O Continente é a primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho Érico Veríssimo, publicada em Porto Alegre em 1949. Composta por dois volumes (ISBN 978-85-359-0559-5 e 978-85-359-0562-5, ed. Companhia das Letras), narra a formação do Rio Grande do Sul desde 1745, com a chegada dos primeiros colonos ao Continente de São Pedro e a destruição das Missões Jesuíticas, até a Revolução Federalista de 1893–1895, através da saga das famílias Terra, Cambará e Amaral na cidade fictícia de Santa Fé. O crítico Antonio Candido a descreveu como "um dos grandes romances da literatura brasileira".COMPANHIA DAS LETRAS. O Continente — vol. 2. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Contexto de criação

A ideia de narrar a história do Rio Grande do Sul por meio de uma saga familiar remonta a 1939, quando Érico Veríssimo registrava em suas notas o desejo de escrever um "massudo romance cíclico" com o título provisório de Caravana.SCRIBD. A origem do projeto de O Tempo e o Vento, p. 3. O projeto foi adiado pela iminência da Segunda Guerra Mundial, que o levou a escrever primeiro Saga (1940). Retomado em 1947, a escrita de O Continente durou dois anos de pesquisa nos registros das Missões Jesuíticas, nas crônicas da Revolução Farroupilha e da Revolução Federalista e na documentação sobre a formação das cidades gaúchas. A cidade fictícia de Santa Fé, palco de toda a saga, foi modelada com base em Cruz Alta, cidade natal de Érico, e em outras pequenas cidades da Campanha gaúcha.GUIA DO ESTUDANTE. O Tempo e o Vento — análise da obra de Érico Veríssimo. Abril, 2012.

A obra foi também marcada pela história pessoal do autor. Érico narra em suas memórias (Solo de Clarineta) a separação traumática dos pais na adolescência: o pai abandonara a família para viver nos bares de Cruz Alta, enquanto a mãe trabalhava como costureira para sustentar os filhos. Essa experiência tornou-se a matriz das grandes personagens femininas da trilogia: Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria, mulheres que sustentam famílias inteiras enquanto os homens se perdem em guerras, vícios e ambições.UFRGS — LUME. A liberdade de escrever em Erico Verissimo, p. 3. Para Regina Zilberman, essa repetição matriarcal não é acidental: é o argumento central da obra.ZILBERMAN, Regina. "O Tempo e o Vento: história, mito, literatura." Letras de Hoje (PUCRS), set. 1986, p. 84.

Estrutura e volumes

O Continente foi publicado originalmente em um único volume em 1949, mas circula atualmente em dois volumes na edição da Companhia das Letras (2004). O Volume 1 (416 páginas) contém os capítulos A Fonte, Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo, além das primeiras seções intercaladas de O Sobrado; o Volume 2 (440 páginas) contém A Teiniaguá, A Guerra, Ismália Caré e as seções finais de O Sobrado, que formam o clímax de toda a narrativa.ACERVO DIGITAL MPF. O Continente — v. 1 e 2. Companhia das Letras, 2013. ISBN 9788535923575.

A inovação formal central de O Continente é o zigue-zague entre passado e presente. Sete longas narrativas em ordem cronológica, cada uma quase um romance autônomo, são intercaladas pelos fragmentos de O Sobrado, a narrativa ambientada no presente da história (1895) que funciona simultaneamente como moldura e como clímax. A amplitude desse zigue-zague vai diminuindo conforme o passado narrado se aproxima do presente, até que ambos se fundem no cerco ao Sobrado. Esse dispositivo não é apenas formal: é a tese filosófica da obra materializada em arquitetura narrativa.O livro do mês, por Sergius Gonzaga

Volume 1

A Fonte

A história começa em 1745. Pe. Alonso, jesuíta espanhol nascido em Pamplona, vive uma existência quase idílica nos Sete Povos das Missões e procura entender um sonho perturbador recorrente. Ao conversar com seu confessor, vêm à tona memórias dolorosas de uma juventude dissoluta: o padre havia sido amante de uma mulher casada e planejara matar o marido. Ao se aproximar da casa com um punhal, descobriu que o homem já havia morrido, mas carregou para sempre o peso da culpa pela intenção. Tornou-se padre missionário para se redimir e guardou o punhal como lembrete permanente.

Certa tarde, chega às Missões uma índia grávida em trabalho de parto. Os jesuítas não conseguem salvar sua vida, mas o filho nasce saudável. O menino, mestiço de índia com branco, é batizado Pedro e Pe. Alonso torna-se seu padrinho e educador. Pedro cresce excepcionalmente talentoso, mas tem visões recorrentes da Virgem Maria, que identifica com a mãe morta.

A vida idílica das Missões é destruída pelo Tratado de Madrid: as terras que pertenciam à Espanha passam para a Coroa Portuguesa, e o governo exige que índios e jesuítas se transfiram. Os índios convertidos se revoltam sob o comando de Sepé Tiaraju, mas sucumbem. Pedro prevê a morte de Tiaraju, que se concretiza. Quando as forças portuguesas se aproximam, os jesuítas e índios incendeiam as construções. Pedro toma o punhal de Pe. Alonso e desaparece, para reaparecer adulto no capítulo seguinte.

Ana Terra

Ana Terra é filha de Maneco Terra e Henriqueta, colonos paulistas estabelecidos na região do Rio Pardo. É proibida pelo pai de se relacionar com Pedro Missioneiro, o mestiço das Missões que aparece em sua vida como forasteiro sem passado conhecido. Os dois têm um filho. Quando o pai descobre a gravidez, manda os irmãos matarem Pedro.

Logo depois, castelhanos invadem a fazenda, matam Maneco Terra e o irmão de Ana e a violentam. Ana consegue esconder o filho recém-nascido, a cunhada e a sobrinha. Parte sozinha pelos campos do sul em busca de um recomeço e chega a Santa Fé, onde toda a história de O Tempo e o Vento se desdobrará pelas gerações seguintes. Ana Terra é o capítulo mais emocionalmente denso de O Continente: nele se estabelece o arquétipo feminino que atravessará toda a trilogia, a mulher que suporta, resiste e sustenta enquanto o mundo ao seu redor desmorona.

Um Certo Capitão Rodrigo

O capitão Rodrigo Cambará chega intempestivamente a Santa Fé, aventureiro destemido e gaúcho arquetípico, sem dono e sem destino fixo. Faz de imediato amigos e inimigos. O Cel. Ricardo Amaral Neto, mandachuva despótico da cidade, convoca-o e exige que se retire. Rodrigo recusa e permanece, meio por gosto, meio por teimosia.

Num dia de finados, vê Bibiana Terra visitando o túmulo da avó Ana e apaixona-se. Bibiana, herdeira da desconfiança feminina da avó, resistia ao avanço de Bento Amaral, filho do Coronel. A situação culmina num duelo de esgrima crioula: Rodrigo vence, mas Bento lança mão de um revólver escondido e o fere gravemente. Rodrigo é acolhido na casa de Pedro Terra e se recupera. O Coronel Amaral, envergonhado pela covardia do filho, promete deixá-lo em paz. Bibiana, impressionada pela coragem do capitão, aceita casar-se com ele.

Rodrigo abre uma venda com Juvenal Terra, mas seu gênio não se acomoda à vida pacata: começa a beber, jogar e trair. Bibiana suporta estoicamente. Quando estoura a Revolução Farroupilha, Rodrigo parte para se juntar às tropas de Bento Gonçalves. Volta com um batalhão para tomar Santa Fé, lidera o ataque ao casarão do Coronel Amaral e é mortalmente ferido, morrendo como viveu: em campo aberto, de frente para o inimigo.

Volume 2

A Teiniaguá

A Teiniaguá acompanha Bolívar Cambará, filho do Capitão Rodrigo e de Bibiana, e sua obsessão pela índia Teiniaguá, figura ligada à lenda da Salamanca do Jarau, um dos mitos fundadores da tradição oral gaúcha. Bolívar, herdeiro do temperamento irrequieto do pai mas sem sua grandeza épica, deixa-se consumir por uma paixão que oscila entre o desejo carnal e o fascínio sobrenatural. É o capítulo que mergulha mais fundo no universo mítico e folclórico rio-grandense, onde Érico aproxima a narrativa realista do registro da lenda, criando uma tensão entre o histórico e o sobrenatural que não reaparece nos demais capítulos com a mesma intensidade. A Teiniaguá funciona também como espelho invertido do Capitão Rodrigo: onde o pai conquistava o mundo com bravura, o filho se perde numa obsessão que o diminui.

A Guerra

O título carrega uma dupla referência. A primeira é à Guerra do Paraguai, que causa profunda decadência em Santa Fé, de alto custo humano e material. A segunda é à guerra doméstica instaurada no Sobrado após a morte de Bolívar: sua mãe Bibiana e sua viúva Luzia, que já se detestavam em vida do marido, travam uma batalha incessante pelo domínio da casa e pela criação do neto Licurgo. Carl Winter, o médico alemão da família, descreve a situação com ironia clínica como uma carreira entre as duas, apostando em quem sobreviverá. Bibiana sintetiza o conflito em diálogo memorável: "Ficamos com nossa guerra miudinha, dia a dia, hora a hora...".VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Volume II, p. 538.

Ismália Caré

Ismália Caré é a última das grandes narrativas inteiriças de O Continente e o elo entre todos os capítulos anteriores e o clímax de O Sobrado.VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 559-657. Luzia morreu, deixando o controle do Sobrado à odiada sogra Bibiana. Licurgo já é homem formado, prestes a casar com Alice, filha de Florêncio. Por influência de Toríbio Rezende, funda um clube republicano em Santa Fé e adere ao abolicionismo, libertando seus escravos: "O convívio com Toríbio Rezende, a leitura dos artigos que Júlio de Castilhos publicava na imprensa... tudo isso tinha feito Licurgo Cambará um republicano e um abolicionista."VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 570-571. O título faz referência à amante que Licurgo mantinha antes do casamento, que, curiosamente, só aparece em pessoa ao final da narrativa, apesar de mencionada a todo momento.VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento — O Continente. São Paulo: Editora Globo, 1995. Tomo II, p. 640.

O Sobrado

O Sobrado é a narrativa que envolve e atravessa toda a estrutura de O Continente. Diferente de todos os outros capítulos, narrados em ordem cronológica, ela é fragmentada e interposta entre os demais em numerações separadas, criando o zigue-zague temporal que define a identidade formal da obra. A narrativa se passa em 1895: Licurgo Cambará, intendente de Santa Fé, está sitiado no Sobrado pelas forças dos maragatos, comandados pelos descendentes da família Amaral. Dentro da casa, os membros da família e seus capangas enfrentam graves necessidades de água, comida e cuidados médicos. A tensão é continuamente adiada pelas longas narrativas do passado intercaladas, que, à medida que avançam no tempo, revelam como se chegou até este cerco. Quando os dois planos temporais finalmente se fundem, o resultado é o clímax de toda a primeira parte da trilogia.

Personagens