thumb|200px|Maria Teresa de Áustria: quando a gravura serve à encenação do poder

A encenação do poder político é o modo como os seus detentores exibem a natureza deste poder a quem governam, aos seus pares ou aos seus rivais. Encontram-se em sepulturas representações (pinturas e esculturas) de elementos (ornamentos ou insígnias) que mostram que em certas sociedades eram frequentemente distinguidos os indivíduos segundo um sistema hierárquico.Ver Necrópole de VarnaAs origens pré-históricas e paleoberberes dos tuaregues através da arte rupestre do Saara

Parece ser rapidamente que o princípio do estabelecimento simbólico das diferenças se transforma num exercício psicológico do poder e da autoridade dos homens e mulheres que detêm o poder político. Isto vai não somente ser visível, mas é igualmente dramatizado com uma encenação através de uma simbologia estereotipada ou não.Ver Atributos do faraó

Em função das sociedades, da conjuntura histórica, estas encenações foram sempre destinadas a impressionar, evidenciar, mistificar, aterrorizar, ou simplesmente ridicularizar os espectadores.

A encenação pode assim ter uma função heurística, ilustrativa das diferentes responsabilidades do poder segundo o ponto de vista dos indivíduos, promover o ethos da pessoa pública ou, pelo contrário, desempenhar um papel de desinformação análogo ao da propaganda ao insistir sobre o pathos. Certas encenações poderão mesmo classificar-se no âmbito da pura propaganda do poder.

Esta preocupação de lidar com a aparência, com a ajuda de técnicas próximas do teatro e do espectáculo em geral, existe em numerosos domínios do poder, e em todas as formas de poder político.

Encenação do poder político em si mesmo thumb|esquerda|Cascata do palácio Peterhof na Rússia. Toda a encenação implica um décor. O palácio é um dos elementos chave do dispositivo cénico real ou imperial. thumb|direita|Consagração real de Carlos VI de França. Certas encenações, especialmente as "entradas" e "triunfos" (reais, imperiais, pontifícios, presidenciais) serão duradouras. Outras apenas modas passageiras. O surgimento de novas tecnologias (a gravura, a imprensa, a fotografia, o cinema, a televisão e mais recentemente, a Internet) modificaram o grau de controlo que as autoridades detinham sobre a sua própria imagem, oferecendo também novos meios de a encenarem.

A encenação do poder varia segundo a sua natureza e a imagem que o governante procure dar das suas relações com os governados. O poder monárquico ampliou a figura do soberano, o poder republicano procura satisfazer as aspirações igualitárias dos cidadãos. O poder pode desempenhar um papel de proximidade ou de distância, descer à rua ou viver no segredo último dos muros de um palácio, multiplicar as suas aparições ou torná-las deliberadamente raras.

O problema da legitimidade do poder vai igualmente influenciar a sua teatralização. O poder hereditário não tem de se preocupar com convencer sobre a sua legitimação, mas de a provar,Daí as festas associadas com o nascimento de um herdeiro. Karine Périssat dá vários exemplos na sua obra, pp.51-58 enquanto que os eleitos passam por uma fase de persuasão (campanha eleitoral) no decurso da qual devem demonstrar as qualidades que os tornam aptos para governar.

Certas encenações pertencerão assim nitidamente a um ou a outro poder, por exemplo a consagração real à monarquia hereditária, a campanha eleitoral aos sistemas eleitorais. Outras manifestações serão comuns. Pode-se citar por exemplo as cerimónias que marcam o fim da Segunda Guerra Mundial, onde se viu aparecer Churchill na varanda do Palácio de Buckingham na companhia do soberano britânico e família, e o general Charles de Gaulle na varanda do Hôtel de Ville.

Monarquias thumb|direita|Luís XIV apresenta-se em traje de consagração real em 1648, numa encenação do direito divino dos reis. thumb|esquerda|Hirohito, Imperador do Japão durante o período Showa, em traje de grande sacerdote do Xintoísmo de Estado. Em certas sociedades, a encenação do poder encontra-se nos rituais. O soberano herda uma tradição mais ou menos obrigatória, regalias e papéis estereotipados que deve assumir ou executar logo que acede ao poder.Sarah Hanley, Le Lit de justice des rois de France, Paris 1991 (trad. de A. Charpentier, ISBN 2700722299) p. 21, cita quatro cerimónias onde o ritual foi elaborado na corte de França: os sepultamentos, a consagração real, a entrada real e o lit de justice

O monarca-pontífice supremo: No Antigo Egipto por exemplo, o faraó, chefe político e religioso, apresenta-se ao público através de atributos que dramatizam as suas funções e os seus poderes. A estatuária monumental insiste na diferença de natureza entre o rei e os homens sobre os quais ele reina, ilustrando a legitimidade quase divina do seu poder. O monarca-chefe de guerra: os que comandam a guerra são apresentados como heróis no cerne da acção ou triunfantes, por exemplo nos Triunfos romanos. Quando Alexandre, o Grande tomou o hábito dos persas que acabara de vencer, os seus soldados criticaram abertamente o carácter efeminado do costume persa, indigno segundo eles em relação ao papel viril que deveria exibir o chefe guerreiro dos gregos. A estatuária mostra voluntários ou heróis a cavalo (estátua equestre) e isto até uma data tardia, mesmo se os soberanos já não participassem activamente nas batalhas.La Lima, em 1759, Estátua equestre de Carlos III, Périssat p.25 O monarca-juiz ou sábio: o protótipo é Salomão, o contra-exemplo Midas e as suas orelhas de burro nas múltiplas representações da calúnia de Apeles.Jean-Michel Massaing, La calomnie de Apelle, Presse Universitaires de Strasbourg, 1990, ISBN 2868202122, p. 129: as orelhas de burro [..] referem-se certamente ao rei lendário da Frígia, o protótipo do mau juiz A história francesa guarda para São Luís uma imagem de sábio exercendo a justiça debaixo de um carvalho. O ritual do lit de justice perpetuou este aspecto da função real. O rei taumaturgo: o monarca de direito divino deve imediatamente fazer prova da legitimidade impondo as mãos sobre os doentes que é suposto curar por simples contacto. Pode aí ver-se uma forma de ordália. Mas visitar os doentes é também um dos deveres da caridade. Encontra-se este estereótipo num quadro de 1802, Bonaparte visitando as vítimas da peste de Jafa encomendado por Napoleão Bonaparte a Antoine-Jean Gros. O monarca pai: a aparição pública do soberano pode destinar-se a dar confiança aos indivíduos; é assim que Carlos IX, segundo a instigação de Catarina de Médicis, empreendeu uma volta por França durante dois anos (1564-1566),Ver :fr:Grand tour de France de Charles IX pontuado por festas, cerimónias e entradas reais. A pessoa do rei e sua companhia encarnam a autoridade benevolente que faz terminar as querelas e traz a paz.Também é assim em Romeu e Julieta, onde o Duque aparece em cena para trazer a paz civil entre os Montéquios e os Capuletos. A rainha Isabel I era comparada com Astrea, a virgem da idade de ouro (Virgílio) que faz reinar a paz e a justiça (ver :en:Histriomastix, John Marston).

Na Idade Média, os soberanos do Reino de Aragão são consagrados no decurso de uma cerimónia que encena o paraíso e os anjos com o intuito de materializar a ligação entre o monarca e DeusFrancesc Massip: « O voo cénico no drama medieval » Desde o século XV a vida pessoal do soberano tende a confundir-se com a da "coisa pública": nascimentos reais, casamentos, funerais, dão lugar a cerimónias mais ligeiras e alegres ou mais solenes onde se encontra toda a arte das autoridades civis e religiosas para materializar a relação entre o poder e os indivíduos, estes sendo actores do espectáculo e reenviando ao poder a imagem ideal que dele têm. A recusa da publicidade é daí mal vista. A grande discrição de Luís XI, que contrasta com o fausto exuberante com o qual a corte de Borgonha se encena na mesma época, alimentou durante muito tempo toda a espécie de rumores. 175px|thumb|esquerda|Esboço de encenação de consagração real.

Com o declínio do sistema feudal e a centralização do poder do Estado na Europa ocidental a partir do século XVI e inícios do século XVII, os mais poderosos elementos e participantes na encenação do poder eram os que tinham intenções em relação à expansão das suas esferas de influência a nível do governo: a nobreza, o clero, a burguesia que florescia com o comércio internacional, os cortesãos. Como os conflitos de caráter nacional e as divisões do poder eram praticamente permanentes, estas partes interessadas investiam no fortalecimento dos rituais para reforçar o seu posicionamento de autoridade e o seu estatuto ou classificação no seio dela. Em 1619, o historiógrafo real e parlamentar francês Théodore Godefroy (1580-1649) deu o título «Le cerimonial de France» à sua coleção de relatos de exibições públicas reais. Nela, publicou a relação histórica de contas e ações dos funcionários e cortesãos em rituais reais, apresentada de acordo com as prescrições de uma abrangente teoria política da hierarquia e realeza. A coleção também incorporava muitos elementos dos tradicionais protocolos jurídicos e de actos religiosos.

Há uma grande margem de manobra que permite a cada soberano forjar a sua própria imagem exposta nesses processos ritualísticos. Luís XIV, por exemplo, como Rei Sol, consolidou a teatralização muito forte e muito pessoal da figura real que serviu de modelo a todas as monarquias europeias, mesmo ao nível do "décor" tantas vezes imitado do Palácio de Versalhes. A monarquia espanhola, mais virada para as suas colónias que a monarquia francesa, que se queria impor na Europa, desenvolveu uma imagem mais sacralizada que política do poder real.Ver Périssat, K. (2002) "Lima fête ses rois: XVIème - XVIIIème siècles", Paris, L'Harmattan, ISBN 2-7475-3020-5 O clero teve um papel importante nestas cerimónias, e Napoleão, que seria ele mesmo um grande encenador, conjugou os motivos emprestados da Roma imperial com os da monarquia europeia e gestos pessoais, convencendo o Papa a consagrá-lo.

Foi em reacção aos excessos destas encenações do Antigo Regime, e em resposta às reivindicações radicais de igualdade que se estenderam por toda a Europa e Américas, que as famílias reais europeias quiseram humanizar a sua imagem aos olhos dos populares a partir da segunda metade do século XIX.

Os reis burgueses: Com a rainha Vitória do Reino Unido, Luís Filipe I de França, o Rei Cidadão, a monarquia procurou dar de si mesma uma imagem burguesa e familiar que a aproximasse do povo e daí ela devia partilhar as situações quotidianas (problemas de família), com aqueles a quem queria servir de exemplo a seguir. Assiste-se a uma abertura tímida e a uma subtil encenação da esfera privada à atenção pública. Os príncipes de opereta: paradoxalmente, mais os soberanos viam os seus poderes amenizar-se, maior era a recriação de certas encenações reactualizadas por Hollywood (Sissi imperatriz). As encenações estereotipadas da realeza (coroação de Isabel II, casamento de Carlos e Diana), retransmitidas pelas câmaras de todos os países do mundo, atraíram milhões de espectadores. Não é assim surpreendente constatar que uma das princesas mais convincentes no seu papel terá sido a actriz americana Grace Kelly, esposa de Rainier III do Mónaco. A rainha Isabel II do Reino Unido é muitas vezes citada pelo rigor extremo com o qual faz distinguir entre a sua função e a sua pessoa. Outros monarcas europeus, como o rei dos belgas Balduíno, cultivaram uma simplicidade próxima da do ideal republicano.

Repúblicas thumb|direita|Gandhi lutou pela causa da Índia contra a política do Raj Britânico.

Ideal de simplicidade