A Invasão da Baía dos Porcos (conhecida em Cuba como La Batalla de Girón) foi uma tentativa frustrada de invadir a costa sudoeste de Cuba empreendida em abril de 1961 por um grupo paramilitar de exilados cubanos anticastristas (a chamada Brigada de Asalto 2506). O grupo fora treinado e dirigido pela CIA, com apoio das Forças Armadas dos Estados Unidos. O objetivo da operação era derrubar o governo socialista de Fidel Castro.

O plano foi lançado em abril de 1961, menos de três meses depois de John F. Kennedy ter assumido a Presidência dos Estados Unidos. A arriscada ação terminou em fracasso. As forças armadas cubanas, treinadas e equipadas pelas nações do Bloco do Leste, derrotaram os combatentes do exílio em três dias e a maior parte dos agressores se rendeu.

O ataque à Baía dos Porcos fazia parte da chamada "Operação Mangusto",Da Redação, com El País e Agência France Press. Baía dos Porcos: Papéis secretos mudam perspectiva histórica. Brasília: Correio Braziliense, 25 de março de 2001 que tinha como objetivo derrubar o recém-formado governo comunista e assassinar o líder da Revolução Cubana, Fidel Castro. Depois de três dias de combates, os invasores foram vencidos e Fidel declarou "vitória sobre o imperialismo americano".

Fidel Castro já esperava um ataque direto à ilha, tendo sido alertado previamente por Che Guevara, que presenciara um ataque semelhante durante o golpe ocorrido na Guatemala. Com a invasão iminente, Fidel anunciou em discurso no dia 16 de abril de 1961, pela primeira vez, o caráter socialista da revolução e, no dia seguinte, teve início o ataque à ilha, na Praia de Girón, localizada na Baía dos Porcos.

Através da CIA, o governo estadunidense treinou 1 297 exilados cubanos, a maioria deles baseados em Miami, para destituir o governo de Fidel Castro. Como o planejado apoio da Força Aérea Americana fora vetado pelo presidente Kennedy, temendo envolver o governo dos Estados Unidos de forma institucional e aberta, a operação foi lançada com pouco apoio logístico dos Estados Unidos e fracassou. Castro, temendo uma nova invasão americana, decidiu apoiar a ideia da União Soviética de instalar mísseis nucleares no seu país, o que precipitou em uma nova crise na região, desta vez com proporções bem maiores.

Contexto Cuba foi por séculos parte do Império Espanhol. Ao fim do século XIX, nacionalistas e revolucionários cubanos se rebelaram contra a metrópole espanhola, resultando em três guerras: a guerra dos dez anos (1868–1878), a Guerra Chiquita (1879–1880) e a guerra de independência cubana (1895–1898). Interessados em expandir sua influência em Cuba, que era considerada a região mais valorizada do império colonial espanhol, o governo dos Estados Unidos declarou guerra contra a Espanha em 1898. Os americanos invadiram a ilha e expulsaram o exército espanhol. Em 20 de maio de 1902, um novo governo independente foi fundado, a República Cubana, com os americanos transferindo o poder para as mãos do presidente Tomás Estrada Palma, um cubano com cidadania americana.Gott 2004. p. 113. Logo em seguida, empresários e latifundiários americanos começaram a chegar em Cuba e, por volta de 1905, cerca de 60% das propriedades rurais estavam em mãos de cidadãos dos Estados Unidos.Gott 2004. p. 115. Entre 1906 e 1909, cinco mil fuzileiros navais americanos estavam estacionados na ilha, e intervieram diretamente em assuntos internos do país em 1912, 1917 e em 1921, na maioria das vezes com apoio do governo local.Gott 2004. pp. 115–116.

Fidel Castro e a Revolução Cubana

Em março de 1952, Fulgencio Batista, general e político cubano, assumiu o controle da ilha e se proclamou presidente. Batista cancelou as eleições presidenciais, descrevendo seu novo sistema de governo como "democracia disciplinada"; apesar de ter recebido certo apoio por parte da população do país, muitos cubanos viram o novo regime como uma ditadura.Bourne 1986. pp. 64–65.Quirk 1993. pp. 37–39.Coltman 2003. pp. 57–62.Gott 2004. p. 146. Muitos grupos de oposição ao regime de Batista pegaram em armas contra o novo governo, dando início a chamada Revolução Cubana. Um destes grupos era o "Movimento 26 de Julho" (MR-26-7), fundado pelo advogado Fidel Castro. Consistido em membros civis e militares, eles rapidamente começaram a treinar seus militantes para iniciar uma guerrilha contra as forças de Batista.Bourne 1986. pp. 68–69.Quirk 1993. pp. 50–52.Coltman 2003. p. 65.

Entre 1956 e 1959, Fidel Castro liderou seus guerrilheiros contra o regime de Batista a partir das montanhas de Sierra Maestra. A repressão do governo e a má condição econômica da ilha tornou Fulgencio muito impopular e por volta de 1959, as forças de Batista já estavam em retirada. Em 1 de janeiro do mesmo ano, ele renunciou e fugiu para o exílio, levando consigo uma fortuna de 300 milhões de dólares.Bourne 1986. pp. 158–159.Quirk 1993. pp. 203, 207–208.Coltman 2003. p. 137. O comando do país acabou caindo nos colos de Manuel Urrutia Lleó, que fora escolhido por Castro, enquanto os membros do MR-26-7 assumiram todo o novo gabinete de governo.Bourne 1986. pp. 153, 161.Quirk 1993. p. 216.Coltman 2003. pp. 126, 141–142. Em 16 de fevereiro de 1959, Castro se auto proclamou Primeiro-Ministro.Bourne 1986. pp. 173.Quirk 1993. p. 228. Sem qualquer eleição, ele proclamou sua nova administração como um exemplo de democracia direta.Quirk 1993. p. 313. Os críticos do novo regime, contudo, afirmaram que ele conduzia o país para uma nova ditadura.Quirk 1993. p. 330.

A contrarrevolução Logo após a bem-sucedida revolução, militantes contrarrevolucionários surgiram para tentar derrubar o novo regime. Eles realizaram diversos atentados contra alvos públicos e prédios do governo, tomando ações de guerrilha contra as tropas comunistas, o que levou a uma pequena guerra civil de seis anos. Estes dissidentes eram financiados e armados por várias nações estrangeiras, incluindo pelas comunidades de cubanos exilados pela América Latina, pela Central Intelligence Agency (CIA) e pelo governo do ditador dominicano Rafael Trujillo.Corzo (2003), pp. 79–90Coltman 2003. p. 167.Ros 2006. pp. 159–201. A repressão foi brutal, com combates violentos nas regiões montanhosas.Dreke (2002), pp. 40–117. thumb|170px|right|Che Guevara (esquerda) e Castro, em 1961. O governo de Castro começou a fazer progressos contra os rebeldes, prendendo centenas de dissidentes.Bourne 1986. p. 197.Coltman 2003. p. 168.Bourne 1986. p. 181. A imprensa também passou a ser censurada.Coltman 2003. pp. 165–166.

Apesar de tentar se demonstrar um político moderado, Castro ordenou a tortura e execução de vários opositores, com o objetivo declarado de impedir novos atentados contra o regime. Em março de 1961, por exemplo, Jesus Carreras e o americano William Alexander Morgan (ex aliado de Fidel) foram executados por um "tribunal revolucionário".Thomas (1971) Apesar das críticas a repressão e as execuções de políticos, o governo de Fidel Castro começou a conquistar mais apoio popular, especialmente devido as políticas socioeconômicas tomadas pelo regime.Bourne 1986. pp. 163, 167–169.Quirk 1993. pp. 224–225, 228–230.Coltman 2003. pp. 147–149.

Tensões com os Estados Unidos O regime de Castro, assim que entrou no poder, ordenou que as refinarias de petróleo, controladas em sua maioria por empresas americanas, processassem e comprassem apenas petróleo cru vindo da União Soviética, mas por pressão do governo americano, boa parte dessas companhias se recusaram. Fidel respondeu expropriando estas refinarias e então nacionalizando-as, deixando todas sobre direto controle estatal. Em retaliação, os Estados Unidos cancelaram a importação de açúcar vindo de Cuba, forçando Castro a nacionalizar todas as empresas e terras cujos donos eram norte-americanos, incluindo bancos e fazendas de açúcar.Bourne 1986. pp. 205–206.Quirk 1993. pp. 316–319.Coltman 2003. p. 173. Relações entre Cuba e Estados Unidos continuaram a se deteriorar nos meses seguintes.Bourne 1986. pp. 201–202.Quirk 1993. pp. 302–302.Coltman 2003. p. 172. Em 13 de outubro de 1960, o governo americano proibiu todas as importações de produtos e materiais provenientes de Cuba e também proibiram as exportações saídas de lá – com exceção de medicamentos e alguns tipo de alimentos – iniciando assim um embargo econômico contra a ilha. Em resposta, o regime cubano assumiu o controle de ao menos 383 negócios privados e depois também tomaram o controle de 166 companhias americanas em Cuba e nacionalizaram boa parte delas, incluindo a Coca-Cola e a Sears Roebuck.Bourne 1986. p. 214.Coltman 2003. p. 177. Ao fim de 1960, os Estados Unidos encerraram completamente as importações de açúcar cubano. Os americanos eram os principais compradores deste produto.Bourne 1986. p. 215.

O governo americano se tornou o principal crítico das políticas de Castro. Em agosto de 1960, em um encontro da Organização dos Estados Americanos (OEA), que aconteceu na Costa Rica, o Secretário de Estado, Christian Herter, afirmou que o regime cubano "seguia fielmente a agenda bolchevique" ao instituir um sistema de partido único, com o governo assumindo o controle total da economia, suprimindo as liberdades civis e cerceando a liberdade de expressão e de imprensa. Ele também alegou que o mundo comunista utilizava Cuba como uma "base de operações" para espalhar a revolução no hemisfério ocidental e convocou os membros da OEA a condenar o regime cubano por violações dos direitos humanos.Quirk 1993. p. 329. Em resposta, Castro falou sobre o tratamento que os negros recebiam nos Estados Unidos e também criticou o tratamento das classes trabalhadoras americanas, que ele afirmou ter testemunhado durante suas visitas a cidade de Nova Iorque. Ele também afirmou que os pobres na América do Norte viviam "nas entranhas do monstro imperialista" e também atacou a imprensa americana, que afirmou servir aos interesses das grandes empresas e conglomerados.Quirk 1993. p. 344.

Preparações Planejamentos iniciais A ideia de derrubar o regime de Fidel Castro surgiu no começo dos anos 60 e emergiu dentro da Central Intelligence Agency (CIA), uma organização a serviço do governo dos Estados Unidos. Fundada em 1947 pelo chamado Ato de Segurança Nacional, a CIA era um "produto da Guerra Fria", tendo sido criada para servir, principalmente, nos serviços de contraespionagem contra a União Soviética, que tinha sua própria agência de inteligência, a KGB. Com a ameaça crescente do chamado "comunismo internacional", a CIA expandiu suas atividades nas áreas econômica, política e militar, servindo aos interesses americanos.Quirk 1993. p. 303. O diretor da agência, Allen Dulles, era responsável por supervisionar todas as operações clandestinas pelo mundo e mesmo com ele sendo considerado um administrador ineficaz, Dulles era muito popular entre seus empregados, que o protegiam das acusações de abuso de poder e de ser defensor do Macartismo.Quirk 1993. p. 304. Ele e seu vice diretor, Richard M. Bissell, Jr., lançaram então a chamada "Operação Mongoose", que tinha por objetivo eliminar Castro e liquidar o regime comunista em Cuba.Quirk 1993. p. 307.

Richard Bissell deu a Gerald Drecher, outro agente da CIA, a responsabilidade de recrutar cubanos antiCastro que estavam vivendo nos Estados Unidos, e pediu a E. Howard Hunt para formar um governo no exílio entre os exilados, que seria de fato controlado pela agência de inteligência americana.Quirk 1993. pp. 307–308. Hunt viajou para Havana, a capital de Cuba, onde conversou com vários nativos.Quirk 1993. p. 308. Ao retornar aos Estados Unidos, ele informou aos cubano-americanos recrutados que eles teriam que mover sua base de operações da Flórida para a Cidade do México, já que o Departamento de Estado não permitiria o treinamento de uma milícia estrangeira em solo americano. Apesar de não ficarem felizes com a notícia, eles obedeceram.

Aprovação presidencial