Filhos da Madrugada cantam José Afonso é uma compilação de vários artistas de tributo a José Afonso, cantautor português e poeta popular com notoriedade na poesia de intervenção. O disco foi produzido por Manuel Faria, Tim e João Gil, e as sessões de gravação realizadas entre outubro de 1993 e março de 1994 nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Lisboa, num total de 44 dias de gravação mais 20 para misturas. A montagem digital e masterização foram realizadas por Mike Brown no CTS Studios em Londres.
Trata-se do primeiro grande projeto de homenagem a José Afonso passados sete anos sobre o seu falecimento e por ocasião das comemorações do vigésimo aniversário da "Revolução de 25 de Abril de 1974". Vinte bandas portuguesas, de vários quadrantes musicais, foram convidadas a criar novas roupagens dos temas da autoria de um dos maiores compositores e intérpretes da música em Portugal, com o objetivo de transmitir o legado de José Afonso às novas gerações.
Considerado um dos álbuns mais esperados em 1994, Filhos da Madrugada cantam José Afonso apresenta um estilo musical eclético e som agradável com elementos do pop, música popular, rock e punk – sem prejuízo na lírica interventiva – que revestem as novas versões trabalhadas pelas bandas portuguesas mais mediáticas no início da década de 1990. Editado em 27 de abril de 1994, pela BMG Ariola, tornou-se imediatamente um enorme sucesso comercial e crítico, recebendo a certificação de disco de platina no próprio dia do lançamento.
No dia 30 de junho de 1994 – assinalando também o ano de Lisboa Capital Europeia da Cultura – as bandas envolvidas, conjuntamente com Sérgio Godinho, participaram num gigantesco e memorável espetáculo no antigo Estádio José Alvalade, sendo o maior concerto de sempre em Portugal só com artistas nacionais.
Antecedentes e desenvolvimento A ideia conjunta dos músicos Manuel Faria, Tim e João Gil em abraçar um projeto que homenageasse José Afonso pelas novas gerações, obteve grande aceitação. Após dois anos de planeamento, conseguiram o apoio da multinacional BMG e da organização de Lisboa 94–Capital Europeia da Cultura.thumb|right|175px|Monumento de José Afonso em Grândola. Elaboraram um projeto ambicioso, delicado e de extrema importância cultural, reunindo 121 músicos repartidos por 20 bandas. O processo de escolha das músicas não foi igual para todos, como recordou Manuel Faria: “Demos uma coleção completa de toda a discografia do Zeca a todos para ouvirem, depois decidimos que o 'Venham Mais Cinco' ia para os Tubarões, porque havia muitas bandas que a queriam, e que a 'Grândola' seria feita por todos. Sugerimos a algumas bandas músicas, mas houve outras que escolheram”, concluiu. O disco marcou a estreia discográfica dos Vozes da Rádio e também dos Frei Fado d'El Rei que, juntamente com os Essa Entente, foram selecionados em concurso destinado a recolher participações de bandas menos conhecidas. A edição contemplou os três formatos existentes na época: duplo disco compacto, dupla cassete e duplo disco de vinil. Foi também editado um disco compacto interativo, formato inovador na época, com informações sobre o projeto, entrevistas com o produtor Manuel Faria e com as bandas participantes, letras das vinte canções e ainda a discografia completa de José Afonso. A edição contemplou também cinco videoclips repartidos pelos Sitiados, Madredeus, Delfins, Resistência e Xutos & Pontapés com imagens captadas no decorrer das gravações áudio nos estúdios da Valentim de Carvalho.
No dia 30 de junho, o álbum foi apresentado ao vivo perante uma multidão que encheu o Estádio José Alvalade por ocasião de Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura. O concerto intitulado "Filhos da Madrugada ao Vivo" foi gravado pela estação de televisão RTP, no entanto, a exibição sofreu constantes adiamentos devido a divergências e atrasos com as autorizações dos músicos e agentes envolvidos. Posteriormente algumas bandas recuperaram a sua prestação no concerto para registo em nome próprio, caso dos Sétima Legião com a canção "Cantigas do Maio", como faixa extra no álbum de vídeo Memória de 2012.
Sobre o homenageado José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, Zeca para amigos, foi um compositor notável, que soube conciliar a música popular e os temas tradicionais com a palavra de protesto social. Foi um símbolo da resistência democrática contra a ditadura salazarista, regime político que vigorou em Portugal durante 41 anos sem interrupção. Desse tempo fica o registo da arte da canção e da poesia, a coragem dos cantores perseguidos, aprisionados, com os discos censurados e os espetáculos proibidos.
O poeta da liberdade, José Afonso, faleceu em Setúbal no dia 23 de fevereiro de 1987, com 57 anos, vítima de doença prolongada. Deixou o legado de 22 discos que revestem um artista da música, da poesia e da voz, que pôs a sua arte ao serviço da cidadania de uma maneira desprendida e desinteressada de forma a contribuir para uma sociedade sem muros nem ameias e sem exploradores nem explorados – "Em cada esquina um amigo/ Em cada rosto igualdade" – perpetuou o autor. Sete anos depois da sua morte, é revelador do génio, da força e da influência de José Afonso, que a sua arte continue a embalar velhas e a despertar novas gerações portuguesas e não só, perpetuando-se e regenerando-se, sem que se apague a chama que continua a dar vida a noites e dias inteiros. José Afonso acreditava que a música tinha um papel transformador, que era essa a sua função enquanto músico. Mesmo depois do 25 de Abril, quando percebeu que a sociedade não seguia o rumo que ele teria querido, nunca desistiu. Tanto em 1970 como em 1994, a música é detonada pelo seu tempo e pode fazer muitos estragos. As palavras não são armas mas podem ser usadas como tal. Portugal castigou-o como professor, esgotou-o como músico, maltratou-o como homem. A tudo resistiu, porque era assim que via a vida: como um ato de resistência, uma revolta contra o vazio.
Letras e temas Bandas como os UHF, Xutos & Pontapés, GNR, Censurados ou Mão Morta imprimiram uma visão rock aos temas de José Afonso desde o heavy mais intenso ao folk mais suave. Outros, porém, desmarcaram-se dos estilos convencionais: Vozes da Rádio numa abordagem a cappella e Opus Ensemble em versão instrumental. No entanto, não faltam os que mantêm fidelidade ao trovador da liberdade, caso dos Sitiados, ou dos Tubarões, com incursões pela música popular portuguesa e raízes tradicionais moçambicanas, respetivamente. São algumas canções que, pela arte da escrita, fintaram a censura. O disco abre com o emblemático "Maio Maduro Maio", um belíssimo tema de inspiração popular trabalhado e interpretado pelos Madredeus. Foi lançado originalmente no álbum Cantigas do Maio (1971), e marcou o momento de viragem no percurso de José Afonso para um acompanhamento instrumental mais enriquecido e elaborado. É o disco que mais temas fornece. Segue-se a canção "Coro dos Tribunais", entregue aos GNR. O tema foi lançado no pós 25 de Abril numa nova fase na carreira do poeta de intervenção, então, caracterizada por ritmos africanos e com textos já não sujeitos à revisão da censura prévia. As faixas "A Formiga no Carreiro", "Venham Mais Cinco" e "Os Índios da Meia Praia" interpretadas pelos Sitiados, Tubarões e Vozes da Rádio, respetivamente, apresentam arranjos fiéis à linhagem musical de José Afonso. O primeiro é uma metáfora para novos rumos, de quem faz a diferença, fala daqueles que corajosamente seguem o caminho em sentido contrário do estabelecido pelo poder político autoritário, enquanto o segundo é uma forte mensagem de contestação social, e apelo à unidade, como forma de festejar a libertação do país. Já o terceiro fala de um bairro auto construído por famílias de pescadores que se instalaram na aldeia da Meia Praia, em Lagos, na década de 1960, à procura de trabalho. O aspeto artesanal das casas valeu-lhes a alcunha de índios, os Índios da Meia Praia. Peste & Sida, Ritual Tejo e Delfins optaram pela roupagem rock, respetivamente, nas canções "O Homem da Gaita" (prestígio recuperado na nova ordem militar após o 25 de Abril), "Canto Moço" (unidade na luta para mudar o regime na procura de um libertador e da libertação) e "Vejam Bem" (força do pensamento como vetor de mudança, sem esquecer o desamparo social de quem ousava opor-se ao regime). Por outro lado, os Diva apresentaram um folk perfumado na "Canção de Embalar" (alusão à estrela d' Alva, saudada pelas crianças, depois do retiro dos adultos). O primeiro disco fecha com o instrumental "Era um Redondo Vocábulo", pelo quarteto Opus Ensemble, um tema fabuloso escrito e composto, em 1973, durante a estada de José Afonso na prisão de Caxias.
O alinhamento do segundo disco inicia-se com o tema "Coro da Primavera", pelos Xutos e Pontapés, uma mensagem surrealista de afirmação do ideal da liberdade que resistiu ao longo dos anos a todas as tentativas de lubrificação. A sonoridade rock está igualmente presente nas versões dos Mão Morta, Censurados e UHF que, respetivamente, intensificaram as canções "O Avô Cavernoso" (alegoria ao ditador Salazar e ao cardeal Cerejeira), "O que Faz Falta" (incentivo à coesão para conseguir resistir) e "A Morte Saiu à Rua" (homenagem ao escultor José Dias Coelho assassinado pela PIDE em 1961). A componente interventiva continua presente na lírica das canções, como é notório no tema surrealista "Senhor Arcanjo", na versão dos Essa Entente, e em "Traz Outro Amigo Também" na voz singular de Viviane dos Entre Aspas. Esta canção exprime o mais persuasivo e generoso companheirismo entre homens e mulheres na luta pela democracia. "Grândola Vila Morena" – aclamado hino intemporal da liberdade – é a faixa que fecha o álbum e é interpretado por elementos das várias bandas acompanhados pelo Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras. Foi uma das canções-senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) que pôs termo, em 1974, aos quarenta e um anos ininterruptos de ditadura em Portugal.
Lista de faixas O duplo disco compacto é composto por 21 faixas em versão padrão da autoria de José Afonso, com exceção de "Coro dos Tribunais" que é uma adaptação de um texto de Bertolt Brecht com música do homenageado, e de "Ronda dos Mafarricos" com letra de António Quadros. De salientar a estreia discográfica dos Vozes da Rádio e dos Frei Fado d'El Rei.
Desempenho comercial Filhos da Madrugada cantam José Afonso recebeu a certificação de disco de platina no próprio dia do lançamento, atingindo posteriormente a dupla platina. Foi também editado em Espanha mas não ocupou posição relevante na tabela de vendas.
Créditos A elaboração de Filhos da Madrugada cantam José Afonso foi realizada em 44 dias de gravação, mais 20 para misturas, e envolveu 121 músicos repartidos por vinte bandas. Lista-se abaixo os profissionais envolvidos de acordo com o encarte do disco compacto.
Produção Manuel Faria, Tim e João Gil – produção Mariana Matos – assistente de produção Mike Brown – Masterização e montagem digital Henrique Cayatte – conceção da capa Paulo Costa Pinto – fotografia capa Joaquim Lobo – fotografia contracapa
Músicos Madredeus Teresa Salgueiro – vocal Pedro A. Magalhães – guitarra José Peixoto – guitarra Rodrigo Leão – teclas Francisco Ribeiro – violoncelo Gabriel Gomes – acordeãoGNR Rui Reininho – vocal Zézé Garcia – guitarra elétrica Jorge Romão – baixo elétrico Telmo Marques – teclas Tóli César Machado – bateriaSitiados João Aguardela – vocal Ani Fonseca – guitarra elétrica João Marques – baixo elétrico Manuel Faria – teclas Sandra Baptista – acordeão Jorge Quadros – bateriaVozes da Rádio António Miguel – vocal Jorge Prendas – vocal Mário Alves – vocal Nuno Aragão – vocal Ricardo Fráguas – vocal Rui Vilhena – vocal Tubarões Ildo Lobo – vocal Israel Silva – guitarra elétrica Mário Bettencourt – baixo elétrico José Couto – teclas Domingos Fernandes – saxofone Alcides Gonçalves – bateriaPeste & Sida Zé Vilão – vocal, guitarra