A Batalha de Itararé foi o principal confronto da Revolução de 1930 na divisa de São Paulo com o Sul do Brasil. Do lado paulista, unidades do Exército Brasileiro, Força Pública do Estado de São Paulo e voluntários civis leais ao governo de Washington Luís, sob o comando do coronel Paes de Andrade. Do outro, vindos do Paraná, revolucionários do Exército, Forças Públicas do Paraná e Rio Grande do Sul e voluntários, ao comando de Miguel Costa. As posições avançadas dos legalistas em Sengés, em território paranaense, foram tomadas em combate, mas a ofensiva final em território paulista, no município de Itararé, foi cancelada quando um golpe militar no Rio de Janeiro destituiu o presidente em 24 de outubro.

Itararé tinha valor estratégico pela passagem da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande sobre as gargantas, ditas intransponíveis, do rio Itararé. A cidade já havia quase sido palco de combate na Revolução Federalista, em 1894, e tinha fama de invencibilidade. Ela foi um dos setores nos quais os revolucionários fizeram sua ofensiva na direção de São Paulo, após dominar a maior parte dos estados do Sul nos primeiros dias de outubro. Ambos os lados trouxeram milhares de homens, com infantaria, cavalaria e artilharia; os legalistas também tinham aviação. A tropa da Força Pública paulista era bem treinada e equipada, mas os revolucionários tinham mais homens e canhões, sob liderança militar e política firme. O teatro de operações veria táticas de entrincheiramento, desbordamento e bombardeios.

De 8 a 14 de outubro, os revolucionários conquistaram e mantiveram a cidade de Sengés, de onde atacaram a Fazenda Morungava, no mesmo município, em 16 de outubro. Este combate durou quatorze horas numa frente de quatro quilômetros, sob chuva torrencial. A infantaria revolucionária foi repelida, mas os próprios defensores legalistas estavam exaustos e abandonaram a posição pela noite, retornando à última linha, já em território paulista. Morungava era o acidente capital do terreno, com linha de visada para a artilharia bombardear Itararé. Miguel Costa planejou um ataque frontal de fixação, enquanto destacamentos nos flancos esquerdo e direito cercariam os defensores de Itararé. Com a notícia do golpe no Rio de Janeiro, os defensores baixaram as armas. Getúlio Vargas, líder da revolução, entrou em Itararé em 28 de outubro.

Os exércitos contendores sofreram dezenas de mortos e centenas de feridos. Seus bombardeios e requisições logísticas deram muito prejuízo às populações das pequenas Itararé e Sengés. Forças leais a Vargas teriam outra vitória sobre os paulistas no mesmo local na Revolução Constitucionalista de 1932. Os eventos de 1930 entraram para a história como a "batalha que não houve", e a cidade tornou-se objeto de chacota ou símbolo de derrota vergonhosa. Alguns escritores, especialmente do município de Itararé, consideram essa caracterização injusta e preferem enfatizar a batalha que realmente houve no município de Sengés, a poucos quilômetros de distância.

Contexto operacional

miniaturadaimagem|Divisa Paraná-São Paulo, de Ourinhos ao litoral, em mapa de 1921|esquerda Uma insurreição civil-militar contra Washington Luís, presidente do Brasil, teve início no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba de 3 a 4 de outubro de 1930. Na 5.ª Região Militar, correspondente ao Paraná e Santa Catarina, o Exército e a Força Pública do Estado do Paraná aderiram ao movimento. Em 5 de outubro o governo paranaense foi assumido pelo general Mário Tourinho. A princípio, somente permaneciam fiéis à legalidade as guarnições de Palmas, Castro, Florianópolis e São Francisco do Sul. Em meados de outubro, esta lista se reduzia a Florianópolis, onde a Marinha protegia o último reduto legalista no Sul.

Com a adesão do Paraná à revolução, tropas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina adentraram o Estado e se juntaram aos paranaenses na ofensiva rumo a São Paulo. Pelas distâncias envolvidas, as principais forças revolucionárias em contato com o inimigo eram paranaenses. Voluntários alistavam-se e os jornais de Curitiba solicitavam doações de todos os meios, de bovinos a fardamento, para abastecer a tropa. O líder da revolução, Getúlio Vargas, instalou seu quartel-general em Ponta Grossa em 16 de outubro, com o comando militar atribuído ao tenente-coronel Góis Monteiro.

Na divisa Paraná-São Paulo, os revolucionários travaram combate com legalistas, constituídos de unidades do Exército de São Paulo e Rio de Janeiro, a Força Pública do Estado de São Paulo (FPESP) e voluntários civis ("legionários"). As frentes de batalha foram quatro: Quatiguá, Sengés-Itararé, Capela da Ribeira e Cananeia. Sem efetivos para uma ofensiva, os legalistas preocupavam-se somente em barrar o avanço revolucionário. Para os dois lados, Itararé era o centro de gravidade. Por ali passava a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, pelo qual se poderia levar o maior efetivo possível pelo caminho mais rápido até São Paulo, passando por Itapetininga e Sorocaba. O destino final seria a capital federal no Rio de Janeiro. Os flancos em Ourinhos/Quatiguá, Ribeira e Cananeia estavam menos protegidos. Ourinhos abriria caminho para os entroncamentos ferroviários de Bauru e Botucatu. Capela da Ribeira abriria caminho para Apiaí e Capão Bonito, isolando Itararé, mas a área era inóspita, com densa floresta e estradas precárias. O eixo de Cananeia, no litoral, era de pouco valor estratégico.

A logística favorecia os legalistas. O litoral do Sul estava sob controle da Marinha, obrigando os revolucionários a abastecer todas as suas forças pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, num trajeto de 1 400 quilômetros de Santa Maria a Itararé, com material ferroviário em falta. A defesa de São Paulo tinha bases de abastecimento próximas e uma excelente malha ferroviária até a frente. Quanto mais os revolucionários avançassem, mais a frente se alargaria para proteger os flancos e mais distantes ficariam dos seus depósitos, enquanto os legalistas estariam mais perto dos seus.

São Paulo tinha condições de equipar as centenas de voluntários que se apresentavam para lutar, ao contrário do Rio Grande do Sul. A falta de munições era problema, e em 17 de agosto Osvaldo Aranha, presidente interino do Rio Grande do Sul, telegrafava a Vargas informando que "Munição nossas forças dá mais um mês de fogo". Os legalistas em São Paulo sentiam-se desafogados o suficiente para manter uma ofensiva no sul de Minas Gerais e Triângulo Mineiro. Entretanto, os comandantes legalistas mantinham-se vacilantes e inativos. Pairava no Rio de Janeiro o espectro de um golpe para interromper a luta.

Forças oponentes miniaturadaimagem|Revolucionários marcham em Curitiba a caminho da frente de Itararé Na região de Itararé, ambos os lados tinham infantaria, cavalaria e artilharia. Os revolucionários traziam também um contingente de engenharia, e os legalistas, uma esquadrilha de quatro aviões da Força Pública de São Paulo. Mais da metade do efetivo legalista na divisa com o Paraná era fornecido pela FPESP. A corporação tinha fama de elite e suas tropas eram bem equipadas e treinadas, embora tivessem no seu histórico derrotas nas campanhas tenentistas da década passada. Os revolucionários eram inferiores na qualidade da tropa, mas concentravam maiores números e material e tinham uma liderança militar talentosa e direção política firme.

O efetivo legalista em toda a divisa sul de São Paulo, de Ourinhos a Iguape, alcançava de cinco a seis mil soldados, entre três mil da FPESP, 1 600 do Exército e mil voluntários. Os registros são incompletos e o número pode ter sido maior. Especificamente em Itararé havia 2 400 ou 2 600 soldados legalistas. Segundo a tradição oral da Polícia Militar de São Paulo, ao final de outubro, quando a batalha terminou, ainda havia tropas a caminho de Itararé.

O efetivo revolucionário, no auge, alcançou 7 800 homens. Na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, 15 700 soldados aguardavam em 108 comboios. O total do exército revolucionário nesta frente pode ter chegado a mais de trinta mil soldados. A força desdobrada em Itararé foi dividida entre os destacamentos do coronel Silva Júnior (4 300 homens), general Flores da Cunha (1 100 homens), major Alexínio Bittencourt (1 600 homens) e coronel Batista Luzardo (1 200 homens), e mais um corpo extra-numerário de engenharia com quinhentos homens, muitos deles operários da estrada de ferro. O destacamento de Flores da Cunha, que trazia voluntários gaúchos, era o mais móvel, por ser constituído somente de tropa montada. Os destacamentos Bittencourt e Flores da Cunha começaram a chegar no dia 14. O destacamento Luzardo só chegou a Ponta Grossa no dia 23.

miniaturadaimagem|Peça de artilharia legalista de 105 milímetros|esquerda O comando legalista inicialmente coube ao tenente-coronel da FPESP Herculano de Carvalho e Silva, e posteriormente, ao coronel do Exército Arnaldo de Souza Paes de Andrade. O tenente-coronel Herculano foi designado chefe de Estado-Maior do Destacamento de Itararé, e posteriormente, Comandante do Grupamento de Batalhões da Força Pública. As operações revolucionárias eram comandadas por Miguel Costa, oficial da FPESP. Ironicamente, ele liderava grandes contingentes do Exército contra Paes de Andrade, oficial do Exército responsável por um grande contingente da FPESP. Miguel Costa era um experiente guerrilheiro dos dias da Coluna Miguel Costa-Prestes, que se mostraria igualmente hábil na tática da guerra de posições. Seu chefe do Estado-Maior era o coronel do Exército João de Mendonça Lima.

A composição da artilharia ainda não foi plenamente estudada. Ambos os lados tinham canhões Krupp de 75 milímetros, e a superioridade de alcance dos canhões revolucionários, mais modernos, seria crucial. Mas o 1.º Grupo de Artilharia Pesada, legalista, tinha peças de 105 milímetros em Itararé. A artilharia legalista, conforme as fontes, chegou a ter oito canhões de 75 milímetros, e os revolucionários, doze ou dezoito canhões. Ao todo, os legalistas dispuseram de 23 companhias de infantaria, dois esquadrões de cavalaria e três baterias de artilharia contra 27 companhias de infantaria, 18 esquadrões de cavalaria e nove baterias de artilharia.

Ordem de batalha

Lista das unidades deslocadas para a frente de ItararéLegalistasRevolucionáriosDestacamento de Itararé 5.º Regimento de Infantaria, de Lorena 2.º Batalhão de Infantaria da Força Pública 3.º Batalhão de Infantaria da Força Pública 5.º Batalhão de Infantaria da Força Pública 6.º Batalhão de Infantaria da Força Pública 4.º Batalhão de Caçadores, de São Paulo (parte) 2.º Regimento de Cavalaria da Força Pública 5.º Regimento de Cavalaria Divisionário, de Castro (parte) Batalhão de Legionários Sílvio de Campos 4.º Regimento de Artilharia Montada, de Itu 1.º Grupo de Artilharia Pesada, do Rio de Janeiro Esquadrilha de Aviação da Força PúblicaGrupo de Destacamentos Miguel Costa Destacamento Coronel Silva Júnior 8.º Regimento de Infantaria, de Cruz Alta 13.º Regimento de Infantaria, de Ponta Grossa 15.º Batalhão de Caçadores, de Curitiba Regimento Coronel Quim César (cavalaria) 9.º Regimento de Artilharia Montada, de Curitiba 5.º Grupo de Artilharia de Montanha, da Lapa Destacamento General Flores da Cunha 1.º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul 8.º Regimento de Cavalaria Independente, de Uruguaiana 5.º Grupo Independente de Artilharia a Cavalo, de Livramento Contingente Pires Destacamento Major Alexínio 13.º Batalhão de Caçadores, de Joinville Regimento de Cavalaria da Força Pública do Paraná Seção do 5.º Grupo de Artilharia de Montanha Destacamento Coronel Batista Luzardo 5.º Regimento de Cavalaria Independente, de Uruguaiana Batalhão Virgílio Viana, de São Borja 2.º Grupo Independente de Artilharia a Cavalo, de Uruguaiana

Corpo extra-numerário de engenheiros

Cenário geográfico miniaturadaimagem|Gargantas do Rio Itararé