BlackBerry Limited, anteriormente Research In Motion (RIM), é uma empresa canadense de software especializada em comunicações seguras e Internet das Coisas (IoT). Fundada em 1984, a empresa desenvolveu a marca BlackBerry de dispositivos móveis sem fio entre 1999 e 2016. Depois que sua divisão de dispositivos móveis foi separada na BlackBerry Mobile em 2016, operação encerrada em 2020, a BlackBerry Limited passou a concentrar suas atividades em software e serviços e manteve seu portfólio de patentes de aplicações de software.
A empresa liderou o mercado nascente de smartphones em muitos países no fim da década de 2000, entre eles os Estados Unidos, onde permaneceu à frente até o anúncio do iPhone 4 em 2010, e a Indonésia no começo da década de 2010. Em 2010, a BlackBerry valia mais que Adidas, MTV ou Ben & Jerry's. A rápida ascensão da Apple e do Google reduziu sua presença no mercado. Depois do lançamento do BlackBerry 10, a empresa passou a se concentrar em software empresarial e serviços de segurança cibernética sob a direção de John S. Chen. Em 2018, foi lançado o último smartphone BlackBerry, o BlackBerry Key2 LE. Em 2022, a empresa encerrou o suporte ao BlackBerry 10 e deixou o mercado de smartphones.
Os produtos de software da BlackBerry são usados por empresas, fabricantes de automóveis e órgãos governamentais para proteção contra invasões e ataques de ransomware. Entre eles estão o BlackBerry Enterprise Server, depois chamado BlackBerry Unified Endpoint Manager, e a plataforma Unified Endpoint Management, ou UEM.
História
1984–2001: primeiros anos e crescimento miniatura|direita|Logotipo da Research In Motion, usado antes de 30 de janeiro de 2013
A Research In Motion Limited foi fundada em 1984. Em 1988, tornou-se a primeira desenvolvedora de tecnologia de dados sem fio da América do Norte e a primeira empresa fora dos países nórdicos a desenvolver produtos de conectividade para as redes Mobitex de comunicação de dados sem fio por comutação de pacotes. O transporte de dados sem fio da Mobitex também se tornou o primeiro serviço de dados sem fio da RIM e foi usado por dispositivos BlackBerry e Palm até sua desativação. Em 1990, a RIM apresentou o leitor DigiSync Film KeyKode. Em 1991, lançou seu primeiro conversor de protocolo Mobitex. Em 1992, apresentou a primeira solução Mobitex para pontos de venda, uma caixa conversora de protocolo que se conectava aos equipamentos já instalados nos terminais e permitia comunicação sem fio. Em 1993, lançou o RIMGate, seu primeiro gateway Mobitex X.25 de uso geral. No mesmo ano, lançou o Ericsson Mobidem AT e modems sem fio da Intel com firmware da RIM. Em 1994, apresentou seu primeiro terminal móvel de ponto de venda para Mobitex e recebeu o Emmy Award for Technical Innovation e o KPMG High Technology Award. Em 1995, lançou o Freedom, o primeiro modem de rádio PCMCIA Tipo II para Mobitex.
Em 1995, a RIM recebeu financiamento de investidores institucionais canadenses e de capital de risco por meio de uma colocação privada. A Working Ventures Canadian Fund Inc. liderou a primeira rodada de capital de risco, com um investimento de C$ 5 milhões. O dinheiro foi usado para concluir o desenvolvimento do hardware e do software de seu sistema de paging bidirecional. A empresa levantou C$ 30 milhões antes de sua oferta pública inicial na Bolsa de Valores de Toronto, realizada em janeiro de 1998 sob o símbolo RIM.
Em 1996, a RIM apresentou o Interactive Pager, seu primeiro pager bidirecional para mensagens, e o modem de rádio OEM RIM 900. A empresa desenvolveu o protótipo do pager com apoio da Intel Corporation. A empresa trabalhou com a RAM Mobile Data e a Ericsson para transformar a rede de dados sem fio Mobitex, desenvolvida pela Ericsson, em uma rede bidirecional de paging e correio eletrônico sem fio. Um dos produtos resultantes foi o Inter@ctive Pager 950. Em agosto de 1997, um protótipo foi apresentado a executivos da BellSouth, que fecharam um contrato de US$ 70 milhões para o fornecimento de 100 mil aparelhos. As entregas começaram em agosto de 1998. O aparelho, de dimensões semelhantes às de uma barra de sabão, concorria com a rede bidirecional de paging Skytel, desenvolvida pela Motorola.
Em 1999, a RIM apresentou o pager BlackBerry 850. Ele também foi o primeiro dispositivo a usar o BlackBerry OS. O nome BlackBerry foi escolhido pela semelhança do teclado com as pequenas drupas de uma amora. O aparelho podia receber push e-mail de um Microsoft Exchange Server por meio do software servidor complementar BlackBerry Enterprise Server, ou BES. Seu lançamento abriu caminho para outros produtos empresariais da companhia, como o BlackBerry 957, lançado em abril de 2000 e tratado pela empresa como seu primeiro smartphone. A plataforma BlackBerry OS e o BES ganharam novas funções, enquanto a adoção de criptografia e suporte a S/MIME aumentou o uso dos dispositivos BlackBerry por governos e empresas. Entre os exercícios fiscais de 1999 e 2001, os ativos da RIM passaram de US$ 117,9 milhões para US$ 970,1 milhões, crescimento superior a oito vezes.
2001–2011: expansão mundial e concorrência
A RIM passou a oferecer aparelhos BlackBerry ao mercado consumidor, entre eles o BlackBerry Pearl 8100, primeiro telefone BlackBerry com recursos multimídia, entre eles câmera. As vendas do Pearl, primeiro aparelho da empresa voltado diretamente ao público consumidor, elevaram a receita e o número de assinantes da RIM. As famílias Curve 8300 e Bold 9000 também tiveram forte demanda, e a expansão da distribuição por operadoras ampliou o número de usuários da BlackBerry em mercados empresariais e de consumo.
Mesmo depois da chegada do primeiro iPhone da Apple em 2007, a BlackBerry manteve crescimento de participação de mercado até 2011. O lançamento do iPhone na rede da AT&T nos Estados Unidos, no segundo semestre de 2007, levou a RIM a produzir seu primeiro smartphone com tela sensível ao toque para a rede concorrente em 2008, o BlackBerry Storm. O aparelho vendeu bem, mas recebeu avaliações que variaram de medianas a ruins e teve baixa satisfação entre clientes. Nos primeiros anos, o iPhone ficou atrás da BlackBerry em unidades distribuídas e usuários ativos, devido à vantagem inicial da RIM e à sua rede mais ampla de operadoras. Nos Estados Unidos, a base da BlackBerry chegou ao máximo de cerca de 21 milhões de usuários no segundo semestre de 2010. Naquele trimestre, a base mundial da empresa era de 36 milhões de usuários. À medida que o iPhone e o Android cresceram nos Estados Unidos, a BlackBerry perdeu espaço para outras plataformas de smartphones. A linha BlackBerry ainda cresceu no exterior. Em 1 de dezembro de 2012, a empresa tinha 79 milhões de usuários BlackBerry no mundo, dos quais somente 9 milhões estavam nos Estados Unidos.
Apesar do crescimento fora dos Estados Unidos, investidores e veículos de imprensa passaram a questionar a capacidade da empresa de concorrer com aparelhos baseados em iOS e Android. A CNNMoney incluiu a BlackBerry numa lista de seis marcas norte-americanas e canadenses em risco. Analistas também questionavam a estrutura administrativa da companhia.
Depois de tentar atualizar sua plataforma baseada em Java, a empresa comprou a QNX Software Systems para desenvolver uma nova plataforma BlackBerry baseada no sistema operacional de tempo real QNX. Em março de 2011, o então codiretor executivo Jim Balsillie afirmou em uma teleconferência que o "lançamento de alguns novos BlackBerrys poderosos", que acabariam chegando ao mercado como BlackBerry 10, ocorreria no começo de 2012. Analistas temiam que divulgar aparelhos ainda desconhecidos e apresentados como capazes de mudar o mercado cedo demais prejudicasse a venda dos BlackBerrys existentes, num efeito semelhante ao Efeito Osborne. A data anunciada passou a ser vista como ambiciosa demais e afetou a credibilidade da empresa enquanto seus aparelhos antigos perdiam participação de mercado.
Em 27 de setembro de 2010, a RIM anunciou o tablet BlackBerry PlayBook, primeiro produto a executar a nova plataforma QNX, chamada BlackBerry Tablet OS. O PlayBook chegou oficialmente aos consumidores dos Estados Unidos e do Canadá em 19 de abril de 2011. O aparelho foi criticado por chegar às lojas incompleto e vendeu pouco. Depois do envio de 900 mil tablets durante seus primeiros três trimestres no mercado, as vendas fracas e o acúmulo de estoque levaram a companhia a reduzir preços e contabilizar uma baixa de US$ 485 milhões no valor do estoque.
Principais concorrentes
Os principais concorrentes da BlackBerry eram smartphones com Android e o iPhone da Apple. Por alguns anos, o BlackBerry foi o smartphone mais vendido em muitos mercados, sobretudo nos Estados Unidos. A chegada do iPhone e, depois, da plataforma Android, do Google, desacelerou o crescimento da BlackBerry e reduziu suas vendas em alguns mercados, sobretudo o norte-americano. O desempenho levou analistas e a imprensa a questionarem a capacidade da empresa de permanecer independente.
Quando o iPhone foi lançado em 2007, recebeu grande atenção da imprensa e foi chamado por alguns veículos de "BlackBerry killer". Embora as vendas do BlackBerry também crescessem, o iPhone avançou em ritmo maior. A queda de 87% no preço das ações da BlackBerry entre 2010 e 2013 foi atribuída sobretudo ao desempenho do iPhone.
Os três primeiros modelos do iPhone ficaram em geral atrás da BlackBerry em vendas, pois a RIM tinha vantagens na distribuição por operadoras e entre clientes empresariais. A Apple continuou a ganhar mercado. Em outubro de 2008, ultrapassou brevemente a RIM nas vendas trimestrais ao anunciar 6,9 milhões de iPhones vendidos, contra 6,1 milhões de aparelhos da RIM, embora os trimestres comparados não coincidissem por completo. As vendas trimestrais do iPhone caíram para 4,3 milhões no período seguinte, enquanto as da RIM subiram para 7,8 milhões. Alguns investidores, ainda assim, viram o episódio como sinal de fraqueza. O iPhone começou a superar trimestralmente as vendas do BlackBerry em 2010, depois do lançamento do iPhone 4.
Nos Estados Unidos, a BlackBerry atingiu seu auge em setembro de 2010, com quase 22 milhões de usuários, ou 37% dos 58,7 milhões de smartphones existentes no país. O uso começou então a cair no país, e a base instalada da Apple ultrapassou a da BlackBerry em abril de 2011. As vendas do iPhone seguiram em alta junto com o mercado de smartphones, enquanto a BlackBerry perdeu usuários de forma contínua. Em fevereiro de 2016, apenas 1,59 milhão, ou 0,8%, dos 198,9 milhões de usuários de smartphones dos Estados Unidos usavam BlackBerry, contra 87,32 milhões, ou 43,9%, que usavam iPhone.
O sistema operacional Android, do Google, usado em aparelhos de fabricantes como Sony, Motorola, HTC, Samsung e LG, aumentou a pressão sobre a BlackBerry. Em janeiro de 2010, pouco menos de 3 milhões, ou 7,1%, dos 42,7 milhões de smartphones então usados nos Estados Unidos executavam Android, contra 18 milhões de aparelhos BlackBerry, ou 43%. Um ano depois, o Android já havia ultrapassado a base instalada da BlackBerry nos Estados Unidos. Em fevereiro de 2016, somente 1,59 milhão, ou 0,8%, dos 198,9 milhões de usuários de smartphones norte-americanos usavam BlackBerry, contra 104,82 milhões, ou 52,7%, que usavam Android.
A rede segura e criptografada da RIM atraía clientes empresariais, mas seus aparelhos eram por vezes vistos como menos atraentes para consumidores que os smartphones com iPhone e Android. Desenvolvedores também costumavam produzir aplicativos para essas plataformas sem criar versões para a BlackBerry. Na década de 2010, até clientes empresariais começaram a adotar políticas de BYOD por pressão dos empregados. A companhia também era criticada por hardware e sistema operacional vistos como antigos e pouco atraentes diante da concorrência e por recursos de navegação considerados inferiores.
2011–2015: demissões e mudanças de estratégia