thumb|Mulher escrevendo (Johannes Vermeer)

A historiografia espanhola é talvez o mais completo exemplo de um esforço secular para manter a continuidade da memória escrita do passado, que tão bons serviços prestou desde as crónicas medievais que justificavam a Reconquista, para reforçar o poder dos reis nos vários reinos cristãos.

Historiografia espanhola medieval e moderna Alandalus

Na primeira metade do da Era cristã, redigiu a primeira história geral da Península Ibérica, "Akhbār mulūk Alandalus" continuada por outros Alrazi: o seu filho Ahmad (conhecido o "Mouro Rasis") e o deste (). Esta história foi divulgada nos reinos cristãos com o nome de "Crónica do Mouro Rasis", que foi utilizada por Jiménez de Rada.

Aríb de Córdoba, secretário de Aláqueme II, escreveu uma Crónica de seu governo, e no mesmo reinado Muhammad al-Khushanī (morto em 361/971) o "Kitāb al-qudā bi-Qurtuba" história dos cádis (juízes) de Córdova.

À época de Almançor escreveu-se uma história controladíssima, como é a de Ibn Asim, significativamente intitulada de "al-Ma'atir al-camiriyya" ("Gestas amiríes"), obra apenas conhecida por referências.

Entre os historiadores do , na idade de ouro que coincidiu com a desagregação do califado e o surgimento dos reinos taifa, os cordoveses Abzeme ("Fisal" ou "História crítica das religiões, sectas e escolas") e ibne Haiane ("Muqtabis el Matín").

De família do Alandalus emigrada, o tunisino ibne Caldune (fim do , início do XV), tem sido muito valorizado como um dos predecessores da filosofia da história e por suas abordagens inovadoras nas áreas da economia e da sociologia no seu "Al-Muqaddimah" ("História").

Já fora do período da presença muçulmana no Alandalus completa a historiografia islâmica clássica Almacari, com o seu "Nafh al-Tib" (séculos XVI-XVII), que reúne muitas das fontes anteriores. As fontes muçulmanas, em geral, são menos conhecidas, e incluem aquelas posteriores à Reconquista, como a pouco conhecida "História" de ibne Idari ().Um Website de referência para a historiografia hispano-árabe encontra-se disponível em: . E outra, que inclui toda a sua literatura, em: .

As crónicas thumb|"Estoria de España", de Afonso X,

Para o Principado das Astúrias, o Reino de Leão e o Reino de Castela encadeiam-se sucessivamente em um conjunto abrangente, que realmente começa com duas crónicas redigidas em território andalusino: a "Crónica bizantina-árabe" (741) e a "Crónica Moçárabe"(754), que precedem uma crónica actualmente perdida do reinado de Afonso II e estabelecem a sua continuidade com as de Afonso III ao final do ("Crónica Albeldense", "Crónica Rotense", "Crónica Profética" e "Crónica Sebastianense"), a de Sampiro (do reinado de Bermudo II de Leão, por volta do ano 1000), as do ("Crónica Silense" ou do monge anónimo de Santo Domingo de Silos, por volta de 1110, a de Pelayo, Bispo de Oviedo, a "Crónica do Imperador Afonso VII" e a do monge anónimo de Nájera, estas três do final do século), as do reinado de Fernando III de Leão e Castela ("Chronicon mundi" de Lucas, bispo de Tui, "Crónica Latina dos reis de Castela" de Juan, bispo de Osma e "De rebus Hispaniae" de Rodrigo Jiménez de Rada, arcebispo de Toledo), as de Afonso X de Leão e Castela ("História de Espanha", editado pelo filólogo Ramón Menéndez Pidal com o título de "Primeira Crónica General", e a "Grande e General Estoria"); chegando ao , em que se destacam as "Crónicas" de Pedro López de Ayala ("Crónica do rei D. Pedro", a de Henrique II, a de João I e a inacabada de Henrique III), mais sóbrias e próximas aos factos que as suas contemporâneas europeias, embora o seu objectivo principal seja o da auto-justificação de seu autor, Chanceler de Castela, que compôs ainda o "Rimado de Palacio", onde descreve os seus contemporâneos.

No , a recompilação de crónicas multiplicou-se: a "Suma de crónicas de España", de Pablo Garcia de Santa Maria (até 1412); "Crónica de Juan II" (sobre eventos de 1406 a 1434) por Álvar Garcia de Santa Maria (c. 1370 - 1460), irmão de Pablo (e retomada com o nome de "Crónica del Halconero" por Pedro Carrillo de Huete, sendo refundida por Lope de Barrientos); Alfonso Martínez de Toledo (arcipreste de Talavera) escreveu em 1443 uma "Atalaia das Crónicas"; a "Crónica" de Álvaro de Luna (1453), é atribuída a Gonzalo Chacon; Diego de Valera escreveu a "Crónica abreviada de Espanha" ou "Crónica Valeriana" (1482), que terminou no reinado de , o "Memorial de diversas hazañas", o de Henrique IV (1486 - 1487) e a "Crónica de los Reyes Católicos" (até 1488).Um Website de referência para a história da literatura, neste caso, a prosa baixo-medieval encontra-se em: .

Nos outros reinos cristãos peninsulares, a literatura cronística é algo mais tardia, mas produz a primeira história geral da Espanha em uma língua romântica: o "Liber regum", redigido entre 1194 e 1211 em Aragonês, que conta a história dos distintos reinos cristãos desde as origens míticas da história peninsular.UBIETO ARTETA, Antonio (1982): Historia de Aragón. Literatura medieval I. Zaragoza, Anubar, pág. 36. O Condado de Aragão produziu em 851 a "Passio beatissimarum birginum Nunilonis atque Alodie". E do posterior Reino de Aragão dispomos dos "Anales de San Juan de la Peña", do , que foram copiados na "crónica homónima". Do mesmo século data uma "Breve história ribagorzana de los reyes de Aragón".PÉREZ LASHERAS, Antonio (2003): «La historiografía aragonesa y el Derecho foral», em La literatura del reino de Aragón hasta el siglo XVI. Zaragoza, Ibercaja-Institución «Fernando el Católico» (Biblioteca Aragonesa de Cultura, 15), ISBN 84-8324-149-8 , pp. 100 - 104.

Para a Coroa de Aragão, após as "Gestas veterum Comitatum Barcinonensium e Regum Aragonensium" (iniciada no e continuada até ao ), destaca-se o "Llibre dels feyts" ou "Crónica de Jaime I o Conquistador"; a "Crónica de San Juan de la Peña" ou de "Pedro, o Ceremonioso"; a Crônica de Muntaner, que abrange o período de 1207 a 1328, incluindo a famosa expedição dos Almogávares, da qual participou, e a de Bernat Desclot "Llibre del rei En Pere d'Aragó e dels seus antecessors passats" (segunda metade do ).

Completam o quadro peninsular a "Crónica de los Reyes de Navarra" (1454), do Príncipe de Viana (composta para justificar a sua aspiração ao trono), e os "Annales Portugaleses Veteres" (987-1079).

Século XVI thumb|Bartolomé Leonardo de Argensola

Após a unificação dos Reis Católicos, já na Idade Moderna, continua com a mesma função, explicitamente, a monumental "História da Espanha", do Padre Mariana ("De Rebus Hispaniae libri XX", 1592, aumentada para trinta livros em sua própria tradução para o castelhano em 1601). Este religioso tornou-se célebre por sua defesa do tiranicídio em "De Rege et regendi ratione" escrito para a educação de Filipe III de Espanha.

Outros cronistas do foram Florián de Ocampo e Ambrosio de Morales (continuando a "Crónica General" em cinco livros, iniciada por aquele); Jerónimo Zurita ("Anales de la Corona de Aragón") e Esteban de Garibay ("Compendio Historial de las Chronicas y Universal Historia de todos los reynos de España").

Século XVII A historiografia barroca inclui manipulações históricas fantasiosas, como os "plomos del Sacromonte" ou os falsos cronicões "Ramón de la Higuera". Fray Prudencio de Sandoval continua a crónica de Ocampo e Morales e redige uma "Historia de la vida y hechos del Emperador Carlos V"; Pedro de Salazar y Mendoza, uma "Origen de las dignidades seglares de Castilla y León" e Bartolomé Leonardo de Argensola, os "Anales de Aragón".

Em fins do , a reflexão sobre a própria historiografia surge na Espanha como uma necessidade decorrente do acúmulo de tão vasto corpo cronístico, sendo a sua primeira tentativa a "Noticia y juicio de los más principales historiadores de España, de Gaspar Ibáñez de Segovia, marquês de Mondéjar (publicado após a sua morte em 1708).

Outros géneros historiográficos Outros géneros historiográficos também foram cultivados desde a Idade Média, como o tratamento de uma figura isolada (o ciclo de El Cid) e, já no , as memórias (Leonor Lopez de Cordoba, circa 1400), a biografia ("El Victorial" de Gutierre Díez de Games, "Generaciones y Semblanzas" de Fernán Pérez de Guzmán) e a relação de um evento pontual como o "Libro del paso honroso de Suero de Quiñones", de Rodríguez de Lena. Os livros de viagens como o de Pedro Tafur o de Ruy González de Clavijo (que foi embaixador diante de Tamerlão), também proporcionam valiosas informações.

Os cronistas das Índias thumb|O trabalho inca em ilustração da Nueva Corónica y Buen Gobierno de Felipe Guaman Poma de Ayala (1616)

As primeiras obras de História da América, desde as "Relações" do próprio Cristóvão Colombo, do seu filho Fernando e muitos outros exploradores e conquistadores como Hernán Cortés ou Bernal Diaz del Castillo ("Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España"), têm um nítido caráter de auto-justificação. A tendência contrária, de Bartolomé de las Casas ("Brevísima relación de la destrucción de las Indias") foi tão importante que deu origem à controvérsia dos "justos títulos", à qual deu réplica Juan Ginés de Sepúlveda; e mesmo à chamada "Lenda negra", divulgada por toda a Europa como propaganda antiespanhola. A visão dos povos indígenas, que viram os seus documentos e cultura material serem pilhados e destruídos, foi possível em alguns casos excepcionais, como a do Inca Felipe Guaman Poma de Ayala.

Oficialmente, o cargo de Cronista das Índias iniciou-se com a documentação recolhida por Pedro Mártir de Anglería passou, em 1526, a Fray Antonio de Guevara, cronista de Castela; e com Juan Gómez de Velasco que fez o mesmo com os papéis do Cosmógrafo-mor Alonso de Santa Cruz, que acumulou o cargo de cronista. Antônio de Herrera foi nomeado Cronista-mor das Índias em 1596, e publicou entre 1601 e 1615 a "Historia general de los hechos de los castellanos en las islas y Tierra Firme del mar Océano", conhecida como "Décadas". Antonio de León Pinelo (criado em Lima, e que havia recompilado as "Leis da Índias"), Antonio de Sólis e Pedro Fernández del Pulgar exerceram o cargo durante o . No a instituição consolidou-se com a criação de duas outras, muito importantes para a manutenção da memória e da historiografia espanhola: a Real Academia de la Historia e o Archivo General de Indias. Ainda houve tempo para destacar-se a figura de Juan Bautista Muñoz ("Historia del Nuevo Mundo", que não chegou a completar).

O Iluminismo thumb|esquerda|O padre Flórez, iniciador de La España Sagrada

No , ocorreu uma mudança fundamental: as abordagens intelectuais do Iluminismo por um lado, e a descoberta de um "outro" em culturas fora da Europa (o exotismo, o mito do "bom selvagem") por outro, suscitam um novo espírito crítico (embora, na realidade, fossem circunstâncias semelhantes às que se podiam observar em Heródoto). São postos em questão os prejuízos culturais e o universalismo clássico.

A descoberta de Pompeia renovou o interesse pela Antiguidade clássica (neoclassicismo) e fornece os materiais que inauguram uma ciência emergente da arqueologia. As nações européias distantes do Mediterrâneo buscam as suas origens históricas nos mitos e lendas que, por vezes, foram inventadas (como em "Ossian" de James Macpherson, que simulou ter encontrado o Homero Celta).

Também se interessam pelos costumes nacionais os franceses François Fénelon, Voltaire ("História do império russo sob Pedro, o Grande" e "O século de Luís XIV", 1751) e Montesquieu, que teorizou sobre ele em "O Espírito das Leis". Na Inglaterra, Edward Gibbon escreveu a sua monumental obra "História do declínio e queda do Império Romano" (1776-1788), onde fez da precisão um aspecto essencial do trabalho do historiador.

Os limites da historiografia no são a submissão à moral e a inclusão de juízos de valores, de modo que o seu objectivo continua limitado.