300px|thumb|Vista aérea de Lagos Lagos é uma cidade no Distrito de Faro, em Portugal. Segundo a tradição, a cidade terá sido fundada cerca de 2 mil anos antes do Nascimento de Cristo, tendo estado sob o domínio pelos cartagineses, romanos e muçulmanos. após a reconquista cristã, teve um papel preponderante nos Descobrimentos Portugueses, tornando-se a principal cidade no Algarve, posição que perdeu para Faro após o devastador Sismo de 1755. A recuperação foi dificultada pelas Invasões Francesas e pela Guerra Civil Portuguesa, só voltando a ter alguma importância em meados do , com o desenvolvimento das indústrias, principalmente conserveiras. Após a Segunda Guerra Mundial, assiste-se a uma fase de substituição das actividades industriais pelo turismo, cuja importância económica marca a transição para o Terceiro Milénio.COUTINHO, 2008:80-83

thumb|esquerda|Monte Molião, que preserva partes de uma estrutura defensiva (amuralhada) celta que remonta a finais do e thumb|left|Vestígios da época neolítica no Museu de Lagos Pré-História e colonização primitiva Durante a idade da pedra já existia uma actividade piscatória rudimentar na costa de Lagos, utilizando anzóis feitos a partir de chifres de veado, que foram encontrados pelo arqueólogo Estácio da Veiga em cavernas. Calcula-se que então existisse um grande número de veados na região, uma vez que foram encontrados mais ferramentas feitas a partir dos chifres, e que serviam para a colheita e sementeira de trigos, cevadas, legumes, etc.. Na zona da Ameijeira, em Lagos, foi descoberta um assentamento do Neolítico médio, remontando a cerca de 4500 anos a.C., e que era principalmente constituído por uma oficina de talhe, que provavelmente era utilizada no fabrico de elementos para ferramentas agrícolas, actividade que então estava em pleno desenvolvimento. Segundo as arqueólogas responsáveis, este local seria provavelmente um pequeno povoado, sendo uma evolução dos acampamentos temporários do paleolítico, embora ainda não pudesse ser considerado como uma aldeia. Este não foi o único vestígio da época neolítica na região de Lagos, tendo igualmente sido encontrados vários menires, como o de Odiáxere.

Até à conquista romana, eram utilizadas na pesca embarcações feitas de couro, como peles para impermeabilizar, e com mastros em madeira delgada, de forma a serem fáceis de dobrar e assim não serem danificados pelo vento.ROCHA, 1910:41 Os produtos da pesca de Lagos, especialmente o atum e a sardinha, que eram exportados salgados, chegaram a ter grande fama durante as antigas civilizações, e faziam parte das trocas comerciais entre a Turdetânia e o Norte de África. O historiador Faria e Castro relatou que na sua época ainda existiam vestígios das grandes pescas que se faziam na antiguidade, especialmente as do atum, que era transportado em salmoura até Cartago, onde era muito apreciado. Para confirmar esta teoria, Faria e Castro citou vários autores antigos, como Ateneu, Plínio e Estrabão, que afirmavam ser já bastante antiga a pesca do atum na costa da Lusitânia. O historiador referiu igualmente que o transporte de peixe salgado chegou a atingir a Grécia, durante a época de Hipócrates. Um dos hábitos conhecidos dos marinheiros eram o de sacrificar um atum ao deus Neptuno, quando era muito abundante a pesca deste peixe.ROCHA, 1910:42

Durante o período anterior à época cristã, a Península Ibérica foi habitada principalmente pelo povo ibero, e invadida pelos celtas no , que acabaram por se fundir nos celtiberos. Segundo a tradição, em cerca de , foi fundado um povoado denominado de Lacóbriga na região onde se situa a actual Lagos,PAULA, 1992:21 embora a localização deste núcleo urbano não tenha sido totalmente determinada, tendo sido avançadas como hipóteses a Fonte Coberta, o Serro da Amendoeira, Paúl, Figueira da Misericórdia, e o Monte Molião, sendo este último local considerado o mais provável. A formação da cidade está ligada a uma lenda na qual um neto de Tubal, denominado de Brigo, quarto rei da Hispânia, edificou várias cidades fortificadas ao longo do seu território, que ganharam a denominação de Brigos em homenagem ao seu fundador. Esta lenda estava também relatada num manuscrito chamado de Fundação de Lagos, que fazia parte da biblioteca do Convento da Senhora da Glória, e que afirmava que Brigo, no ano da criação do mundo de 1839, do dilúvio 145 e , tinha fundado uma povoação no local posteriormente conhecido como Paúl da Abedoeira, que recebeu o nome de Lacóbriga, combinando tanto a natureza da zona como o nome do seu fundador. O padre João Baptista Carvalho estimou que a cidade de Lacóbriga tinha sido criada em , baseado na obra Euchiridion de los Tiempos, enquanto que a Encyclopedia Portuguesa Illustrada - Diccionario Universal referiu que segundo o padre Cardoso Rodrigues, Mendes da Silva e outros autores, a cidade tinha sido edificada por Brigo em O Diccionario Corographico de Francisco Cardoso de Azevedo informava que segundo algumas fontes, a cidade tinha sido criada em por Brigo, enquanto que outras apontavam os cartagineses como fundadores. Já o historiador Florião do Campo afirmou que a cidade tinha sido fundada pelos lacões. O termo Brigo foi explicada pela revista Archeologo Portuguez como tendo origem céltica, significando fortaleza. As obras Corographia do Algarve e História do Regimento de Infantaria n.º 15 avançaram o Sítio do Paul como a provável localização da antiga cidade, teoria corroborada pelo arqueólogo Estácio da Veiga, que identificou aquele local como a Lacóbriga descrita por Pompónio Mela. Com efeito, no Sítio do Paul foram encontrados vários vestígios de ocupação romana.ROCHA, 1910:15-16 Segundo o Archivo Historico de Portugal, Lacóbriga situava-se a cerca de 1500 m de distância do centro da actual cidade de Lagos, enquanto que outros autores julgaram que se teria situado no Monte Molião, uma colina a cerca de 1200 m do centro, que foi escavada por Estácio da Veiga, onde foram encontrados vestígios pré-históricos, como loiça e ossos de animais, e romanos, como um cemitério, loiça e outros objectos, e várias estruturas, incluindo uma cisterna com cerca de 4 m de profundidade.ROCHA, 1910:17-18

Os antigos geógrafos referiram a existência de duas cidades com o nome de Lacóbriga, tendo Antonino descrito um número ainda superior. Avançou-se a hipótese que a antiga Lacóbriga fosse a cidade de Lagoa, mas é pouco provável, uma vez que esta localidade fica distante tanto do oceano como do Cabo de São Vicente, enquanto que se descrevia a antiga Lacóbriga como sendo marítima, e perto do Cabo Sacro. Outra hipótese é que a antiga Lacóbriga fosse situada em Alvor, denominada de Portus Hannibalis durante o período romano. Esta teoria foi sustentada pelo geógrafo Niderndorff, que afirmou que Lacóbriga se tinha denominado anteriormente de Portus Hannibalis.

thumb|Mapa político e etnolinguístico da Península Ibérica, cerca de

Contacto com os Fenícios e domínio cartaginês

Segundo vários historiadores citados por João Pulo Rocha em 1910, os primeiros Fenícios chegaram à Península Ibérica por volta de , para procurar ouro e prata, tendo regressado alguns anos depois com uma frota maior, que chegou até ao cabo de São Vicente. Na cidade de Lagos foram encontrados vários vestígios fenícios, como cerâmicas encontradas na Rua da Barroca, datadas dos séculos VIII a , e que comprovam que Lacóbriga teve contacto com os povos do Oriente. Porém, os contactos com os povos nativos nem sempre foram amigáveis, levando a confrontos com os fenícios, motivo pelo qual terão pedido auxílio aos seus aliados Cartagineses. Estes chegaram à Península por volta de , onde se estabeleceram. Outra civilização que também teve contacto com os povos da Península Ibérica foi a grega, que estabeleceram colónias comerciais em vários pontos no litoral da península. Segundo a opinião de Plínio, o Velho e de outros historiadores da antiguidade, os contactos com estas três civilizações e depois com os celtas foram muito benéficas para os turdetanos, entre os quais se incluíam os lacobrigenses, que atingiram um ponto de desenvolvimento superior em termos culturais e de produção em relação aos outros povos lusitanos. Com efeito, a progressão das técnicas agrícolas permitiu a exportação em grandes quantidades de trigo, vinho, cera e azeite, enquanto que uma indústria piscatória desenvolvida e a existência de salinas possibilitavam a exportação de peixe. Além disso, também produziam loiça de cera, e teciam panos com desenhos geométricos, com os quais faziam roupa conhecida como sentulatas.ROCHA, 1910:18-19

Segundo o historiador Estrabão, a cidade foi conquistada pelos cartagineses, chefiados por Amílcar Barca. Segundo a lenda, quando foi conquistada tinha as manjedouras dos cavalos, as dornas e as talhas para o vinho e a água totalmente feitos em prata, o que demonstrava a riqueza da cidade, apesar de ter sofrido com várias tentativas de conquista por parte de diversos povos.ROCHA, 1910:19-20 Os antigos cronistas presumiam que a cidade foi arruinada durante o domínio cartaginês, e que foi quase totalmente destruída num sismo e consequente maremoto no .CARDOSO, 1997:32 A cidade foi reedificada num novo local pelo capitão Boodes ou Bohodes, que tinha sido enviado de Cartago para suceder a Hanno. Foram avançadas várias datas para a fundação da nova cidade, como 250 ou , tendo Pompónio Mela e Laimundo de Ortega proposto ambos a data de . No entanto, a antiga urbe, no Monte Molião, continuou a ser habitada.COUTINHO, 2008:9 A cidade conheceu um período de grande prosperidade durante o domínio cartaginês, devido à grande produção pesqueira e agrícola, captura de coral, e à grande baía que era muito procurada pelos navios por estar abrigada dos ventos dominantes de Norte e de Nordeste, tendo Bohodes criado igualmente uma importante feira, que trouxe um grande número de forasteiros à cidade.

thumb|esquerda|Vestígios da barragem romana da Fonte Coberta, em Lagos

Domínio romano

Devido às tentativas dos cartagineses para dominar a península, os habitantes celtiberos chamaram o apoio dos romanos. Iniciou-se uma série de conflitos entre os cartagineses e os romanos, conhecidos como Guerras Púnicas, que também atingiram a península. Em , a cidade de Gades (Cádis) rendeu-se a Roma, terminando desta forma a Segunda Guerra Púnica na Península Ibérica, e o domínio de Cartago na península. Porém, após a rendição de Cartago, a civilização romana iniciou uma série de campanhas militares no sentido de dominar toda a península, que demoraram cerca de duzentos anos. Em , iniciou-se a Guerra Lusitana, que opôs o poder militar de Roma às tribos lusitanas.CAPELO et al, 1994:9 A resistência aos exércitos romanos foi inicialmente liderada por Viriato, entre 147 e 139. Após a morte de Viriato, a maior parte da Lusitânia foi conquistada pelo comandante Décimo Júnio Bruto Galaico, incluindo a cidade de Lacóbriga. Viriato foi sucedido como chefe da resistência lusitana por Quinto Sertório, contra Quinto Cecílio Metelo Pio e Cneu Pompeu Magno, a partir de 80. Em 76, Lacóbriga foi cercada pelos romanos, comandados pelo cônsul Quinto Cecílio Metelo, que esperava que a cidade se rendesse devido à falta de água, uma vez que no seu perímetro só existia um poço. Sertório terá reunido um exército de dois mil cavaleiros vindos da Lusitânia e de África, que romperam o cerco e distribuíram a água que traziam aos sitiados.ARRUDA, 2007:20 Segundo o historiador Silva Lopes, que citou o padre Salgado e documentos da câmara municipal, o cônsul Metelo terá ficado embaraçado com a facilidade com que as forças de Sertório ganharam a batalha, pelo que se retirou para a zona da Andaluzia. Nessa altura, a cidade de Lacóbriga fazia parte do território controlado por Sertório, continuando a ser um importante porto comercial. Em 72, Sertório foi assassinado, embora a conquista de toda a Península Ibérica só tenha terminado a partir de 44.CAPELO et al, 1994:10