thumb|230px|Estátua de bronze na frente do Museu de Erich Kästner, em Dresden.

Emil Erich Kästner (Dresden, 23 de fevereiro de 1899 – Munique, 29 de julho de 1974) foi um escritor, jornalista, cabaretista e roteirista alemão.

Sua carreira começou durante a República de Weimar com seus poemas, resenhas e ensaios repletos de críticas sociais e antimilitarismo, em diversos periódicos renomados àquela época.

Depois do início da ditadura hitlerista, ele foi um dos poucos intelectuais proeminentes contrários ao nacional-socialismo que permaneceram na Alemanha, embora suas obras tivessem feito parte da lista de livros queimados e difamados como “anti-alemães” em maio de 1933, e tivessem sido banidas durante o regime. Apesar de várias represálias, ele pôde trabalhar como roteirista sob um pseudônimo para alguns filmes de comédia, por exemplo, e pôde assegurar sua renda com publicações de suas obras no exterior.

Com a derrota do regime hitlerista na Segunda Guerra Mundial, foi novamente possível para Kästner escrever sem restrições a partir da metade de 1945, . De 1951 a 1962, ele foi presidente do centro P.E.N. (Centro de Poetas, Ensaístas e Novelistas) da Alemanha Ocidental. Como pacifista, nos anos 1950 e 1960, em várias ocasiões, ele se posicionou publicamente, entre outras coisas, contra as políticas do governo Adenauer, contra o rearmarmento, em relação ao caso “Spiegel-Affair” e em apoio ao movimento antinuclear.

Sua popularidade deve-se, principalmente, a seus livros infantis, como, por exemplo, Emil und die Detektive (Emil e os Detetives) de 1929, Das fliegende Klassenzimmer (A Sala de Aula Voadora) de 1933, e Das doppelte Lottchen (Cachos e Tranças) de 1949, bem como a seus poemas, epigramas e aforismos às vezes reflexivos, às vezes humorísticos e satíricos. Uma de suas mais conhecidas coletâneas de poesia, foi publicada pela primeira vez em 1936 pela editora suíça Atrium sob o título de Doktor Erich Kästners Lyrische Hausapotheke (A farmacinha poética do doutor Erich Kästner).

Vida

Dresden 1899-1919 Erich Kästner nasceu em Dresden na Rua Königsbrücker 66.  Cresceu num ambiente de classe média baixa no bairro de Äussere Neustadt na mesma cidade. Próximo a sua casa de infância, encontra-se a mansão do seu tio Franz Augustin, onde atualmente no térreo fica a sede do Erich Kästner Museum.

Seu pai, Emil Richard Kästner (1867-1957) trabalhou como curtidor numa fábrica de malas. Sua mãe, Ida Kästner, nascida Augustin (1871-1951), foi empregada doméstica e governanta, tornando-se cabeleireira por volta de seus 30 anos. Com ela, Kästner tinha uma relação muito forte. Ainda criança, acreditava ser o único objeto de seu amor, sem que ninguém mais tivesse importância na vida dela.  Durante o seu período em Leipzig e Berlim, escrevia diariamente cartas e postais de caráter pessoal para sua mãe. Mais tarde rumores não confirmados viriam a especular sobre a possibilidade do médico da família, o judeu Emil Zimmermann, ser o pai biológico de Kästner.Em 1913 Kästner iniciou seus estudos para o exercício de magistério no Freiherrlich von Fletchersche Lehreseminar localizada na Marienallee, no bairro de Dresden-Neustadt, e, após três anos e próximo à conclusão, ele abandonou sua formação de professor de primário. Mais detalhes do seu tempo escolar podem ser encontrados no seu livro Das fliegende Klassenzimmer. Kästner também descreveu sua infância no livro autobiográfico de 1957 Als ich ein Kleiner Junge war (Quando eu era menino), onde comentou o início da Primeira Guerra Mundial : “a Grande Guerra começou, e a minha infância chegou ao fim.”

Em 1917 ele foi convocado pelo exército e serviu por um ano numa companhia voluntária de artilharia pesada. A brutalidade do seu treinamento o marcou e o transformou num antimilitarista. Além disso, por conta do treino pesado do seu instrutor Waurich, ele desenvolveu um problema crônico de coração, o que rendeu um poema crítico ao instrutor (Sergeant Waurich). Com o fim da guerra, Kästner terminou a sua formação de professor na Strehlener Lehrerseminar e, um ano depois, seu Abitur (exame de conclusão de ensino médio) no König-Georg-Gymnasium com distinção e obteve uma bolsa de estudos áurea da cidade de Dresden.

Berlim 1927-1933 Os anos compreendidos entre 1927 e 1933, até o final da República de Weimar, durante os quais Kästner viveu em Berlim, são conhecidos como os mais produtivos do escritor. Depois de poucos anos, ele já era considerado um dos intelectuais mais importantes de Berlim. Publicou seus poemas, críticas, reportagens e resenhas em diferentes revistas e jornais berlinenses. Trabalhava regularmente como escritor freelancer para diferentes jornais diários, como o Berliner Tageblatt e o Vossische Zeitung, e também para semanários, como a Die Weltbühne. Desde 1928, foi assessorado por sua secretária pessoal, Elfriede Mechnig, que o acompanhou por quarenta e cinco anos.

Hans Sarkowicz e Franz Josef Görtz, os organizadores da edição completa de 1998, citam no posfácio da obra mais de trezentos e cinquenta artigos comprovadamente escritos por Käster enquanto jornalista, entre 1923 e 1933; a soma real de artigos pode ser ainda maior. Uma das razões possíveis para ter se perdido tanto desse trabalho, pode se dever ao fato de a casa do escritor ter sido completamente destruída por um incêndio em 1944.

Kästner publicou seu primeiro livro, Herz auf Taille [Coração na cintura], em 1928, uma coletânea de poemas do tempo que passou em Leipzig. Até 1933, publicou outras três coleções de poemas. Com sua poesia, Kästner avançou em direção às mais importantes vozes do movimento Neue Sachlichkeit [Nova Objetividade]. miniaturadaimagem|Erich Kästner (em 1930) Em 15 de outubro de 1929, era lançado o primeiro livro infantil do autor, Emil und die Detektive [Emil e os detetives]. A história de detetive foi criada por sugestão de Edith Jacobsohn. O livro teve mais de dois milhões de cópias vendidas só na Alemanha e até hoje já foi traduzido para cinquenta e nove línguas. O romance, ambientado na cosmopolita Berlim de seu tempo, era incomum para a Literatura Infantil, que àquela época não estava acostumada fora das fronteiras de seu ‘asséptico’ mundo encantado. Nos anos seguintes, Kästner escreveu mais dois livros referidos como Literatura Infantil contemporânea: Pünktchen und Anton [Pontinho e Anton] (1931) e Das fliegende Klassenzimmer [A sala de aula voadora] (1933). Uma parte essencial do sucesso dos livros se devia às ilustrações de Walter Trier.

A versão cinematográfica de Emil e os detetives, dirigida por Gerhard Lamprecht, foi um grande sucesso de 1931. Kästner, no entanto, não estava satisfeito com o roteiro que Lamprecht e Billy Wilder haviam escrito. Na sequência, trabalhou como roteirista para os estúdios de Babelsberg.

Em 1931, Kästner publicou o romance Fabian – Die Geschichte eines Moralisten [Fabian - A história de um moralista], escrito em uma técnica quase cinematográfica: cenas rápidas e montagens foram de grande importância estilística e foi ambientado na Berlim no início dos anos 1930. Sob o exemplo do germanista desempregado Jakob Fabian, Kästner descreve o ritmo e a agitação da época, bem como o declínio da República de Weimar. Também sua própria atividade como publicitário em Berlim tem um reflexo na figura de Fabian.

Entre 1927 e 1929, Kästner morou na Prager Straße, número 17 (hoje talvez número 12), no bairro berlinense de Wilmersdorf. Depois, até fevereiro de 1944, na Roscherstraße, número 16, no bairro berlinense de Charlottenburg.

Berlim 1933-1945 Ao contrário de quase todos os seus colegas dissidentes, Kästner não emigrou após a tomada de poder dos nacional-socialistas no dia 30 de janeiro de 1933. É fato que, imediatamente após a data, ele foi por um breve período para Merano e para a Suíça, onde se encontrou com colegas já emigrados, mas em seguida retornou a Berlim. Kästner justificou a atitude, entre outras coisas, pelo fato de que queria ser um cronista dos acontecimentos locais. Na verdade, ele coletava materiais da época e fazia grandes anotações em taquigrafia de Gabelsberg em um diário secreto, para um futuro romance sobre o “Terceiro Reich”. Ele escondia esse livro de capa azul em sua biblioteca, mas, levava-o consigo para o abrigo antiaéreo em bombardeios durante a guerra, razão pela qual – diferentemente de seus quatro mil livros – permaneceu preservado. Tão importante quanto escrever o  romance, era o desejo de não deixar sua mãe sozinha. De certa forma, ele forneceu uma resposta através do epigrama Notwendige Antwort auf überflüssige Fragen (da obra: Kurz und bündig) [Respostas necessárias para perguntas desnecessárias (da obra: Curto e grosso)]

„Ich bin ein Deutscher aus Dresden in Sachsen.

Mich läßt die Heimat nicht fort.

Ich bin wie ein Baum, der – in Deutschland gewachsen –

wenn’s sein muss, in Deutschland verdorrt.“

[„Sou um alemão de Dresden na Saxônia.

Minha terra não me deixa ir.

Sou como uma árvore que – crescida na Alemanha –

se necessário ali irá ressequir.”]

No regime nazista, Kästner era odiado por ser popular, cosmopolita, urbano, um “escritor do asfalto”. Ele foi várias vezes interrogado pela Gestapo e expulso da associação de escritores. Suas obras foram queimadas por serem “contra o espírito alemão” na Queima de Livros de 1933, o que ele mesmo assistiu de perto. O pedido de admissão de Kästner à Reichsschrifttumskammer (Câmara de Literatura do Reich) foi recusado devido à sua “atitude de cultura bolchevista na literatura pré-1933”, o que se deu principalmente por conta de sua assinatura no “Apelo Urgente por Unidade” (não esquecer de linkar)  da Militante Socialista Internacional em junho de 1932. Isso equivalia a uma proibição de publicação em território alemão. O editor Kurt Leo Maschler, que era amigo de Kästner, tomou os direitos da editora berlinense, Williams & Co. Assim, os livros de Kästner foram publicados na Suíça pela editora Atrium, fundada por Maschler.

No entanto, Kästner (ao contrário do que ele mesmo e seus biógrafos relatam sobre seu trabalho na época do Nacional-Socialismo) trabalhou muito e com muito sucesso usando um pseudônimo. Segundo Hermann Kurzke, Kästner estava no auge de sua produtividade e forneceu à indústria de entretenimento do “Terceiro Reich” textos de teatro e vários roteiros de filmes (às vezes como coautor).  Das lebenslängliche Kind [A Criança Perpétua] foi particularmente bem-sucedido; no exterior e no período pós-guerra foi comercializado como livro e filme sob o título Drei Männer im Schnee [Três Homens na Neve].

Com uma licença especial, Kästner escreveu sob o pseudônimo de „Berthold Bürger” o roteiro de Münchhausen, o prestigiado filme de aniversário da UFA. Sua contribuição para o roteiro do filme de Heinz Rühmann, Ich vertraue Dir meine Frau an [Eu confio minha esposa a você], escrito com Bobby E. Lüthge e Helmut Weiss, não pode mais ser avaliada hoje.

Em 1943, Kästner precisou deixar seu apartamento em Berlim devido à evacuação de civis causada por ataques aéreos. Ele foi morar com amigos em Neubabelsberg. Seu apartamento em Charlottenburg foi destruído por bombas em 1944.

No dia 7 de março de 1945, viajou para Mayrhofen, em Tirol, com uma suposta equipe de filmagem de sessenta membros para lá esperar pelo fim da guerra. Esse período foi registrado por Kästner em um diário, publicado em 1961 sob o título Notabene 45.

Munique 1945-1974 miniaturadaimagem|258x258px|Conferência do recém-fundado centro PEN da Alemanha, em 1949 em Hamburgo.