A odontologia baseada em evidências é uma abordagem de cuidados em saúde bucal que requer a integração judiciosa entre a avaliação sistemática das evidências científicas com relevância clínica, relativas à condição e à história bucal e médica dos pacientes, com a experiência clínica do dentista e com as necessidades de tratamento dos pacientes e suas preferências.ADA - Center for Evidence-Based Dentistry: Glossary of terms Odontologia baseada em evidências não se retringe apenas a fornecer suporte a processos de decisão sobre tratamentos de pacientes individuais, mas também fornece suporte ao planejamento, gerenciamento e avaliação de serviços odontológicos, assim como para tomar decisões sobre programas de promoção ou prevenção da saúde bucal tanto no nível do paciente individual como em saúde pública.Fedorowicz, Z. & Fedorowicz, H.(2005). Evidence based healthcare. What are the limitations of its application and implementation in dentistry?. Braz J Oral Sci. 4(13):757-75 Formuladores de políticas públicas assim como organizadores de diretrizes em saúde bucal deveriam se basear em informação com a melhor evidência científica para direcionar e orientar as políticas em uma região ou país.Os próprios processos de formatação, implementação e avaliação destas políticas tem sido objeto de várias revisões sistemáticas da literatura e que podem ser identificadas no Centro Cochrane do Brasil.
A odontologia baseada em evidências promove a realização de sínteses com qualidade avaliada de toda a literatura científica produzida sobre um assunto Revisões Sistemáticas da Literatura com Meta-análise, combinando os resultados de muitos estudos para obter um desfecho único sobre a efetividade de um tratamento ou prevenção.Marinho, V.C.C.; Richards, D.; Niederman, R. (2005). Variation, certainty, evidence, and change in dental education: Employing Evidence-Based Dentistry in Dental Education. Journal of Dental Education. 65 (5) 449-55
Histórico Três passos foram fundamentais para o movimento da evidência hoje adotada em todas as área das ciências da saúde. O primeiro foi representado pelo desenvolvimento do tipo de planejamento de estudo científico denominado Ensaio Controlado Randomizado – RCT – do acrônimo em inglês Randomized Controlled Trial, em 1948, pelo estatístico inglês Bradford Hill, em um estudo sobre tratamento de tuberculose com estreptomicina. Este tipo de delineamento de estudo permitiu que intervenções em saúde fossem comparadas entre dois grupos de participantes com prognóstico semelhante, com exceção da intervenção que estava sendo testada. A principal inovação de Bradford Hill foi alocar sigilosamente os participantes dos grupos de pesquisa, impedindo que pacientes com prognóstico mais ou menos favorável, fossem alocados de acordo com a conveniência dos pesquisadores.Yoshioka, A. (1998) Use of randomisation in the Medical Research Council's clinical trial of streptomycin in pulmonary tuberculosis in the 1940s. BMJ;317:1220–3 O segundo avanço ocorreu na área de psicologia, com o desenvolvimento por Glass, em 1976, da técnica estatística para sintetizar os resultados de vários estudos, denominada meta-análise. A meta-análise possibilitou que os resultados de estudos diferentes fossem ponderados por sua qualidade, e depois, combinados para fornecer um único desfecho, o que aumenta a confiança na conclusão, comparado ao resultado de um único estudo.Glass, G. V. (1976). Primary, secondary and meta-analysis of research. Educational Researcher,10, 3-8 O terceiro avanço ocorreu com o desenvolvimento, na década de 1990, da metodologia de revisão sistemática da literatura, notadamente com os avanços nas áreas de bibliometria e de metodologia científica, possibilitados pelas evidências empíricas produzias por estudos meta-epidemiológicos, que forneceram evidência consistente sobre a necessidade de controlar riscos de vieses em itens como: 1) geração da sequência de alocação e 2) sigilo da alocação;Schulz KF, Chalmers I, Hayes RJ, Altman DG. Empirical evidence of bias. Dimensions of methodological quality associated with estimates of treatment effects in controlled trials. JAMA 1995; 273: 408-412 3) cegamento;Colditz GA, Miller JN, Mosteller F. How study design affects outcomes in comparisons of therapy. Stat Med. 1989; 8(4):441-54 4) controle de dados incompletos;Tierney JF, Stewart LA. Investigating patient exclusion bias in meta-analysis. International Journal of Epidemiology 2005;34:79–87 5) relato seletivo de desfechos;12. Chan AW, Altman DG. Identifying outcome reporting bias in randomised trials on PubMed: review of publications and survey of authors. BMJ 2005; 330: 753 6) outros vieses 31. Higgins JPT, Green S (editors). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions Version 5.0.1 [updated September 2008]. The Cochrane Collaboration, 2008. Available from www.cochrane-handbook.org e viés de publicação.Dickersin K, Scherer R, Lefebvre C. Systematic Reviews: Identifying relevant studies for systematic reviews. BMJ 1994; 309:1286-1291 Os resultados destes estudos permitiram concentrar os esforços dos revisores no controle do viés de publicação e nos itens que apresentavam forte evidência empírica de viés nos estudos primários.
Importância da Colaboração Cochrane Lideradas inicialmente pela medicina, as ciências da saúde aderiram tardiamente ao movimento de síntese da evidência, que tomou impulso e se estruturou após a fundação da Cochrane Collaboration em 1993.Chalmers, I.; Hedges L.V.; Cooper, H.(2002) A brief history of research synthesis. Eval Health Prof. 25 (1), 12- 37 A Cochrane é uma organização internacional independente, sem fins lucrativos, que não aceita financiamentos conflitantes, constituída por voluntários, com 25 centros dedicados a produzir e disseminar informação acurada sobre os efeitos dos cuidados em saúde. A Cochrane Collaboration inovou em muitos aspectos, notadamente na sua estrutura. Em vez de se organizar na forma tradicional por profissões como medicina, odontologia e enfermagem, ou por especialidade, se organiza por problema, agrupados em 15 grandes áreas do conhecimento em ciências da saúde, nos quais participam 51 grupos temáticos que propõem e executam revisões sistemáticas da literatura para responder a questões clínicas, agrupadas em temas que podem reunir várias profissões e especialidades tradicionais. Uma revisão Cochrane sempre é executada por uma equipe interdisciplinar, constituída no mínimo por dois ou três especialistas no assunto revisado, além de um metodologista e um estatístico.The Cochrane Collaboration: http://www.cochrane.org/
A odontologia e o movimento da evidência A odontologia se estabeleceu logo nos primórdios do movimento da evidência, com a fundação do [The Cochrane Oral Health Group] (COHG) registrado apenas um ano depois da fundação da Cochrane Collaboration, em junho de 1994. Desde então, o COHG produziu 100 revisões sistemáticas da literatura, 74 protocolos de revisão e registrou 42 novos títulos para revisões futuras. No momento participam do COHG mais de 650 membros em 40 países, que executam diversas tarefas, incluindo o registro da "ciência perdida" que são estudos que não foram publicados em periódicos dos países desenvolvidos e, portanto, podem não se encontrar indexados nas grandes bases de dados internacionais. A importância da Odontologia para o movimento da evidencia é inegável hoje. O [MEDLINE], da National Library of Medicine dos EUA, a maior base de dados do mundo em ciências da saúde, introduziu o termo Evidence-Based Dentistry junto com a Medicina e Enfermagem, como Major Topics na sua base de dados. Uma consulta ao MEDLINE mostra que existem hoje indexados mais de 11 mil artigos científicos associados a OBE. Na WEB podem ser recuperados hoje mais de um milhão e quatrocentos mil sites dedicados a OBE. Grupos editoriais mais importantes em ciências como o Nature Publishing Group, publicam desde 1998, periódicos regulares totalmente dedicados a OBE como o periódico: [Evidence-Based Dentistry].
Intervenções terapêuticas e preventivas baseadas em evidências Revisões sistemáticas da literatura utilizam uma metodologia sistemática para produzir a melhor evidencia científica, por esta razão, podem chegar frequentemente a conclusões contrárias as obtidas por revisões da literatura científica tradicionais, capítulos de livros texto, ou a opinião de especialistas fornecidas em cursos e conferênciasAntman EM, Lau J, Kupelnick B, Mosteller F, Chalmers TC. A Comparison of Results of Meta-analysis of Randomized Control Trials and Recommendations of Clinical Experts. JAMA, 1992, 268(2)240-248 Com o aumento da produção de revisões sistemáticas da literatura se tornou evidente que algumas intervenções em saúde que são rotineiramente utilizadas, acreditando-se que elas produzirão efeitos benéficos, na verdade produzem mais efeitos indesejáveis do que desejáveis, outras, são totalmente inefetivas, e por esta razão, desperdiçam recursos públicos ou das pessoas, e pior, algumas intervenções sobre as quais existem boas evidências confiáveis de efetividade não são adotadas na prática clínica.Sutton AJ, Abrams KR, Jones DR, Sheldon DR, e Song F. Methods for Meta-Analysis in Medical Research. John Wiley & Sons Ltd, 2000, 317
Prevenção do apinhamento dos dentes por extração dos dentes do siso Os terceiros molares ou dentes do siso irrompem na boca por volta dos 17 aos 24 anos de idade, período que marca a passagem para a vida adulta.Garcia RI, Chauncey HH. The eruption of third molars in adults: a 10-year longitudinal study. Oral Surgery Oral Medicine Oral Pathology 1989;68:9-13 Frequentemente estes dentes falham, permanecendo totalmente ou parcialmente impactados, ou seja, totalmente ou parcialmente encobertos por gengiva e ossos dos maxilares.Hugoson A, Kugelberg CF. The prevalence of third molars in a Swedish population. An epidemiological study. Community Dental Health 1988;5:121-38 Um dente nestas condições pode permanecer sem incomodar (assintomático) ou produzir uma série de desconfortos (sintomático). Os potenciais problemas associados a dentes sisos impactados são: mudança de posição dos dentes inferiores anteriores (apinhamento);Importante lembrar, que não há artigos ciêntificos que comprovem esse acontecimento, dor, inchaço e ulcerações, reabsorção das raízes dos dentes vizinhos, doença na gengiva e osso circundante e desenvolvimento de tumores e cistos. Para prevenir estes potenciais problemas tem sido muito frequente a indicação da remoção profilática de todos os dentes sisos impactados, mesmo os assintomáticos e sem doença.Brokaw WC. The third molar question: when and why should we recommend removal? Virginia Dental Journal 1991;68:18-21 Entretanto as patologias relacionadas com os sisos são relativamente pouco freqüentes. Outro problema é que com o volume de cirurgias que são feitas, constatou-se que a remoção profilática cirúrgica de dentes assintomáticos pode resultar em muitas complicações pós-operatórias.Mercier P, Precious D. Risks and benefits of removal of impacted third molars. International Journal of Oral Maxillofacial Surgery 1992;21:17-27