O 1.º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), o "Esquadrão Falcão", é a unidade da Aviação Naval Brasileira criada para voar aeronaves de asa fixa em porta-aviões da Marinha do Brasil (MB). A desmobilização do porta-aviões São Paulo (A-12) em 2017, após mais de uma década inoperante, limita o esquadrão a decolar de pistas em terra, especialmente da sua base em São Pedro da Aldeia, Rio de Janeiro. Desde sua criação ele opera aviões de ataque McDonnell Douglas A-4 Skyhawk, originalmente designados AF-1 (monolugar) e AF-1A (bilugar), modernizados em 2015–2022 para o padrão AF-1B e AF-1C. O VF-1 e a Força Aérea Argentina são os últimos usuários militares desse avião.

Sua criação em 1998 significou o retorno da aviação de asa fixa à Marinha do Brasil, que estava proibida, por oposição da Força Aérea Brasileira (FAB), desde o "corolário Castelo Branco" de 1965. Desde então as relações com a FAB melhoraram, e há treinamentos conjuntos frequentes. O anseio da Marinha era por um caça de defesa aérea da Esquadra e apoio aéreo aproximado ao Corpo de Fuzileiros Navais. O avião escolhido, o Skyhawk, data dos anos 1950 e não foi projetado como caça/interceptador, embora possa usar mísseis ar-ar. O lote de 23 unidades obtidas do Kuwait foi uma "compra de oportunidade", na expectativa de preparar os pilotos até a chegada de um modelo mais moderno.

Os investimentos exigidos no pessoal e infraestrutura foram pesados. Os pilotos, denominados “caçadores”, demoram quase quatro anos para formar, incluindo períodos na Força Aérea e Marinha dos Estados Unidos. O esquadrão operou no porta-aviões Minas Gerais (A-11) e seu sucessor, o São Paulo, mas tanto o navio quanto os jatos sofreram sérios problemas de indisponibilidade. Além de difíceis de manter, os aviões eram defasados: não há armamentos modernos como bombas inteligentes, mísseis ar-ar para além do alcance visual e mísseis antinavio, e tampouco aviões de reabastecimento em voo e alerta aéreo antecipado.

A frota original foi gradualmente retirada de serviço, restando apenas seis aeronaves modernizadas pela Embraer a partir de um contrato em 2009. A vida útil esperada é até 2030, e seus sucessores estudados pela Marinha são o Gripen NG, também escolhido pela FAB, ou o F/A-18 Hornet. Entretanto, se o esquadrão tornar-se como qualquer outra unidade de caça baseada em terra, pode surgir um argumento pela sua desativação. A modernização legou ao esquadrão a variante mais avançada já desenvolvida do Skyhawk, com sensores e instrumentos digitais modernos, mas a compra de armamentos ficou apenas na fase de estudos. A Marinha ainda valoriza essas aeronaves no esclarecimento marítimo, pois elas podem alcançar o limite da zona econômica exclusiva em 30 minutos e, com seu novo radar, identificar alvos navais a 160 quilômetros de distância. O VF-1 ainda envia jatos para exercícios em todo o país.

Criação Demanda por caças miniaturadaimagem|Super Étendard da Aviação Naval Argentina, modelo usado na Guerra das Malvinas, no convés de um porta-aviões americano A observação da Guerra das Malvinas, travada em 1982 entre a Argentina e o Reino Unido, fez a Marinha do Brasil perceber sua fraqueza num hipotético conflito no Atlântico Sul. Aeronaves argentinas afundaram ou danificaram vários navios britânicos com mísseis antinavio e bombas, e só não fizeram mais dano devido às baixas pesadas que sofreram para as aeronaves britânicas com mísseis ar-ar. Os porta-aviões, ao oferecerem superioridade aérea e projeção de poder sobre terra e mar, confirmaram sua importância no núcleo das frotas. O Brasil tinha o porta-aviões Minas Gerais, adquirido em 1956, mas sua função era a guerra antissubmarino; ele não tinha o porte e capacidades ideais para operar jatos.

Oficiais em posições acadêmicas nos anos 80, rompendo com esse paradigma, passaram a defender uma frota com projeção de poder, dotada de seus próprios caças. Ainda antes da guerra, na virada dos anos 70 a 80, já havia um entendimento entre a FAB e Marinha para a compra de 14 A-4 Skyhawks usados, a ser operados pela FAB, mas a proposta foi vetada pelo Ministério do Planejamento. Logo após a guerra, em 1983 o ministro da Marinha Maximiano Eduardo da Silva Fonseca apresentou uma exposição de motivos para a compra de 12 Skyhawks ao presidente João Figueiredo. O vendedor seria Israel ou o Kuwait. Mas não havia condições financeiras e políticas para a compra. Entre outros questões, a compra complementaria a incorporação de um novo porta-aviões, mas o Minas Gerais precisaria ser reformado para operar os aviões provisoriamente. Como o navio acabara de passar por uma modernização, a reforma seria considerada cara, e o plano foi abandonado em outubro de 1984. Outra possibilidade, o desenvolvimento de uma versão embarcada do avião de ataque AMX A-1 da Alenia/Aermacchi/Embraer, chegou a ser anunciada, mas foi cancelada em 1985.

A década seguinte introduziu mais argumentos em favor de ter caças embarcados. Com o fim da Guerra Fria, a hipótese de emprego do Minas Gerais, defendendo o comércio marítimo contra os submarinos da União Soviética, não tinha mais lugar. A ideia passava a ser uma “esquadra equilibrada”, com cobertura aérea para seus meios de superfície navegando distantes do litoral. Argumentava-se também com base no desempenho da força naval em exercícios e no apoio aéreo a contingentes do Corpo de Fuzileiros Navais enviados a missões de paz da Organização das Nações Unidas. Aproximava-se o fim da vida útil dos aviões da FAB embarcados no Minas Gerais, e do próprio porta-aviões, abrindo uma oportunidade à Marinha. A Aeronáutica não tinha previsão de substituto para seus P-16 Tracker de patrulha marítima, organizados no 1.º Grupo de Aviação Embarcada (GAE). Ela estava num dos piores momentos de sua história e tinha prioridades maiores, como o SIVAM. Na ausência do 1.º GAE, o Minas Gerais foi reduzido ao papel de porta-helicópteros.

Escolha do A-4 miniaturadaimagem|A-4KUs da Força Aérea do Kuwait A Marinha decidiu obter diretamente um lote de interceptadores em vez do caminho mais lento, que seria primeiro adquirir aviões de instrução. O modelo escolhido precisaria de compatibilidade com o Minas Gerais e equivalência ao Super Étendard da Armada Argentina. As opções consideradas foram o próprio Étendard, o A-4 Skyhawk, o Vought A-7 Corsair II e o British Aerospace Harrier. O Corsair era muito pesado para o Minas Gerais, enquanto o Étendard e Harrier tinham custos elevados. O Skyhawk foi escolhido como “compra de oportunidade”, aproveitando a oferta de modelos aposentados da Força Aérea do Kuwait com muitas peças sobressalentes e boa condição: uma média de 1 700 horas de voo, sem as desgastantes operações embarcadas, e, graças às condições desérticas, pouca corrosão. Um argumento contrário era que os aviões obsoletos acabariam inutilizados pela falta de apoio logístico.

O Skyhawk é um jato americano conhecido por seu serviço na Guerra do Vietnã, nos anos 1960, na qual decolava dos porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos para bombardear alvos terrestres. A interceptação das aeronaves inimigas ficava a cargo do F-4 Phantom II. O A-4 foi projetado como bombardeiro. Aviões de ataque como ele têm diferenças cruciais em relação aos interceptadores dedicados como o F-4. O avião de ataque tem boa manobrabilidade, mas sua carga transportada externamente tem elevado arrasto, criando problemas aerodinâmicos e dificultando a obtenção de uma velocidade supersônica. Já o interceptador precisa justamente dessa velocidade para cumprir sua função, além de voar em altitudes maiores. O Skyhawk é subsônico, mas pode ultrapassar a velocidade do som em mergulho. Para o almirante Armando Amorim Vidigal, o Skyhawk não é ideal para a função atribuída pela MB, e o correto teria sido comprar interceptadores e aeronaves de alarme aéreo antecipado. Entretanto, era improvável que esses aviões conseguissem operar no Minas Gerais. Em 2000, um artigo na Revista Marítima Brasileira sugeriu que o sucessor do Skyhawk fosse uma aeronave de múltiplo emprego, conciliando as características de ataque e interceptação, como já era tendência nos Estados Unidos.

Por outro lado, a própria Marinha dos EUA reconheceu as possibilidades do Skyhawk como caça, designando alguns para a defesa aérea de porta-aviões. Seus Skyhawks em missões de bombardeio acabaram entrando em combate aéreo com caças MiG, e após a guerra eles simularam MiGs adversários nos treinamentos. Por seu baixo custo e manutenção relativamente barata, grandes números foram exportados a outros países, onde, configurados com peso leve, podiam servir de caças em porta-aviões pequenos. Austrália e Argentina operaram Skyhawks de porta-aviões da mesma classe do Minas Gerais. A estrutura forte dessa aeronave para as operações embarcadas garantiu longevidade em serviço. Os Skyhawks da Força Aérea e Aviação Naval da Argentina foram as aeronaves de maior sucesso nos ataques a navio durante a Guerra das Malvinas, mas amargaram baixas pesadas. A maioria de seus voos foi feita de bases em terra, pois o porta-aviões foi retirado da zona de operações após o afundamento do por um submarino.

Tecnologicamente, o A-4 Skyhawk entrou em serviço em 1956 e era equivalente aos caças de duas gerações antes do F/A-18 Hornet, avião de múltiplo emprego que, nos anos 90, substituía o A-6 como avião de ataque da Marinha dos EUA. Na mesma década, a Força Aérea Argentina adquiriu Skyhawks modernizados (Lockheed Martin A-4AR). Após a Guerra do Golfo em 1990–1991, o Kuwait substituiu seus Skyhawks pelo F/A-18 Hornet. Os A-4 kuwaitianos haviam sido comprados em 1974, juntamente com caças Mirage F1, e combateram na guerra. À época, eram avançados dentro da família do Skyhawk, mas ao final dos anos 2000 a defasagem em relação aos caças modernos de múltiplo propósito era nítida. Os Skyhawks brasileiros seriam os últimos do mundo a decolar de porta-aviões e, juntamente com os A-4AR argentinos, os últimos Skyhawks em serviço militar no mundo. No Brasil, podem ser considerados os únicos caças operados fora da FAB.

Fatores políticos miniaturadaimagem|NAeL Minas Gerais em 1996, nos seus últimos anos Antes de qualquer mudança na lei, em 1994 a Marinha enviou oficiais para se formarem no exterior como pilotos de avião. Em seguida, em setembro de 1996 o ministro da Marinha Mauro César Rodrigues Pereira apresentou sua exposição de motivos para a compra das aeronaves. Entretanto, a ambição da Marinha esbarrava na proibição legal de ter aeronaves de asa fixa. Sua disputa acirrada com a Aeronáutica pela aviação embarcada havia concluído em 1965: um decreto restringiu sua Aviação Naval aos helicópteros, desapontando o oficialato naval. Três décadas depois, eles retornaram à mesma pauta.

O ministro Mauro César teria como obstáculos internos a FAB, Exército e a área econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso, e externamente, a desconfiança argentina.. Livro 2. A Armada Argentina tornou-se aliada, pois já desenvolvia boas relações com a MB e, após desativar seu porta-aviões em 1997, pretendia manter sua aviação naval funcionando. Os argentinos, e não a FAB, ajudaram a treinar os pilotos da MB nesse período. Dois oficiais argentinos integraram a comitiva brasileira no Kuwait, e um A-4Q da Aviação Naval Argentina foi usado para testes a bordo do Minas Gerais.