da primeira, e era formada por um muro duplo de dois metros (até 8 metros de altura em alguns trechos), com o espaço intermédio preenchido com pedra e argamassa. O muro constava de 81 torres de cerca de 18 metros de altura, a maioria de base rectangular (dez com base semicircular, situadas nas portadas). As obras de beneficiação foram dos mais importantes feitos executados durante o Baixo Império na Tarraconense, e constituem uma das causas pelas quais Barcino teve relevância e começou a comparar-se com Tarraco.

Fórum O fórum era a praça central dedicada à vida pública e aos negócios. Situava-se na confluência entre o Cardo Máximo e o Decúmano Máximo]], aproximadamente no centro do recinto amuralhado. No fórum concentravam-se as construções dedicadas aos negócios, a justiça, as termas ou banhos públicos, etc, e era o lugar onde as autoridades se reuniam na Curia e na Basilica. O recinto do fórum não estava claramente delimitado, mas parece que coincidia aproximadamente com a actual praça de Sant Jaume.

Templo thumb|250px|Restos das colunas do Templo de Augusto, ainda hoje erguidas. Museu de História de Barcelona

O templo de Barcino era dedicado a Augusto, primeiro imperador e fundador da Barcino romana. Foi construído poucos anos depois da fundação da cidade, provavelmente em princípios do Era um edifício de planta rectangular, sobre pódio, pórtico e períptero, de cerca de 35 metros de comprimento por 17,5 de largura, dimensões consideráveis para a cidade. Entre a colunata de ordem coríntia situava-se a cela, um habitáculo que continha a imagem ou escultura do imperador Augusto, acessível do fórum. As cerimónias não se faziam no interior do templo mas sim no exterior, no mesmo forum, até à fachada principal do templo. Parece que, além do Templo de Augusto, o conjunto era ainda presidido por um ou dois templos menores.

Aquedutos thumb|left|250px|Necrópolis romana, Praça Vila de Madrid (Barcelona).Museu de História de Barcelona