Ulrich Beck (Pomerânia, 15 de maio de 1944 – Munique, 1 de janeiro de 2015) foi um sociólogo alemão. Sua produção literária mais proeminente, a obra Sociedade de Risco ultrapassou divisões disciplinares da sociologia, minando para os campos do ambientalismo e sustentabilidade, direito, ciências da saúde, agricultura, política e filosofia da ciência. Os pontos de referência para a produção teórica de Beck foram cada vez mais as manifestações e consequências de problemas transfronteiriços ambientais e sociais decorrentes da globalização. A produção moderna de riscos, a incontrolabilidade cientifico-tecnológica, a sociologia do conhecimento, bem como o papel da ignorância, e o cosmopolitismo são algumas das questões discutidas, dentre muitas outras. Alguns dos principais eixos da rica produção teórica de Beck tratam da "destradicionalização das formas de vida industriais", da "despadronização do trabalho assalariado" e da "individualização das situações de vida e padrões biográficos", isto é, da dissolução de marcos da sociedade industrial tradicional, das novas questões do universo do trabalho (por exemplo, o empreendedorismo e a terceirização) e da teoria social contemporânea. Beck se considerava um "acadêmico radical" e criticou ativamente as teorias sociológicas que persistiam nas terminologias e marcos do Estado-nação. Em lugar disso, propunha uma investigação social na perspectiva do cosmopolitismo, valorizando a interconectividade do mundo moderno.
Beck foi professor de sociologia na Universidade de Munique, na London School of Economics e na Fondation Maison des Sciences de l'Homme (FMSH), em Paris. A pesquisa e produção teórica de Beck esteve envolvida em muitos compromissos políticos ativos. Em 2012, o Conselho Europeu de Pesquisa aprovou um projeto de cinco anos intitulado "Cosmopolitismo metodológico no exemplo das mudanças climáticas". Ainda em 2012, Beck redigiu um manifesto chamado "Somos a Europa!" em resposta à crise financeira de 2007 e à crise da dívida na zona do euro, com o propósito de fundar a Europa "de baixo" através da cooperação ativa de seus cidadãos.
Beck tornou-se conhecido muito além das fronteiras do assunto com seu livro "Risk Society" (sociedade do risco), que foi publicado em 1986 e foi traduzido para 35 idiomas. Rumo a uma nova modernidade. Nele, ele descreveu, entre outras coisas, a “destradicionalização da sociedade industrial”, a “despadronização do emprego remunerado” e a individualização das situações de vida e dos padrões biográficos. Beck criticou abordagens sociológicas que persistiram em aspectos e terminologia do estado-nação. Ele viu os avanços técnicos e econômicos na sociedade industrial - por exemplo, no exemplo do uso da energia nuclear - sobrepostos e questionados por efeitos colaterais não planejados de proporções supranacionais e às vezes globais. As formas e consequências dos problemas ambientais transfronteiriços e da globalização foram cada vez mais os pontos de referência para suas teorias.
Vida Beck nasceu em 1944 na cidade de Stolp, Pomerânia, território alemão que hoje é denominado Słupsk, na Polônia. Cresceu na cidade de Hanôver. Iniciou sua formação superior com foco em direito na Universidade de Freiburg. Em 1966 recebeu uma bolsa de estudos e estudou sociologia, psicologia, filosofia e ciências políticas na Universidade de Munique. Lá obteve seu doutorado, em 1972, especializando-se em sociologia.
Ulrich Beck foi casado com a socióloga Elisabeth Beck-Gernsheim, pesquisadora com foco em sociologia da família. Juntos escreveram três livros: The normal chaos of love (1990), Individualization (2002) e Distant Love (2014), tratando dos temas da individualização e/ou da cosmopolitanização da família.
Beck foi professor de sociologia de 1979 a 1981 na Universidade de Münster, e de 1981 a 1992 na Universidade de Bamberg. Trabalhou por muitos anos na administração e direção da Associação Sociológica Alemã. De 1995 a 1997 foi membro da Kommission für Zukunftsfragen der Freistaaten Bayern und Sachsen (Comissão para as Questões do Futuro).
De 1999 a 2009, foi o porta-voz de um programa de pesquisa colaborativo sobre modernização reflexiva da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG). Tratava-se de um consórcio interdisciplinar de quatro universidades de Munique, financiado e acompanhado pela Fundação Alemã de Pesquisa. Nele, a teoria de Beck sobre a modernização reflexiva, com base em um amplo espectro de tópicos de pesquisa, foi empiricamente testada. A teoria da modernização reflexiva tem como base a ideia de que a era industrial moderna e sua ampliação produzem efeitos colaterais por todo o mundo, questionando, modificando e abrindo as coordenadas, fundamentos e bases institucionais dos Estados-nação moderno para a ação política.
Beck faleceu em 1 de janeiro de 2015, aos 70 anos, em decorrência de um infarto cardíaco. Está enterrado no cemitério norte de Munique.
Trabalho O trabalho de Ulrich Beck esteve concentrado nas seguintes temáticas: globalização, individualização, modernização, problemas ambientais, sociedade de risco, transformações no mundo do trabalho e desigualdades sociais. Após a publicação da obra Sociedade de Risco, de 1986, Beck publicou um grande número de artigos sobre a questão que determinaria sua pesquisa nos próximos 25 anos: como abrir o pensamento e a atuação social e política diante de mudanças globais radicais (degradação ambiental, crise financeira, aquecimento global, crise da democracia e das instituições nacionais) em uma modernidade historicamente entrelaçada?
As pesquisas, publicações e iniciativas políticas de Beck focaram principalmente em relações sociológicas transnacionais e globais. Ele prestou atenção especial às oportunidades e problemas da integração europeia, às tendências e desafios da globalização e às perspectivas de uma política doméstica global. No final de sua carreira, esteve engajado no estudo das mudanças das condições de trabalho no contexto da difusão e aprofundamento do capitalismo global.
Seus escritos comumente tomaram a forma de um grande ensaio. Neles Beck conseguiu desenvolver de forma concisa temas abrangentes como o questionamento sobre os princípios do desenvolvimento social moderno.
Beck possuiu uma posição crítica, se contrapondo às correntes do pós-modernismo. Em concordância com outros autores, tais como Anthony Giddens, defendeu uma sociologia reflexiva que não abandonasse uma análise crítica mediante os problemas da sociedade contemporânea. Afirmou que os problemas da sociedade atual não são os mesmos que os descritos pela sociologia de momentos históricos anteriores.
Pensamento O pensamento de Beck se centrou na caracterização de um novo tipo de sociedade submetida à fortes riscos e processos de individualização. São elementos centrais de identificação desta sociedade as catástrofes ambientais, as crises financeiras, o terrorismo e as guerras preventivas.
Beck distinguiu dois processos de modernização na história recente das sociedades. A primeira modernização é identificada como aliada ao processo de industrialização e construção da sociedade de massas. Nesta era industrial o centro da estrutura cultural e social era a família. Já a segunda modernização ou modernização reflexiva, própria da sociedade atual, tende à globalização e está em constante desenvolvimento tecnológico, rompendo com a centralidade do núcleo familiar e dando lugar à individualização. No bojo deste processo aumenta a incerteza do indivíduo e instaura-se a sociedade do risco. Estas mudanças afetam não só o plano pessoal como o plano das instituições, a partir de novas políticas de governo muitas vezes aliadas à concepção econômica neoliberal.
Quanto a seu pensamento no campo político, Beck explicitou que não é necessário construir novas normas, mas sim readaptar as antigas à nova realidade social, política e econômica. Defendeu a necessidade de diminuir a força e o peso do mercado na vida das pessoas e ampliar o círculo social e cultural do indivíduo, com o objetivo de alcançar um maior equilíbrio e diminuir a incerteza. Beck defendeu uma economia política popular que seja capaz de estabelecer novas prioridades.
Para Beck, o pleno emprego não seria mais alcançável devido à crescente da automatização das atividades produtivas, as soluções nacionalistas são irrealistas, e a medicina neoliberal é um remédio sem eficácia diante da grandeza dos problemas gerados pelo programa desenvolvimentista. Diante disso o estado deveria garantir uma renda básica e mais empregos na sociedade civil. Diversos problemas da sociedade atual poderiam ser solucionados se a União Europeia, ou no melhor dos casos as diversas uniões transnacionais, conseguissem fazer valer os projetos de universalização dos padrões econômicos e sociais.
Beck considerou fundamental que os Estados nacionais fizessem um esforço de mudança no sentido de maiores cooperação e coesão entre os Estados, sem deixar de lado o reconhecimento da diversidade e das individualidades. Só a partir da construção de um estado transnacional seria possível controlar as empresas transnacionais. A construção e o acabamento de novas leis e instâncias jurídicas internacionais possibilita também de mediação amigável de conflitos transnacionais (que Beck chamou de pacifismo jurídico).
Sociedade do Risco Com sua sensacional e difundida publicação na obra Sociedade do Risco, Ulrich Beck encontrou um ponto intelectual para uma formação teórica produtiva e que ainda é atual. Um "livro brilhante" é a "sociedade de risco", como escrito por Eva Illouz, "porque não acusou nem defendeu o capitalismo, mas avaliou suas consequências e examinou como reestruturou as instituições - como as forçou à destruição que elas mesmas haviam causado a uma visão, enfrentá-los e mapeá-los em uma nova contabilidade de custos que incluísse os riscos associados à exploração dos recursos naturais e às inovações técnicas. ” Joachim Güntner: Nachruf auf Ulrich Beck. Die Katastrophe denken, um sie zu vermeiden. In: Neue Zürcher Zeitung, 4. Januar 2015Eva Illouz: Der Optimist. Zum Tod des großen Soziologen Ulrich Beck. In: Die Zeit, 8. Januar 2015, S. 49.