Cautília, também chamado Chanakya ou Chanaquia (ISO 15919: Cāṇakya, चाणक्य), é o conselheiro brâmane a quem as tradições indianas atribuem um papel decisivo na queda da dinastia Nanda e na ascensão de Chandragupta Máuria, fundador do Império Máuria. Nessas narrativas, ele escolhe e prepara o futuro imperador, ajuda a conquistar Pataliputra e depois serve como principal conselheiro e primeiro-ministro de Chandragupta e de seu filho Bindusara. Os relatos foram escritos séculos após os acontecimentos que descrevem, e seus episódios não podem ser reconstituídos como fatos documentados.
As versões budista, jainista e caxemira, assim como a peça sânscrita Mudrarakshasa, divergem nos detalhes, mas partem de uma afronta sofrida por Chanakya na corte de Nanda e de seu juramento de derrubá-lo. Entre os feitos que narram estão a formação de um exército, a conquista das regiões fronteiriças antes da capital e o uso de alianças, espiões e disfarces para consolidar o poder de Chandragupta. As narrativas budista e jainista também contam, com diferenças, como Chanakya teria salvado o recém-nascido Bindusara depois de envenenar inadvertidamente a mãe da criança.
Chanakya foi tradicionalmente identificado com Kauṭilya, também chamado Vishnugupta, a quem se atribuiu o Artaxastra, tratado de governo que discute administração, economia, diplomacia e guerra. A identificação é contestada por pesquisas sobre a formação do texto: a versão conservada resultou de várias etapas de composição nos séculos próximos ao início da Era Comum, depois da época máuria. Por isso, a fama do conselheiro das lendas e a autoria do tratado são questões distintas.
A imagem de Chanakya atravessou tradições religiosas e literárias e passou a ser retomada no pensamento político, no teatro, no cinema e na televisão da Índia. O Artaxastra recebeu novas interpretações depois que um manuscrito foi identificado em 1905; no século XX, a associação do tratado a Chanakya também interessou a nacionalistas indianos. Lugares e instituições levam seu nome, enquanto os estudos históricos continuam a distinguir a figura lembrada pelas lendas da autoria da obra que lhe foi atribuída.
Narrativa de Chanakya e Chandragupta Não há documentação contemporânea que permita reconstituir a vida de Chanakya. Os episódios a seu respeito provêm de narrativas lendárias.Trautmann considera incertos os acontecimentos narrados e exagerado o papel de Chanakya nessas histórias, embora julgue provável que alguém com esse nome tenha existido. A lenda e a existência possível de seu protagonista são questões diferentes. . Entre os relatos examinados por Thomas Trautmann estão quatro tradições indianas da antiga katha, ou narrativa, sobre Chanakya e Chandragupta: A versão budista do Mahavamsa, dos séculos V ou VI, e de seu comentário Vamsatthappakasini, em páli; A versão jainista do Parishishtaparvan, escrita por Hemachandra no século XII com base em fontes dos séculos I a VIII; A versão caxemira do Kathasaritsagara, de Somadeva, e do Brihat-Katha-Manjari, de Kshemendra, ambas do século XI; A peça sânscrita Mudrarakshasa, de Vishakhadatta, datada entre os séculos IV e VIII, em grande parte fictícia.
Nas quatro versões, Chanakya se sente ofendido pelo rei Nanda e jura destruí-lo.As quatro tradições contam o mesmo conflito de maneiras diferentes. As diferenças entre elas ajudam a estudar como a história foi transmitida, mas não permitem escolher uma versão como relato comprovado. Depois de destronar Nanda, instala Chandragupta como novo rei.
miniatura|esquerda|upright=0.8|alt=Mapa do subcontinente indiano com a extensão aproximada do Império Nanda destacada.|Mapa conjectural dos domínios de Dana Nanda por volta de 323 a.C.; as quatro tradições narram a queda desse poder.
Versão budista, séculos V e VI Fontes
A lenda de Chanakya e Chandragupta aparece nas crônicas budistas em páli do Sri Lanka. Não consta do Dipavamsa, a mais antiga delas.A ausência nessa crônica não prova que a história ainda não circulasse; mostra apenas que ela não aparece no texto preservado. A fonte budista mais antiga a mencioná-la é o Mahavamsa, geralmente datado dos séculos V ou VI. Seu comentário Vamsatthappakasini, também conhecido como Mahavamsa Tika, acrescenta detalhes. Não se conhece seu autor, e sua datação varia do século VI ao XIII.A data de um comentário indica quando essa versão foi escrita; não indica, por si só, quando aconteceriam os fatos que ela conta. Outros textos também acrescentam elementos. O Maha-Bodhi-Vamsa e o Atthakatha, por exemplo, dão os nomes dos nove reis Nanda que teriam precedido Chandragupta.
miniatura|direita|upright=1.05|alt=Ruínas de antigas construções de pedra em Taxila, cercadas por árvores e colinas.|Ruínas de Taxila, cidade que a versão budista apresenta como origem de Chanakya.
Narrativa Na lenda budista, os governantes da dinastia Nanda que precederam Chandragupta eram ladrões que chegaram ao poder.É assim que os Nandas são apresentados na lenda budista. A frase não descreve uma origem comprovada da dinastia. Chanakya, chamado Cāṇakka no Mahavamsa, era um brâmane de Takkāsila, ou Taxila. Conhecia três Vedas e a política.O relato junta formação religiosa e habilidade política para apresentar Chanakya como alguém preparado para aconselhar governantes. Nasceu com dentes caninos que se acreditava serem sinal de realeza. Sua mãe temeu que, caso se tornasse imperador, ele a abandonasse. Para tranquilizá-la, Chanakya quebrou os próprios dentes.Nesse episódio, os dentes são tratados como um sinal do destino. A crença faz parte da lenda, não de uma forma de prever quem governará.
miniatura|esquerda|upright=0.85|alt=Interior da caverna Sudama, com paredes de pedra polida e uma entrada iluminada.|Interior da caverna Sudama, em Barabar, destinada aos ajívicas na época máuria. No relato budista, Chanakya escapa da corte disfarçado de ajívica.
Os dentes quebrados e os pés tortos acentuavam sua aparência, considerada feia. Certo dia, o imperador Dana Nanda organizou uma cerimônia de distribuição de esmolas aos brâmanes.Dar presentes a brâmanes fazia parte da cena de corte narrada aqui. É por causa da cerimônia que Chanakya consegue chegar à assembleia do rei. Chanakya foi a Pupphapura, ou Pushpapura, para participar. Repelido por sua aparência, o imperador mandou expulsá-lo da assembleia. Chanakya rompeu com raiva seu cordão sagrado e amaldiçoou o imperador. Nanda ordenou sua prisão, mas ele escapou disfarçado de ajívica. Chanakya fez amizade com Pabbata, filho de Nanda, e o instigou a tomar o trono. Usando um anel de sinete dado pelo príncipe, fugiu do palácio por uma porta secreta.
miniatura|direita|upright=0.9|alt=Detalhe de moeda antiga de metal com três figuras gravadas por punção.|Moeda da época máuria marcada por punções. As centenas de milhões de moedas produzidas por Chanakya pertencem à lenda budista.
Chanakya refugiou-se na floresta de Vinjha, na cordilheira de Montes Víndias. Ali produziu 800 milhões de moedas, chamadas kahapanas, por meio de uma técnica secreta que transformava uma moeda em oito. Escondeu o dinheiro e saiu à procura de alguém que pudesse substituir Dana Nanda.A técnica que multiplica moedas e a enorme soma obtida pertencem ao enredo lendário. Não há registro de que esse tesouro tenha existido. Um dia, viu crianças brincando. O jovem Chandragupta, chamado Chandagutta no Mahavamsa, fazia o papel do imperador, enquanto as outras fingiam ser vassalos, ministros e ladrões.Vassalos são governantes subordinados a outro soberano. Na brincadeira, as crianças reproduzem os papéis de uma corte. Os "ladrões" foram levados à sua presença. Ele mandou cortar-lhes os membros e depois os recolocou milagrosamente. Chandragupta nascera numa família real, mas, após a morte do pai pelas mãos de um usurpador, fora acolhido por um vaqueiro e depois criado por um caçador. As devatas fizeram sua mãe abandoná-lo. Impressionado com os poderes milagrosos do menino, Chanakya pagou mil moedas ao pai adotivo e levou Chandragupta consigo, prometendo ensinar-lhe um ofício.
miniatura|esquerda|upright=0.85|alt=Colinas verdes dos montes Víndias ao longe, vistas de um caminho sobre o planalto de Malwa.|Montes Víndias vistos do planalto de Malwa. A versão budista situa na floresta dessa cordilheira o tesouro lendário de Chanakya.
Chanakya tinha dois possíveis sucessores para Dana Nanda: Pabbata e Chandragupta. Deu a cada um um amuleto pendurado no pescoço por um fio de lã.O desafio não é adivinhar quem tem mais sorte: Chanakya usa o fio para testar até onde cada candidato iria para cumprir sua ordem. Para testá-los, pediu a Pabbata que retirasse o fio de Chandragupta enquanto este dormia, sem rompê-lo nem acordá-lo. Pabbata não conseguiu. Tempos depois, quando Pabbata dormia, fez a Chandragupta o mesmo pedido. Chandragupta recuperou o fio cortando a cabeça de Pabbata. Durante os sete anos seguintes, Chanakya o preparou para os deveres imperiais.Os sete anos fazem parte do relato. Não há uma cronologia independente que confirme esse período de treinamento. Quando Chandragupta se tornou adulto, Chanakya desenterrou seu tesouro e reuniu um exército.
miniatura|direita|upright=1.05|alt=Fotografia histórica de uma escavação arqueológica com bases de pilares em Kumhrar.|Vestígios do salão de pilares de Kumhrar, na área da antiga Pataliputra; a conquista da capital encerra a campanha na versão budista.
O exército de Chandragupta e Chanakya invadiu os domínios de Dana Nanda, mas se dispersou depois de uma derrota severa. Vagando disfarçados, os dois ouviram uma mulher conversar com o filho. O menino tinha comido o meio de um bolo e jogado fora as bordas. A mãe o repreendeu: ele comia como Chandragupta, que atacara o centro do império antes de conquistar as aldeias fronteiriças. Percebendo o erro, Chanakya e Chandragupta reuniram outro exército e começaram pelas aldeias da fronteira. Avançaram aos poucos até Pataliputra, chamada Pāṭaliputta no Mahavamsa, e mataram Dana Nanda. Chanakya mandou um pescador encontrar o tesouro escondido de Nanda e o matou assim que recebeu a informação. Ungiu Chandragupta como imperadorUngir alguém significa aplicar óleo numa cerimônia. Aqui, o gesto marca sua instalação solene no poder. e encarregou Paṇiyatappa de eliminar rebeldes e ladrões do império.
miniatura|esquerda|upright=0.85|alt=Fotografia de escavação antiga mostrando estacas de madeira alinhadas numa vala.|Paliçada de madeira escavada em Bulandi Bagh: um vestígio material da antiga Pataliputra, que as lendas apresentam como objetivo da campanha.
Chanakya passou a misturar pequenas doses de veneno na comida do novo imperador para torná-lo resistente a tentativas de envenenamento.A prática é atribuída a Chanakya pela lenda. Não há registro contemporâneo de que ele tenha alimentado o imperador dessa maneira. Sem saber disso, Chandragupta dividiu a comida com a imperatriz, grávida e a sete dias do parto.A narrativa budista aqui resumida não informa o nome da imperatriz. A versão jainista adiante a chama Durdhara. Chanakya chegou quando ela acabava de comer o bocado envenenado. Ao perceber que ela morreria, decidiu salvar a criança. Decapitou a imperatriz e abriu-lhe o ventre com uma espada para retirar o feto. Nos sete dias seguintes, colocou-o a cada dia no ventre de uma cabra recém-morta.O salvamento do bebê é contado como um acontecimento extraordinário da tradição budista; não é um relato médico documentado. Depois disso, o filho de Chandragupta "nasceu". Recebeu o nome de Bindusara porque seu corpo estava salpicado de gotas de sangue de cabra, chamadas bindu no relato.