miniaturadaimagem|Ilustração sobre preservação digital de Jørgen Stamp Preservação digital é o conjunto de atividades ou processos responsáveis por garantir o acesso contínuo a longo-prazo à informação e a todo patrimônio cultural existente em formatos digitais. A preservação digital consiste na capacidade de garantir que a informação digital permaneça acessível e com qualidades de autenticidade suficientes para que possa ser interpretada no futuro ao se recorrer a uma plataforma tecnológica diferente da utilizada no momento da sua criação.FERREIRA, Miguel. Introdução à preservação digital: conceitos, estratégias e actuais consensos. Guimarães: Escola de Engenharia da Universidade do Minho, 2006. p. 20. Disponível em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5820/1/livro.pdf. Acesso em: 26 jan. 2013
Contexto de surgimento
A necessidade de preservação da cultura é um preocupação que remete até mesmo à oralidade. Walter J. Ong mostra em seu livro Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra, que na oralidade primária havia milhares de linguagens faladas e muitas se perderam, por não serem registradas e não produzirem literatura. Dentre 3 mil línguas faladas apenas cerca de 78 tinham literatura.
Desde a Antiguidade, bibliotecas, arquivos e museus atuam como lugares responsáveis pela preservação da cultura através da guarda de objetos com valor histórico ou científico. O suporte de preservação do muitas vezes foi o papiro ou pergaminho, que na Idade Moderna foram paulatinamente substituídos pelo livro impresso através da prensa de tipo móveis surgida no século XV com a invenção atribuída a Johannes Gutenberg. O contexto de produção da informação e de sua comunicação, portanto, se manteve razoavelmente estável ao longo dos séculos. Com a utilização dos meios digitais e da Web para produção, armazenamento, disponibilização e acesso à informação esse cenário mudou radicalmente. O volume de informação que nasce digital e que vem sendo produzido tem alcançado patamares muito elevados e reforça a importância da preservação digital. No universo digital estão importantes informações sobre as mudanças científicas, tecnológicas e culturais da humanidade. Corroborando com esse ponto de vista, Walter Ong afirma que o ser humano depende da cultura escrita, pois ela guarda a memória coletiva construída ao longo dos séculos. Esse acúmulo de saber é que permite que os diferentes ramos do saber se desenvolvam. Portanto, no contexto de produção de conhecimento são necessárias medidas sistemáticas para evitar perda de informações e gastos na tentativa de recuperá-las.
Surge o conceito de ciberespaço como o novo local onde são criadas, usadas e armazenadas as informações. Pierre Lévy já afirmava no fim do século XX que o ciberespaço seria "o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do próximo século"LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. e, por isso, deve, também, poder garantir a permanência dos conteúdos relevantes criados para as futuras gerações. Para tanto é necessária a adoção de parâmetros que determinem quais informações devem ser preservadas e como as instituições responsáveis devem realizar essa tarefa. A preocupação com a preservação digital é fundamental para as perspectivas futuras da sociedade, das pessoas e das instituições.
É recorrente o uso de bibliotecas digitais e repositórios digitais para realização de tarefas de preservação do conhecimento em meio digital, como pode ser visto na literatura da área de Ciência da Informação.MÁRDERO ARELLANO, Miguel Angel. Preservação de documentos digitais. Ciência da Informação, Brasília, v.33, n.2, mai./ago. 2004. Disponível em:<http://revista.ibict.br/ciinf/index.php/ciinf/article/view/305 >. Acesso em: 27 jan. 2013.ARELLANO, Miguel A. M.; ANDRADE, Ricardo Sodré. Preservação digital e os profissionais da informação. DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.7, n.5, out. 2006.Disponível em:<http://www.dgz.org.br/out06/Art_05.htm >. Acesso em: 27 jan. 2013. Pessoas e instituições ao adotar práticas e políticas efetivas de preservação digital buscam evitar uma amnésia digital coletiva dos documentos produzidos, pois os objetos digitais têm uma tendência inata a serem facilmente perdidos. Por outro lado, os suportes de armazenamento magnéticos e óticos desses materiais também são efêmeros "e sujeitos a danos e perdas de dados". Esses aspectos, cada vez mais evidentes, causam a sensação de que haverá "uma perda da memória coletiva na digital".
Fundamentos
Avaliação A avaliação documental ou seleção refere-se ao processo de identificação de documentos e outros materiais a serem preservados, determinando seu valor permanente. Vários fatores geralmente são considerados antes de tomar essa decisão. É um processo delicado e importante porque os documentos selecionados moldarão a compreensão dos pesquisadores sobre aquele fundo. A sequência de procedimentos para a avaliação documental para a preservação permanente é descrita no Cadeia de Preservação (CP) criado pelo projeto InterPARES 2.
A avaliação documental é realizada em todos os materiais arquivísticos, não apenas os digitais. Contudo, observa-se que é possível reter mais documentos digitais do que analógicos, principalmente devido a uma combinação entre o custo decrescente no armazenamento de dados e a utilização de ferramentas em documentos de baixa densidade de informação.
Frequentemente, as bibliotecas e, em menor medida, os arquivos, recebem os documentos em vários formatos digitais ou analógicos. Essas instituições selecionam o formato que consideram ter maior potencial para preservação do conteúdo a longo prazo. Nesse sentido, a Biblioteca do Congresso criou um conjunto de formatos recomendados para preservação a longo prazo.
Identificação esquerda|miniaturadaimagem|Tecnologias de armazenamento removível Na preservação digital e gerenciamento de coleção, a descoberta e identificação de objetos é auxiliada pelo uso de identificadores e metadados descritivos precisos. Um identificador é um rótulo exclusivo usado para fazer referência a um objeto ou registro. Geralmente ele é um número ou sequência de números e letras. Como um elemento crucial que contém metadados a serem incluídos em um banco de dados ou inventário, ele é usado em conjunto com outros metadados descritivos para diferenciar objetos e suas várias instanciações.Greenberg, Jane. "Understanding Metadata and Metadata Schemes ." Cataloging & Classification Quarterly 40.3-4 (2005): 17-36. National Information Standards Organization.
Metadados descritivos referem-se a informações sobre o conteúdo de um objeto, como título, criador, assunto, data e outros elementos. A escolha dos elementos usados para descrever um objeto é facilitada pelo uso de um esquema de metadados. O amplo uso de metadados descritivos sobre um objeto digital ajuda a minimizar os riscos dele se tornar posteriormente inacessível.
Outra forma comum de identificação de um arquivo é o seu nome. A implementação de um protocolo de nomenclatura de arquivos é essencial para manter a consistência e a recuperação eficiente de objetos dentro de uma coleção. Esse recurso é especialmente aplicável durante a digitalização de mídia analógica. Usar uma convenção de nomenclatura de arquivo, como o formato 8.3 ou o padrão warez, garante a compatibilidade com outros sistemas e facilita a migração de dados. Os nomes dos arquivos, geralmente determinados pelo tamanho e escopo de uma determinada coleção, podem seguir parâmetro descritivo (contendo palavras e números descritivos) ou não-descritivo (muitas vezes números gerados aleatoriamente)."Managing" . Jisc Digital Media. 08 Oct. 2014.
Integridade A integridade de dados é a pedra angular da preservação digital. Ela refere-se à garantia de que os dados estão "completos e inalterados em todos os seus aspectos essenciais". Um programa projetado para manter a integridade visa "garantir que os dados sejam registrados exatamente como pretendido e, após sua recuperação, garantir que os dados sejam os mesmos de quando foram originalmente gravados"."Integrity". Glossary. Consortium of European Social Science Data Archives (CESSDA). cessda.net. Retrieved 2016-11-02.
Fixidez A fixidez do arquivo é a propriedade de um arquivo digital ser fixo ou inalterado. A verificação da fixidez do arquivo é o processo de validação que assegura que um arquivo não foi modificado ou alterado em relação ao estado anterior.
Caracterização A caracterização de materiais digitais é a identificação e descrição do que é um arquivo e de suas características técnicas definidoras muitas vezes capturadas por metadados técnicos, que registram seus atributos técnicos como ambiente de criação ou produção.Testing Software Tools of Potential Interest for Digital Preservation Activities at the National Library of Australia
Sustentabilidade A sustentabilidade digital abrange uma série de questões e preocupações que contribuem para a longevidade da informação digital.Bradley, K. (Summer 2007). Defining digital sustainability. Library Trends v. 56 no 1 p. 148-163. Ao contrário das estratégias tradicionais, temporárias e de soluções mais permanentes, a sustentabilidade digital implica um processo mais ativo e contínuo. A sustentabilidade digital se concentra menos na solução e tecnologia e mais na construção de uma infraestrutura e abordagem que seja flexível e que tenha ênfase na interoperabilidade, manutenção e desenvolvimento contínuos.Sustainability of Digital Resources. (2008). TASI: Technical Advisory Service for Images. A sustentabilidade digital tem a preocupação de incorporar atividades que facilitarão o acesso e a disponibilidade dos documentos no futuro.Towards a Theory of Digital Preservation. (2008). International Journal of Digital Curation Electronic Archives Preservation Policy
Capacidade de renderização A capacidade de renderização se refere à disponibilização contínua para usar e acessar um objeto digital, assim como a manutenção de suas propriedades inerentes significativas.
Obsolescência do formato Embora o uso de formatos de arquivo varie entre as instituições arquivistas, há certo consenso que os formatos de arquivo escolhidos devem ser "abertos, padronizados, não proprietários e bem estabelecidos" para permitir o arquivamento a longo prazo. Os fatores que devem ser levados em consideração ao selecionar formatos de arquivo sustentáveis incluem: divulgação, adoção, transparência, auto documentação, dependências externas, impacto de patentes e mecanismos de proteção técnica. Outras considerações para a seleção de formatos de arquivo sustentáveis incluem "longevidade e maturidade do formato, utilização em comunidades profissionais relevantes, padrões de informação incorporados e acessibilidade de longo prazo de qualquer software necessário para sua visualização". Por exemplo, o Smithsonian Institution Archives considera os TIFFs não compactados como "um bom formato de preservação para imagens estáticas digitais e digitalizadas devido à sua maturidade, ampla aceitação em várias comunidades e documentação completa".
Autenticidade Os arquivos estão preocupados em manter registros analógicos ou digitais como representações confiáveis do documento que foi originalmente recebido. Autenticidade é definida como "a confiabilidade de um registro enquanto um registro", isto é, a sua capacidade de manter-se livre adulteração ou corrupção de dados. Autenticidade não deve ser confundida com exatidão.
Metadados de preservação