Primicério (; ) foi um título do Império Romano Tardio e Império Bizantino para os chefes dos serviços administrativos, militares e civis e também de várias faculdades eclesiásticas. Etimologicamente o termo deriva de primus em cera, ou seja, o primeiro nome em uma lista de classe de oficiais, que normalmente era inscrito em uma tabuleta encerada (). O título foi concedido a oficiais da corte, em combinação combinação com outros serviços ligados ao imperador, como o tesouro privado () ou o guarda-roupa imperial (vestiário; ). Outros primicérios chefiavam alguns dos gabinetes () do palácio, principalmente os notários/tabulários ( em fontes bizantinas).
Uso civil e militar
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De sua origem no período do Dominato houve vários primicérios (; no geralmente soletrado primmikērioi). Remonta ao reinado de e durante Valentiniano I tornou-se um posto tão elevado quanto o dos vigários () das dioceses e subsequentemente foi elegível para postos senatoriais. Os excetores (), funcionários ligados a todos os gabinetes e tribunais e requeridos em todas as reuniões municipais das cúrias, e os tabeliães (), que tratavam de assuntos particulares como testamentos e contratos sem algum ofício público, eram agrupados em agremiações () chefiadas por um primicério. Em associações de artesãos e mercantes, por exemplo, o primicério as conduziu vigiando a manutenção de estatutos e representando-as em relação para com o Estado, tendo estas pagado tributo por tal privilégio. A agremiação dos notários era gerida pelo primicério dos notários () que tinha a função de manter a lista de titulares dos postos seniores da corte (Notitia Dignitatum), bem como emitir seus aditamentos de nomeação. As fontes afirmam que ele foi o chefe de todas as associações de fabricantes de seda, embora estas por vezes o confundam com o superintendente da feitoria da seda imperial.
O conde das sagradas liberalidades (), que durante Constantino, o Grande havia substituído os questores assim como outros ofícios, era o tesoureiro sênior do império e administrava o erário de Saturno (; o tesouro público). Sua administração foi dividida em dois ofícios, os gabinetes, que eram geridos por um primicério ou chefe dos gabinetes (). Outro oficial sênior, o conde da fortuna privada (), que atuava como gerenciador do fisco (; o tesouro particular do imperador), supervisionava o primicério dos ofícios () que comandava quatro outros ofícios: gabinete dos beneficiários (; geria os presentes e concessões de privilégios), gabinete dos cânones (; recebia o aluguel dos fazendeiros das terras do imperador), gabinete das seguridades (; controlava as receitas e duplicatas daqueles que pegavam dinheiro do fisco) e gabinete dos pagamentos privados (; mantinha os registros de donativos ao fisco e os salários pagos aos funcionário relacionados ao mesmo).
thumb|Itens utilizados pelo primicério dos notários, como descrito no Notitia Dignitatum.
Nas corte romana e bizantina o primicério do cubículo sagrado (; ), um subordinado do prepósito do cubículo sagrado, era o encarregado dos aposentos do imperador e chefe de todos os serventes do mesmo, sendo habitualmente um eunuco. Devido a sua importância mantinha-se na quarta posição na lista de oficiais do império, estando atrás apenas dos prefeitos pretorianos, prefeitos urbanos e do mestre dos soldados (). O conde castrense (), outro subordinado do prepósito, que atuava como mantenedor do palácio imperial, era supervisor do primicério dos armazéns (), superior de todos os empregados das cozinhas e escritórios, o primicério dos lampadários (), líder daqueles encarregados das luzes do palácio, o primicério dos pedagógicos (), chefe dos jovens pajens do palácio, e o primicério dos medidores (), que era incumbido de viajar antes do imperador para preparar seu caminho e o local onde pararia.
No exercito, o uso do termo também foi restrito as unidades associadas à corte imperial, principalmente guardas imperiais. Assim, do ao VI houve primicérios dos protetores domésticos e das escolas palatinas. Nos registros da reconquista da cidade de Bari pelos bizantinos em 25 de dezembro de 876, menciona-se o oficial Gregório que adquirira o título de primicério imperial protoespatário e bajulo (). No período Comneno, os primicérios apareceram como comandantes dos regimentos palacianos dos manglabitas, vardariotas, vestiaritas e varegues. No final do , a dignidade de grande primicério () foi criada, sendo classificada dentro do alto escalão hierárquico da corte no período Paleólogo, funcionando como chefe de cerimônias. Primicérios permaneceram sendo citados no Império Bizantino e no Despotado da Moreia até a conquista de ambos pelos otomanos no .
Uso eclesiástico
Na Igreja Romana o primicério, junto com o ofício de secundicério (), eram os mais altos ofícios do palácio papal e atuavam como juízes de todos os ofícios subordinados. Seus titulares eram então conselheiros do papa, bem como seus ministros-chefe. O primicério em particular era o chefe da chancelaria e biblioteca papal e a ele ainda havia a função de ratificar todas as cartas e documentos provenientes dos escriniários (), os secretários do pontífice. Estes tinham os privilégios de durante o canto matinal serem chamados para a oitava lição e, durante um coro, podiam sentar-se junto dos bispos. Isidoro de Sevilha trata das obrigações dos primicérios dos clérigos mais baixos em sua "Epístola para Ludefredo" (). A partir desta posição o primicério também derivou certos poderes no sentido das funções litúrgicas.
A partir do primicério, novos títulos como o primicério do colégio de cantores (), primicério dos defensores (; o chefe dos sete defensores regionais, ) e o primicério dos notários, copiado no de seu original romano, foram criados. Este último era o chefe dos sete notários regionais (), tendo equivalência com o título de arquidiácono () em certas catedrais, de reitor em certos mosteiros e colegiados e de precentor, ou seja, o mestre do coro. Durante o período de vacância o primicério dos notários, juntamente com o arquidiácono e o arquipresbítero, era incumbido de preparar a eleição do sucessor papal; durante o papado bizantino estes clérigos enviavam ao exarca de Ravena uma notificação acerca da morte do papa e esta então era encaminhada para o imperador.
Bibliografia
Categoria:Primicério