Estudos Africanos referem-se não apenas a uma disciplina, mas a todo um leque de disciplinas cujo objeto de estudo é África. Isso inclui, a “história africana”, “antropologia e sociologia africanas”, “linguística africana”, “política africana”, “filosofia africana”. HOUNTONDJI, Paulin. “Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos.” In: Revista Crítica de Ciências Sociais, 80, março, 2008: 149-160.

O campo inclui o estudo da Cultura da África, História da África (Colonização da África e Descolonização da África), Antropologia da África (Grupos étnicos da África e Demografia da África), Política da África, Economia da África (Pobreza da África), Línguas da África, e religião na África (Religiões tradicionais africanas). Dentro de um perspectiva tradicional, compreendeu-se, que os Estudos Africanos  referisse apenas à África subsariana, uma vez que considerava a  África do Norte como parte do mundo árabe e ligada desde à Antiguidade ao Ocidente pelo Mar Mediterrâneo. Entretanto a partir de uma perspectiva africana,  passou-se a analisar criticamente tal concepção, pois, essa separação esteve ligada historicamente a uma visão eurocêntrica do Continente Africano.

Perspectivas Interdisciplinar Os Estudos Africanos se caracterizam por reunir diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, que buscam compreender o continente africano em sua diversidade histórica, cultural, social e política. Trata-se de um campo interdisciplinar, que articula áreas como história, antropologia, sociologia, ciência política e estudos culturais, permitindo uma análise mais ampla e complexa das realidades africanas.MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento.

Ao longo do tempo, essas abordagens passaram por transformações importantes, especialmente em resposta a críticas ao modo como a África foi tradicionalmente estudada. Durante muito tempo, os estudos sobre o continente foram influenciados por visões eurocêntricas, ou seja, baseadas em referências e interpretações europeias. Nessas abordagens, a África era frequentemente retratada de forma simplificada, como homogênea, atrasada ou sem história própria, o que gerou distorções e apagamentos de suas múltiplas realidades.MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento.

Diante dessas limitações, surgiram novas perspectivas teóricas que buscam valorizar a África a partir de seus próprios referenciais. Uma das mais conhecidas é o afrocentrismo, que propõe colocar os povos africanos no centro da análise, reconhecendo suas experiências, saberes e produções culturais como fundamentais para a construção do conhecimento. Essa abordagem contribui para romper com visões externas e reforça a importância de compreender o continente a partir de suas próprias dinâmicas.

Outra perspectiva importante é o pós-colonialismo, que analisa os impactos do colonialismo europeu nas sociedades africanas, tanto no passado quanto no presente. Essa abordagem busca compreender como as relações de poder, dominação e resistência continuam a influenciar aspectos políticos, culturais e econômicos do continente, mesmo após os processos de independência.MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.

Relacionada a essa visão, destaca-se também a perspectiva decolonial, que procura questionar e superar as formas de conhecimento herdadas do período colonial. Os estudos decoloniais defendem a valorização de epistemologias africanas, ou seja, modos próprios de produzir e transmitir conhecimento, que muitas vezes foram marginalizados pelas tradições acadêmicas ocidentais. Nesse sentido, há um esforço em reconhecer a legitimidade de saberes locais, incluindo práticas culturais, filosóficas e históricas próprias do continente.MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento; MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.

Além dessas abordagens, o pan-africanismo também exerce influência no campo, ao enfatizar a unidade entre os povos africanos e suas diásporas. Essa perspectiva contribui para reflexões sobre identidade, pertencimento, resistência e conexões históricas entre a África e outras regiões do mundo, como o Brasil e o Caribe.

Do ponto de vista metodológico, os Estudos Africanos se destacam pela diversidade de fontes e métodos utilizados. Além de documentos escritos, são valorizadas fontes orais, como relatos, tradições e memórias coletivas, que desempenham papel fundamental na preservação da história em muitas sociedades africanas. Também ganham espaço estudos baseados em cultura material, arqueologia, linguística e produções artísticas, ampliando as possibilidades de interpretação.MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento.

Assim, as perspectivas teóricas e metodológicas dos Estudos Africanos refletem um campo em constante construção, marcado pelo esforço de produzir conhecimentos mais plurais, críticos e comprometidos com a valorização das experiências africanas, superando visões limitadas e reconhecendo a complexidade do continente.MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento; MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.

Importância dos Estudos Africanos Os Estudos Africanos tem um papel muito importante, para que as pessoas compreendam melhor a história, a cultura e as contribuições dos povos africanos. Durante muito tempo, desde o período colonial, a história da África e suas várias ciências foi contada pelos europeus, como pesquisadores que não faziam parte do continente e, muitas vezes, a interpretaram de forma incompleta ou distorcida. Nesse sentido, trazer os Estudos Africanos é de suma importância, pois os Estudos Africanos surgiram justamente para corrigir isso, colocando a África e seus povos no centro da narrativa.UNESCO. História geral da África. Paris: UNESCO, 2010. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000190249 miniaturadaimagem|Coleção História Geral da África, projeto internacional coordenado pela UNESCO. A ‘’História Geral da África’’, publicada pela UNESCO, é uma das obras mais importantes, pois reuniu vários especialistas africanos de diversas partes do mundo para que houvesse uma construção e junção de visões mais justa e completa sobre os estudos do continente africano. Logo, essa obra é importante para os Estudos Africanos, pois mostra que a África tem uma história rica e complexa, com reinos e civilizações que já existiam muito antes do contato com a Europa. UNESCO. História geral da África. Paris: UNESCO, 2010. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000190249

No Brasil, após a aprovação da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, ganhou força para que fosse obrigatório trazer o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Visto que, essa lei reconhece que entender a África é fundamental para entender o próprio Brasil, já que o Brasil é um país miscigenado, com descendentes de africanos que foram, ao longo dos séculos, trazidos para o Brasil no período colonial, na época da escravização. Conhecer essa história é uma das mais importantes formas de valorizar essas raízes e combater o preconceito. BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Brasília: Presidência da República, 2003. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm

Como defende o autor Carlos Lopes, a história da África só se completa quando os próprios africanos a contam. Por muito tempo, o continente africano foi estudado de fora, principalmente pela Europa, por vozes que não viviam aquela realidade.LOPES, Carlos. A pirâmide invertida: historiografia africana feita por africanos. Lisboa: Edições Colibri, 1995.

Subseções Subseções includem:

Estudos Afro-Americanos, uma subseção dos American studies, é por vezes combinados com estudos africanos sob o nome de "African studies" (ou Black studies).

Africanistas notáveis

Centros e projetos de estudos africanistas Centros

Em Portugal Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, CEAUP Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, CEI-IUL, Lisboa Centro de Estudos sobre África e Desinvolvimento, CEsA/CSG/ISEG, Universidade de Lisboa Instituto de Investigação Científica Tropical, IICT I. P., Lisboa

Fora de Portugal Entre outros: Afrika-Studiecentrum, Leida, Países Baixos Centre of West African Studies, Birmingham, Reino Unido Centro de Estudos Africanos, Universidade Estadual de Michigan, Estados Unidos Centro de Estudos Africanos, Universidade de Addis Ababa, Etiópia Centro de Estudos Afro-Orientais, Universidade Federal da Bahia, Brasil Instituto de Pesquisa da África, Londres, Reino Unido Instituto de Estudos Africanos (Institut für Afrikawissenschaften), Universidade de Viena, Áustria Instituto de Estudos Africanos da Academia Russa de Ciências, Moscou, Rússia Instituto de Estudos Africanos (Institute of African Studies), Legon, Universidade de Gana, Acra, Gana Institut des mondes africains, Paris, França Les Afriques dans le monde, Pessac, França Nordic Africa Institute, Uppsala, Suécia

Projetos Manuscritos de Tombuctu Silabário bamum

Revistas acadêmicas de Estudos Africanos Revista Afro-Ásia, pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia.

Ver também AEGIS (rede) Afrocentrismo Estudos etíopes Pan-africanismo

Ligações externas Centros de Estudos Africanos na Europa. . . . Centro de Estudos da África, Leiden, Holanda. . . . Connecting-Africa (serviço web). Universidade de São Paulo.

. Lista da rede de historiadores H-net de revistas de história africana. . . . Associação de Estudos Africanos da Holanda. . Recursos de Estudos Africanos da Universidade de Princeton. UNESCO mantém um grande número de projetos de estudos culturais e históricos africanos, incluindo

. UNESCO História Geral da África, em oito volumes. . Ano Internacional da Luta contra a Escravatura e sua Abolição.

Referências