A Batalha de Balaclava foi uma batalha da Guerra da Crimeia, travada entre o Império Russo e a coligação anglo-franco-otomana, à qual se juntaria, depois da batalha, o Reino da Sardenha. Foi travada em 25 de outubro de 1854, em Balaclava, na margem do Mar Negro e foi o segundo maior confronto durante este conflito (1854-1856). O seu resultado tem sido visto ou como uma vitória pírrica dos aliados ou como um empate não decisivo no decurso da guerra.
Os aliados decidiram-se por não fazer um assalto imediato a Sebastopol e prepararam-se para um cerco prolongado - que duraria doze meses. Os britânicos, sob comando de Lord Raglan, e os franceses, sob orientação de Canrobert, posicionaram as suas tropas a sul do porto do Quersoneso: o exército francês ocupou Kamiesh na costa ocidental, e os britânicos foram para Balaclava, a sul. Todavia, esta posição forçou os britânicos a defender o flanco direito das operações de cerco aliadas, para o qual Raglan dispunha de poucas tropas. Tirando vantagem da sua exposição, o general russo Pavel Liprandi, com os seus homens, preparou-se para atacar as defesas em Balaclava e arredores, desejando destruir a cadeia de abastecimentos entre a base britânica e as linhas de cerco.
Esta batalha é famosa pela polémica que gerou entre os historiadores a famosa carga da Cavalaria Ligeira Britânica, imortalizada por Alfred Tennyson no século XIX no poema intitulado «The Charge of The Light Brigade». Alguns registos históricos indicam que a decisão de realizar esta operação militar foi tomada apressadamente e sem a devida análise da situação no terreno. Durante a carga, a Brigada Ligeira foi totalmente destruída. Discute-se do ponto de vista da história militar se o erro foi de quem deu a ordem ou de quem a executou. Sabe-se que o momento e a forma foram mal escolhidos, e com isso a culpa seria dos oficiais que deram a ordem, sendo o oficial superior Lord Raglan. Foi ordenado à Cavalaria que carregasse sem apoio da Infantaria a partir de uma zona pouco apropriada. Após uma carga da Brigada Pesada, a rivalidade entre os oficiais fez com que a Brigada Ligeira avançasse, com resultado desastroso.
As batalhas da Guerra da Crimeia, incluindo a de Balaclava, são ainda célebres por terem sido acompanhadas pelos primeiros correspondentes de guerra dos tempos modernos, uma novidade que tinha poucos anos. Entre eles destacou-se William Howard Russell. Este correspondente irlandês do The Times manteve uma postura muito crítica em relação ao modo como estavam organizadas as forças britânicas, chocando-o em particular o comportamento dos oficiais, que dispunham dos melhores luxos, enquanto os soldados viviam na mais miserável das condições.Russell escreveu ao seu diretor em Londres a pedir instruções: «Deverei contar estas coisas ou ter tento na língua?» Delane disse-lhe para contar tudo.
Antecedentes A Rússia de Catarina, a Grande (1729-1796) tinha sido geralmente pró-britânica. O seu sucessor, Paulo I (1796-1801) tendia politicamente para Bonaparte, mas não viveu muito para impor essa marca na política externa do Império. O seu filho, Alexandre I da Rússia (1801-1825) fez realinhar com brevidade a Rússia com os britânicos e este alinhamento manteve-se até ao fim das Guerras Napoleônicas.
A frustrada invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão Bonaparte em 1812 resultou numa maior preponderância dos Romanov na cena internacional. Após a morte de Alexandre I em 1825, o novo czar, o seu irmão Nicolau I (1825-1855), revelou-se um tirano, obcecado com a expansão territorial. Esta mudança conduziria a dois novos pontos de atrito na fronteira sul da Rússia, que eram a tentativa de tomar a península da Crimeia ao Império Otomano e a tentativa de desestabilizar os britânicos na Índia. Este conjunto de movimentações ficou conhecido como o "Grande Jogo" pelos britânicos e como "Torneio das Sombras" entre os russos. Seguiu-se um período de pequenos confrontos e guerras locais, que iria ter o seu auge na Primeira Guerra do Afeganistão (1839-1842). A "Fronteira Noroeste" (as terras entre o Afeganistão e o Paquistão de hoje) do Império Britânico continuariam sendo um problema por mais um século do "Grande Jogo".
A Grã-Bretanha, que se aliara à França, estava em 1854 prestes a declarar guerra ao Império Russo, que ocupara a Roménia e ameaçava o Império Otomano, tendo havido vários incidentes nesse ano. Após a retirada russa da Romênia, as forças aliadas decidiram basear-se na Crimeia para os enfrentar e tentar estancar o avanço russo na Europa Oriental e Ásia Menor.
A caminho de Sebastopol direita|250px|thumb|Foi durante o cerco de Sebastopol (aqui pintado por Franz Roubaud) que ocorreu a Batalha de Balaclava.
As frotas britânicas e francesas partiram do porto búlgaro de Varna em 5 de setembro de 1854, em direção à Baía Kalamita, na Crimeia. No dia 14 desse mês as tropas começaram o desembarque. Em quatro dias as forças aliadas tinham reunido homens de infantaria, 1,2 mil na cavalaria e 137 armas pesadas.Fletcher & Ishchenko: The Crimean War: A Clash of Empires, p. 65 A cerca de 53 km a sul da zona do desembarque, para lá dos rios Bulganak, Alma, Katcha e Belbek, ficava a base naval russa e fortaleza militar de Sebastopol, o objetivo principal dos aliados na Crimeia. O general Menshikov, ciente da presença aliada, preparou as suas tropas nas margens do rio Alma, num esforço para deter o avanço anglo-francês, mas em 20 de setembro foi severamente derrotado na Batalha de Alma, a primeira grande batalha na península da Crimeia. As notícias da derrota russa foram encaradas com incredulidade pelo czar Nicolau I em São Petersburgo - pareceria que era apenas uma questão de tempo até que Sebastopol caísse.Royle: Crimea: The Great Crimean War 1854–1856, p. 233 Mas a hesitação aliada, primeiro do comandante em chefe francês, Canrobert (que tinha sucedido ao recentemente falecido por cólera Marechal Saint-Arnaud), e depois de Lord Raglan, permitiu aos desmoralizados russos escapar do campo de batalha em relativa ordemHibbert: The Destruction of Lord Raglan, pp. 120–21. Saint-Arnaud recusou apoiar uma perseguição imediata, insistindo que as suas tropas precisavam de tempo para descansar e recuperar. Para preservar a entente cordiale e na falta de tropas suficientes, Raglan percebeu que não poderia avançar sem os franceses. No dia 22, porém, foi Raglan que atrasou o avanço das tropas, salientando que era preciso enterrar os mortos e embarcar os feridos. e a Menshikov e seu exército atingirem Sebastopol, reorganizarem-se e recuperar o moral. "É terrível pensar no que poderia ter acontecido", escreveu o vice-almirante Vladimir Kornilov, "se não tivesse acontecido este erro do inimigo".Royle: Crimea: The Great Crimean War 1854–1856, p. 236
A marcha aliada para sul recomeçou na manhã do dia 23 de setembro, mas havia ainda que definir um plano de ação: foi só então que passaram o rio Katcha à vista de Sebastopol, e os comandantes aliados discutiram as suas opções.Royle: Crimea: The Great Crimean War 1854–1856, p. 241 O plano aliado tinha previsto uma passagem do rio Belbek antes de atacar o lado norte do porto de Sebastopol, defendido pelo Forte da Estrela. Informações secretas tinham revelado que a posição era muito mais forte do que se tinha julgado à primeira vista. John Burgoyne, o engenheiro mais experiente do Exército Britânico, defendeu um ataque a Sebastopol pelo lado sul, que, de acordo com todos os relatórios, era uma posição mal entrincheirada.Hibbert: The Destruction of Lord Raglan, p. 125 Esta vista era partilhada por Saint-Arnaud que, tendo recebido as suas próprias informações secretas sobre os reforços dos russos, recusou-se a concordar com um ataque por norte. Burgoyne propôs uma marcha que exigiria aos aliados circundar a cidade a leste para atacar o porto pelo lado sul, onde as defesas eram mais fracas.Blake: The Crimean War, pp. 64–65 Raglan esteve tentado a concordar, argumentando que sempre fora essa a sua posição: sempre soubera que o problema dos reabastecimentos seria facilitado com o cerco aos portos meridionais do Quersoneso.Royle: Crimea: The Great Crimean War 1854–1856, p. 242. Os franceses estavam preocupados com os canhões do Forte da Estrela, que cobriam a foz do Belbek, o local óbvio para desembarcar armas e mantimentos para o cerco.
Em 24 de setembro Menshikov começou a retirar o seu exército de Sebastopol para Bakchi Serai e Simferopol, deixando a cargo dos almirantes Kornilov e Nakhimov a organização da guarnição de cerca de homens, sobretudo marinheiros, e preparar as defesas do porto.Fletcher & Ishchenko: The Crimean War: A Clash of Empires, p. 129. Royle indica a data de 25 de setembro. Ao passar para o interior da península da Crimeia, Menshikov não só iria manter abertas as comunicações com a Rússia, como estaria em contato com reforços de Odessa ou Kerch. Além disso, ficaria livre para manobrar no campo e ameaçar o flanco dos aliados.Blake: The Crimean War, p. 65 Enquanto Menshikov se movia para leste, o exército anglo-franco-otomano, com os britânicos à frente, continuou a sua marcha para a costa do sul da Crimeia. O calor era intenso, a água rara, e a cólera grassava, causando grandes perdas no exército, mesmo entre oficiais como o marechal Saint Arnaud. A marcha foi difícil e cheia de incidentes: em certo lugar perto da chamada "Quinta de MacKenzie", a 25 de setembro, Lord Raglan e o seu pessoal na frente da coluna britânica depararam-se com a retaguarda do Exército Imperial Russo em retirada. Com a retaguarda do seu exército em desesperada desordem, Menshikov perdeu uma oportunidade para infligir uma reversão no decurso da guerra.Fletcher & Ishchenko: The Crimean War: A Clash of Empires, p. 131. A "Quinta de Mackenzie fora outrora a casa de um almirante escocês que tinha supervisionado a construção das defesas navais de Sebastopol no final do século XVIII. No dia 26, porém, Lord Raglan chegou à vila de Kadikoi, o que lhe permitiu ver a estreita enseada de Balaclava. Nesse dia o marechal Saint Arnaud, gravemente doente, entregou o seu comando ao general Canrobert.Royle: Crimea: The Great Crimean War 1854–1856, p. 243. Foi a bordo do Berthellot a caminho de Constantinopla que Saint Arnaud faleceu de ataque cardíaco.
Deslocação dos aliados direita|250px|thumb|A Baía dos Cossacos, em Balaclava. thumb|200px|Lord Raglan. Balaclava era muito pequena para ser usada por ambos os exércitos aliados em simultâneo. Por direito seriam os franceses que deveriam ocupá-la, enquanto os britânicos se moveriam para oeste, para os portos de Kazatch e Kamiesh. Canrobert ofereceu aos britânicos a hipótese de escolha, mas, mal aconselhado pelo almirante Lyons, Lord Raglan escolheu Balaclava para a sua base, sem se aperceber que as outras duas baías ofereciam melhores condições como portos de reabastecimento.Blake: The Crimean War, p. 66. Pemberton afirma que Canrobert cavalheirescamente deixou a decisão de escolha do porto nas mãos de Raglan; Fletcher e Ishchenko descrevem Canrobert como manhoso e astuto, e alguém que sabia que Balaclava era desfavorável como base. Mais ainda, Raglan comprometeu o Exército Britânico a defender o flanco direito da operação aliada, garantindo a segurança de ambos os exércitos contra a ameaça colocada pelas forças de Menshikov a leste. A decisão de Raglan foi um grave erro, e um pelo qual o Exército Britânico pagaria um alto preço.Blake: The Crimean War, p. 66. Ao tomar Balaclava como base, os britânicos encontraram mais dificuldades do que os restantes aliados. A distância de Balaclava às linhas de cerco no lado direito dos franceses era de cerca de 9,5 km, o que se mostraria mais problemático já que o inverno estava quase a começar.