As relações entre Brasil e Estados Unidos englobam o conjunto de relações diplomáticas, econômicas, históricas e culturais estabelecidas entre o Brasil e os Estados Unidos. Estão entre as mais antigas do continente americano. Atualmente, os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China.

Além disso, os dois países compartilham a adesão de várias organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio, a Organização dos Estados Americanos, o G8+5 e o G20. O Brasil é um dos países mais pró-Estados Unidos do mundo. De acordo com uma pesquisa de opinião global, 62% dos brasileiros viam os Estados Unidos de maneira favorável em 2010, índice que aumentou para 73% em 2013. No entanto, essas pesquisas foram realizadas antes de revelações de espionagem da Agência de Segurança Nacional para o público brasileiro. Em outra pesquisa realizada no final de 2013, 61% dos estadunidenses viam favoravelmente o Brasil. miniaturadaimagem|Washington, D.C., 7 de maio de 2026, Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, chega para encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca.

miniaturadaimagem|Washington, D.C., 7 de maio de 2026, encontro no Salão Oval da Casa Branca. Da esquerda para a direita: um assessor não identificado, o Ministro Mauro Vieira (Brasil), o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), o Presidente eleito Donald Trump (EUA) e o Vice-Presidente eleito J. D. Vance (EUA).|centro|400x400px

História

Século XIX

thumb|O imperador Dom Pedro II e o presidente estadunidense Ulysses S. Grant durante a abertura da Exposição Universal de 1876 na Filadélfia, Estados Unidos. Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil e posterior abertura dos portos a navios estrangeiros, os Estados Unidos foram, em 1815, o primeiro país a estabelecer um consulado no Brasil, mais precisamente no Recife em Pernambuco, primeira cidade do Hemisfério Sul a abrigar uma representação diplomática norte-americana.

Os Estados Unidos reconheceram a independência do Brasil de Portugal, em 26 de maio de 1824, menos de dois anos após sua proclamação. Reconhecer a independência dos países da América de suas metrópoles europeias era uma das bases da política externa dos Estados Unidos, que esperavam minar a influência da Europa na região.

Já no fim do século, na primeira Conferência Pan-Americana, em 1890, muitos países do Continente Americano, incluindo os EUA e o Brasil, discutiram uma série de projetos de integração regional. Essas variavam de militar para integração econômica. Os Estados Unidos planejavam criar um bloco econômico pan-americano e anti-europeu, uma união aduaneira, isto é, suspender as tarifas externas aplicadas ao comércio entre países do continente, mas não ao comércio europeu-americano.

Século XX

thumb|Presidentes Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt em 1936.

No início do século XX, a relação cordial estabelecida é referida como a Aliança não escrita ou a Entente Cordiale, um cognome consagrado. Ela fora descrita também como um acordo tácito entre as duas nações.

A Revolução Brasileira de 1930 derrubou os proprietários oligárquicos de plantação de café e trouxe ao poder a classe média urbana e os interesses empresariais que promoveram a industrialização e a modernização. A promoção agressiva da nova indústria se tornou o foco da economia em 1933, e incentivou investidores americanos. Os líderes do Brasil nas décadas de 1920 e 1930 decidiram que o objetivo da política externa implícita da Argentina era isolar o Brasil de língua portuguesa dos vizinhos de língua espanhola, facilitando assim a expansão da influência econômica e política argentina na América do Sul. Pior ainda, o medo de que um exército argentino mais poderoso lançasse um ataque surpresa contra o mais fraco exército brasileiro. Para combater esta ameaça, o Brasil criou laços mais estreitos com os Estados Unidos. Enquanto isso, a Argentina avançava na direção oposta.Stanley E. Hilton, "The Argentine Factor in Twentieth-Century Brazilian Foreign Policy Strategy." Political Science Quarterly 100.1 (1985): 27-51.

Segunda Guerra Mundial Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi considerado um fiel aliado dos Estados Unidos e enviou seus militares para lutar contra a Alemanha Nazista, mesmo quando os u-boats alemães afundaram barcos brasileiros. Os EUA forneceram 100 milhões de dólares em dinheiro do programa "Lend-Lease" em troca do uso de campos de pouso para transportar tropas e suprimentos através do Atlântico, e bases navais para lutar contra barcos submarinos das Potências do Eixo (u-boats). Em contraste, a Argentina (na época, uma rival do Brasil) era oficialmente neutra e às vezes favorecia a Alemanha.

As interações entre os dois países aumentaram durante a Segunda Guerra Mundial. Os EUA tinham um plano para invadir o nordeste em 1942, caso o Brasil insistisse em sua neutralidade. Este plano de invasão, depois cancelado, ficou conhecido como Plan Rubber. ISBN 9781250091246 Neste mesmo ano, durante o primeiro mandato presidencial de Getúlio Vargas (1930-1945), o Brasil fez contribuições para os Aliados contra as Potências do Eixo. Isso levou à criação do Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos, que trabalhou para fortalecer os laços militares entre os dois países, reduzindo a probabilidade de ataques do Eixo sobre o transporte (principalmente marítimo) dos Estados Unidos, como soldados viajaram através do Atlântico para a África e a Europa, e minimizando a influência da Eixo na América do Sul.

Apoio estadunidense ao Golpe de 1964

thumb|John F. Kennedy durante a visita do então presidente João Goulart aos Estados Unidos em 1962. Posteriormente descobriu-se que o presidente estadunidense planejava invadir militarmente o Brasil para depor o governo de Goulart.

Apesar de nunca ter sido admitido oficialmente pelo governo dos Estados Unidos, os estadunidenses forneceram secretamente armas e outros tipos de apoios para os militares golpistas em 1964.Jan Knippers Black,United States Penetration of Brazil (Univ. of Pennsylvania Press, 1977), chapter 6 Documentos do governo norte-americano divulgados no dia 31 de março de 2004, o 40º aniversário do golpe de Estado brasileiro, expuseram o papel dos Estados Unidos no regime militar no Brasil. Uma fita de áudio lançada naquele dia, por exemplo, mostrou o presidente Lyndon Johnson (presidiu entre 1963-1969) instruindo seus assessores no Brasil com estas palavras: "Eu acho que devemos tomar todas as medidas que podemos, estarmos preparados para fazermos tudo o que precisamos fazer." O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, foi talvez a autoridade dos Estados Unidos mais entusiasmadamente pró-golpe. Quatro dias antes do golpe, Gordon escreveu para agentes da CIA detalharem como os Estados Unidos deveriam ajudar os conspiradores: "Se a nossa influência deve ser exercida para ajudar a evitar um grande desastre aqui — o que poderia tornar o Brasil a China dos anos 1960 — tanto eu como todos os meus assessores seniores acreditamos que o apoio deve ser dado". Para garantir o sucesso do golpe, Gordon recomenda "que sejam tomadas medidas mais rápidas para se preparar para uma entrega clandestina de armas de origem não-estadunidense, a serem disponibilizadas aos adeptos de Castelo Branco, em São Paulo." Em um telegrama subsequente, liberado em fevereiro de 2004, Gordon sugeriu que estas armas fossem "pré-posicionadas antes de qualquer surto de violência", a ser utilizado pelas unidades paramilitares e "militar amistosas contra militares hostis, se necessário." Para esconder o papel dos Estados Unidos, Gordon recomendou que as armas fossem entregues via "submarino não marcado para ser carregado na noite em pontos isolados da costa no estado de São Paulo, ao sul de Santos."Brazil marks 40th anniversary of military coup - Declassified documents shed light on U.S. role National Security Archive. Acessado em 4 de fevereiro de 2015. thumb|upright|esquerda|Emílio Médici e Richard Nixon na Casa Branca em 1971.

Em 2001, Gordon publicou o livro Brazil's second chance: en route toward the first world sobre a história brasileira desde o golpe militar. Nela, ele negou o seu papel no caso. Na importância de Gordon para o movimento golpe, no entanto, James N. Green, um brasilianista estadunidense, disse em uma entrevista com um site brasileiro: "[Gordon] mudou a história do Brasil, pois ele deu luz verde para que os militares avançarem o golpe em 1964. Ele deixou claro que, se o golpe fosse efetuado, os Estados Unidos iriam reconhecê-lo imediatamente, o que foi fundamental [para os conspiradores]." Os meios de comunicação, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, saudaram o golpe militar.Mark Cook, Rerun in Honduras: Coup pretext recycled from Brazil ’64. Extra! magazine, September 2009

Para apoiar os militares rebelados, o governo dos EUA preparou a operação Brother Sam, que forneceria navios-tanque com gasolina, uma ponte aérea com munição e uma força-tarefa naval no litoral brasileiro. Ela foi acionada em 31 de março, com previsão de chegada dos navios a partir de 11 de abril. Com a deposição rápida de Goulart, esse apoio foi cancelado antes de chegar ao país., pp. 103-116. Os Estados Unidos imediatamente reconheceram o novo governo interino do Brasil. A administração Johnson (e o Fundo Monetário Internacional) fizeram grandes empréstimos ao novo governo Castelo Branco (1964-1967).

Em uma palestra sobre a política externa estadunidense na Universidade de Harvard em 19 de março de 1985, Noam Chomsky disse o seguinte sobre o papel de Gordon no golpe de 1964:Chomsky, Noam (19 de março de 1985). "American Foreign Policy". Chomsky.com.

Século XXI thumb|Fernando Henrique Cardoso e o presidente norte-americano George W. Bush durante encontro na Casa Branca em novembro de 2001. thumb|Presidentes Lula e Bush na Petrobras durante a visita do presidente estadunidense ao Brasil em março de 2007.

Logo após os ataques de 11 de setembro de 2001, o Brasil foi o primeiro a propor a invocação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, também conhecido como o Tratado do Rio, que estipula que "um ataque armado contra um membro deve ser considerado um ataque contra todos." O tratado foi ativado 19 de setembro em uma reunião de ministros das Relações Exteriores do Hemisfério Ocidental na Organização dos Estados Americanos. Em 1.º de outubro, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que os Estados Unidos não tinham pedido o apoio militar brasileiro e que o Brasil não tinha a intenção de oferecer tal tipo de ajuda. Apesar do apoio inicial, o Brasil optou por não aderir ativamente a chamada "Guerra ao Terror". Além disso, durante a sua administração o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se opôs fortemente a Guerra do Iraque, promovida pelo governo Bush.Brazil: Iraq and U.S. guilty of disrespect United Press International

As relações bilaterais eram consideradas bastante próximas, apesar das abordagens políticas diferentes de Lula e Bush sobre várias questões. Em 20 de junho de 2003, o ex-presidente Lula fez uma visita oficial aos Estados Unidos e o presidente Bush decidiu "criar uma relação [bilateral] qualitativamente mais forte e próxima."A relação Brasil-EUA: o mito da política externa independente Plínio de Arruda Sampaio Jr. Em 6 de novembro de 2005, o ex-presidente Bush visitou Brasília e os dois líderes reafirmaram as boas relações entre os países e se comprometeram a trabalhar juntos para promover a paz, a democracia e uma conclusão bem-sucedida da Rodada de Doha de negociações comerciais globais. O presidente Bush agradeceu ao Brasil por seu exercício de liderança no mundo e no hemisfério, incluindo o papel do Brasil na força de paz no Haiti (MINUSTAH) e os esforços de todo o mundo para controlar o HIV/AIDS.