A Invernada da Polícia Militar, também denominada Invernada do Barro Branco e Invernada da Força Pública, é um complexo institucional e ambiental da Polícia Militar do Estado de São Paulo situado na Zona Norte do município de São Paulo, na região do Barro Branco, entre o Tucuruvi e o Tremembé. As unidades do complexo distribuem-se por endereços oficialmente identificados com os dois distritos: a Academia de Polícia Militar do Barro Branco e o Presídio Militar Romão Gomes aparecem vinculados ao Tucuruvi, enquanto o Centro Médico da Polícia Militar é localizado no Tremembé. Além das instalações militares, a área conserva uma extensa cobertura vegetal, constituindo uma das principais florestas urbanas institucionais da região.

História A denominação “invernada” está relacionada ao uso inicial da propriedade como área de pastagem e recuperação dos cavalos empregados pela antiga Força Pública do Estado de São Paulo. Segundo levantamento histórico publicado pela Folha de S.Paulo, a presença da corporação na Zona Norte remonta a 1832, e o terreno do Barro Branco era utilizado para a engorda dos animais. Em 1904, foi instalado no local um centro de treinamento de tiro, iniciando-se a concentração de atividades militares na propriedade. Naquele período, a região ainda apresentava características rurais e suburbanas e era alcançada pelo Tramway da Cantareira.

A formação da futura Academia de Polícia Militar do Barro Branco resultou da reorganização do ensino da Força Pública ocorrida no início do século XX. A Lei estadual nº 1.244, de 27 de dezembro de 1910, criou a Companhia Escola, encarregada da instrução militar de recrutas e candidatos a cabos. Em 1913, a Lei nº 1.395-A incluiu na organização da corporação o Curso Especial Militar e o Corpo Escola, considerados antecedentes institucionais da escola de formação de oficiais. O processo de organização desse sistema de ensino contou com a participação da Missão Militar Francesa e esteve associado à profissionalização da corporação durante a Primeira República.

A sede da escola de oficiais foi transferida para o Barro Branco durante a década de 1940, sendo inaugurada na Invernada em 1944. A instalação da academia consolidou a propriedade como um polo de formação, assistência e apoio logístico da corporação. Ao longo do século XX, foram implantadas outras unidades, entre elas o Centro Médico e Hospital da Polícia Militar, o Canil Central, o Presídio Militar Romão Gomes, o estande de tiro e instalações de cavalaria, intendência, telecomunicações e apoio patrimonial. O edifício hospitalar do Barro Branco foi inaugurado em 1978.

O Presídio Militar Romão Gomes, integrante do complexo, também se tornou um local associado à memória da ditadura militar brasileira. Durante esse período, o estabelecimento recebeu presos políticos submetidos à Justiça Militar Federal. Em outubro de 1975, 35 presos políticos ali mantidos enviaram ao presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, Caio Mário da Silva Pereira, uma carta que ficou conhecida como “Bagulhão”. O documento descrevia métodos de tortura, denunciava irregularidades jurídicas, relacionava mortos e desaparecidos políticos e apresentava nomes e codinomes de agentes acusados de participação na repressão. A carta foi redigida clandestinamente e retirada do presídio com o auxílio do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh.

Biodiversidade A Invernada possui aproximadamente 125 hectares, abrangendo áreas edificadas, fragmentos de vegetação e setores reflorestados. Estudo publicado pelo antigo Instituto Florestal identificou no interior do Centro Médico cerca de 11,38 hectares de reflorestamento, divididos principalmente entre talhões de Pinus e Eucalyptus. Somada às edificações correspondentes, a área então ocupada pelo Centro Médico alcançava 21,05 hectares. O mesmo estudo classificou a Invernada como uma floresta urbana de uso institucional e destacou sua proximidade com o Parque Estadual Alberto Löfgren e o Parque Estadual da Cantareira, condição relevante para a manutenção de fragmentos de vegetação na área urbanizada da metrópole.

Levantamentos biológicos passaram a ser realizados de forma sistemática a partir de 2007, por meio da cooperação entre a Polícia Militar, o Centro de Estudos Ornitológicos e pesquisadores de instituições ambientais. A atualização do inventário faunístico publicada em janeiro de 2020 registrou 148 espécies de animais silvestres, distribuídas entre 120 espécies de aves, 17 de mamíferos e 11 de répteis e anfíbios. Entre os animais observados estão o bugio-ruivo, o macaco-prego, a irara, o quati, o ouriço-cacheiro, o jacuguaçu, o tucano-de-bico-preto e o gavião-pega-macaco.

A conectividade da vegetação da Invernada com o Parque Estadual Alberto Löfgren foi ampliada por uma passagem superior destinada à fauna arborícola. Projetada em 2013 e instalada no final de 2014, a estrutura possui cinco módulos e aproximadamente 186 metros de extensão. A passagem permite o deslocamento de animais entre os dois fragmentos sem a necessidade de atravessar as vias e redes elétricas existentes na área urbanizada. O monitoramento divulgado pelo projeto registrou o uso da estrutura por aves e mamíferos arborícolas, incluindo primatas.

Tombamento A proteção jurídica da cobertura vegetal antecede o tombamento municipal. O Decreto estadual nº 30.443, de 20 de setembro de 1989, declarou imunes ao corte as árvores existentes na Invernada da Polícia Militar, em razão de sua localização. Em 17 de dezembro de 2013, o Conpresp aprovou a Resolução nº 36/2013, que tombou a área da Invernada da Força Pública, a sede da Academia de Polícia Militar, seu portal de entrada e o Hospital Militar. A resolução classificou a área como bem de interesse ambiental e os elementos arquitetônicos selecionados como bens de interesse cultural, determinando a preservação das características externas dos edifícios, de determinados espaços internos, dos jardins frontais e do pátio central da academia.

Notas

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