EudaimoniaDicionário Priberam da Língua Portuguesa: eudaimonía ou eudemoniaDicionário Houaiss: 'eudemonia' (do grego antigo: εὐδαιμονία, transl. eudaimonía, derivado de εὐδαίμων, eudaímon, 'feliz', de εὖ 'bem' + δαίμων, 'daimon') é um termo grego que significa "o estado de ser habitado por um daimon do bem" e corresponderia ao conceito de felicidade ou ao estado de plenitude do ser. No entanto, essas traduções têm sido criticadas como imprecisas. Por esse motivo, o termo “eudaimonia” geralmente não é traduzido na literatura especializada sobre a Antiguidade.Daniel N. Robinson. (1999). Aristotle's Psychology. ISBN 0-9672066-0-X ISBN 978-0967206608 Muitos lexicógrafos consideram eudemonia e eudemonismo como equivalentes,Dicionário Houaiss: 'eudemonismo' enquanto outros fazem a distinção entre os dois termos, entendendo eudemonia como felicidade ou bem-estar, e eudemonismo como a doutrina moral segundo a qual a busca da felicidade é natural para o Homem, devendo portanto condicionar todas as suas ações.Vocabolario Treccani: eudemonia Découvrir le français: eudémonie, eudémonisme
As relações entre virtude de caráter (ethikē aretē) e felicidade (eudaimonia) constituem uma das principais questões da ética, entre os filósofos da Grécia Antiga, havendo muita controvérsia sobre o tema. Em consequência, há também diversas formas de eudemonismo. Dentre essas formas, duas das mais influentes são a de Aristóteles e a dos estoicos. Aristóteles considera a virtude e o seu exercício como o mais importante constituinte da eudaimonia (εὐδαιμονία), mas reconhece também a importância dos bens externos, como a saúde, a riqueza e a beleza. Já os estoicos consideram a virtude como condição necessária e suficiente para a eudaimonia, negando portanto a necessidade de bens externos.
Para os inúmeros pensadores antigos que defendiam uma ética eudemonista, era evidente que o ideal descrito por esse termo era considerado alcançável, em princípio, apesar de ser o árduo caminho para a eudaimonia. Um ideal muito difundido associado a essa meta era a autossuficiência (autarquia, do grego αὐτάρκεια, transl. autárkeia). Buscar uma boa vida não significava esperar que a felicidade viesse de fatores externos, mas encontrá-la dentro de si mesmo, comportando-se de acordo com os princípios da ética filosófica e assim atingindo um estado mental de perfeito equilíbrio. Assim, foram desenvolvidas regras para um modo de vida que permitisse a eudaimonia. Isso envolveu principalmente a internalização de virtudes básicas. Os estoicos apresentaram muitas estratégias práticas para alcançar a eudemonia. "Viver de acordo com a natureza" era uma máxima central no estoicismo. Mas a questão de saber se apenas as virtudes eram suficientes ou se bens físicos e externos também eram necessários era altamente controversa.
O conceito de eudaimonia de Aristóteles foi particularmente influente. Ele foi retomado no final da Idade Média e discutido intensamente. Nos tempos modernos, o antigo ideal tem sido fundamentalmente criticado desde o final do século XVIII. Immanuel Kant considerou-o fundamentalmente inadequado para definir o princípio mais elevado da moralidade. Kant cunhou o termo eudaimonismo para todas as doutrinas éticas nas quais a busca da felicidade — e não o dever — é considerada a razão decisiva para o comportamento moral. O julgamento de Kant teve uma influência forte e duradoura na recepção moderna de conceitos antigos. Entretanto, em discussões mais recentes sobre a filosofia da felicidade, tem havido uma reabilitação, pelo menos parcial, do pensamento antigo, com a abordagem aristotélica, em particular, encontrando ressonância.
Etimologia A palavra é composta por "eu" ("bem") e "daimon" (divindade inferior, intermediária entre o divino e o humano). Trata-se de um dos conceitos centrais na ética e na filosofia política de Aristóteles, juntamente com areté (geralmente traduzido como 'virtude' ou 'excelência') e phronesis (frequentemente traduzido como 'prudência' ou 'sabedoria prática'). Na obra de Aristóteles, a palavra 'eudaimonia' foi usada (com base na tradição grega mais antiga) como equivalente ao supremo bem humano, sendo objetivo da filosofia prática definir o que é esse bem e como pode ser alcançado.
História do conceito Entre os antigos gregos e latinos, a palavra, no uso comum, era considerado "feliz" aquele que, por sorte, possuía uma riqueza de bens materiais (em grego, ὄλβιος olbios: afortunado, próspero; em latim, felix) ou aquele que podia desfrutar de um estado de espírito que tornava sereno quem o experimentava (eudaimonia em grego; beatitudo em latim) ou, ainda, aqueles que realizavam seu Daimon, ou seja, seu destino.Treccani: beatitude
Pré-socráticos Os poetas antigos e os tragediógrafos acreditavam que era impossível para o homem alcançar a felicidade. Essa concepção persistiu nos filósofos do século V a.C., que negligenciaram o tema da felicidade, tratando-o apenas incidentalmente.
Anaxágoras, a um homem que lhe perguntou quem era feliz, respondeu, exaltando o ideal de uma vida parcimoniosa: "Nenhum daqueles que você considera felizes, mas você o encontrará entre aqueles que considera infelizes."Valerius Maximus, Factorum et dictorum Memorabilium Libri Novem, VII, 2, ext.12 . Para Heráclito, mesmo que os homens obtivessem tudo o que desejassem, não seriam felizes.John Stobeus, Florilegium, Teubner, Leipzig, 1855-1857, III, I, 176. Alberto Magno acrescentou: "Heráclito disse que, se a felicidade residisse nos prazeres do corpo, diríamos que os bois são felizes quando têm grão-de-bico para comer.”Albertus Magnus, De vegetalibus libri VII, Reimer, Berlim, 1867, VI, 401.
Sofistas e Sócrates Górgias revela o segredo de sua longa vida serena ao afirmar que "nunca fiz nada para buscar o prazer".Ateneu. I deipnosofisti: dotti a banchetto, Salerno, Roma 2001 XII, 548 c-d. Mas Isócrates ressalta que sua felicidade dependia do fato de que ele "[…] nunca se casou, não teve filhos e, portanto, estava isento dessa tarefa inútil e incessante."Isócrates, Antidoses, pp. 155-156.
Para os sofistas, portanto, a felicidade, entendida como tranquilidade material, era a consequência de uma vida confortável dedicada egoisticamente a si mesmo.Nos Memoráveis de Xenofonte, Sócrates ataca o sofista Antifonte, censurando-o por [parecer] alguém que identifica a felicidade com concupiscência (τρυφή, transl. tryphé) e riqueza (I, 6, 10).
Em Sócrates, a eudaimonia lembrava a presença do daimon do bem (εὖ δαίμων), o espírito-guia que frequentemente o ajudava em todas as suas decisões. O que o daimon era para Sócrates tem sido interpretado de várias maneiras. De acordo com Paolo De Bernardi, o daimon parecia indicar a natureza autêntica da alma humana, sua autoconsciência redescoberta.Paolo De Bernardi, Socrate, il demone e il risveglio. In Sapienza, vol. 45, ed. Domenicana Italiana, Napoli, 1992, pp. 425-43. Enquanto para Gregory Vlastos o daimōn enviava seus sinais para estimular a razão de Sócrates a fazer a escolha mais adequada. G. Vlastos. Socrate il filosofo dell'ironia complessa, Firenze, La Nuova Italia, 1998 (ed.original: Socrates: Ironist, and Moral Philosopher, 1991). Giovanni Reale, seguindo Vlastos, acredita que o daimōn em Sócrates expressava o mais alto grau de ironia socrática até mesmo na dimensão religiosa.Giovanni Reale. Socrates. Milão, Rizzoli, 2000. No entanto, os autores concordam que, na concepção socrática, prevalecia o elemento da interioridade referido à eudemonia, ou seja, a felicidade, a serenidade interior era o efeito do comportamento racional direcionado à virtude. Esse é o chamado intelectualismo ético de Sócrates, que argumentava que a única causa possível do mal era a ignorância do bom. "[Eu sei] que cometer injustiça e desobedecer àqueles que são melhores do que nós, deus ou homem, é uma coisa ruim e maligna. Portanto, diante dos males que sei que são males, jamais temerei ou fugirei daqueles que não sei que também são bons."Platão, "Apologia di Socrate", em G. Cambiano (ed.), Dialoghi filosofici di Platone, U.T.E.T., Turim, 1970, pp. 66-68. Mas uma vez que o bem era conhecido, não era possível deixar de agir moralmente ao perceber o bem, que era em si mesmo "agradável" na medida em que gerava eudemonia, a serenidade da alma.
O mal, portanto, era praticado porque, por ignorância, era trocado pelo bem, que, no entanto, não podia ser estabelecido a priori de uma vez por todas, mas tinha de ser buscado incessantemente pelo confronto com os outros por meio do diálogo.Gabriele Giannantoni, The Philosophical Quest, pp. 87-91.
Ver também Summum bonum Eudemonismo
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