Carlos Brandão (Passos, 17 de dezembro de 1928 - março de 2016) é um banqueiro e administrador brasileiro. Esteve à frente do Banco Central do Brasil de março a agosto de 1979, nos primeiros meses do governo João Figueiredo.Ao longo da carreira, notabilizou-se pela defesa de maior rigor fiscal e pela restrição do papel do Banco Central à esfera estritamente monetária.

Primeiros anos e formação

Natural de Passos, no interior de Minas Gerais, era filho de um fazendeiro paulista, Antônio Brandão Filho, e de Maria José Fonseca Brandão. Passou a infância e a juventude em São Paulo, onde completou a educação básica. Sua formação profissional incluiu programas técnicos em administração e liderança executiva realizados no Brasil, além de especializações no exterior: frequentou programa sobre controle monetário nos Estados Unidos e cursos voltados à elaboração orçamentária na Dinamarca, na Bélgica e na França.

Início de carreira

Com 18 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu apenas duas semanas em emprego no Banco Hipotecário Agrícola. De retorno a São Paulo, iniciou a trajetória bancária no Banco Itaú, atuando na área de análise cadastral. Ingressou por concurso no Banco do Brasil em 1953 e, a partir do ano seguinte, atuou por dois anos junto à diretoria da Carteira de Comércio Exterior (Cacex) como assessor.

Ceplac (1957–1969)

A partir de 1957, ocupou por doze anos o cargo de secretário-geral da Ceplac, órgão responsável pelo desenvolvimento da lavoura cacaueira no Brasil. Nesse período, foi o principal responsável pela montagem da estrutura institucional do órgão, implantando unidades de pesquisa agronômica, extensão rural, crédito, administração e ensino agrícola voltadas à cadeia do cacau.

Na Ceplac, liderou também a elaboração de normas sobre padronização e inspeção sanitária de produtos de exportação, no âmbito do Conselho Nacional de Comércio Exterior. Chefiou a delegação brasileira em conferências sobre o mercado mundial do cacau organizadas pela UNCTAD em Genebra (1967–1968) e participou de negociações que levaram ao Acordo Internacional do Cacau, conduzidas sob os auspícios da FAO. Esteve presente, ainda, à conferência da Aliança dos Países Produtores de Cacau sediada em Salvador. Ao deixar a Ceplac, em 1969, foi sucedido por José Haroldo Castro Vieira.

No Banco Central (1969–1974)

Ainda em 1969, por indicação de Ernane Galvêas, então presidente do Banco Central, passou a chefiar a área responsável pela gestão da dívida pública na autarquia. Seu principal feito nessa fase foi a introdução e a normatização do sistema de open market (mercado aberto) no Brasil — mecanismo destinado a ampliar o mercado de títulos públicos, captar recursos para o Tesouro Nacional e regular a base monetária.

Participou da elaboração de proposta de emenda constitucional relativa ao manejo da dívida pública e contribuiu para a redação de projetos de lei que instituíram as letras do Tesouro Nacional, regularam o mercado de dívida mobiliária federal e estabeleceram limites ao endividamento estadual.

Complementou a formação em 1972 com programa sobre regulação do mercado de capitais no Practising Law Institute, em Nova Iorque. No ano seguinte, foi o representante do Banco Central no encontro anual da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban), na cidade argentina de Bariloche.

Diretoria do Banco do Brasil (1974–1979)

Transferiu-se em 1974 para o Banco do Brasil, onde assumiu posto na diretoria regional que abrangia Rio de Janeiro e Espírito Santo. No ano seguinte, foi designado para estruturar a recém-criada diretoria financeira da instituição. Nessa função, montou as áreas de planejamento orçamentário, controle estatístico, gerência financeira e gestão de caixa, passando a coordenar também a tesouraria e a contadoria geral do banco.

A posição de diretor financeiro levou-o a participar de diversos órgãos colegiados do mercado de capitais brasileiro. Atuou na Comissão Consultiva de Mercado de Capitais, na direção do Ibmec e no conselho da ANDIMA, além de presidir o Fundo de Democratização do Capital das Empresas (Fundece) e integrar os conselhos do Fundo de Incentivo à Pesquisa Técnico-Científica (Fipec) e do Programa Nacional de Crédito Educativo.

No plano internacional, representou o país em seminário sobre bancos de fomento latino-americanos ocorrido em Lima (1975), e esteve em reunião do Fundo Monetário Internacional três anos depois.

Presidência do Banco Central (1979)

Nomeação

No início de 1979, Karlos Rischbieter — designado para o Ministério da Fazenda no governo do general João Figueiredo, o último do ciclo militar — convidou Brandão a dirigir o Banco Central. A escolha foi bem recebida pelo mercado financeiro, que reconhecia a experiência técnica e a boa interlocução do indicado com o setor privado.

Conjuntura econômica

A posse de Brandão coincidiu com um momento de aguda fragilidade da economia brasileira. O país acumulava pesado endividamento externo, agravado pela opção governamental de manter o crescimento econômico com base em empréstimos no exterior. A esse quadro somavam-se o iminente segundo choque do petróleo e a desarticulação da cooperação macroeconômica entre as economias centrais, que atravessavam processo deflacionário.

Posicionamentos e gestão

Ao assumir o cargo em março, Brandão manifestou-se contra o controle administrativo das taxas de juros e sustentou que a missão da autoridade monetária deveria limitar-se à regulação da oferta de moeda — recusando, portanto, o uso do Banco Central como instrumento direto de fomento. Propôs utilizar o redesconto e o mercado aberto como ferramentas centrais da política monetária, ao lado da flexibilização normativa do sistema financeiro e do estímulo à captação privada de poupança.

Durante o período à frente da autarquia, ocupou assento no Conselho Monetário Nacional, nos conselhos de Comércio Exterior (Concex) e de Política Aduaneira, além de integrar o conselho de administração do Banco do Brasil e o conselho de governadores do Fundo Africano de Desenvolvimento. Representou o Banco Central em encontro de bancos centrais latino-americanos realizado em Caracas.

Saída

Brandão foi exonerado em agosto de 1979 e substituído por Ernane Galvêas. As divergências com o governo tinham raiz na insistência do presidente do Banco Central em impor disciplina mais rígida às contas públicas, de modo a proteger o país de eventuais turbulências no mercado financeiro internacional. Outro ponto de atrito foi a defesa de um orçamento fiscal unificado que englobasse todas as despesas da União, eliminando a necessidade do chamado orçamento monetário — proposta que contrariava interesses de áreas do próprio governo.

Na iniciativa privada

Após a saída do Banco Central, foi para a diretoria do Banco Econômico. Em 1982, passou a presidir a ANDIMA, posição da qual criticou publicamente o caráter reservado das tratativas entre o governo e o Fundo Monetário Internacional, advogou a separação entre correção monetária e política cambial e enfatizou o papel regulador do mercado aberto sobre a liquidez interna.

A partir de 1985, passou a integrar o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional. Ao longo da década, acumulou posições em múltiplos órgãos do setor: esteve nos conselhos do Ibmec e do Instituto Brasileiro de Pesquisas Sociais (IBPS), na direção do sindicato bancário fluminense e na vice-presidência da Confederação Nacional das Instituições Financeiras.

Durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, manifestou preocupação com o que considerava a ausência dos empresários no debate sobre a ordem econômica — postura que, em sua avaliação, poderia favorecer propostas de viés estatizante. Em setembro de 1988, saudou a aprovação do dispositivo constitucional que vedou ao Banco Central a emissão de moeda, considerando-o um marco para o saneamento das finanças públicas e o combate à inflação.

No mesmo ano, retornou à ANDIMA, primeiro como diretor financeiro e, em seguida, como presidente, cargo que exerceu por quatro anos. Manteve-se vinculado à entidade em outras funções após o término do mandato.

Em 2005, reuniu-se com os demais ex-presidentes do Banco Central em cerimônia pelos 40 anos da instituição, no Rio de Janeiro.

Publicações selecionadas

Mercado monetário de capitais (1970)

As operações de mercado aberto na execução da política monetária (1971)

O Banco Central e a execução da política monetária do governo (1979)

Estrutura funcional do sistema financeiro nacional (1979)

O processo inflacionário brasileiro e a política monetária (1979)

Perspectivas do comportamento da economia (1982)

Como assegurar um adequado sistema monetário (1982)

Um projeto de política econômica (1983)

A crise mundial e seu ajustamento: reflexos sobre o comércio exterior (1984)

O processo de estatização da economia brasileira (1985)

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