Luiz Fernando Carvalho (Rio de Janeiro, 28 de julho de 1960) é um diretor de cinema e televisão, roteirista, produtor e montador brasileiro, conhecido por trabalhos com forte relação com a literatura e que representam uma renovação para a estética do audiovisual brasileiro. O diretor já levou para as telas obras de Ariano Suassuna, Raduan Nassar, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Roland Barthes, Clarice Lispector, Milton Hatoum, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre outros.
Alguns críticos aproximam as realizações de Luiz Fernando Carvalho ao movimento do Cinema Novo brasileiro e a diretores ícones da história do cinema: Luchino Visconti e Andrei Tarkovski. A experimentação visual e de linguagem é uma das características de sua obra, bem como a investigação da multiplicidade da identidade cultural do Brasil. Constituem elementos da poética do diretor: o estilo barroco de sobreposições e cruzamentos entre gêneros narrativos, a relação com a instância do Tempo, os símbolos arquetípicos da Terra e a reflexão sobre a linguagem do melodrama social e familiar.
Os trabalhos com assinatura do cineasta foram sucesso tanto de crítica quanto de público. Dirigiu o filme Lavoura Arcaica (2001), baseado no romance homônimo de Raduan Nassar, apontado pelo crítico Jean-Philippe Tessé, na revista francesa Cahiers du Cinéma, como "uma promessa fundadora de renovação, de uma palpitação inédita no cinema brasileiro desde Glauber Rocha" e ganhou mais de 50 prêmios nacionais e internacionais. As novelas Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996), de autoria de Benedito Ruy Barbosa e com direção de Luiz Fernando Carvalho, são reconhecidas como marcos para a teledramaturgia brasileira e figuram entre as maiores audiências da década de 1990.
Na televisão, as obras do diretor se contrastam: do pop do design dos anos 1960 na série Correio Feminino (2013) ao rigor clássico da minissérie Os Maias (2001), das referências urbanas da periferia na minissérie Suburbia (2012) ao lúdico da novela Meu Pedacinho de Chão (2014), da pesquisa estética do Sertão na novela Velho Chico (2016) ao conto de fadas brasileiro da minissérie Hoje é Dia de Maria (2005) e ao universo realista da tragédia familiar Dois Irmãos (2017).
O processo de realização do diretor é notório por identificar novos talentos em todo o país e formar atores, revelando nomes que se tornaram astros da dramaturgia, como Leticia Sabatella, Eliane Giardini, Bruna Linzmeyer, Johnny Massaro, Irandhir Santos, Simone Spoladore, Caco Ciocler, Marcello Antony, Marco Ricca, Isabel Fillardis, Giselle Itié, Emilio Orciollo Netto, Sheron Menezes, Jackson Antunes, Maria Luisa Mendonça, Eduardo Moscovis, Jackson Costa, Leonardo Vieira, Cacá Carvalho, Luciana Braga, Julia Dalavia, Renato Góes, Cyria Coentro, Marina Nery, Júlio Machado, Bárbara Reis, Lee Taylor, Zezita de Matos, Mariene de Castro e Lucy Alves, entre outros. O trabalho de preparação de atores do diretor resultou num método que foi registrado no livro “O processo de criação dos atores de Dois Irmãos”, do fotógrafo Leandro Pagliaro.
Início da Carreira: década de 1980 Luiz Fernando Carvalho estudou arquitetura e letras. Aos 18 anos estreou no cinema em diversas funções: operador de som, assistente de direção, roteirista, montador e diretor de curta-metragem. No início da década de 1980 fez seus primeiros trabalhos para TV, como assistente de direção de minisséries marcantes, como O Tempo e o Vento, da obra de Érico Veríssimo, dirigido por Paulo José, e Grande Sertão: Veredas, da obra de João Guimarães Rosa, onde, ainda como assistente de direção de Walter Avancini, começou a dirigir suas primeiras cenas.
A Espera
Escreveu e dirigiu o curta-metragem A Espera, baseado no livro Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes. Lançado em 1986, o filme recebeu os seguintes prêmios: Melhor Curta-Metragem, Melhor Atriz (Marieta Severo) e Melhor Fotografia (Walter Carvalho) no 13º Festival de Gramado; Melhor Curta-Metragem (Concha de Oro) no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián (Espanha); e o Prêmio Especial do Júri do Festival de Ste Therèse (Canadá).
Anos 1980 Tieta
No fim da década de 1980, dirigiu a novela Tieta, de Aguinaldo Silva, baseada na obra de Tieta do Agreste, de Jorge Amado. Protagonizada por Betty Faria no papel-título, além de um elenco recheado de estrelas como Joana Fomm, Cássio Gabus Mendes, Arlete Salles, José Mayer, Lídia Brondi, Yoná Magalhães, Reginaldo Faria entre outros. A abertura da novela misturava elementos da natureza com a beleza feminina, representada pela modelo Isadora Ribeiro. Hans Donner e sua equipe fotografaram o litoral de Mangue Seco, no norte da Bahia. As fotos foram projetadas no fundo da cena e Isadora aparecia em primeiro plano, nua e coberta pela sombra. Através de recursos de computação gráfica, vários elementos da natureza, como pedras, árvores e folhas, davam forma ao corpo da modelo.
No início da abertura, aparecia o logotipo escrito na areia, que era o nome da protagonista, Tieta. O processo foi gravado em estúdio, num tanque iluminado artificialmente, para simular a claridade da luz do sol. Isadora contou que ficou andando nua no estúdio por cerca de trinta minutos antes de começar a gravar, para perder a inibição. A novela detém a 2a maior audiência da história da Globo com 64 pontos, apenas atrás de Roque Santeiro, e detém a maior média da história das telenovelas.
Anos 1990 Riacho Doce
No começo da década de 1990, Luiz Fernando Carvalho dirigiu a minissérie de 40 capítulos escrita por Aguinaldo Silva a partir da obra de José Lins do Rego. Estrelada por Vera Fischer, Osmar Prado, Sebastião Vasconcelos, Carlos Alberto Riccelli e Fernanda Montenegro, com figurino de Beth Filipecki. A então inóspita ilha de Fernando de Noronha (PE) serviu de cenário para a história que se passa em uma pequena vila de pescadores no Nordeste.
Os Homens Querem Paz O texto do pioneiro da TV brasileira Péricles Leal ganhou em 1991 uma adaptação dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com figurino de Beth Filipecki. O telefilme, protagonizado por Paulo Betti, foi filmado na cidade de Canindé, Ceará, e foi finalista do 34º New York Television Festival (Tv & Film Awards). Marcou a estreia da atriz Leticia Sabatella na televisão. O crítico Rodrigo Fonseca declarou que a primeira lembrança que tem de Letícia Sabatella na TV foi também quando soube da existência do "gênio da direção que é o Luiz Fernando".
Pedra Sobre Pedra
Em 1992, dirigiu a telenovela escrita por Aguinaldo Silva e considerada a 6ª de maior audiência da história da televisão brasileira. Destacaram-se no elenco: Lima Duarte, Renata Sorrah, Armando Bógus, Eva Wilma, Paulo Betti, Andrea Beltrão, Pedro Paulo Rangel e Eduardo Moscovis. Alguns personagens são marcos da teledramaturgia: Sergio Cabeleira (Osmar Prado) e o retratista Jorge Tadeu (Fábio Júnior).
O Auto de Nossa Senhora da Luz No decorrer de Pedra sobre Pedra, Luiz Fernando Carvalho concebeu uma sequência importante com inspiração no Movimento Armorial de Ariano Suassuna. O enorme sucesso da sequência, confirmado pelo número recorde de pedidos de reprise feitos por telespectadores à emissora, foi determinante para transformar o material em um telefilme, com cenas adicionais escritas por Braulio Tavares e interpretadas pelo músico e ator Antônio Nóbrega. Concorreu ao Prêmio Emmy Internacional de Televisão em 1993.
Renascer
A novela de 1993, escrita por Benedito Ruy Barbosa com direção de Luiz Fernando Carvalho, foi sucesso de crítica e público. Estrelada por Antonio Fagundes, Renascer foi a novela mais assistida da década de 1990 e é a 4ª em audiência da história da televisão, tendo sido apresentada em diversos países. Segundo o livro “Telenovela e representação social”, a direção de Luiz Fernando Carvalho é considerada um dos marcos renovadores da estética do gênero nos anos 1990. O personagem Tião Galinha, interpretado por Osmar Prado, é um marco na carreira do ator. A personagem Buba, interpretada por Maria Luisa Mendonça, causou polêmica nacional, sendo a primeira vez que a discussão de gênero foi abordada numa telenovela. Recebeu o Prêmio APCA de Melhor Novela, Melhor Ator (Antonio Fagundes), melhor Ator Coadjuvante (Osmar Prado), Melhor Atriz Coadjuvante (Regina Dourado), Revelação Masculina (Jackson Antunes). Leonardo Vieira, Jackson Antunes, Cacá Carvalho, Marco Ricca, Isabel Fillardis e Maria Luisa Mendonça foram alguns dos talentos revelados nesta obra. O empresário da televisão José Bonifácio de Oliveira, o Boni, considerou a trama "bem estruturada pelo Benedito, com uma primeira fase primorosa e dirigida com maestria pelo Luiz Fernando Carvalho". Segundo Marilia Martins, raras novelas apresentaram no seu primeiro capítulo um trabalho de direção tão apurado e tão requintado quanto Renascer.Marília Martins, "Luiz Fernando Carvalho é hoje um legítimo herdeiro da melhor vertente dos diretores de ficção na TV", em "Jornal do Brasil" (10 de março de 1993)
Uma Mulher Vestida de Sol
Em 1994, o telefilme dirigido por Luiz Fernando Carvalho marcou a estreia da obra de Ariano Suassuna na televisão. Baseado em romance homônimo inédito do escritor, o roteiro teve assinatura do próprio Ariano em parceria com o diretor. Direção de fotografia de Dib Lufti, figurino de Luciana Buarque e produção de arte de Lia Renha. Cenografia do artista plástico Fernando Velloso, da companhia de dança Grupo Corpo, música de Antônio Madureira, integrante do Quinteto Armorial. A partir de Uma Mulher Vestida de Sol, o diretor deu início à sua investigação sobre os limites da linguagem televisiva, mesclando elementos do teatro popular nordestino. Teve participação do Grupo Piolim, de Luiz Carlos Vasconcelos. No elenco, Tereza Seiblitz, Lineu Dias, Sebastião Vasconcelos, Ana Lúcia Torre, Raul Cortez e o então estreante Floriano Peixoto. Segundo o pesquisador em Literatura Hélio Guimarães, a obra provocou um impasse na emissora: se Luiz Fernando Carvalho não seria grande demais para a tela da Globo.
A Farsa da Boa Preguiça
Um ano depois da realização de Uma Mulher Vestida de Sol, Luiz Fernando Carvalho deu continuidade, em 1995, à sua relação com o escritor Ariano Suassuna, desta vez transformando em telefilme a peça A Farsa da Boa Preguiça. O diretor continuou sua busca por uma linguagem híbrida para televisão, como forma de crítica ao naturalismo das novelas. Produção de arte e figurino de Yurika Yamasaki e artista plástico Dantas Suassuna. Teve participação de Antônio Nóbrega, Patrícia França, Ary Fontoura e Marieta Severo. Segundo o crítico Rogério Durst, o telefilme foi um grande feito da teledramaturgia.
O Rei do Gado
O Rei do Gado, de 1996, trabalho seguinte do diretor com o autor Benedito Ruy Barbosa, tornou-se a 9ª novela de maior audiência da história da televisão brasileira. Foi reprisada três vezes, superando índices de produções exibidas no período, e vendida para mais de 30 países. Marcou a estreia de Marcello Antony, Caco Ciocler, Mariana Lima, Emilio Orciollo Netto e Lavínia Vlasak. A novela se destacou também pela crítica social e sensibilidade ao abordar o movimento dos sem-terra. Neste núcleo, se destacaram os atores Jackson Antunes e Ana Beatriz Nogueira. No elenco, Antonio Fagundes, Patricia Pillar, Leticia Spiller e Raul Cortez. Na primeira fase, a trama contou com as participações especiais de Tarcisio Meira, Eva Wilma e Vera Fischer. A novela recebeu o Certificado de Honra ao Mérito no San Francisco International Film Festival e o Prêmio APCA de Melhor Ator (Raul Cortez), Melhor Ator Coadjuvante (Leonardo Brício), Melhor Atriz Coadjuvante (Walderez de Barros) e Melhor Revelação Masculina (Caco Ciocler). Para Fernando de Barros e Silva, na Folha de S.Paulo, "O Rei do Gado engole o cinema nacional". Segundo o crítico Rogerio Durst, a novela é "um épico dramático com participações especiais de primeira e belíssima fotografia".
Giovanna e Henrico