François Claudius Koënigstein, mais conhecido como Ravachol (Saint-Chamond, 14 de outubro de 1859 – Montbrison, 11 de julho de 1892), foi um dos mais famosos anarquistas ilegalistas franceses, tornando-se a seu tempo o arquétipo do "anarquista lançador de bombas" através de suas ações diretas violentas contra a Terceira República Francesa.Uma biografia de Ravachol por Mitch Abidor Da perspectiva legalista, Ravachol entrou para história como um dos grandes terroristas do século XIX.

Biografia Primeiros anos Nascido em uma família pobre, Ravachol trabalhou desde os 8 anos, depois que o pai, Jean-Adam Koënigstein, um marinheiro holandês, abandonou a família, fazendo com que o jovem François Claudius adotasse o nome de solteira de sua mãe, Marie Ravachol, uma humilde costureira desempregada. Desde aquela época Ravachol teve que buscar maneiras para sustentar sua mãe, uma irmã e um irmão mais novos e, posteriormente, também um sobrinho. Para isso perambulava pela França atrás de trabalho pelo qual recebia quase nada.

Foi assistente de pintor, trabalhou em uma tinturaria e, como forma de incrementar a renda familiar, chegou a tocar acordeão aos domingos, nos salões sociais, em Saint-Étienne. No entanto, nenhuma dessas tarefas durava o tempo suficiente ou garantia o mínimo que sua família necessitava para a sobrevivência. Dotado de uma inteligência incomum, não demorou muito para que o jovem Ravachol passasse a relacionar sua miséria pessoal ao sistema capitalista. O escritor Paul Adam diria posteriormente, sobre o surgimento de Ravachol: Mais tarde Ravachol recordaria, em seu julgamento, o início de sua juventude, quando era compelido a furtar de camponeses pobres para garantir a sobrevivência de sua família.

Crimes Depois de anos de dificuldade, em uma época na qual a classe trabalhadora não contava com quaisquer direitos, Ravachol acabou por encontrar, no crime, sua principal estratégia de sobrevivência. Poucos revolucionários tiveram, entre suas ocupações prévias, a de ladrão de túmulos. Trabalhou como falsário (aplicando os conhecimentos de química adquiridos quando trabalho como diarista em uma tinturaria) e contrabandista. Mas Ravachol não era um criminoso comum, nem um anarquista comum.

Chamado no meio anarquista de "voz da dinamite", Ravachol se contrapunha à moralidade burguesa, tida por ele como uma forma de preconceito, sempre em desfavor aos pobres. Nesse sentido, não admitia limites para a ação revolucionária, considerando a propriedade e o Estado imorais e criminosos. Portanto justificava os atos aos quais recorrera, considerados repreensíveis por muitos, como forma de sobrevivência e apoio à causa anarquista.

Latrocínio a Rivollier Na noite de 29 de Março de 1886 Ravachol teria cometido os primeiros assassinatos, em um assalto nos arredores da vila de La Varizelle, próximo à St Chamond, na casa de um velho, chamado Rivollier que, como diziam boatos, guardava em sua casa uma quantia considerável acumulada.

Em La Varizelle, Ravachol, armado com uma machadinha, teria arrombado a casa, surpreendendo Rivollier em sua cama. Com um só golpe na cabeça, teria ferido mortalmente o senhor Rivollier sem que esse sequer se levantasse de sua cama. Uma serviçal que estava na casa fugira em desespero pela estrada, sendo supostamente perseguida e também morta por ele. Em seguida, Ravachol teria voltado para dentro da casa, e procurado desesperadamente por dinheiro, arrombando armários e gavetas, encontrando poucas coisas de valor.

Ao contrário de outros crimes e mesmo assassinatos, este nunca fora assumido por Ravachol, historiadores atuais consideram ser grande a possibilidade de que a autoria deste duplo assassinato tenha sido forjada e induzida pela polícia que precisava dar conta de um caso à anos sem solução, nem suspeitos reais. Em grande medida, o testemunho da companheira de Ravachol, Rulhière, seria posteriormente utilizado como evidência por ocasião do julgamento na Cour d'assises (tribunal para processos penais). Visivelmente transtornada durante as sessões, Rulhière testemunhou provavelmente sob a ameaça de mais torturas.Os Anarquistas, suas crenças e registros. Capítulo 6: O terror francês: Ravachol

Violação do túmulo da Baronesa de Rochetaillé Cinco anos depois, na noite de 14 de Maio de 1891 Ravachol violaria o túmulo da Baronesa de Rochetaillé no Cemitério de Saint Jean de Bonnefond, depois de dar ouvidos ao rumor que afirmava que a nobre teria sido enterrada com suas jóias. Após escalar o muro do cemitério, ergueu a pedra da tumba pesando 120 quilos e retirou um caixão de carvalho colocado no lugar por três cabos de ferro. Quebrando os selos, Ravachol encontrou apenas uma cruz de madeira e sacos de serragem junto ao corpo putrefato. Em um trecho do relato escrito pelo próprio punho:

Refletindo sobre este ato posteriormente Paul Adam escreveria:

Assassinato de Jacques Brunel thumb|left|Capa do jornal Le Progréss Ilustrê sobre o assassinato de Jacques Brunel.Buscando se afastar de Saint Chamond, outro dos famosos crimes de Ravachol aconteceria nas proximidades de uma vila chamada Chambles, onde morava um ancião chamado Jacques Brunel, conhecido localmente como "O Ermitão". Talvez motivado por votos religiosos, Brunel por mais de meio século habitara solitariamente uma cabana localizada num morro nas proximidades de Chambles, como os eremitas na Idade Média. Vivendo às custas da caridade, Brunel recebia sempre alimentos, roupas e dinheiro que lhe davam os habitantes da região, em troca afirmava que se lembraria deles no momento das suas orações. Gastando quase nada ou muito pouco em comida e abrigo, Ravachol considerou a possibilidade do velho talvez possuir muito dinheiro guardado.

Assim que chegou a Chambles, em 19 de Junho de 1891, Ravachol foi ao encontro de Brunel em sua cabana, encontrando o velho (de oitenta, ou noventa e dois anos de idade) deitado sobre uma cama miserável no canto da cabana. Segundo seu próprio depoimento Ravachol chegou e disse-lhe que lhe daria vinte francos para que rezasse por ele, se ele lhe desse em troca uma nota de cinquenta francos. Brunel respondeu que não possuía nada para dar em troca, e que estava prestes a se levantar, talvez por desconfiar de seu visitante. Ao se levantar, o velho foi agarrado. Ravachol rapidamente colocou um lenço em sua boca e depois em seu pescoço, finalmente o estrangulando. Após uma busca rápida pela cabana, Ravachol encontrou moedas e notas por todos os lados, em panelas e copos, sob a cama, nos armários e atrás deles. De acordo com o próprio Ravachol o valor total encontrado na cabana do Ermitão ultrapassava os quinze mil francos (mil e seiscentas libras esterlinas) entre moedas de cobre, prata e ouro.

Ravachol conseguira mais ouro e prata do que ele poderia carregar. Trancando a cabine saiu para almoçar em um café próximo à estação ferroviária. O atendente do estabelecimento diria depois em testemunho que Ravachol, faminto, comera uma omelete de seis ovos, peixes assados, um bife, bebendo muito vinho. Estando seu trabalho sem conclusão, voltou à cabana do eremita e se fechou dentro dela, empilhando o dinheiro que encontrara. Existia mais do que ele poderia convenientemente levar embora, então ele foi para casa em Saint Etienne e contou para sua companheira sobre seus feitos, e na manhã seguinte, tomando uma condução, ambos foram para Chambles.

Voltando à cabana, levaram consigo uma mala, onde empilharam todo o ouro e prata e diversos outros bens de valor que encontraram no lugar. Junto com Rulhière, ele partira, não para sua casa em Saint Chamond, mas para Saint Etienne ao encontro de amigos. No dia seguinte dividiram parte da quantia entre as famílias de trabalhadores e anarquistas presos ou executados. Poucas horas depois de Ravachol e Rulhière terem deixado Chambles, uma pessoa da localidade encontraria o eremita morto em sua cama, com cinquenta francos em moedas de bronze, jogados sobre o chão da cabana.

Primeira prisão e fuga No entanto, sem perceber, Ravachol havia sido visto em suas idas e vindas a Chambles, sendo procurado e detido por policiais, junto com sua companheira e dois outros homens — Pierre Crozet e Claude Fachard — com os quais havia deixado algumas das coisas roubadas da cabana de Brunel.

Por sorte ou ironia do destino, no momento em que estava sendo conduzido para a prisão pelos guardas, sua escolta deu de encontro com um homem alcoolizado que cambaleava em direção ao grupo, em meio à confusão Ravachol conseguiu escapar de seus captores. Rulhière, Fachard e Crozet não tiveram a mesma sorte, sendo presos e interrogados sob severas torturas. Posteriormente foram julgados e condenados respectivamente a penas de sete, cinco e um anos de prisão.

Após a fuga, Ravachol procurara por seus amigos, Jus-Beala e sua companheira Mariette Soubert, em Saint Etienne, encontrando refúgio na casa deste casal por algum tempo. Neste mesmo período outro duplo latrocínio aconteceria em Saint Etienne. Na noite de 27 de Julho, uma velha viúva e sua filha seriam mortas a golpes de martelo em um assalto a sua loja. Posteriormente, durante o julgamento de Ravachol, os promotores tentariam vincular tal crime a ele e a Jus-Beala, responsabilizando-os pelos assassinatos. Na versão da promotoria, Mariette Soubert teria por sua vez servido de olheira para o crime em frente à loja. No entanto, todas as provas se mostraram incongruentes. Jus-Beala e Soubert foram inocentados e, como o motivo do crime era claramente roubo e este acontecera a apenas cinco semanas após o assassinato em Chambles, Ravachol provavelmente não agiria com receio de atrair a atenção das autoridades, ainda mais quando teria ainda algum dinheiro roubado de Brunel.

Aproximação ao Anarquismo Pouco tempo depois, Beala, Mariette e Ravachol, o último assumindo o pseudônimo de Louis Leger, deixaram Saint Etienne em direção a Saint Denis, um subúrbio ao norte de Paris. Lá tiveram contato com diversas organizações anarquistas. Ravachol que aprendera a ler e escrever por conta própria e que, até então, se considerava ateu e socialista desde ler, aos 18 anos, "Le juif errant" de Eugène Sue, encontraria entre os empregados das fábricas e trabalhadores de Saint Denis, verdadeiros entusiastas dos ideais libertários. Em pouco tempo passaria a se considerar um anarquista, assumindo para a si a tarefa de combater o capitalismo e o Estado.

Entre as vertentes anarquistas da época Ravachol e Beala se identificaram prontamente com os ilegalistas defensores da Propaganda pelo Ato; anarquistas que não estavam interessados em organizar movimentos de massa para derrubada da ordem burguesa. Ao invés disso, acreditavam que junto com a recusa ao pagamento de impostos e à participação no serviço militar, o assassinato de representantes do capitalismo e do Estado, os piores inimigos dos trabalhadores, seria a forma mais adequada para alcançar um mundo melhor.

Atentados Motivações thumb|right|300px|Desenho de reconstituição do massacre de 1 de maio de 1891 no largo de Clichy. Em 1 de Maio de 1891, em Fourmies, uma manifestação realizada por trabalhadores e suas famílias em exigência de uma jornada laboral diária de oito horas acabou em um massacre. Pela primeira vez na França a recém-inventada metralhadora seria utilizada contra manifestantes desarmados, homens, mulheres e crianças, algumas carregando flores e folhas de palmeira. Catorze pessoas foram mortas e mais de quarenta acabaram gravemente feridas.Ravachol por Octave Mirbeu