A Igreja de São Sebastião, originalmente denominado de Ermida de Nossa Senhora da Conceição, é um edifício religioso, localizado na cidade de Lagos, em Portugal. Foi construída durante o século XIV, sendo originalmente uma ermida dedicado a Nossa Senhora da Conceição, tendo sido ampliada para uma igreja e consagrada a São Sebastião no século XV. Foi classificado como Monumento Nacional. Um dos principais motivos de interesse na igreja é a mistura de vários estilos, causada por um prolongado período de construção, além de várias obras de reedificação posterior, como após os sismos de 1755 e 1969. Nos finais da década de 2010, a igreja atingiu um avançado estado de degradação, situação que foi denunciada por vários partidos políticos e pela Assembleia da República.

Descrição Localização e composição A igreja está situada junto à Rua Conselheiro Joaquim Machado, que originalmente tinha a denominação de Rua de São Sebastião. Está situada num local elevado, numa posição dominante, que originalmente se situava na fronteira setentrional da cidade de Lagos.ROCHA, 1909:80

O edifício apresentava originalmente uma configuração no estilo gótico, tendo sido profundamente modificado no século XVI. É reconhecido como um dos principais exemplos do estilo quinhentista no Algarve, apresentando uma planta típica daquele período, com três naves de cinco tramos e sem transepto, criando uma igreja-salão de grandes dimensões, apesar de ter ficado com uma ligeiro desnível entre a nave central e as laterais. As naves são separadas por colunas de ordem dórica, de capitéis parcialmente jónicos, que suportam arcadas de volta perfeita, sendo rematadas por uma cabeceira de três partes, correspondente ao altar-mor e a duas capelas laterais, sendo cada parte encimada por um óculo. A capela-mor possui uma abóbada de canhão, estucada e com desenhos, enquanto que as laterais possem frontões no estilo clássico, e coberturas com painéis. A cobertura possui naves de madeira, formadas por caixotões com tirante, enquanto que o telhado é de duas águas. As paredes das naves laterais estão decoradas por um silhar de azulejos com vários padrões, típico dos séculos XVII e XVIII. O interior da igreja encerra vários retábulos Neoclassicistas, que são considerados os maiores deste estilo na região. Possuem um só corpo e tramo, sendo da autoria do arquitecto Francisco Xavier Fabri, que se destacou pelos seus trabalhos artísticos no século XIX, em vários pontos do Algarve. No interior destaca-se igualmente a talha dourada nas capelas laterais. O edifício também inclui uma sacristia e uma casa paroquial, e possui um adro junto às fachadas frontal e lateral direita, com escadaria.

A fachada principal, no estilo maneirista, está virada a ocidente, não possuindo embasamento. Está dividida em três panos, sendo o da esquerda correspondente à torre sineira, do período barroco, encimada por uma cúpula, enquanto que o da direita é rasgado por uma janela. No pano central está situado o portal de entrada da igreja, com um arco de volta inteira sustentado por duas colunas sobre plintos, de forma canelada e com capitéis jónicos, que são rematadas por pináculos. Sobre o portal situa-se um janelão central, com uma janela em cada lado.

No lado meridional da igreja situa-se uma capela dos ossos e o portal lateral, sendo este último a entrada principal do edifício original, quando ainda era uma ermida. Este portal apresenta uma decoração muito mais complexa do que o seu congénere na fachada principal, estando delimitado por pilastras lavradas que suportam uma verga direita, com cabeças de anjo esculpidas. No centro está um arco de volta perfeita com figuras naturalistas em relevo, e um escudo na pedra de fecho, com uma ave. Foi identificado pelo investigador José Eduardo Horta Correia como um dos primeiros exemplares do renascimento na região. A capela dos ossos é considerado um dos elementos mais importantes na igreja devido à sua raridade no território nacional, principalmente no Algarve, onde só existem três exemplares. Possui um retábulo em estilo joanino, e uma dupla arcada, sustentada por pilastras nas paredes laterais. As paredes estão quase totalmente cobertas por ossos, dispostos de forma geométrica, com destaque para as caveiras, que foram posicionadas de frente. A cobertura é de forma curva, e também estava coberta por ossos, organizados em caixotões, com as caveiras a formarem cruzes, estando dispostos de forma contínua na fileira central. A parede do fundo possui um altar de pedra ladeado por colunas dóricas, que terminam em remates de forma enrolada e numa frontaleira, sendo o conjunto pintado com tons marmoreados. Na posição central está uma tela pintada, com o tema Jesus no Gólgota.

Segundo o historiador Manuel João Paulo Rocha, no adro da igreja existia uma campa cuja inscrição fazia referência a Pero Jacques Corrêa, que poderá ter sido um fidalgo da casa real do século XV.

Conservação e importância O conjunto da igreja foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 9842/24, de 20 de Junho.PORTUGAL. Decreto n.º 9842/24, de 20 de Junho. Ministério da Instrução Pública: Direcção Geral das Belas Artes. Publicado no Diário do Governo n.º 137, Série I, de 20 de Junho de 1924. A Zona de Especial Protecção foi definida por uma portaria de 30 de Outubro de 1969, publicada no Diário do Governo n.º 275, Série II, de 24 de Novembro de 1969.

É considerado o edifício religioso mais visualmente marcante em toda a cidade, devido à sua posição, num local elevado e dominando o casario em redor. Devido à sua localização e à sua relação com o Mercado Municipal, o edifício da igreja é um dos mais importantes no centro histórico de Lagos.

História Construção O santuário foi construído em 1325, como referido na obra Antiguidades de Lagos e das suas igrejas, citada pelo historiador Manuel João Paulo Rocha. Era originalmente uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Foi instalada durante uma fase de grande expansão urbana de Lagos, durante a Baixa Idade Média, sendo utilizada pelas pessoas que não tinham direito a residir na área que se encontrava dentro das muralhas medievais de Lagos, a chamada vila-adentro, cujos habitantes eram servidos pela Igreja de Santa Maria da Graça. Durante o período em que ainda era ermida já se faziam ali enterramentos, como testemunhado por uma lápide sepulcral encontrada em 1621.ROCHA, 1909:83

No século XV, o edifício já era sede de freguesia, tendo sido ampliado em 1463, por ordem do Bispo do Algarve, D. João de Melo, com a construção de uma capela dedicada a São Sebastião. Este espaço começou desde logo a ser utilizado como capela-mor da ermida, que no entanto manteve a sua dedicação a Nossa Senhora da Conceição. No ano seguinte D. João de Melo conseguiu que o papa Paulo II concedesse duas relíquias daquele santo, consistindo num pouco de sangue e num pequeno osso, que foram colocadas no sacrário da capela-mor, numa pirâmide dourada. Segundo João Paulo Rocha relata em 1909 que ainda hoje existe a reliquia do osso, que dão a beijar aos fieis no dia da festa do Santo.

De acordo com o historiador Gentil Marques, a Ermida de Nossa Senhora da Conceição está associada a uma lenda, segundo a qual no interior do edifício existia uma imagem de Cristo crucificado em madeira, e que tinha sido esculpida com uma expressão facial imprecisa. Segundo a tradição, esta estátua tinha poderes místicos, e os seus olhos por vezes ganhavam um brilho fulgurante, criando medo entre as pessoas que o enfrentavam, e que tinham a consciência intranquila. Desta forma, era impossível mentir em frente da imagem, motivo pelo qual era conhecida como Senhor da Verdade. Depois do edifício ter sido destruído pelo Sismo de 1755, terá sido encontrada em conjunto com os paramentos que foram utilizados numa missa campal, onde participou o rei D. Sebastião, antes de embarcar para a batalha de Alcácer Quibir. É possível que esta imagem seja a mesma que foi preservada no Museu Municipal.MARQUES, 1964:185

Elevação a igreja Em 1490, o edifício foi elevado a uma igreja, passando a ser dedicado a São Sebastião, acreditando-se que iria proteger a povoação contra as epidemias de cólera, que então grassavam na cidade. Um dos elementos sobreviventes da antiga ermida foi a sua entrada principal, que passou a ser o portal lateral da igreja. Segundo João Paulo Rocha, a ermida ficou preservada na toponímia local, sendo um dos arruamentos de acesso à igreja conhecida, nos princípios do século XX, como Rua da Ermida. No sentido de continuar a existir um santuário dedicado a Nossa Senhora da Conceição na cidade, foi erguida uma ermida com esta evocação na área da Pedra da Eira, que em 1554 tornou-se num convento feminino.ROCHA, 1909:81 As obras de conversão do santuário numa igreja levaram muitos anos, uma vez que ainda em 7 de Setembro de 1586 o bispo D. Jerónimo Barreto determinou a forma como se deveria pedir esmola para a conclusão do corpo principal, e em 1604 o bispo D. Fernando Martins de Mascarenhas pediu aos fiéis que dessem os apoios necessários para terminar aquela obra. D. Barreto instituiu várias multas contra várias práticas comuns naquela época entre os populares, como a realização de festejos nos adros e mesmo no interior das igrejas e ermidas durante as romarias, ficando por vezes a dormir dentro dos santuários. Estabeleceu igualmente multas para os casais que se reuniam antes do casamento, e fixou em vinte réis a quantia paga aos padres de Lagos pelas vésperas cantadas e missas na Igreja de São Sebastião. Também instituiu medidas contra as falsas certidões de casamento, que por vezes eram apresentados pelos estrangeiros e por mulheres, e criou multas para punir a venda de vários bens e serviços antes da missa de Domingo, além da venda de queijo e leite durante a quaresma. Outra prática comum era que as pessoas enviuvadas ficavam muito tempo sem ir aos serviços religiosos após o falecimento do cônjuge, pelo que o bispo também criou multas para aqueles que não retomassem a participação nos serviços religiosos após o cumprimento dos trinta dias de luto.ROCHA, 1909:86