thumb|Casario no centro histórico do município brasileiro de Santana de Parnaíba. As origens da cidade remontam à passagem do século XVII para o XVIII, durante o período das expansão bandeirante. A história de Santana de Parnaíba tem suas origens no povoado que cresceu ao redor da capela levantada por Manuel Fernandes Ramos, participante de uma expedição realizada em 1561 por Mem de Sá para explorar o sertão, às margens do rio Tietê. Atualmente, o município ainda preserva algumas de suas construções originais no Centro Histórico de Santana de Parnaíba, que reúne bens hoje tombados.

Contexto histórico

Bandeirantes é a denominação dada aos sertanistas do período colonial, que, a partir do início do século XVI, penetraram no interior da América do Sul em busca de riquezas minerais, sobretudo o ouro e a prata, abundantes na América espanhola, indígenas para escravização ou extermínio de quilombos. Contribuíram, em grande parte, para a expansão territorial do Brasil além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas, ocupando o Centro Oeste e o Sul do Brasil. E foram os descobridores do ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.TAUNAY, Afonso de E., and Relatos Sertanistas. "Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia." (1981).

O historiador Capistrano de Abreu comenta que «ao tempo em que os conquistadores se batiam contra os índios de Paraguaçu e Ilhéus, prosperava à volta de São Paulo um grande número de vilas: Mogi das Cruzes, Santana de Parnaíba, Taubaté, Guaratinguetá, Itu, Jundiaí, Sorocaba, todas anteriores a 1680, ao grande êxodo do último quartel do século XVII. Cada vila demandava destino diverso: as do Paraíba do Sul apontavam para as próximas Minas Gerais; Santana de Parnaíba e Itu para Goiás (Guaiaz) e Sorocaba para os campos de pinheiros em que já surgia Curitiba. Bastou o descobrimento do ouro para mobilizar toda essa força - ouro corrido, mas em abundância: a população que acudiu procedeu toda ou quase toda do planalto, especialmente do Rio Paraíba do Sul, onde a estreiteza do vale, entre a Mantiqueira e a cordilheira marítima, produzia o efeito de condensador. E, com a vitória dos emboabas, mais tarde, Sorocaba e Itu assumiram seu papel histórico, Tietê abaixo até a barra, Rio Paraná até o Rio Pardo, por este até o Rio Paraguai, São Lourenço, Cuiabá, atingindo-se descobertos em que o ouro se apanhou às arrobas. E as dificuldade da viagem, que, desde Araritaguaba ou Porto Feliz, pedia quatro a cinco meses, através de mais de cem saltos, cachoeiras, corredeiras, entaipavas. Cuiabá e Mato Grosso, para não sucumbir, terão que se desligar de São Paulo.

Capela A capela que serviu com ponto de origem à cidade foi construída em louvor a Santo Antônio, muito embora sua estrutura precária não tenha resistido às constantes enchentes e acabou sendo destruída. Posteriormente, seus herdeiros e sua mulher, Suzana Dias, resolveram erguer, em 1580, uma nova capela, desta vez em honra de Sant'Ana.

Século XIX A vila no Império e os primórdios A pequena vila de Santana de Parnaíba assistiu de longe à independência proclamada tão próxima dali, nas colinas do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. As sequelas da extinção da antiga capitania, apesar da sua reimplantação em 1765, ainda eram muito fortes. Morgado de Mateus veio para ser o primeiro governador de uma capitania pobre e despovoada. Muitos haviam deixado Parnaíba, São Paulo e as pouquíssimas vilas existentes para procurar ouro em Minas Gerais, Cuiabá e Goiás. Não havia nenhuma razão para retornar agora. Morgado fez o que era possível na época: incentivou a criação de novas povoações e o desenvolvimento das que já existiam na tentativa de estabelecer o povoamento da vasta área ainda vazia, especialmente a leste do território, que, na época, correspondia aos atuais territórios dos Estados de São Paulo e do Paraná. Começaram a surgir nessa época o que veio mais tarde a se tornar as cidades de Campinas, Araraquara, Piracicaba, Tietê e outras poucas.

Parnaíba era então sede de uma vila, que englobava os municípios de São Roque, Araçariguama, Cajamar, Pirapora do Bom Jesus, pelo menos metade de Barueri, de Franco da Rocha e de Caieiras, além do município atual de Santana de Parnaíba. A escassa população concentrava-se na sede da vila, e também em São Roque, Araçariguama e Pirapora. O resto espalhava-se por vasta área rural. Sua produção apenas sustentava o próprio município; as estradas eram precárias. Havia plantação de café em 1836, cultura que, anos depois, não existia mais.MÜLLER, Daniel Pedro, Ensaio d’um quadro estatístico da Província de São Paulo – ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837, 3ª edição facsimilada, Governo do Estado de São Paulo, 1978, p. 126. Aqui se cita a produção de café em Parnaíba, mas num número muito alto (55 mil arrobas), se comparada com os maiores produtores de então, no Vale do Paraíba – parece ser erro de impressão O último censo conhecido, do tempo de colônia, em 1776,TOLEDO, Benedito Lima, Real Corpo de Engenheiros na Capitania de São Paulo, João Fortes Engenharia, 1981, p. 78 acusava cerca de mulheres e homens na vila. Para a época, uma cidade de tamanho semelhante às outras da capitania. Na virada do Século XIX havia duas formas de se alcançar a vila a partir da capital: pelas chamadas estradas “de dentro” e “de fora”. A primeira pela Lapa, Mutinga e Fazenda Tamboré; a segunda por Pinheiros e pela Aldeia de Barueri.

Em 1809, a Aldeia de Barueri foi anexada a Parnaíba, desligando-se da Capital. Foi este o único aumento territorial que Parnaíba teve em toda a sua história. Tal fato pouco ou nada contribuiu para a vila; o acesso desta ao aldeamento era problemático, pois dependia de uma estrada com pouca conservação e de uma travessia por balsa sobre o Tietê. Juntamente com ela, veio a parte ocidental que incluía a atual área central de Carapicuíba. A divisa entre Parnaíba e a capital passou a ser o rio Carapicuíba. Vale ressaltar também que a Aldeia de Carapicuíba, atualmente no extremo sul do município de Carapicuíba e muito próximo da divisa com Cotia, jamais foi parte do município de Parnaíba, pois somente foi desmembrada de Cotia na época da formação do município de Carapicuíba, em 1964.

Esta era mais ou menos a situação da cidade em 1822. Município pobre, com pouca receita, sem uma agricultura forte, produzindo apenas para sua própria sobrevivência, a cidade exportava eventualmente apenas uma pequena produção de aguardente: a cana de açúcar era a lavoura mais comum por ali. Alguns de seus atuais bairros eram embrionários, como o Suru, o Coruruquara, o Jaguari, Pirapora — hoje o município de Pirapora do Bom Jesus — e o Taboão — o atual bairro de Jordanésia, pertencente a Cajamar —, além de São Roque e Araçariguama, também hoje ambos municípios. Eram, provavelmente, sítios ou fazendas, cujos núcleos e colônias eram chamados de bairros. Os outros bairros nem existiam. E havia ainda o Voturuna, terra de antiga extração de ouro e ferro, que havia pertencido ao Padre Guilherme Pompeu de Almeida e que, com sua morte mais de cem anos antes, passou a ser terra dos jesuítas. Com sua expulsão em 1760, as terras passaram para outras mãos. Os viajantes que reportaram suas viagens pela Província no século XIX não citam a vila. Possivelmente não passaram por ela, seguindo diretamente pelo Caminho Real de Ytu, que passava dentro dos limites do município em sua região sudoeste, na atual Araçariguama e nos limites do Cururuquara.

Não são encontrados, infelizmente, desenhos ou gravuras dessa época hoje longínqua referentes a Parnaíba. Carlos Frederico Rath, por exemplo, que fez também diversas viagens pela Província, tendo retratado cidades como Apiaí, não se preocupou com a cidade. Sabe-se que a vila já contava com o traçado urbano do seu atual Centro Histórico, tombado desde 1982 pelo CONDEPHAAT. Sem os nomes atuais, este perímetro urbano corria, a partir dos fundos da Igreja Matriz, então uma construção diferente da atual, pela Praça 14 de Novembro, pela rua Bartolomeu Bueno, dobrando à direita pela ladeira da rua Santa Cruz, à direita pela rua Suzana Dias, seguindo até a parte baixa do Largo da Matriz, subindo por ele até passar pelo lado da Matriz e encontrar novamente a sua parte traseira. Além deste contorno, apenas zona rural, mesmo. Uma cidade minúscula para os padrões de hoje. Para os padrões da época, nem tanto, mas diversas cidades que se formavam no interior já cresciam mais rapidamente então.

Existiam diversas estradas, verdadeiras “picadas”, que levavam aos sítios próximos ou às cidades, estas nem tanto. Da vila, elas partiam para a capital, passando pela Aldeia de Barueri; para Araçariguama; o Caminho Real de Ytu passava longe, ao sul, sem atingir diretamente a vila; para Pirapora; para a ponte sobre o Tietê e dali para a “outra banda” do rio; para Jundiaí e para chegar à Estrada dos Goiazes, no extremo nordeste do município. Todas estas estradas, de alto custo de manutenção principalmente para os parcos recursos daquela época, não somente para Parnaíba como para qualquer outra cidade, levavam a que núcleos que cresciam mais rapidamente a pedirem sua independência como município, dada a dificuldade de ajuda quando dependiam da vila central. Não é por coincidência que a antiga Carambeí, agora São Roque, tenha conseguido sua emancipação em 1832. O território parnaibano perdia agora sua primeira parte significativa desde a desanexação bem mais antiga de Itu, Jundiaí e Sorocaba, nos anos 1650. Esta emancipação de São Roque fazia com que toda a região além do que hoje é o quilômetro 54 da rodovia Castelo Branco, até o seu quilômetro 72, aproximadamente, fosse “perdida” para o município.

Em 1836MÜLLER, Daniel Pedro, idem, ibidem, p.120 Parnaíba fazia parte da Segunda Comarca da Província de São Paulo. Estava no Oitavo Termo, cuja cabeça era a capital, juntamente com esta e com a vila de Santo Amaro. Possuía a vila uma freguesia anexa a ela: Araçariguama. O censo realizado provincial indicava habitantes para o município, sendo homens e mulheres, entre brancos, índios, pardos livres e cativos. Era um crescimento de cerca de habitantes em relação ao censo de 1776, cinquenta anos antes. Nessas duas épocas a maior parte da população das cidades vivia espalhada pela área rural. No caso de Parnaíba, as maiores aglomerações estavam no centro, em Capela de Pirapora e na Freguesia de Araçariguama. Como a vila não se originara das fazendas em volta, como as cidades mais novas, a população maior era urbana, mesmo. Bairros rurais, como o Cururuquara, que possuía então 122 almas, davam uma ideia do que seriam esses bairros naquele tempo. Aliás, este não devia ser uma fazenda, pois o levantamento dos anos 1850 mostra que existiam ali inúmeros proprietários em diversos “campos de lavoura e de criar”. Sinal de que a floresta original se havia ido há muito tempo naquela região. A quantidade de escravos não poderia ser muito grande: a maior atividade da cidade era a cana de açúcar, com poucos engenhos apenas para a fabricação de algum açúcar, de cachaça e de rapadura, o que não poderia demandar um grande número de escravos. A sede, com número limitado de ruas curtas, não poderia conter nem mil habitantes. Havia 149 pessoas alfabetizadas e uma só escola de “primeiras letras”, com 31 alunos. Plantava-se em 1836 milho, café, feijão, arroz e algodão, além das criações de gado. Quase tudo para consumo doméstico, exceto pequenas exportações de açúcar bruto, aguardente de cana e toucinho, levados geralmente para Santos; essas viagens pareciam ter o objetivo de, na verdade, trazer sal, vinhos, fardos de tecidos, ferragens, louças e vidros, sendo o que era levado meras “encomendas de ocasião”.