A Estação arqueológica de Monte Molião, também conhecida como Sítio Arqueológico do Molião ou Povoado do Monte Molião, é um sítio arqueológico localizado junto à cidade de Lagos, na região do Algarve, em Portugal. Corresponde a um castro ou povoação fortificada construído durante a segunda Idade do Ferro, nos finais do século IV a. C. Conheceu uma fase de ocupação intensiva durante o período romano, embora tenha perdido progressivamente a sua importância com a transição do núcleo urbano para a outra margem da Ribeira de Bensafrim, que foi a génese da moderna cidade de Lagos. Ainda assim, verificaram-se vestígios da sua utilização até ao período medieval islâmico. Foi investigada pelos arqueólogos Estácio da Veiga no século XIX e José Joaquim Nunes nos princípios do século XX, tendo sido alvo de vários campanhas regulares de escavações a partir da década de 2000. Devido à sua identificação como o local primitivo da cidade de Lacóbriga, as ruínas do Monte Molião são vistas como um ex-libris da cidade de Lagos. Em 2019 a autarquia de Lagos estava a planear a construção de um centro de interpretação no local. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1992.

thumb|esquerda|Interior da cisterna, em 2017. Descrição Localização, composição e conservação O sítio arqueológico está situado no Monte Molião, uma pequena elevação com cerca de 30 m de altitude, na margem esquerda da Ribeira de Bensafrim, nas imediações da Estrada Nacional 125, e de um supermercado Pingo Doce.

Corresponde a um castro ou povoação fortificada, como pode ser comprovado pela existência de várias estruturas residenciais, e de uma grande amurada. Uma das principais estruturas no sítio arqueológico é uma cisterna, que foi descrita por Estácio da Veiga como sendo de forma elíptica, e tendo 4,35 m de profundidade, 1,76 m de largura e 6,8 m de comprimento.

O monumento foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 26-A/92, de 1 de Junho, que também classificou a Barragem Romana da Fonte Coberta e a Estação Arqueológica Romana da Praia da Luz, ambos no concelho de Lagos.PORTUGAL. Decreto n.º 26-A/92, de 1 de Junho de 1992. Presidência do Conselho de Ministros, Publicado no Diário da República n.º 126, 2º Suplemento, Série I-B, de 1 de Junho de 1992.

Espólio O sitio arqueológico do Monte Molião revelou uma importante riqueza em termos de espólio, tendo a professora Ana Margarida Arruda revelado, durante a edição deo 2015 do evento anual Jornadas de Portas Abertas Monte Molião, que até então tinham sido registadas cerca de 25 mil peças, calculando que ainda restavam algumas centenas de milhares por registar. A maior parte do espólio do Monte Molião foi preservado no Museu Municipal de Lagos, enquanto que a estátua de Mercúrio foi exposta no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa.

Os materiais do período romano descobertos no local incluem uma estátua do deus Mercúrio em bronze, do século II d.C., moedas da época republicana, dois brincos de ouro, peças de cerâmica, metal e vidro, vestígios osteológicos, e restos de animais marinhos. Foram igualmente escavadas peças relacionadas aos ritos funerários romanos, como enguentários de vidro e cerâmica. Uma boa parte do material cerâmico romano, como ânforas, incluem ainda as marcas dos fabricantes (terra sigillata), permitindo identificar a sua origem, tendo sido produzidas em sítios romotos como o Norte de África, a Ásia, Grécia e a Península Itálica.

thumb|esquerda|200px|Vista parcial do Monte Molião, em 2017. História

As várias sondagens arqueológicas no local permitiram a determinação das várias fases de ocupação no local, começando nos finais do século IV a. C., durante a II Idade do Ferro, e terminando nos finais do século II d. C., durante a era romana. Verificou-se uma utilização posterior, de forma menos intensiva, até ao domínio islâmico.

Fundação De acordo com os vestígios encontrados no local, o povoado começou a ser ocupado desde a segunda Idade do Ferro, relativo ao período entre os finais do e os finais do . O Monte Molião foi apontado como o sítio mais provável para a localização da antiga cidade de Lacóbriga, referida pelos geógrafos durante a antiguidade. Um dos investigadores da antiguidade que referiram a cidade de Lacóbriga foi o geógrafo romano Pompónio Mela, no ano de 45 d.C.. A data apontada para a fundação de Lacóbriga é o ano de , pelos povos Cónios. Estácio da Veiga avançou com várias hipóteses para a localização da antiga cidade de Lacóbriga, incluindo o sítio da Fonte Coberta, situado a cerca de 150 m no sentido Noroeste de Lagos, o Cerro das Amendoeiras, a dois quilómetros a Sul e Sudoeste da povoação do Sargaçal, dentro da própria povoação do Sargaçal, o Figueiral da Misericórdia, os sítios do Paúl, do Jardim, do Serro do Lago e da Casteleja, o Monte Molião, ou o centro da moderna cidade de Lagos. A identificação do Monte Molião com a cidade de Lacóbriga deve-se à presença de importantes vestígios arqueológicos, e à sua localização num sítio privilegiado, que devido à sua altura e posição facilitava a defesa e possibilitava a vigilância de uma grande porção de território, incluindo a costa de Lagos e as zonas mais interiores. Ao mesmo tempo, a sua situação perto da ria, com acesso ao oceano, facilitava a exploração dos recursos fluviais e marítimos, como a criação de bivalves. Nessa época, o estuário da Ribeira de Bensafrim seria de dimensões muito superiores, rodeando quase totalmente a colina, excepto por uma faixa de terreno no lado setentrional. Nos seus primeiros anos, a povoação deve ter sido de dimensões consideráveis, possuindo evidentes características típicas do urbanismo e arquitectura mediterrânicos. Esta ligação também está expressa nas peças de cerâmica recolhidas, oriundas da cidade de Cádis e da região do Mediterrâneo, revelando que a povoação do Monte Molião estava inserida nas rotas comerciais.

thumb|left|Interior da cisterna, vista de outro ângulo. Período cartaginês e romano Lacóbriga foi posteriormente conquistada pela civilização cartaginesa, sob o comando de Amílcar Barca. A povoação original foi destruída por um terramoto no , levando à sua relocalização para a outra margem da ribeira pela capitão cartaginês Boodes por volta de . A nova localização do centro urbano era mais vantajosa, devido principalmente a uma maior proximidade em relação ao oceano.

A cidade de Lacóbriga foi conquistada pelos romanos durante o período republicano, no século II a.C., numa fase em que se verificou uma progressiva instalação de cidadãos da Península Itálica na região do Algarve. No Monte Molião foram descobertas várias estruturas da fase romana, organizadas em ruas, e que tinham funções residenciais ou industriais, incluindo fornos para cerâmica, zonas de produção metalúrgica, e cetárias, que eram utilizadas na preparação de produtos de peixe. A cisterna também pode ter sido construída pelos romanos. A presença romana também é evidenciada pela existência de vários materiais daquela época, incluindo moedas e de uma necrópole, já destruída, onde foram encontrados vestígios de rituais de inumação e incineração, e peças votivas do século I d. C. ao III d. C.. Como se pode comprovar pelos vestígios encontrados, o povoado terá mantido uma intensa ligação comercial com o exterior, tanto a nível regional como com o Mediterrâneo. A ocupação intensiva durou até à época Imperial de Roma, no século II d.C., tendo sido abandonado de forma progressiva, especialmente do ponto de vista habitacional, devido ao desenvolvimento de um outro núcleo urbano na margem oposta do rio, e que deu origem à moderna cidade de Lagos. Como se podia comprovar pela existência de peças do século III na necrópole romana, está terá continuado a ser frequentada pelos habitantes, que provavelmente viviam perto do monte. Destaca-se também a presença da Ponte D. Maria junto ao Monte Molião, que pode ter origem numa ponte do período romano.

Ocupação posterior Desde os inícios do século II que não se verificou uma ocupação intensa do Monte Molião, embora a área não tenha sido totalmente abandonada. Com efeito, foram descobertos vestígios de ocupação durante a antiguidade tardia, no século IV, e o domínio islâmico. A colina foi depois utilizada para agricultura, tendo sido cultivados os terrenos e construídas habitações rurais.

Redescoberta Século XIX O sítio foi escavado pelo arqueólogo Estácio da Veiga durante a segunda metade do , durante os seus estudos para a produção da Carta Arqueológica do Algarve. Registou a descoberta de várias estruturas, incluindo uma cisterna e vestígios de muros, e de diversos objectos, incluindo fragmentos de cerâmica, uma estátua em bronze, representando o deus Mercúrio, que lhe foi ofertado por Augusto Feio Soares de Azevedo, e dois brincos de ouro do século IV d.C.. Este também lhe ofereceu um grande número de moedas romanas, incluindo um denário em prata da família Titúria, uma moeda de bronze pertencente ao grupo lusitano, sendo as restantes de Alexandre Pio, Salácia, Cláudio e Faustina, entre outras. Neste período, o Monte Molião estava ocupado por várias explorações agrícolas, tendo sido encontrados muitos vestígios de casas na horta de José Pimenta, enquanto que em frente deste terreno existia uma casa abandonada que foi construída sobre paredes antigas. Estácio da Veiga descobriu igualmente uma cisterna de forma elíptica, situada igualmente na horta de José Pimenta, e um lanço de grande paredão que terminava em ângulo, e que especulou que faria parte de um aparelho de defesa. Nas barreiras também foram descobertos muitos fragmentos de materiais de construção e de peças de cerâmica, tendo o próprio Estácio da Veiga encontrado, em 2 de Março de 1878, partes de louças de Sagunto, lisas e adornadas, e outros com revestimento escuro e polido. Também tinham sido encontrados muitos fragmentos de loiça em vidro, tendo-lhe sido oferecida, por Francisco Xavier de Paiva, uma Clepsidra de vidro, em forma de pinha. Xavier de Paiva descobriu igualmente um conjunto de contas cilíndricas no Molião.

Século XX