thumb|200px|O Ipupiara numa ilustração do livro História da Província de Santa Cruz (1576) de Pero de Magalhães Gândavo.

O Ipupiara é um monstro marinho da mitologia tupi no litoral do Brasil, sendo considerado uma das entidades de registro mais antigo entre os mitos indígenas brasileiros.

É também chamado de "homem-marinho" e "aquático", e o nome era também atribuído a peixes e à baleia (talvez numa confusão com piráNAVARRO, 2013, p. 384. e pirapu'ã,NAVARRO, 2013, p. 386. "peixe" e "baleia" em tupi, respectivamente).

Etimologia A palavra "Ipupiara" deriva do tupi antigo ‘Ypupîara (de ‘y [água ou rio] + pupé [dentro] + yûara [procedência, moradia]), literalmente "o que mora dentro d'água" ou "o habitante do rio".NAVARRO, 2013, p. 531 e 570.

Outras grafias apresentadas incluem: Igpupiára, Hipupiara, Upupiara, Ypupiaprae, Upypeara, Y-pypiára.ANCHIETA (1554–1594), 1933, p. 143 (nota 165).

Relatos É um dos mais antigos mitos brasileiros conhecidos, registrado pelos cronistas coloniais em diversos pontos do litoral brasileiro,CASCUDO, 1988, p. 389. como nos dos atuais estados de São Paulo, Bahia e Espírito Santo.

O Ipupiara é o gênio das fontes, animal misterioso que os indígenas davam como o homem marinho, inimigo dos pescadores, mariscadores e lavadeiras.SAMPAIO, Theodoro. O tupi na geografia nacional. 5. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1987. 359 p. (Brasiliana, v. 380). p. 252 e 340.

Em maio de 1560, estando em São Vicente, a primeira cidade do Brasil, o padre jesuíta espanhol José de Anchieta escrevia: "Há também nos rios outros fantasmas, a que chamam Igpupiára, isto é, que moram n'água, que matam do mesmo aos Índios. Não longe de nós há um rio habitado por Cristãos, e que os Índios atravessavam outrora em pequenas canoas, que fazem de um só tronco ou de cortiça, onde eram muitas vezes afogados por eles, antes que os Cristãos para lá fossem."ANCHIETA (1554–1594), 1933, p. 128.

Segundo o relato do cronista português Pero de Magalhães Gândavo em História da Província Santa Cruz (1576), apareceu, em 1564, um monstruoso animal marinho nas proximidades da povoação de São Vicente. Alertado por uma indígena escravizada que o avistara durante a noite, Baltasar Ferreira, filho do capitão da capitania, enfrentou a criatura armado apenas com uma espada. Após um combate difícil, no qual o monstro se ergueu sobre as barbatanas e tentou atacá-lo, Baltasar conseguiu abatê-lo com a ajuda de alguns outros indígenas escravizados que acorreram ao local. Gândavo descreve minuciosamente a aparência do animal — quinze palmos de comprimento (cerca de 3,5 metros), coberto de pelos pelo corpo, focinho com sedas muito grandes como bigodes —, que foi no dia seguinte exposto na vila. Quanto ao jovem Baltasar, depois do encontro com a criatura ele ficou tão perturbado que ficou sem falar por um bom espaço de tempo.GÂNDAVO, Pero de Magalhães (1576). Tratado da terra do Brasil; História da Província Santa Cruz. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008. p. 129-131.

O padre jesuíta português Fernão Cardim, na década de 1580, descreveu-os: "(...) parecem-se com homens propriamente de bôa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As femeas parecem mulheres, têm cabellos compridos, e são formosas; achão-se estes monstros nas barras dos rios doces."CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Introduções e notas de Baptista Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolpho Garcia. Rio de Janeiro: J. Leite & Cia., 1925. p. 89-90. Ele segue contando que há muitos deles na Bahia, como em Jaguaripe e em Porto Seguro, e também descreve o seu modo de matar: "abração-se com a pessoa tão fortemente beijando-a, e apertando-a comsigo que a deixão feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta dão alguns gemidos como de sentimento, e largando-a fogem; e se levão alguns comem-lhes só-mente os olhos, narizes, e pontas dos dedos dos pés e mãos, e as genitalias, e assi os achão de ordinario pelas praias com estas cousas menos."

Gabriel Soares de Souza, senhor de engenho na Bahia e vereador da Câmara, escreveu em 1587: "Não ha duvida senão que se encontram na Bahia e nos reconcavos d'ella, muitos homens marinhos, a que os indios chamam pela sua lingua upupiara, os quaes andam pelo rio d'agua doce pelo tempo do verão, onde fazem muito damno aos indios pescadores e mariscadores que andam em jangadas, onde os tomam, e aos que andam pela borda da agua, metidos n'ella; a uns e outros apanham, e mettem-nos debaixo d'agua onde os afogam: os quaes sahem a terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura; e dizem outros indios pescadores que viram tomar a estes mortos que viram sobre agua uma cabeça de homem lançar um braço fóra d'ella e levar o morto; e os que isso viram se recolheram fugindo á terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quizeram tornar a pescar d'ahi a muitos dias."SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descriptivo do Brazil em 1587. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1851. p. 280.

Frei Vicente do Salvador, em princípios do século XVII, escreve identicamente sobre a existência dos homens-marinhos, mas sem descrevê-los.

O padre jesuíta português Simão de Vasconcelos declarou ter visto lapas cheias de suas ossadas na Bahia: "Dos peixes homens e peixes mulheres vi grandes lapas junto ao mar cheas de ossadas dos mortos; e vi suas caveiras, que não tinhão mais differença de homem, ou mulher, que hum buraco no toutiço, por onde dizem que respirão."VASCONCELLOS, Simão de. Chronica da Companhia de Jesu do estado do Brasil e do que obraram seus filhos n'esta parte do Novo Mundo. 2. ed. correcta e augmentada. Lisboa: A. J. Fernandes Lopes, 1865. p. 97-98.

Em 1647, o humanista holandês Gaspar Barléu (Caspar van Baerle) chamou-os de "tritões" e deu-lhes características dos homens e mulheres marinhos das lendas europeias, especialmente as fêmeas: "Os Tritões — chamados de Ypypiapras pelos nativos — são objeto de grande admiração, visto que apresentam certa semelhança com fisionomias humanas, e as fêmeas exibem cabelos longos e um rosto mais delicado." (Em latim: "Maxime admirationi sunt Tritonis indigenis Ypypiaprae dicti, cum humanos vultos aliqua referant, et femellae caesariem ostentent fluidam et faciem elegantiorem.")BAERLE, Caspar van. Rervm per octennivm in Brasilia et alibi nuper gestarum, sub praefectura illustrissimi comitis I. Mavritii, Nassoviae. Amstelodami: Typis Joannis Blaev, 1647. Com a colaboração de Willem Piso. p. 134.

thumb|O Ipupiara segundo Valentin Stansel (séc. XVII).|200px O jesuíta astrônomo tcheco Valentin Stansel relata o seguinte episódio na sua obra Mercurius Brasiliensis (1664): "No litoral próximo ao mar, num lugar dito Espírito Santo, onde nossos padres possuem uma residência, foi visto um monstro marinho, o qual creio que nunca antes foi visto semelhante na Terra. Iam ao mar índios nossos para pescar [...];ergueu-se o monstro em pé naquele lugar mesmo, como está mostrado na figura, como quem quer lutar. Contudo, logo percebeu o perigo e precipitou-se rapidamente para o mar. Apenas começou a fugir e um índio mais audaz atingiu-o pelas costas, na espátula. Assim ferido, o monstro jorrou sangue profusamente, e atingido diversas outras vezes, entregou a alma naquela praia."CAMENIETZKI, Carlos Ziller; ZERON, Carlos Alberto de Moura Ribeiro. Quem conta um conto aumenta um ponto: o mito do Ipupiara, a natureza americana e as narrativas da colonização do Brasil. Revista de Indias, Madrid, v. 60, n. 218, p. 111–134, abr. 2000. DOI: 10.3989/revindias.2000.i218.585. p. 129-130. Ele descreve a criatura em seguida: "(...) a cabeça, quase como a dos outros semi-homens, era em forma de cachorro, com o nariz em forma de focinho; [...] a partir da cintura ou do umbigo ele se fazia em peixe, com escamas duras."

Câmara Cascudo afirma que do Ipupiara vêm o Caboclo do Rio e o Negro do Rio, virando embarcações, afogando, matando, assombrando, sem a permuta de favores, mas não vê qualquer conexão entre o terrível homem-marinho e as Iaras, as sereias e nixes brancas da Europa que ganharam um nome em nheengatu no Brasil, louras, cantoras, tendo a monomania da excitação sexual exclusiva.

Na cultura popular A lenda dos homens-peixes é explorada no cinema estadunidense, animes e jogos de videogames, sem citar o nome indígena "ipupiara", mas se referindo à lenda como sendo amazônica e sua origem no Brasil.

thumb|Pôster promocional do filme Creature from the Black Lagoon (1954)|200px No filme O Monstro da Lagoa Negra (1954), é dito que o monstro “habitava uma remota e desconhecida lagoa localizada numa parte inexplorada da Floresta Amazônica. A criatura aparentemente era conhecida dos nativos pois o capitão do barco Rita, usado pelos pesquisadores, menciona uma lenda local sobre os "homens-peixe"."

No jogo de videogame Darkstalkers da Capcom, Rikuo é descrito como um “merman”, o masculino de mermaid (sereia), que vive na Amazônia brasileira. Seu nome deriva do nome do ator Ricou Browning, que interpretou a criatura-título em O Monstro da Lagoa Negra.

No filme A Forma da Água (2017), um homem-peixe é capturado na Amazônia e levado a um laboratório secreto nos EUA. Na obra, ele é referido como um deus pelos indígenas brasileiros.COSTA, Andriolli. Ipupiara ou Negro d'água? Quem é a criatura no novo filme de Del Toro? Colecionador de Sacis, 9 jan. 2018.

Ver também Caboclo-d'Água Criptozoologia Negro-d'Água Tritão

Bibliografia ANCHIETA, José de. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões do padre Joseph de Anchieta, S. J. (1554–1594). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933. (Cartas jesuíticas, v. 3). CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. xxiv, 812 p. (Coleção Reconquista do Brasil, 2. série, v. 151). NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil: vocabulário português-tupi, dicionário tupi-português, tupinismos no português do Brasil, etimologias de topônimos e antropônimos de origem tupi. São Paulo: Global, 2013.

Ligações externas

CAMENIETZKI, Carlos Ziller; ZERON, Carlos Alberto de Moura Ribeiro. Quem conta um conto aumenta um ponto: o mito do Ipupiara, a natureza americana e as narrativas da colonização do Brasil. Revista de Indias, Madrid, v. 60, n. 218, p. 111–134, abr. 2000. DOI: 10.3989/revindias.2000.i218.585. DANNEMANN, Fernando Kitzinger. Ipupiara – São Vicente – São Paulo (resenha). 14 jan. 2009. RAMOS, Rodrigo; BARTHOLO, Marcel. Lama. Teresópolis, RJ: Carniça Quadrinhos, 2018. 48 p. MARQUES, Jeferson. O dia em que algo estranho saiu do mar e aterrorizou a primeira cidade do Brasil. Diário do Litoral, São Vicente, 9 jan. 2026.

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